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A Vida Secreta de Fidel – Juan Reinaldo Sanchez

O iate de Fidel Castro singrava o mar do Caribe. Tínhamos desatracado havia dez minutos e os golfinhos brancos já nos alcançavam sobre as ondas azul-petróleo da costa meridional de Cuba. Umbando de nove ou dez mamíferos patrulhava a estibordo, bem perto do casco; outro grupo de cetáceos seguia o sulco da embarcação, trinta metros a bombordo traseiro. Pareciam a escolta motorizada de um chefe de Estado em visita oficial… — Os substitutos chegaram; você pode ir descansar — eu disse a Gabriel Gallegos apontando para a miríade de nadadeiras dorsais que fendiam a superfície das águas a toda a velocidade. Meu colega achou graça na brincadeira. Mas três minutos depois os imprevisíveis animais mudaram de direção e se afastaram, desaparecendo no horizonte. — Mal chegaram e já se foram! Que falta de profissionalismo… — zombou Gabriel. Em matéria de profissionalismo, éramos especialistas. Fazia treze anos que tínhamos entrado para a Segurança Pessoal do comandante. No ano de 1977. Ora, em Cuba, não havia nada mais sério, rigoroso ou importante que a proteção do chefe de Estado. A mínima saída de Fidel ao mar, mesmo que para algumas horas de pescaria ou de caça submarina, mobilizava um dispositivo de defesa militar impressionante. Assim, o Aquarama II — nome do iate de Fidel Castro — era sistematicamente escoltado pela Pionera I e pela Pionera II, duas potentes lanchas de 55 pés (dezessete metros) quase idênticas, uma das quais completamente equipada para atender o comandante em caso de emergências médicas. Dez membros da guarda pessoal de Fidel, o corpo de elite do qual eu fazia parte, se dividiam nas três embarcações — em terra, nos dividíamos em três carros. Todos os barcos estavam equipados com metralhadoras pesadas e tinham estoques de granadas, fuzis Kalashnikov AK-47 e munições, prontos para qualquer eventualidade. Era verdade que, desde o início da Revolução Cubana, Fidel Castro vivia sob a ameaça de atentados: a CIA admitiu ter cogitado centenas, com veneno, canetas ou charutos sabotados… Nas proximidades, um pouco ao largo, um patrulheiro da guarda costeira também participava da operação: ele assegurava a vigilância por radar, marítima e aérea, do setor. A ordem: qualquer barco que se aproximasse a menos de três milhas náuticas do Aquarama II deveria ser interceptado. A aviação cubana também comparecia: na base aérea de Santa Clara, a uma centena de quilômetros, umpiloto de caça vestindo uniforme de combate ficava em estado de alerta máximo, pronto para saltar em seu MiG-29 de fabricação soviética, decolar em menos de dois minutos e alcançar o Aquarama II a uma velocidade supersônica. O dia estava bonito. Nada de surpreendente nisso: estávamos em pleno verão, no ano da graça de 1990, sob o 32 o ano do reinado de Fidel Alejandro Castro Ruz, que estava com 63 anos. O muro de Berlim tinha sido derrubado no outono anterior. O presidente americano George Bush se preparava para lançar a operação “Tempestade no Deserto”: a invasão ao Iraque de Saddam Hussein. Fidel Castro, enquanto isso, navegava rumo a sua ilha particular e ultrassecreta, Cayo Piedra, a bordo do único barco de luxo da República de Cuba, o seu. Era uma embarcação elegante com um casco branco de noventa pés (27,5 metros). Em operação desde o início dos anos 1970, tratava-se de uma réplica em escala maior do Aquarama I, um iate aristocrático confiscado de um simpatizante do regime de Fulgencio Batista — derrubado, como se sabe, em 1 o de janeiro de 1959 pela Revolução Cubana nascida dois anos e meio antes nas montanhas da Sierra Maestra com Fidel e mais sessenta “barbudos”.


Além de duas cabines duplas, sendo a de Fidel equipada com banheiro privativo, o barco dispunha de leitos para mais doze pessoas. As seis poltronas do salão principal podiam ser reclinadas. Dois catres serviam a sala de comunicação por rádio. E a cabine reservada à tripulação, na proa, tinha mais quatro deles. Como qualquer iate digno do nome, o Aquarama II oferecia todo o conforto moderno: ar-condicionado, dois chuveiros, banheiro, televisão, bar. Comparado aos brinquedinhos dos novos-ricos russos e sauditas que hoje cruzam as Antilhas ou o Mediterrâneo, o Aquarama II, apesar do lindo verniz e do toque vintage, poderia parecer ultrapassado. Mas nos anos 1970, 1980 e 1990, esse luxuoso barco inteiramente decorado commadeiras nobres importadas de Angola nada deixava a desejar àqueles que atracavam nas marinas das Bahamas ou de Saint-Tropez. Por sua potência, na verdade, era muito superior. Seus quatro motores, oferecidos por Leonid Brejnev a Fidel Castro, eram de fato idênticos aos dos patrulheiros da Marinha soviética. Com força total, propulsionavam o Aquarama II à velocidade fenomenal de 42 nós, ou seja, 78 quilômetros por hora! Era imbatível. Em Cuba, ninguém, ou quase ninguém, sabia da existência desse iate cujo porto de matrícula ficava numa enseada invisível e inacessível aos simples mortais, na costa oriental da famosa Baía dos Porcos, cerca de 150 quilômetros a sudeste de Havana. Desde os anos 1960 era ali, em plena zona militar, que se escondia a marina privada de Fidel. Área de vigilância máxima, o lugar, chamado La Caleta del Rosario, também abrigava uma de suas várias residências secundárias e, num prédio anexo, um pequeno museu pessoal dedicado aos troféus de pesca de Fidel. Partindo dessa marina, eram necessários 45 minutos para chegar a Cayo Piedra, a ilha paradisíaca do comandante. Fiz essa travessia centenas de vezes. Em todas elas ficava impressionado com o azul do céu, a transparência da água e a beleza do fundo marinho. Os golfinhos vinham nos saudar quase todas as vezes, nadavam ao nosso lado e depois sumiam de repente, sem avisar. Entre nós, a grande diversão era tentar ser o primeiro a avistá-los; alguém sempre acabava gritando: “Aquí están!”. Muitas vezes, também éramos seguidos, das costas cubanas até Cayo Piedra, por pelicanos. Eu gostava de acompanhar seu voo pesado e um pouco desajeitado. Para nós, membros da elite militar cubana, os 45 minutos de travessia eram um passatempo bem-vindo, pois a proteção de uma personalidade exigente como Fidel requeria nossa atenção constante e não possibilitava nenhum momento de descanso. Durante toda a viagem, el jefe (o chefe), como o chamávamos entre nós, geralmente ficava no salão principal. Era comum instalar-se na grande poltrona presidencial de couro negro, na qual nenhum outro ser humano jamais se sentou. No ambiente sossegado dessa sala de estar, com um copo de uísque Chivas Regal on the rocks na mão (sua bebida preferida), ele mergulhava nos relatórios dos serviços de informação, repassava o clipping da imprensa internacional preparado por seu gabinete, analisava a seleção de notícias das agências France-Presse, Associated Press e Reuters. El jefe também aproveitava para discutir os negócios correntes com José Naranjo, fiel assistente apelidado Pepín, que acompanhou todos os instantes de sua vida profissional até morrer de câncer em 1995.

* Dalia também estava presente, é claro. Mãe de cinco dos nove filhos de Fidel, Dalia Soto del Valle era a mulher com quem ele secretamente compartilhava a vida desde 1961… Mas cuja existência os cubanos só foram descobrir nos anos 2000! Por fim, havia o professor Eugenio Selman, médico pessoal de Fidel até 2010, que el comandante apreciava tanto pela competência quanto pela conversa política. A principal atribuição desse homem elegante, atencioso e unanimemente respeitado consistia, é claro, em velar pela saúde do chefe. Mas o médico pessoal de Fidel tambémcuidava de todos os que o cercavam. Era raro haver um convidado — empresário ou chefe de Estado — a bordo. Mas isso podia acontecer. El comandante o convidava então a acompanhá-lo ao convés superior, de onde podiam admirar a vista das costas cubanas, em especial a da Baía dos Porcos, de onde acabáramos de zarpar. À medida que o Aquarama II se afastava, Fidel, narrador sem igual, discorria in loco sobre as horas trágicas da invasão à célebre baía. Do convés da popa, nós o víamos lançar-se a complexas explicações, fazendo gestos amplos e apontando para os diferentes locais da região pantanosa infestada de mosquitos. O professor prodigalizava ao aluno do momento uma aula de história comvista para o palco dos acontecimentos. — Veja lá no fundo da baía, é Playa Larga! E ali, na entrada oriental da baía, é Playa Girón! Foi ali que exatamente à 1h15 do dia 17 de abril de 1961 o contingente de 1500 exilados cubanos dirigidos pela CIA desembarcou para tentar invadir a pátria, derrubar o governo e tomá-lo. Mas aqui ninguém se rende! E depois de três dias de uma heroica resistência popular, os invasores precisaram recuar para Playa Girón. E entregar as armas. Planejada sob Dwight Eisenhower e lançada no início do mandato de John F. Kennedy, a operação de fato foi um fiasco completo: 1200 membros da força expedicionária aprisionados e 118 mortos. Do lado castrista, 176 mortos e várias centenas de feridos. Para Washington, a humilhação foi total. Pela primeira vez na história, o “imperialismo americano” sofreu uma derrota militar incisiva, enquanto, no cenário internacional, Fidel Castro se impunha como o indiscutível líder do Terceiro Mundo. Aliado declarado da URSS, ele tratava com as grandes potências de igual para igual. No convés superior, banhado pelo sol, o convidado de Fidel ouvia com atenção aquele incontestável protagonista da História com H maiúsculo. Fascinado, tinha a impressão de reviver a batalha. Sem sombra de dúvida, guardaria para o resto da vida a lembrança das horas passadas no iate de Fidel Castro. A seguir, os dois homens voltavam para o salão, onde se encontravam com Dalia e o professor Eugenio Selman. Logo o capitão do Aquarama II reduzia a velocidade e a cor da água se tornava esmeralda: nos aproximávamos de Cayo Piedra. * Por ironia do destino, indiretamente Fidel Castro devia a descoberta daquele local de descanso à invasão ianque lançada por JFK.

Nos dias de abril de 1961 que se seguiram ao desembarque fracassado na Baía dos Porcos, Fidel explorou a região, onde encontrou um pescador local que todos chamavam el viejo Finalé. Ele pediu ao “velho Finalé” que lhe mostrasse os arredores. O pescador, de rosto seco como pergaminho, imediatamente o levou, a bordo de seu barco de pesca, até Cayo Piedra, uma pequena “joia” situada a quinze quilômetros da costa, conhecida apenas pelos moradores da região. Na época, um faroleiro vivia sozinho na ilha, como um eremita, encarregado da manutenção do farol. Fidel logo se apaixonou por aquele lugar de beleza selvagem, digno de Robinson Crusoé. O faroleiro foi convidado a se retirar da ilha, o farol foi desativado e depois desmontado. Em Cuba, a palavra cayo designa uma ilha plana e arenosa, quase sempre estreita e alongada. As costas cubanas têm milhares delas. Muitas são hoje frequentadas por turistas, praticantes de mergulho submarino. A de Fidel se estende por um quilômetro e meio, descrevendo um leve semicírculo de norte a sul. A leste, a costa rochosa dá diretamente para o mar e para as profundas águas azulpetróleo. A oeste, ao abrigo do vento, a costa se abre sobre a areia fina e o mar azul-turquesa. É um lugar paradisíaco cercado de fundos marinhos espetaculares. Tudo está quase tão intacto quanto na época das grandes descobertas dos exploradores europeus. Quem sabe um dia alguns piratas não tenham parado ali para descansar ou para enterrar um de seus tesouros? Para ser preciso, Cayo Piedra não designa uma ilha, mas duas: um dia, foi dividida pela passagemde um ciclone. Mas Fidel corrigiu o inconveniente: mandou construir uma ponte de 215 metros entre as duas metades de Cayo Piedra, recorrendo ao talento do arquiteto Osmany Cienfuegos, irmão do herói da revolução castrista Camilo Cienfuegos. A ilha Sul, ligeiramente maior que a outra, é a principal, onde o casal Castro construiu uma casa, no terreno do antigo farol. Era uma casa térrea, quadrangular, com um terraço a leste que se abria para o alto-mar. Muito funcional, essa casa de cimento não tinha nenhum luxo ostentatório. Além do quarto do casal Fidel e Dalia, contava com um quarto para as crianças, uma cozinha e uma sala, que dava para umterraço de frente para o mar cujo mobiliário de madeira era simples; nas paredes, a maioria dos quadros, desenhos ou fotos representava cenas de pesca ou da vida submarina. Das portas do terraço dessa unidade, à direita, via-se o heliporto. Um pouco adiante, a uma centena de metros, avistava-se a casa reservada a nós, os guarda-costas de Fidel. Na frente dela, elevava-se a construção que abrigava o resto do pessoal: cozinheiros, mecânicos, eletricistas, oficiais de rádio e uma dezena de soldados armados permanentemente acantonados em Cayo Piedra. Mais longe ainda ficavam o depósito de combustível, uma reserva de água doce (trazida de barco da terra firme) e uma minicentral elétrica. A oeste, de frente para o poente, os Castro tinham mandado construir um pequeno cais de sessenta metros de comprimento.

Ele ficava num nível mais baixo que o da casa, na pequena praia de areia fina que costeava o lado interior do cayo em forma de semicírculo. Para permitir a atracação do Aquarama e das lanchas Pionera I e II, Fidel e Dalia também tinham mandado abrir um canal de umquilômetro de comprimento, sem o qual a pequena frota não poderia se aproximar da ilha, cercada por altos bancos de areia, pois seu calado de 2,5 metros era grande demais. O atracadouro de sessenta metros constituía o epicentro da vida social em Cayo Piedra. Um píer flutuante de quinze metros fora-lhe acrescido, e sobre ele construíram um restaurante com bar e churrasqueira. Era ali que a família fazia a maioria das refeições… quando não eram servidas a bordo do iate. Desse bar-restaurante, era possível admirar o viveiro onde eram criadas, para a grande alegria de adultos e crianças, tartarugas marinhas (algumas chegavam a medir um metro e iamparar no prato de Fidel). Do outro lado do atracadouro, havia um golfinário que alegrava o cotidiano graças às brincadeiras e saltos dos dois golfinhos que ali viviam em cativeiro. A outra ilha, ao norte, era praticamente deserta: além de uma rampa de lançamento de mísseis antiaéreos abrigava apenas a casa de hóspedes. Maior que a do dono do complexo todo, esta contava com quatro quartos e uma grande sala de estar. Uma linha telefônica comunicava a casa dos hóspedes à casa de Fidel, que ficavam a quinhentos metros de distância uma da outra. Para fazer esse trajeto, usávamos um dos dois Fuscas conversíveis de Cayo Piedra. Um Jeep, de fabricação soviética, era utilizado para o transporte de equipamentos e mercadorias. A casa da ilha Norte dispunha de uma piscina de água doce ao ar livre, com 25 metros de comprimento, além de uma jacuzzi natural. Escavada na rocha, era abastecida de água do mar por uma espécie de aqueduto talhado na pedra por onde a água salgada penetrava a cada nova onda. A vida inteira Fidel repetiu que não possuía nenhum patrimônio além de uma modesta “cabana de pescador” em algum ponto da costa. A cabana de pescador, portanto, se transformou numa estação balnear de luxo que mobilizava uma logística considerável para sua segurança e manutenção. A ela devemos acrescentar mais duas dezenas de bens imobiliários, a começar por Punto Cero, sua imensa propriedade em Havana, perto do bairro das embaixadas; La Caleta del Rosario, que também abriga uma marina privada, na Baía dos Porcos; La Deseada, um chalé no coração da zona pantanosa da província de Pinar del Río, onde no inverno Fidel pratica a caça de patos e de aves aquáticas. Semmencionar as outras propriedades, em todas as províncias administrativas de Cuba, reservadas a seu uso exclusivo. Fidel Castro também insinuou, e às vezes afirmou, que a Revolução não lhe dava nenhuma trégua, nenhum descanso; que ele ignorava, ou até mesmo desprezava o conceito burguês de férias. Mentira. De 1977 a 1994, acompanhei-o centenas e centenas de vezes ao pequeno paraíso de Cayo Piedra. E participei de inúmeras pescarias e caçadas submarinas. Na boa estação, de junho a setembro, Fidel e Dalia iam para Cayo Piedra todos os finais de semana. Na estação das chuvas, em contrapartida, Fidel privilegiava La Deseada. Em agosto, os Castro se instalavam por um mês em sua ilha dos sonhos.

Quando um imperativo de trabalho ou a visita de uma personalidade estrangeira obrigava o “comandante da Revolução” a voltar a Havana, não havia problema: ele embarcava no helicóptero que ficava permanentemente estacionado em Cayo Piedra durante sua estada. E ele ia e voltava no mesmo dia, se preciso! É espantoso que, antes de mim, ninguém jamais tenha revelado ou descrito Cayo Piedra. Comexceção das imagens de satélite do Google Earth (onde vemos perfeitamente a casa de Fidel e a de hóspedes, o canal e a ponte entre as duas ilhas), não existe nenhuma imagem desse paraíso para milionários. Alguns podem se perguntar por que eu mesmo não fotografei o lugar. A resposta é simples: um tenente-coronel da segurança encarregado de proteger uma autoridade importante não anda por aí com uma máquina fotográfica a tiracolo, mas sim com uma pistola automática na cintura! Além disso, a única pessoa autorizada a imortalizar Cayo Piedra era o fotógrafo oficial de Fidel, Pablo Caballero. E ele, como seria de esperar, estava preocupado em imortalizar as atividades do comandante, e não a paisagem que o cercava. Por isso nunca foram divulgadas, que eu saiba, imagens de Cayo Piedra ou do Aquarama II. * Em Cuba, a vida privada do comandante é o segredo mais bem guardado da Revolução. Fidel Castro sempre se preocupou em ocultar as informações a respeito de sua família. De modo que muito pouco se sabe, há seis décadas, sobre a família Castro, que conta com sete irmãos e irmãs. Herança da época em que ele vivia na clandestinidade, a separação entre vida pública e vida privada chega a níveis inimagináveis. Nenhum irmão de Castro jamais foi convidado a conhecer Cayo Piedra. É possível que Raúl, de quem Fidel é mais próximo, tenha visitado o local em sua ausência. Pessoalmente, porém, nunca o vi na ilha. Com exceção do círculo familiar mais íntimo, isto é, Dalia e os cinco filhos que ela teve comFidel Castro, raros, raríssimos são aqueles que podem se orgulhar de ter visto a ilha misteriosa comos próprios olhos. Fidelito, o filho mais velho de Fidel, de um primeiro casamento, esteve lá menos de cinco vezes. E Alina, sua única filha, fruto de um relacionamento extraconjugal, que vive hoje em Miami, na Flórida, nunca pôs os pés na ilha… De minha parte, exceto alguns empresários estrangeiros cujo nome esqueci e alguns ministros cubanos escolhidos a dedo, lembro-me de ter visto na ilha somente o presidente colombiano Alfonso López Michelsen (1974-8), que passou um fim de semana com a mulher Cécilia por volta de 1977-8; o empresário francês Gérard Bourgoin, o chamado “rei do frango”, em visita por volta de 1990, época em que o CEO exportava sua experiência como produtor de aves para o mundo inteiro; o proprietário da CNN Ted Turner; a apresentadora e superestrela da rede de televisão americana ABC Barbara Walters; e Erich Honecker, dirigente comunista da República Democrática Alemã ( RDA) entre 1976 e 1989, um dos principais aliados de Cuba na época. Nunca esquecerei a visita de 24 horas deste último a Cayo Piedra, em 1980. É preciso saber que oito anos antes, em 1972, Fidel Castro havia rebatizado a ilha Cayo Blanco del Sur de “Ilha Ernst Thälmann”. Ou melhor: num impulso de amizade simbólica entre “países irmãos”, ele havia oferecido à RDA aquele pedaço de terra desabitada, de quinze quilômetros de comprimento e quinhentos metros de largura, localizado a uma hora de navegação de sua ilha privada. Quem foi Ernst Thälmann? Um célebre dirigente do Partido Comunista alemão sob a República de Weimar, posteriormente fuzilado pelos nazistas, em 1944. Em 1980, portanto, durante uma visita oficial de Honecker a Cuba, o representante de Berlim Oriental ofereceu um busto de Thälmann a Fidel. Seguindo a lógica, este decidiu colocar a obra de arte na ilha de mesmo nome. E foi assim que assisti à cena surreal em que dois chefes de Estado, a bordo do Aquarama II, desembarcaram no meio de lugar nenhum para inaugurar a estátua de um personagem esquecido numa ilha perdida, tendo como únicas testemunhas as iguanas e os pelicanos. A notícia mais recente a respeito conta que o imenso busto de Thälmann, de dois metros de altura, foi derrubado de seu pedestal pela passagem do furacão Mitch, em 1998… Na verdade, os dois únicos frequentadores de Cayo Piedra externos à família foram Gabriel García Márquez e Antonio Núñez Jiménez.

Como se sabe, o primeiro, que passou uma boa parte da vida em Cuba, foi sem dúvida o maior escritor colombiano, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1982. O segundo, morto em 1998, foi um personagem importante da Revolução Cubana, da qual participou como capitão e em lembrança da qual sempre manteve uma barba espessa. Figura intelectual respeitada, antropólogo e geógrafo, ele também pertencia ao restrito círculo dos verdadeiros amigos de Fidel. Os dois foram os principais usuários da casa de hóspedes de Cayo Piedra. * Em Cayo Piedra, o luxo não é calculado por metros quadrados de área útil, nem pelo número de iates atracados. O tesouro da ilha é seu espetacular fundo marinho. Totalmente afastadas do turismo e da pesca, as águas que se estendem à frente da ilha constituem um santuário ecológico incomparável. Fidel Castro dispõe, à entrada de sua casa, de um aquário pessoal com área superior a duzentos metros quadrados! Um campo de esportes submarinos ignorado pelos milhões de cubanos e pelos milhões de turistas que todo ano praticam mergulho ao redor dos cayos administrados pelo Ministério do Turismo. Com exceção do famoso comandante francês Jacques-Yves Cousteau, em missão a bordo do Calypso e com autorização expressa de Fidel Castro, nenhuma outra pessoa jamais pôde apreciar a incrível riqueza animal e vegetal de que ele usufrui. Peixe-lua, peixe-esquilo, peixe-gato, peixeborboleta, peixe-cofre, peixe-flauta, peixe-trombeta, hamlet, cardeal, cirurgião-listrado, olho-de-cão, atum, pargo, lagosta: todas as variedades imagináveis de peixes amarelos, laranjas, azuis ou verdes nadam entre maciços de corais vermelhos ou brancos e algas verdes, pretas e vermelhas. Golfinhos, tubarões-tigre, tubarões-martelo, espadartes, barracudas e tartarugas completam o quadro de fadas desse mundo silencioso. Fidel Castro era um excelente mergulhador. Posso avaliar isso muito bem, pois ao longo de todos os anos que passei a seu serviço, fui encarregado de auxiliá-lo embaixo d’água durante suas caçadas submarinas. Especialmente para protegê-lo de ataques de tubarões, barracudas e espadartes. Mais do que qualquer outra incumbência sob minha responsabilidade — como organizar sua agenda ou sua segurança durante viagens ao exterior —, tenho certeza de que essa função aquática foi a que mais despertou inveja. Para a escolta de Fidel, não existia privilégio maior que o de acompanhá-lo emseus passeios submarinos. E comigo eles foram numerosos! Pois por mais que ele gostasse de basquete ou da caça de patos, o mergulho submarino era sua verdadeira paixão. Dotado de uma impressionante capacidade torácica, Fidel (1,91 metro, 95 quilos) era capaz de mergulhar em apneia a dez metros de profundidade sem a menor dificuldade. Mas ele também tinha uma forma peculiar de praticar a caça submarina. A única maneira de descrevê-la seria compará-la às caçadas reais de Luís XV nas matas ao redor de Versailles. Antes do nascer do sol, enquanto o soberano ainda dormia, uma equipe de pescadores, guiada pelo “velho Finalé”, partia em missão de reconhecimento. Seu objetivo: identificar os locais ricos em peixes para antecipar as expectativas do monarca. Ao amanhecer, a equipe voltava a Cayo Piedra. Ali, aguardava o despertar do rei, que raramente dormia antes das três horas da manhã. Então, o “velho Finalé” se apresentava para o relatório diário.

— Então, o que temos para hoje? — perguntava Fidel antes de subir a bordo do Aquarama II. — Comandante, hoje não faltarão os bonitos e dourados. E, se tivermos sorte, as lagostas tambémcomparecerão. O Aquarama II era aparelhado. A bordo, agilizavam-se os preparativos: máscara e snorkel eram providenciados enquanto Fidel sentava de pernas abertas. Alguém se ajoelhava à sua frente para vestir-lhe os pés de pato e as luvas. Depois de equipado, eu era o primeiro a descer pela escada, seguido por el comandante. Embaixo d’água, eu nadava a seu lado ou acima dele. Meu instrumento de trabalho era um fuzil de ar comprimido que lançava flechas de ponta redonda, que ricocheteavamno alvo. Elas serviam para dar “socos” na cabeça de tubarões ou barracudas e afugentar os que se aproximassem perigosamente de Fidel. Mas eu também levava o fuzil de pesca do chefe, já que ele não aguentaria seu peso. Quando Fidel avistava uma presa e decidia usá-lo, estendia o braço em minha direção sem olhar para mim. Eu sabia o que devia fazer: colocar a arma engatilhada em sua mão. Fidel disparava o arpão e imediatamente me devolvia o fuzil. Dependendo de se acertara ou errara o alvo, eu recarregava a arma ou voltava à superfície para depositar a caça no bote acima de nós. Quando ele ficava cansado, voltávamos a Cayo Piedra. Ao chegarmos, o ritual era sempre o mesmo. As (inúmeras) presas de Fidel eram alinhadas no atracadouro e triadas por espécie: os pargos com os pargos, os dourados com os dourados, as lagostas com as lagostas etc. Os peixes de Dalia, que caçava em separado sob a proteção de dois mergulhadores, eram dispostos ao lado. Fidel e ela davam uma olhada no futuro banquete sob os comentários elogiosos e alegres do séquito. — Comandante, es una otra pesca milagrosa! — eu dizia com a certeza de obter um sorriso do principal interessado e de todos os presentes. Depois, quando as brasas da churrasqueira já estavam incandescentes, Fidel indicava os peixes que queria grelhar ali mesmo, e os que, magnânimo, oferecia à guarnição, bem como os peixes que levaria para Havana em caixas de gelo para consumir dentro de 48 horas. Então os Castro passavamà mesa. À sombra do restaurante flutuante. Comparada ao modo de vida dos cubanos, essa dolce vita representa um privilégio absurdo.

Principalmente porque depois da queda do muro de Berlim e do colapso soviético, as condições de vida em Cuba, já espartanas, pioraram muito. As subvenções de Moscou, que possibilitavam certo nível de prosperidade, cessaram. A economia cubana, que realizava cerca de 80% de seu comércio exterior com o bloco do Leste, desmoronou como um castelo de cartas. Os lares viviam momentos de penúria. O PIB diminuiu 35% e o abastecimento de eletricidade se tornou insuficiente. Em 1992, a fimde enfrentar uma queda brutal das exportações e importações, Fidel decretou o começo do “período especial em tempos de paz”, que oficializou a era das privações e deu início à do turismo internacional em massa. * Até a virada dos anos 1990, eu nunca tinha me questionado muito sobre o funcionamento do sistema. É o defeito dos militares… Como bom soldado, cumpria minha missão da melhor forma possível e aquilo me bastava. Além disso, os serviços que prestava eram impecáveis. Faixa preta em judô, faixa preta em caratê, faixa preta em tae kwon do, eu também era um dos melhores atiradores de elite de Cuba. Em 1992, fui campeão de tiro de precisão em Cuba, em alvos fixos ou móveis a 25 metros de distância, durante um concurso de dois dias organizado pelo Ministério do Interior. Fui inclusive agraciado com o título honorário de expert, nunca concedido a alguém antes de mim. Paralelamente, tinha me formado em direito e galgado todos os escalões da hierarquia até o posto de tenente-coronel. As responsabilidades confiadas a mim se tornavam cada vez mais importantes, como a de gerenciar o dispositivo de segurança dos deslocamentos internacionais do chefe de Estado. O próprio Fidel estava satisfeito comigo. Mais de uma vez, durante essas viagens ao exterior, ouvi-o dizer ao descer do avião: “Ah, Sánchez está aqui! Então tudo está em ordem…”. Profissionalmente, posso dizer que eu era bem-sucedido. Socialmente também, aliás: em Cuba, não existia trabalho mais prestigioso nem mais invejado que o de dedicar a vida à proteção física do líder máximo. No entanto, foi nessa época que o edifício de minhas convicções começou a ruir. Devo lembrar que, na memória coletiva dos cubanos, o ano de 1989 corresponde menos à queda do muro de Berlime mais ao “caso Ochoa”. Essa espécie de “caso Dreyfus do castrismo” ficará como uma mancha indelével na história da Revolução Cubana. Após um processo stalinista televisionado, ainda vivo nas nossas memórias, usaramArnaldo Ochoa, herói da nação e general mais respeitado da ilha, para dar exemplo e o condenaram e fuzilaram por tráfico de drogas ao lado de três outros membros da mais alta hierarquia militar. Ora, pertencendo ao círculo mais íntimo do poder, eu sabia muito bem que esse tráfico, destinado a arrecadar divisas para financiar a Revolução, tinha sido organizado como aval do comandante, que portanto estava diretamente ligado ao “caso”. Para melhor se proteger, Fidel Castro não hesitara em sacrificar o mais valoroso e fiel de seus generais, Arnaldo Ochoa, herói da Baía dos Porcos, da Revolução Sandinista na Nicarágua e da guerra contra a África do Sul emAngola. Fui compreender um pouco tarde demais que Fidel utilizava as pessoas enquanto elas lhes fossemúteis, e que depois as jogava no lixo sem o menor escrúpulo.

Em 1994, decepcionado com tudo o que tinha visto, ouvido e vivido, decidi me aposentar. Nada além disso: simplesmente me aposentar com dois anos de antecedência, sair tranquilamente de cena — permanecendo fiel ao juramento que consistia em manter secretas todas as informações às quais havia tido acesso ao longo dos dezessete anos passados na intimidade do líder máximo. Por esse crime de traição — ousar renunciar ao serviço do comandante da Revolução —, jogaram-me na prisão como um cão, numa cela infestada de baratas. Fui torturado. Tentaram inclusive me eliminar. Em certo momento, pensei que desistiria. Mas sou teimoso. Durante minha prisão, de 1994 a 1996, jurei para mim mesmo que, no dia em que conseguisse fugir de Cuba (o que aconteceu em 2008, depois de dez tentativas infrutíferas), começaria a escrever um livro para contar o que sabia, o que tinha visto, o que tinha ouvido. Para falar sobre o “verdadeiro” Fidel Castro como ninguém nunca ousou fazer. A partir de dentro. * Sendo então substituído por Carlos Lage, que mais tarde se tornou vice-presidente do Conselho de Ministros e do Conselho de Estado, antes de ser destituído em 2009. 2 Eu, Juan Sánchez, guarda-costas de Fidel Desde que me conheço por gente, sempre fui apaixonado por armas de fogo. Não foi um acaso completo o fato de eu ter vencido, no auge de minha carreira, em 1992, aquele concurso de melhor atirador de pistola de Cuba, que reuniu a nata dos praticantes da disciplina. Aos seis anos, ganhei de presente meu primeiro conjunto completo de caubói, com um revólver magnífico de espoleta, na cor prata. Nos anos seguintes, ganhava regularmente fantasias novas e, em especial, novos revólveres. Assim, passei a infância acabando com a força de índios imaginários e bandidos temíveis. Mas emvez de brincar de “Bang! Bang! Morreu!”, eu levava minha missão muito a sério, esforçando-me para dar tiros certeiros em meus alvos móveis, com o braço estendido e o olho na mira. Adolescente, passei para as carabinas de ar comprimido, que atiravam chumbinhos, ideais para acertar alvos a dez metros de distância. Foi por isso que, mais tarde, me tornei o gatilho mais rápido da escolta de Fidel! Hoje, passados os meus sessenta anos, treino pelo menos uma vez por semana num clube de tiro na Flórida (Estados Unidos), onde moro exilado desde 2008. E, é claro, nunca saio de casa sem minha arma: se os agentes cubanos, numerosos na Flórida, quiserem me calar, meu comitê de boas-vindas está sempre a postos! Mas voltemos à infância… * Nasci em 31 de janeiro de 1949, em Lisa, um bairro pobre da região oeste de Havana, quase exatos dez anos antes do Triunfo da Revolução castrista. Quando fiz dois anos, meu pai, que trabalhava num aviário, se separou de minha mãe, que era faxineira. Como ela era pobre demais para me criar sozinha e meu pai não se via assumindo a tarefa em seu lugar, decidiram me confiar a meu tio e a minha avó do lado paterno, que viviam juntos. Em Cuba, esse tipo de arranjo nada tem de incomum: como nas Antilhas, a família é uma entidade de geometria variável. Minha avó me tinha como a razão de sua vida: considerava-me um filho. E meu tio, que eu chamava de “papai”, logo se transformou num pai substituto.

Com minha mãe, que vivia no bairro, os laços não foram cortados: eu a via de tempos em tempos. Por outro lado, não me faltava nada, pois meu tio gozava de uma boa situação financeira. Contador-chefe nos grandes abatedouros de Havana, ele era o feliz proprietário de um Buick branco modelo 1955 dotado de — modernidade inaudita! —um sistema de ar-condicionado. Nos finais de semana, passeávamos a bordo de seu fabuloso carro, às vezes até Varadero, a célebre estação balnear situada a 150 quilômetros da capital. Eram os anos 1950. A era de ouro de Cuba. E, acima de tudo, a era de ouro da música cubana: rumba, mambo, chá-chá-chá. As estrelas da época se chamavam Benny Moré, Orlando Vallejo, Celia Cruz, e se apresentavam em nightclubs da moda (o Tropicana, o Montmartre), em hotéis prestigiosos (o Nacional, o Riviera), ou ainda em cassinos mantidos por Lucky Luciano ou por outros mafiosos ítalo-americanos. Economicamente falando, também era uma época abençoada — mas não nos dávamos conta disso. Claramente mais rica que a Espanha do general Franco, Cuba produzia açúcar, bananas, níquel: era um dos países mais modernos da América Latina. Os números da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico o provam: ao lado da Venezuela, produtora de petróleo, e da Argentina, exportadora de carne, Cuba era um dos três Estados da região com a menor desigualdade e a melhor classificação em termos de desenvolvimento humano (alfabetização, expectativa de vida etc.). A prosperidade da classe média se refletia no número de carros “made in USA”, pelo boomeletrodoméstico (televisores, refrigeradores etc.), pela frequência em restaurantes e pequenos comércios que estavam sempre cheios. Havana vivia um clima de sociedade de consumo. No Natal, as prateleiras dos mercados ofereciam maçãs e peras importadas da Europa. Na capital, onde os chamativos neons das discotecas brilhavam à noite, ninguém desconfiava das dificuldades do mundo rural. Lá, os camponeses iletrados eram explorados por multinacionais americanas como a United Fruit Company. Mas quem pensava nas desigualdades sociais, além de um punhado de estudantes idealistas que já sonhavam com uma revolução? Politicamente, foi uma década conturbada, onde se mesclavam efervescência política, corrupção e agitação estudantil. Uma mistura bombástica. Em agosto de 1951, o líder do Partido Ortodoxo, Eduardo Chibás, grande polemista e principal figura da vida política, se suicidou ao vivo na rádio depois de seu enésimo discurso sobre a corrupção e o gangsterismo ascendentes dos governos Ramón Grau e Carlos Prío. Foi um choque geral. No ano seguinte, em 1952, Fulgencio Batista voltou ao poder com um golpe de Estado, um mês antes das eleições previstas para março, que ele semdúvida perderia. * Um ano se passou e, em 26 de julho de 1953, um jovem advogado chamado Fidel Castro, de quem já se ouvia falar nas manifestações estudantis, entrou em cena de forma espetacular, desencadeando um assalto armado contra a caserna de Moncada, em Santiago de Cuba, no leste do país. Os conjurados foram quase todos mortos, presos ou executados durante a ação.

O fracasso foi estrondoso. Detido, julgado e preso, Fidel Castro foi anistiado dois anos depois. A história estava apenas começando: ele se exilou no México, onde seu irmão Raúl o apresentou a um argentino chamado Ernesto Guevara, que todos chamavam de “Che”. Depois de alguns meses de preparativos, um grupo de 82 homens guiados por Fidel desembarcou na costa meridional de Cuba a bordo do Granma, um iate de segunda mão. Ali, os guerrilheiros entraram para a clandestinidade. Em 1956, lá estava Fidel Castro na Sierra Maestra liderando uma guerrilha, o Movimento de 26 de Julho, ou “M26”, assim chamado em referência à data do ataque a Moncada. Em 1958, a história se acelerou: Washington retirou seu apoio ao regime corrupto de Batista, cada vez mais desacreditado. No mesmo ano, em fevereiro, o M-26 realizou uma de suas proezas mais memoráveis: dois homens mascarados entraram no hotel Lincoln, em Havana, e sequestraram um de seus “clientes VIP”: o piloto de corrida automobilística argentino Juan Manuel Fangio. Foi uma comoção geral! A polícia instalou barreiras e checkpoints por toda parte, mas não conseguia encontrar Fangio. Seus sequestradores o haviam instalado numa confortável casa de Havana, onde tentaram tornar o esportista receptivo a seu programa revolucionário. Tiveram um sucesso moderado: o piloto argentino era desesperadamente… apolítico. No entanto, bem tratado pelos jovens rebeldes e libertado depois de 29 horas de detenção, teve tempo de fazer amizade comaqueles idealistas. O “golpe de marketing” dos homens de Fidel foi um sucesso estrondoso. Eles se tornaram o assunto do momento. E mancharam um pouco mais a imagem do regime ao atrapalhar o GP de Cuba, que deveria ser uma festa. A vitória foi psicológica, mas incontestável: a partir do “caso Fangio”, cada vez mais cubanos começaram a perceber que o poder de Batista enfraquecia. Dez meses depois, ele cairia como uma fruta podre. No dia 1 o de janeiro de 1959, com os termômetros marcando 32 graus na sombra, o ditador fugiu para Portugal, e a população em júbilo tomou as ruas da capital. A multidão cantou, dançou e gritou “Viva la revolución!”. As ruas foram embandeiradas com o vermelho e o preto do M-26. Fidel, com um senso ímpar de suspense, se fez esperar por oito dias! Só depois fez sua entrada triunfal em Havana, à maneira de um imperador romano. Ao longo de uma semana, ele e seus barbudos percorreram mil quilômetros do país, de leste a oeste. Onde quer que passassem, eram aclamados como heróis. Em 8 de janeiro, a legião de guerrilheiros finalmente chegou à capital. Fidel desfilou em pé num Jeep.

Parecia César montado numa biga. Assisti ao acontecimento de camarote: a sacada do apartamento de meu pai biológico, numprimeiro andar da avenida Vía Blanca, se abria diretamente para a História. Naquele dia, vimos “emcarne e osso”, pela primeira vez, os rostos daqueles semideuses chamados Fidel Castro, Che Guevara, Camilo Cienfuegos, Huber Matos, Raúl Castro. Eles eram jovens, desenvoltos, carismáticos, bonitos: verdadeiros latin lovers.

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