| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

A Vida Sexual de Catherine M. – Catherine Millet

Quando criança, eu era muito preocupada com os números. A lembrança que guardamos dos pensamentos ou das ações solitárias é muito clara: são as primeiras chances dadas à consciência de se mostrar a si mesma. Os acontecimentos compartilhados, por outro lado, permanecem presos à incerteza dos sentimentos que os outros nos inspiram (admiração, medo, amor ou aversão) e que, quando crianças, somos ainda menos aptos a enfrentar e mesmo compreender do que na idade adulta. Lembro-me, então, particularmente dos pensamentos que, toda noite antes de adormecer, me aliciavam para uma escrupulosa ocupação de contagem. Pouco tempo depois do nascimento de meu irmão (eu tinha então três anos e meio), minha família mudou-se para um novo apartamento. Durante os primeiros anos em que moramos lá, minha cama ficava no cômodo maior, diante da porta. Olhando fixamente para a luz que vinha da cozinha, do outro lado do corredor, onde minha mãe e minha avó ainda trabalhavam, eu não conseguia conciliar o sono enquanto não tivesse considerado, em seqüência, várias questões. Uma delas dizia respeito ao fato de alguém ter muitos maridos. Não pensava sobre a possibilidade de que tal situação existisse, o que me parecia óbvio, mas, evidentemente, sobre suas condições. Uma mulher poderia ter muitos maridos ao mesmo tempo ou apenas um depois do outro? Neste caso, quanto tempo deveria ficar casada com um antes de poder trocar por outro? Quantos maridos ela “razoavelmente” poderia ter: alguns, cinco ou seis, ou um número muito maior, ilimitado? Como eu agiria quando crescesse? Com o passar dos anos, a contagem de maridos foi substituída pela contagem de filhos. Acho que me sentia menos vulnerável à incerteza quando fixava meus devaneios nos traços de um homem identificado (atores de cinema, um primo alemão etc.), com quem me encontrava sob o signo da sedução. Imaginava assim, de maneira mais concreta, minha vida de mulher casada e, portanto, a presença de crianças. Colocavam-se novamente as mesmas perguntas: seis era um número razoável ou se poderia ter mais? Que diferença de idade poderia haver entre eles? Acrescentava-se a divisão entre meninas e meninos. Não posso rememorar esses pensamentos sem ligá-los a outras obsessões que também me ocupavam. Na relação que eu tinha estabelecido com Deus, todas as noites ocupava-me com Sua alimentação e com a enumeração dos pratos e dos copos d’água que eu, em pensamento, Lhe servia — preocupada com a quantidade certa, com o ritmo da transmissão etc. Esta obsessão se alternava com as interrogações sobre o preenchimento de minha vida futura com maridos e filhos. Eu era muito religiosa, e é possível que a confusão na qual eu percebia a identidade de Deus e de Seu filho tenha favorecido minha inclinação pela atividade de contagem. Deus era a voz soante que, sem mostrar o rosto, lembrava a ordem aos homens. Mas tinham me ensinado que Ele era também o boneco de gesso rosa que eu colocava todo ano no presépio, o infeliz pregado na cruz diante do qual rezávamos — apesar de um e outro serem também Seu filho —, da mesma maneira que uma espécie de fantasma se chamava Espírito Santo. Enfim, eu sabia muito bem que José era o marido da Virgem e que Jesus, sendo Deus e filho de Deus, O chamava de “Pai”. A Virgem era não apenas a mãe de Deus, mas dizia-se também Sua filha. Um dia, quando cheguei à idade de freqüentar o catecismo, quis ter uma conversa com um padre. Meu problema era o seguinte: eu queria me tornar religiosa, “casar com Deus” e ser missionária numa Africa onde pululavam povos desprovidos, mas desejava também ter maridos e filhos. O padre era um homem lacônico, e interrompeu a conversa, julgando minha preocupação prematura.


Até que nascesse a idéia deste livro, nunca havia pensado muito sobre minha sexualidade. Tinha, no entanto, consciência das múltiplas relações precoces que vivi, o que é pouco costumeiro, sobretudo para meninas, pelo menos no meio em que cresci. Deixei de ser virgem aos dezoito anos — que não é especialmente cedo —, mas participei de uma suruba pela primeira vez nas semanas que se seguirama minha defloração. Evidentemente, não tomei a iniciativa da situação, mas fui eu quem a precipitou, o que aos meus próprios olhos permanece um fato inexplicado. Sempre considerei que as circunstâncias puseram em meu caminho homens que gostavam de transar em grupo ou de observar sua parceira com outros homens. A única idéia que eu tinha a esse respeito era que, sendo naturalmente aberta às experiências e não vendo nelas nenhum entrave moral, tinha, de boa vontade, me adaptado a elas. Mas delas nunca fiz nenhuma teoria e, portanto, nenhuma militância. Éramos três rapazes e duas moças e acabávamos de jantar no jardim de uma casa, situada numa colina acima de Lyon. Eu viera de Paris visitar um rapaz que tinha conhecido em Londres um pouco antes, e aproveitara a carona do namorado de uma amiga, André, que era de Lyon. Na estrada, pedi que parasse para eu fazer xixi. Quando estava agachada, ele veio observar e me acariciar. Não foi desagradável, mas fiquei um pouco envergonhada. Foi, talvez, naquele momento que aprendi a me livrar deste tipo de embaraço mergulhando meu rosto entre as pernas do homem, pegando seu pau com a boca. Chegando a Lyon, André e eu nos instalamos na casa de uns amigos dele, Ringo e uma mulher mais velha, que era a dona da casa. Como ela estava fora, os rapazes aproveitaram para fazer uma festa. Chegou outro rapaz, acompanhado de uma moça, alta, de cabelos muito curtos e grossos, um pouco masculina. Era junho ou julho, fazia calor e alguém sugeriu que tirássemos a roupa e mergulhássemos juntos numa grande fonte que ficava no jardim. Eu já passava a camiseta pela cabeça quando escutei a voz de André, um pouco abafada, exclamando que sua “namorada” não seria a última a mergulhar. Há muito tempo não usava mais roupas de baixo (apesar de minha mãe ter me obrigado a usar, desde os treze ou quatorze anos, sutiã e cinta-liga com o pretexto de que uma mulher “devia ter postura”). O fato é que, imediatamente, fiquei quase nua. A outra moça começou também a tirar a roupa e, é claro, ninguém entrou na água. O jardim era devassado e, por essa razão, as imagens que lembro em seguida são as do quarto, eu na concavidade de uma cama alta de ferro forjado vendo, através das barras, apenas as paredes muito ilumina das, imaginando a outra moça estirada sobre um divã num canto. André foi o primeiro a me comer, demorada e tranqüílamente como costumava fazer. Em seguida, interrompeu bruscamente. Uma inefável inquietação tomou conta de mim, no tempo justo de vê-lo afastarse, andando lentamente, os quadris curvados, em direção a outra moça.

Ringo veio substitui-lo em cima de mim, enquanto o terceiro rapaz, que era mais reservado e falava menos que os outros, acotovelado perto de nós, passava a mão livre sobre a parte superior do meu corpo. O corpo de Ringo era muito diferente do de André, e eu gostava mais dele. Ringo era maior, mais nervoso, era desses que separam o movimento da bacia do resto do corpo, que metem sem se deitar totalmente, o tronco sustentado pelos braços. Mas André me parecia um homem mais maduro (de fato, mais velho, ele tinha lutado na Argélia), sua carne era um pouco mais flácida e seus cabelos já um pouco ralos, e eu achava agradável adormecer enroscada nele, com as nádegas coladas em sua barriga, dizendo-lhe que eu tinha as medidas certas para aquilo. Ringo se retirou e o rapaz, que antes apenas observava e me acariciava, tomou o lugar dele. Eu estava há algum tempo com uma terrível vontade de urinar. Tive de ir ao banheiro e o rapaz tímido ficou desapontado. Quando voltei, ele estava com a outra menina. André ou Ringo, já não lembro mais, teve o cuidado de me dizer que ele tinha ido apenas “finalizar com ela”. Fiquei cerca de duas semanas em Lyon. Meus amigos trabalhavam durante o dia e eu passava as tardes com o estudante que havia conhecido em Londres. Quando seus pais estavam ausentes, deitava-me em sua cama e ele sobre mim, muito atenta para não acabar batendo com a cabeça na estante que circundava a cama. Eu não tinha ainda muita experiência, mas percebia que ele era ainda mais desajeitado do que eu pela maneira como deslizava furtivamente seu sexo ainda flácido e pouco úmido em minha vagina, e pela forma como logo afundava o rosto em meu pescoço. Ele devia estar seriamente intrigado com o que deveriam ser as sensações de uma mulher quando me perguntou se o esperma quando lançado nas paredes da vagina proporcionava algum tipo de prazer específico. Fiquei desconcertada. Se eu mal sentia a penetração, como poderia sentir uma pequena gosma viscosa se espalhando dentro de mim! “É mesmo curioso, nenhuma sensação a mais?” “Não, nenhuma.” Ele estava mais preocupado do que eu. No final da tarde, o pequeno grupo de amigos vinha me esperar no cais onde a rua desembocava. Eles eram alegres e, um dia, observando-os, o pai do estudante afirmou de uma maneira simpática que eu devia ser uma puta de uma garota para ter todos aqueles rapazes à minha disposição. Para falar a verdade, eu não fazia mais contas. Tinha esquecido completamente minhas interrogações infantis sobre o número permitido de maridos. Eu não era mais uma “colecionadora”, e os rapazes e as moças que eu via flertando nas festassurpresas (quer dizer, se amassando e beijando até perder o fôlego) com o maior número de pessoas para, no dia seguinte, contar vantagem na escola, me chocavam. Contentava-me em descobrir que este desfalecimento voluptuoso, experimentado no contato com a inefável doçura de todos os lábios estranhos ou quando uma mão se colava em meu púbis, podia se renovar infinitamente, pois confirmava-se que o mundo estava cheio de homens dispostos a isto. O resto me era indiferente. Pouco tempo antes de tudo isso, eu quase tinha sido deflorada por um rapaz que me provocara uma forte impressão, ele tinha o rosto um pouco flácido, lábios imensos e cabelos negríssimos.

Enfiando sua mão sob meu pulôver, ele percorreu uma superfície extensa do meu corpo, ao mesmo tempo que esticava a borda da calcinha até quase me cortar a virilha. Assim foi a primeira vez que me senti tomada pelo prazer. Ele ainda me perguntou se eu “queria mais”. Eu não tinha nenhuma idéia do que ele estava querendo dizer, mas eu disse que não, porque não imaginava o que podia acontecer além daquilo. Aliás, interrompi a experiência e, apesar de nos reencontrar-mos regularmente nas férias, não pensei em repeti-la. Não estava também muito preocupada em sair com alguém, nem com alguns. Por duas vezes, estive apaixonada por homens com quem as relações fisicas não eram, em princípio, permitidas. O primeiro tinha acabado de se casar e, de qualquer forma, não manifestava nenhum interesse por mim, e o segundo morava longe, não fazia, portanto, questão de ter um namorado. O estudante era muito insípido, André era quase noivo de minha amiga, e Ringo vivia com uma mulher. Em Paris, tinha Claude, o amigo com quem fiz amor pela primeira vez, que parecia estar apaixonado por uma jovem burguesa capaz de lhe dizer frases poéticas do tipo “veja como meus seios estão doces esta noite”, sem permitir que ele fosse mais longe. Comecei imediata e confusamente a compreender que eu não pertencia ao grupo das mulheres sedutoras e que, conseqüentemente, meu lugar no mundo era mais ao lado dos homens do que diante dos homens. Nada me impedia de simplesmente renovar a experiência de aspirar uma saliva cujo gosto é completamente diferente, de apertar em minhas mãos, sem ver um objeto sempre inesperado. Claude tinha um belo pau, reto, bem proporcionado, e as primeiras trepadas me deixaram na lembrança um tipo de entorpecimento,como se eu tivesse ficado intumescida e obturada por ele. Quando André abriu a braguilha na altura do meu rosto, fiquei surpreendida ao descobrir um objeto menor e também mais maleável porque, ao contrário de Claude, ele não era circuncidado. O pau com a cabeça imediatamente à mostra se dirige ao olhar e provoca excitação por sua aparência de monolito liso, enquanto o vai-e-vem do prepúcio, revelando a glande como se fosse uma grande bolha de sabão na superfície da água, suscita uma sensualidade mais fina, sua flexibilidade se propagando em ondas até o orifício do corpo do parceiro. O pau de Ringo era mais do tipo do de Claude, o do rapaz tímido mais como o de André, e o do estudante pertencia a uma categoria que eu só reconheceria mais tarde, a dos que, sem ser particularmente grandes, proporcionam à mão uma imediata sensação de consistência, talvez em razão de uma camada cutânea mais densa. Eu aprendia que cada sexo suscitava de minha parte gestos e até comportamentos diferentes. Da mesma maneira que, a cada vez, era necessário adaptar-me a outra epiderme, outra carnadura, outra pilosidade, outra musculatura (não é preciso dizer, por exemplo, que a maneira de agarrar um tronco que nos cobre varia segundo sua conformação: ele pode ser liso como uma pedra, pesado e com algum veio ou ainda os que impedem a visão da genitália. É, também, evidente que estas visões não repercutem no imaginário da mesma forma, e, assim, retrospectivamente, parece que minha tendência era de ser mais submissa aos corpos mais magros, como se eu os considerasse verdadeiramente machos, enquanto tinha mais iniciativa com os corpos mais pesados que eu feminizava, qualquer que fosse seu tamanho); a compleição característica de cada corpo parecia me induzir a atitudes próprias. Guardo a lembrança agradável de um corpo nervoso, com uma vara afilada golpeando apenas minha bunda a distância, com as mãos sustentando minhas ancas, sem que praticamente nenhuma outra parte do meu corpo fosse tocada. Inversamente, homens gordos, apesar de me atraírem, me incomodavam quando se esparramavamsobre mim e, sem que eu procurasse me desvencilhar,combinavam comportamento e corpulência, com uma tendência a beijocar e lamber. Enfim, entrei na vida sexual adulta como uma menina, abismava-me às cegas no túnel do tremfantasma pelo prazer de ser sacudida e apanhada por acaso. Ou melhor, pelo prazer de ser engolida como uma rã por uma serpente. Alguns dias depois de minha volta a Paris, André mandou uma carta para me prevenir, com tato, que todos nós provavelmente havíamos pegado uma gonorréia. Minha mãe abriu o envelope.

Mandaramme ao médico e proibiram que eu saísse. Mas, a partir daí, o pudor de que meus pais pudessem me imaginar transando tornouse extremamente intransigente e não me permitiu continuar a suportar a coabitação com eles. Fugi e fui recapturada. Finalmente, deixei de viver definitivamente com eles para viver com Claude. A gonorréia tinha sido meu batismo e, depois, durante anos, vivi obcecada por aquela ruptura que, no entanto, me parecia ser uma espécie de marca distintiva, uma espécie de fatalidade compartilhada pelos que trepam muito. “Como um caroço…” Nas maiores surubas que participei, nos anos seguintes, era possível encontrar algumas vezes até cento e cinqüenta pessoas (nem todas trepavam, algumas iam apenas para observar), e com um quarto ou um quinto delas eu fazia sexo de várias maneiras: com as mãos, com a boca, na boceta e no rabo. Acontecia de beijar e trocar carícias com outras mulheres, mas isso era muito secundário. Nos clubes, a quantidade era mais variável certamente em função dos participantes, é claro, mas também dos hábitos do lugar — retomarei a questão mais adiante. Para as noites passadas no bosque de Boulogne’, a estimativa seria ainda mais difícil de ser feita: devo considerar apenas os homens que chupei com a cabeça comprimida contra o volante dos carros, ou aqueles com quem mal tive tempo de tirar a roupa dentro da cabine de um caminhão, e não levar em conta os corpos sem cabeça que se alternavam do lado de fora da porta do carro, sacudindo com mãos loucas cacetes em vários estágios de ereção, enquanto outras mãos mergulhavam pelo vidro aberto para massagear energicamente meus peitos? Hoje, sou capaz de contabilizar quarenta e nove homens que me penetraram e aos quais posso atribuir um nome, ou, pelo menos, em alguns casos, uma identidade. Mas não posso incluir nos cálculos os que se perderam no anonimato. Nas circunstâncias que evoco aqui e também nas surubas quando havia pessoas que eu conhecia ou reconhecia, o encadeamento e a confusão dos amassos e das trepadas eram tais que, se era possível distinguir corpos, ou ainda seus atributos, nem sempre era possível distinguir as pessoas. E mesmo quando evoco atributos, devo confessar que não tinha sempre acesso a todos eles; certos contatos são muito efêmeros e, se muitas vezes podia, de olhos fechados, reconhecer uma mulher pela doçura de seus lábios, não poderia necessariamente reconhecê-la pelos toques que, eventualmente, podiam ser muito enérgicos. Já aconteceu de me dar conta apenas bem depois de estar há algum tempo trocando carícias com um travesti. Estava entregue a uma hidra até que Éric se separasse do grupo para me soltar, como, ele mesmo disse, “como um caroço da fruta”. Conheci Éric aos vinte e um anos, depois de ele ter-me sido “anunciado”, várias vezes, por amigos comuns que estavam certos de que, considerando meus gostos, ele seria, sem dúvida, um homem que eu deveria encontrar. Depois das férias em Lyon, eu e Claude tínhamos continuado a ter relações sexuais em grupo. Com Éric, o regime se intensificou, não somente porque ele me levava a lugares onde eu poderia me entregar a um número incalculável de mãos e de cacetes, mas sobretudo porque as sessões eramrealmente organizadas. Sempre estabeleci uma diferença clara entre as circunstâncias mais ou menos improvisadas que levam os convidados, depois de um jantar, a se redistribuir em sofás e camas à sua volta, ou as que fazem um grupo animado dar voltas de carro na porta Dauphine, até estabelecer contato com os passageiros de outros carros e acabar todos juntos num grande apartamento, e as noitadas organizadas por Éric e seus amigos. Eu preferia o inflexível desenrolar destas últimas e seu objetivo único: não havia precipitação nem crispação, nenhum fator estranho (álcool, comportamento exibicionista…) emperrava a mecânica dos corpos. As idas e vindas jamais se afastavam de uma determinação de insetos. As festas de aniversário de Victor eram as que mais me impressionavam. Na entrada, seguranças comcães falavam em walkie-talkies e a multidão me intimidava. Algumas mulheres vestiam-se para a ocasião com roupas transparentes que eu inveJava e, enquanto as pessoas chegavam e se reencontravam tomando champanhe, eu me mantinha à parte. Só me sentia à vontade quando tirava o vestido ou a calça. Minha nudez era a roupa que verdadeiramente me protegia.

A arquitetura do lugar me divertia porque parecia uma butique da moda, La Gaminerie, que ficava no bulevar Saint-Germain. Era uma gruta, maior do que a butique, com cavidades de estuque branco. Nos reuníamos no subsolo e a iluminação vinha do fundo de uma piscina que ficava diretamente sobre a gruta. Através do fundo de vidro, como em uma imensa tela de televisão, assistíamos a evolução dos corpos que mergulhavam na piscina na parte de cima. Descrevo um lugar no qual não costumava me deslocar muito. A escala das coisas tinha mudado a minha volta, mas a situação não era muito diferente do que tinha sido em minha primeira vez com meus amigos de Lyon. Éric me instalava sobre uma das camas ou sofás colocados nas alcovas e, seguindo um ritual informal, tomava a iniciativa de tirar minha roupa e de me deixar exposta. Ele geralmente começava a me acariciar e a me beijar, sendo imediatamente substituído por outros. Eu ficava quase sempre deitada de costas, talvez porque outra posição mais comum, em que a mulher monta ativamente no homem, não permite a participação de várias pessoas e acaba implicando uma relação mais pessoal entre os parceiros. Deitada, eu podia ser acariciada por muitos homens enquanto um deles, de pé, para aumentar o espaço de observação, se satisfazia no meu sexo. Eu era manipulada por partes; uma mão estimulava a parte mais acessível de meu púbis com movimentos circulares, outra roçava meu dorso ou esfregava meus mamilos… Mais até do que as penetrações, as carícias me proporcionavam muito prazer, principalmente as picas que passeavam na superfície do meu rosto ou as glandes esfregadas nos meus seios. Eu adorava segurar de passagem uma com a boca, fazê-la ir e vir entre meus lábios enquanto outra reclamava minha boca do outro lado, roçando em meu pescoço esticado para, logo depois, virar a cabeça e pegar a recém-chegada. Ou ter uma na boca e outra na mão. Meu corpo entregava-se mais sob o efeito desses toques, de sua relativa brevidade e de sua renovação, do que nas trepadas. A propósito, lembro-me sobretudo da ancilose entre minhas coxas, às vezes depois de quase quatro horas de atividade, provocada pela preferência de muitos homens em manter as coxas das mulheres muito abertas, para simultaneamente aproveitar a visão e meter mais fundo. Quando conseguia descansar, tomava consciência do entorpecimento de minha vagina. Era uma volúpia sentir as paredes enrijecidas, pesadas, um pouco doloridas, guardando, de certa forma, a marca de todos os membros que nela se alojaram. Este lugar de aranha ativa no meio de sua teia me convinha. Uma vez, não na casa de Victor, mas numa sauna da praça Clichy, encontrei-me na situação de não sair, praticamente durante toda a noite, do fundo de um grande sofá, mesmo havendo uma cama imensa que ocupava o centro da sala. Com a cabeça na altura certa, eu podia chupar quem se apresentasse ao mesmo tempo que, apoiada nos braços do sofá, estimulava até dois sexos ao mesmo tempo. Mantinha minhas pernas bastante levantadas para que os que ficassem suficientemente excitados viessem, um depois do outro, continuar em minha boceta. Transpiro muito pouco, mas, às vezes, ficava inundada com o suor dos meus parceiros. Aliás, havia sempre filetes de esperma secando no alto das coxas, às vezes nos seios ou no rosto, e até mesmo nos cabelos. Aliás, os homens que costumam fazer surubas gostam muito de esporrar em uma boceta quando ela já está forrada de bastante porra. De tempos em tempos, com o pretexto de ir ao banheiro, conseguia cair fora do grupo e me lavar A casa de Victor tinha um banheiro com uma luz azulada suficientemente clara sem ser agressiva.

Um espelho acima da banheira ocupava toda a parede, e a imagem profunda e fundida que ele refletia tomava a atmosfera ainda mais doce. Costumava ficar observando meu corpo, espantada ao constatar que ele era mais miúdo do que eu suspeitava ser alguns minutos antes. Naquele banheiro havia espaço para trocas mais tranqüilas. Sempre havia alguém para me cumprimentar pela cor morena de minha pele e pelo meu savoir-faire no uso da boca — comentários que eu usufruía melhor ali do que quando estava enterrada no sofá, e ouvia, como se fosse muito longe, um grupo trocar impressões sobre mim, como um doente percebendo através do torpor a conversa de médicos e internos na ronda de leito em leito. Jato d’água em minha xoxota aberta e entorpecida. Era raro que aquele que vinha ao banheiro para uma pausa não aproveitasse do momento em que eu me agachava no bidê, para agitar nos meus lábios a pica já quase flácida mas sempre disposta. E, muitas vezes, apenas refrescada, de pé, as mãos nas bordas do lavabo, ofereci minha vulva à pressão cada vez mais determinada de um sexo que finalmente conseguia ainda dar mais uma bombada. Um dos meus maiores prazeres é o que proporciona um sexo que desliza por entre os grandes lábios e vai ficando firme, descolando progressivamente um lábio do outro, antes de engolfar-se num espaço que fui paulatinamente sentindo se abrir. Nunca fui vítima de um gesto desajeitado ou brutal; pelo contrário, sempre fui objeto de cuidado e atenção. Se estava cansada ou se a posição se tornava desconfortável, bastava que eu comunicasse, por intermédio de Éric (que sempre estava por perto), para que me deixassem descansar ou me levantar. De fato, a gentileza sem insistência, quase indiferente, que me rodeava nas surubas, convinha perfeitamente à mulher muito jovem que eu era, gauche em suas relações com o outro. A população do bosque de Boulogne era mais heterogênea — também do ponto de vista social — e parece-me que, neste caso, devo ter tido relações com homens mais tímidos ainda que eu. Via poucos rostos, mas cruzei com olhares que me examinavam com uma espécie de expectativa, alguns até mesmo comespanto. Havia os freqüentadores que conheciam os lugares, organizavam rapidamente o desenrolar das coisas, outros cuja presença era mais furtiva, e também aqueles que observavam sem participar. Por mais que a situação e os protagonistas sempre mudassem, e Éric se empenhasse em sua renovação — eu o acompanhava sempre com um pouco de apreensão —, meu prazer era, paradoxalmente, o de reencontrar relações familiares nessas circunstâncias desconhecidas. Lembro de um episódio surpreendente. Encontrei lugar em um banco de cimento particularmente rugoso e granulado. Formou-se um grupo: de ambos os lados de minha cabeça três ou quatro homens se aproximavam para ser chupados, mas eu podia perceber de viés um segundo círculo formado pelo vai-e-vem claro de mãos movimentando picas, que pareciam molas vibrando. Atrás, havia ainda algumas sombras atentas. No momento em que minhas roupas começavam a ser arregaçadas, ouviu-se o estrépito de um acidente de carro. Largaramme. Estávamos num desses pequenos bosques ao longo do bulevar de l’Amiral-Bruix, perto da porta Maillot. Depois de algumtempo fui me juntar ao grupo que observava da entrada, por entre as sebes. De um Mini Austin saía uma faixa luminosa bem no meio da avenida. Alguém disse que havia uma mulher jovem dentro dele.

Um cachorrinho aflito corria em todas as direções. A faixa luminosa e os faróis ligados do carro formavam uma estranha mistura de luzes amarelas e brancas.

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |