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A Vinganca de Olhos Negros – Lisa Gardner

Ao longo da minha carreira como autora de romances de suspense, ouvi frequentemente o comentário: “Parece tão simpática para alguém que escreve livros tão tortuosos.” Por uma vez, gostava de concordar. Sou, de facto, uma pessoa apagada e vulgar que leva uma vida apagada e vulgar. A minha única experiência real é como consultora fiscal e, embora ache que as personagens podiam morrer devido a esforços completamente frustrados de reengenharia, ignoro se alguém, salvo os entusiastas de Dilbert, iria gostar. Recorri, por conseguinte, à ajuda dos seguintes peritos para darem à minha trama desvios particularmente tortuosos e às minhas personagens finais particularmente diabólicos. Tomem, por favor, em consideração que estas pessoas responderam, com paciência e precisão, a todas as minhas perguntas. Tal não significa, porém, que eu tenha usado essa informação de uma forma paciente e precisa. Sou uma crente convicta na liberdade imaginativa, além de possuir uma mente sinuosa. Todos temos os nossos talentos. Posto isto, a minha mais profunda gratidão e admiração a: Dr. Greg Moffatt, professor de Psicologia na Universidade Cristã de Atlanta, por responder generosamente ao meu enorme fluxo de perguntas e proporcionar análises tão fantásticas da mente assassina. Phil Agrue, detective privado, da Agrue Associates, Portland, OR, que me convenceu, em três horas, que quero ser uma investigadora de defesa quando crescer. Gary Vencill, Investigação de Consultoria Legal, Johnson, Clifton, Larson Carson, cujo prazer em criar um cenário com um homicídio e um acidente de viação só é igualado pela sua prontidão emmostrar-me pessoalmente como se alteram cintos de segurança. Dr. Stan Stojkovic, professor de Justiça Criminal, Universidade de Wisconsin-Milwaukee, pela sua informação sobre funcionamento prisional e comunicação. Dr. Robert Johnson, American University, que teve a cortesia de me deixar usar a sua honesta investigação académica como modelo para a realização de vários tipos de actos criminosos. Larry Jachrimo, perito em revólveres, cuja constante ajuda sobre pormenores de armas de fogo e técnicas de balística me permite ser mais diabólica do que alguma vez esperei. Fornece-me informações preciosas; cometo alguns erros. Mark Bouton, ex-instrutor do FBI de armas de fogo e companheiro de escrita, por me ajudar a transportar os meus agentes do FBI para o novo milénio. Célia MacDonell e Margaret Charpentier, farmacêuticas espantosas, que têm igualmente um futuro promissor como envenenadoras. Nada de pessoal, mas a partir de agora, levo a minha comida. Mark Smerznak, engenheiro químico, grande amigo e um cozinheiro extraordinário. Heather Sharer, amigo maravilhoso, entusiasta de jazz e um ombro onde chorar. Rob, Julie e a minha mãe, pela volta por Pearl District e a quantidade de cafés.


Kate Miciak, uma editora extraordinária, que melhorou indubitavelmente este livro. Damaris Rowland e Steve Axelrod, agentes fantásticos, que sempre me encorajam a escrever o livro do meu coração e, melhor ainda, me permitem pagar a minha hipoteca enquanto o faço. E, por fim, ao meu marido, Anthony, pelo fornecimento de trufas de champanhe com chocolate de fabrico caseiro e bolo de chocolate. Sabes como manter uma escritora motivada e amo-te. PRÓLOGO Virgínia A boca dele aflorou-lhe o pescoço. Gostava de sentir o beijo, leve, desafiador. Deixou descair a cabeça para trás. Ouviu o seu próprio riso. Ele prendeu-lhe o lóbulo da orelha entre os lábios e o riso transformou-se num gemido de prazer. Céus! Como gostava quando ele lhe tocava. Os dedos dele ergueram-lhe a pesada cabeleira. Dançaram sobre a nuca e deslizaram pelos ombros nus. – Bonita, Mandy – sussurrou ele. – Tão sensual, Mandy. Soltou mais uma risada. O riso transformou-se em gargalhada e depois sentiu o gosto do sal nos lábios e apercebeu-se de que chorava. Ele virou-a de barriga para baixo em cima da cama. Ela não protestou. As mãos dele percorreram-lhe a coluna vertebral até se deterem na cintura. – Gosto desta curva aqui – murmurou, enterrando um dedo na concavidade ao fundo das costas. – Perfeita para sorver champanhe. Que os seios e as coxas fiquem para os outros homens. Eu só quero este sítio aqui. Posso tê-lo, Mandy? Dás-mo? Talvez ela dissesse que sim. Talvez apenas gemesse.

Já não sabia. Uma garrafa de champanhe vazia em cima da cama. Outra semivazia. A boca dela era um formigueiro de sabor proibido e continuou a dizer para consigo que tudo estava bem. Era apenas champanhe e estavam a celebrar… Ele acabava de encontrar um novo emprego, o GRANDE emprego, que era muito longe. Mas haveria visitas de fim-de-semana, talvez algumas cartas, telefonemas… Estavam a celebrar, e a carpir… Era uma foda de despedida, e de qualquer maneira o sexo com champanhe não contava para o seu simpático grupo dos Alcoólicos Anónimos. Ele derramou a garrafa aberta de espumante sobre os seus ombros. O líquido frio e borbulhante escorreu em cascata pelo pescoço, formando uma pequena poça no lençol de cetim branco. Ela tentou desesperadamente sorver algumas gotas. – Assim mesmo, miúda – murmurou ele. – Minha doce e apetitosa miúda… Abre-te para mim, querida. Deixa-me entrar em ti. Ela afastou as pernas. Arqueou as costas, ao mesmo tempo que todo o seu ser se focava lá em baixo, no lugar entre as pernas, onde a dor se formara e agora só ele podia apaziguá-la. Só ele podia salvá-la. Entra em mim. Enche-me toda. – Bonita, Mandy. Sensual e apetitosa, Mandy. – Por… por… favor…. Ele afundou-se nela, que arqueou as ancas. Teve a sensação de que a espinha se fundia sob as suas mãos e abandonou-se-lhe. Enche-me. Enche-me toda! Sal nas faces dela. Champanhe na língua.

Porque não conseguia deixar de chorar? Enterrou a cabeça nos lençóis e sorveu o champanhe, ao mesmo tempo que o quarto girava e sentia a cabeça à roda. De súbito, a cama desapareceu. Estavam lá fora. Junto à garagem. Roupas vestidas, faces secas. O champanhe desaparecera, mas não a sede. Há seis meses que se mantivera sem beber. Agora, ansiava terrivelmente por mais uma bebida. Uma garrafa de champanhe ainda intacta. Talvez conseguisse que ele lha desse para o regresso a casa. Uma bebida para o caminho. Não vás… – Estás bem, miúda? – Sim – murmurou com uma voz pastosa. – Talvez não devesses conduzir. Talvez devesses passar cá a noite… – Estou bem – repetiu. Não podia ficar e ambos o sabiam. As ocasiões boas iam e vinham. Se agora tentasse insistir, apenas contribuiria para piorar as coisas. No entanto, ele hesitava. Fitava-a com aqueles olhos profundos e preocupados, que formavampequenas rugas nos cantos. Um detalhe que adorara quando o tinha visto pela primeira vez. A forma como os olhos dele se encarquilhavam como se estivesse a estudá-la intensa e verdadeiramente, a vê-la como era na verdade. Uma fracção de segundo depois sorrira, como se o simples facto de a descobrir o tivesse feito tão feliz. Nunca até ali um homem lhe sorrira daquela maneira. Como se ela fosse alguém especial. Oh, Deus do céu.

Não vás… E depois: Terceira garrafa de champanhe. Todas cheias. Mais uma pelos velhos tempos. Mais uma para o caminho. O amante tomou-lhe suavemente o rosto entre as mãos e acariciou-lhe as faces com os polegares. – Mandy… – sussurrou ternamente. – Se soubesses até que ponto adoro a curva dos teus rins… Ela já não foi capaz de responder. As lágrimas sufocavam-na. – Espera aí, querida – disse ele subitamente. – Tenho uma ideia. Conduzia, obrigada a concentrar-se porque a estrada estreita era extremamente sinuosa. com a estranha impressão de que um abismo separava os seus pensamentos das suas reacções. Ele ia sentado ao lado, no banco do passageiro. Queria certificar-se de que ela chegava a casa emsegurança; depois apanharia um táxi. Talvez fosse ela que devesse apanhar um táxi. Talvez não estivesse em condições de conduzir. Mas se ele insistira em acompanhá-la, por que razão era ela que ia ao volante? Tantas perguntas para as quais Mandy já não tinha força para encontrar as respostas. – Abranda – preveniu ele. – A estrada aqui é perigosa. Ela assentiu com a cabeça, franzindo o sobrolho e tentando concentrar-se. O volante parecia-lhe estranho nas mãos. Redondo. Uf. Carregou no travão. Em vez disso premiu o acelerador e o jipe deu um solavanco para a frente.

– Desculpa -murmurou. O mundo rodopiava cada vez mais depressa à sua volta. Não se sentia bem. Como se estivesse prestes a vomitar ou a desmaiar. Talvez as duas coisas. Se ao menos pudesse fechar os olhos… A estrada deslizava sob os pneus e o carro dançava perigosamente no asfalto. Cinto de segurança. Preciso de pôr o cinto de segurança. Procurou a correia às apalpadelas, agarrou na fivela. Puxou. O cinto de segurança esticou-se sem se fixar. É isso. Partido. Preciso de mandar arranjá-lo. Um dia. Hoje. Socorro. As estrelas girando, o céu começando a clarear. Agora só falta uma menina a cantar: “Amanhã, amanhã, há sempre um amanhã…” – Abranda – repetiu ele no banco do passageiro. – Há uma curva apertada aí à frente. Ela fitou-o estupidificada e detectou-lhe um brilho estranho nos olhos. Um brilho divertido cujo motivo lhe escapava. – Amo-te – ouviu a sua própria voz dizer. – Eu sei – respondeu ele e estendeu o braço ternamente na direcção dela, pousando a mão no volante. – És tão doce, tão sensual, Mandy.

Nunca irás esquecer-me. Ela anuiu com a cabeça. O dique rompeu-se e as lágrimas correram-lhe pelas faces. Soluçou, desesperada, enquanto o Ford Explorer guinava de um lado ao outro da estrada e o brilho ardia no olhar dele. – Nunca encontrarás ninguém como eu – prosseguiu, impiedoso. – Sem mim, Mandy, não és nada. – Eu sei, eu sei. – O teu próprio pai abandonou-te. Em breve, será a minha vez. As visitas de fim-de-semana acabarão, depois os telefonemas. E restarás apenas tu, Mandy, sozinha noite após noite. Ela soluçou com mais força. Sal nas suas faces, champanhe nos lábios. Tão só. O abismo negro. Sozinha, sozinha, sozinha. – Enfrenta isso, Mandy – continuou ele, num tom suave. Nunca soubeste prender um homem. Não passas de uma bêbeda. Deus do céu! Estamos prestes a separar-nos para sempre e apenas consegues pensar naquela terceira garrafa de champanhe. É verdade, não é? Não é? Ela tentou abanar a cabeça. Acabou por assentir. – Acelera, Mandy – sussurrou ele. Porque é que o papá não veio a casa para o meu aniversário? Preciso tanto de ti, papá! Doce, e sensual Mandy Enche-me. Enche-me toda! Tão só… – Estás magoada, Mandy.

Sei que estás. Mas eu vou ajudar-te, querida. Acelera. Sal nas faces dela. Champanhe nos lábios. O pé carregando no acelerador… – Um leve toque no acelerador e nunca mais voltarás a estar só. ; Nem mesmo sentirás a minha falta. O pé dela… A curva da estrada a aproximar-se. Tão só. Céus, estou cansada!. , – Vá lá, Mandy. Acelera. O pé dela a fazer força… Quando o avistou, era demasiado tarde. Um homem na curva apertada da estrada rural. A passear o cão, parecendo sobressaltado por ver um veículo àquela hora da manhã, depois ainda mais surpreendido ao vê-lo avançar na sua direcção. Virar! Virar! Tenho de virar!. Amanda Jane Quincy guinou freneticamente o volante e tentou desviar-se do homem. Apesar de todos os seus esforços, o volante recusou mover-se, bloqueado pelo punho enérgico do amante sentado ao lado dela. O tempo parou. Mandy ergueu os olhos sem compreender para o rosto que amava. Viu a noite fechar-se atrás dela através do vidro da janela. Viu o cinto de segurança bem apertado sobre o forte e largo peito dele. E ouviu-o dizer: – Adeus, doce Mandy. Quando chegares ao inferno, não te esqueças de dar os meus cumprimentos ao teu pai. O Explorer atingiu o homem.

Um barulho surdo. Um pequeno grito. O carro seguiu em frente. E, no preciso instante em que pensou que tudo estava bem, que continuava ilesa, que continuavamilesos, o poste telefónico surgiu da escuridão. Mandy não teve tempo de gritar. O Explorer embateu no grosso poste de madeira a sessenta quilómetros à hora. Sob a violência do impacte, o pára-choques baixou e a traseira subiu quase na vertical. E o corpo dela, sem cinto, voou do banco do condutor contra o pára-brisas, cuja estrutura metálica lhe esmagou o cérebro. O passageiro não teve problemas. O cinto segurou-lhe o peito, puxando-o contra o assento, mesmo quando a parte da frente do Explarer se amachucou. O pescoço deu um esticão. Os pulmões esvaziaram-se de um golpe, cortando-lhe momentaneamente a respiração. Arquejou, com os olhos desorbitados e, segundos depois, a pressão dissipou-se. O jipe imobilizou-se. Ele também. Estava salvo. Desapertou o cinto de segurança. Fizera o trabalho de casa e não estava preocupado comimpressões digitais. Tão pouco lhe importava a hora. Uma estrada rural ao amanhecer. Decorreriam dez, vinte, trinta minutos antes que alguém passasse por acaso. Inspeccionou a bela e sensual Mandy. Ainda tinha uma leve pulsação, mas a maior parte do cérebro esmagara-se contra o pára-brisas. Embora o corpo estivesse a travar uma derradeira luta, o cérebro nunca mais iria recuperar. Após um ano e meio de esforços, recebia finalmente a recompensa: a satisfação de saber que Amanda Jane Quincy morrera aterrorizada, confusa… e de coração despedaçado.

As contas entre ele e Pierce Quincy ainda não estavam saldadas, pensou o homem, mas já era um começo. 1 Catorze meses depois Portland, Oregon Na segunda à tarde, a detective particular Lorraine Conner estava sentada à secretária pejada de papéis. Carregou furiosamente nas teclas do seu velho computador portátil, após o que franziu o sobrolho ante os resultados indicados no ecrã. Alinhou novas colunas de números, obteve os mesmos desastrosos resultados e brindou-os com a mesma expressão sombria. Contudo, o orçamento não se deixou intimidar. Maldito computador, pensou. Maldito orçamento, maldito calor. E maldita ventoinha que tinha comprado na semana anterior e se recusava permanentemente a funcionar, excepto se lhe desse duas pancadas no cimo. Parou, nesse momento, para lhe aplicar a necessária pancada dupla e foi, por fim, recompensada com uma ligeira brisa. Céus. Aquele tempo estava a dar cabo dela. Eram três da tarde. Lá fora, um sol capaz de derreter o alcatrão abatia-se sobre a cidade e não ficaria surpreendida ao saber que acabava de se bater um novo recorde de calor em Portland. Tecnicamente falando, Pordand beneficiava de um clima mais temperado do que as grandes metrópoles da costa leste. E, em teoria, também não atingia a humidade dos estados do Sul. Mas o clima parecia ter-se esquecido disso nos últimos tempos. Rainie há muito que trocara a T-shirt por um top de algodão branco. Sentia-o agora colado à pele, e os cotovelos deixavam manchas redondas de vapor condensado no tampo da secretária. Se o tempo aquecesse mais, levaria o computador portátil para debaixo do duche. Rainie tinha ar condicionado no sótão, mas, como parte do seu programa de “apertar o cinto”, refrescava o seu amplo apartamento de uma divisão à maneira antiga: abrira as janelas e ligara uma pequena ventoinha de secretária. Um método ineficaz, que lhe permitia beneficiar da poluição devida à canícula, sem que por tal baixasse a temperatura. O momento fora mal escolhido para fazer economia na electricidade. A situação era ainda mais frustrante pois vivia desde há pouco no centro de Pearl District, um bairro famoso pelas geladarias chiques, onde se servia café gelado em quase todas as esquinas das ruas. Preferia não pensar emtodos os yuppies das redondezas que a essa hora deviam estar tranquilamente sentados nos Starbucks, usufruindo de um fantástico ar condicionado, enquanto tentavam decidir-se entre um Chat gelado ou um café moca. Não era o caso de Rainie.

A nova Lorraine Conner, cheia de boas intenções, estava sentada no moderno sótão daquele bairro elegante, tentando decidir o que era mais importante: gastar os dólares que lhe restavam na lavandaria, ou num carburador novo para a sua campana de quinze anos. Por umlado, roupas limpas causavam sempre uma boa impressão ao conhecer um novo cliente. Por outro, de nada lhe servia arranjar casos novos, se não tivesse um meio de locomoção. Detalhes, apenas detalhes. Experimentou uma nova rodada de cálculos. Mas o computador, pouco compreensivo, cuspiu os mesmos resultados negativos. Suspirou. Rainie tinha acabado de obter a sua licença de detective particular do Conselho do Oregon. No âmbito das boas notícias, tal significava que passara a ter o direito de vestir a pele de Paul Drake para os Peny Mason locais, oferecendo os seus serviços aos advogados de defesa da região. No âmbito das más notícias, a licença de dois anos custara-lhe setecentos dólares. Acrescidos dos novecentos de seguro obrigatório. Mil e seiscentos dólares que haviam largamente reduzido o magro pecúlio das Investigações Conner. – Mas tenho o direito a comer, não? – resmungou na direcção do computador, só que ele não queria saber disso. Soou o intercomunicador. Rainie endireitou-se, passando uma das mãos desanimadamente pelo cabelo, ao mesmo tempo que piscava os olhos duas vezes, surpreendida. Nesse dia, não esperava clientes. Virou-se para o ecrã do sistema de segurança instalado no vestíbulo de entrada. Um homem elegante, de cabelo grisalho, aguardava pacientemente do lado de fora da porta da frente. Enquanto o observava, ele voltou a carregar no botão do intercomunicador. Depois, ergueu os olhos para a câmara. O coração de Rainie ameaçou sair-lhe pela boca. Ficou petrificada, de olhos fixos no rosto do visitante. Era a última pessoa que esperava ver nesse dia e sentiu-se completamente alterada. Passou mecanicamente a mão pelo cabelo. Ainda não se habituara ao cabelo curto e o calor tornava-o espetado como um esfregão cor de avelã escuro.

Sem falar do top, amarrotado e ensopado de suor, nem dos calções de ganga, esfiados, coçados e nada profissionais. Dedicara esse dia para tratar da papelada e não achara necessário arranjar-se; teria posto desodorizante nessa manhã? Na verdade, estava um forno ali e já não tinha nenhumas certezas. O agente especial supervisor Pierce Quincy do FBI continuava de olhos fixos na câmara de segurança instalada por cima da porta de entrada. A qualidade da imagem do pequeno monitor estava longe da perfeição, mas tal não a impedia de detectar a intensidade dos profundos olhos azuis. com a mão na garganta, analisou Quincy com um ar pensativo. Há quase oito meses que não o via, e há seis que não lhe ouvia a voz ao telefone. Ele não mudara. Os olhos ainda formavam rugas nos cantos. A testa continuava marcada por fundos sulcos. Tinha as feições duras e austeras de um homem que passara muito tempo a lidar com a morte… e diabos a levassem se tal não lhe agradara nele. O mesmo fato de corte impecável. O mesmo rosto impenetrável. Não havia ninguém como Quincy, agente especial supervisor. Ele carregou no botão pela terceira vez. Não se ia embora. Quando queria verdadeiramente algo, Quincy raramente desistia. À excepção dela… Rainie abanou a cabeça, desanimada, Não queria voltar a pensar em tudo isso. Tinham tentado, tinham falhado. A vida era assim. Duvidava que Quincy desejasse algum envolvimento pessoal. Premiu o portão para o deixar entrar. Oito andares depois, ele bateu-lhe à porta da frente. Ela tivera tempo de pôr desodorizante, mas nada neste mundo poderia salvar-lhe o cabelo. Abriu a porta com um ar falsamente descontraído, de mão na anca. – Olá – saudou-o lacónica.

– Olá, Rainie. Ela ficou à espera. A pausa prolongou-se e verificou, satisfeita, que foi Quincy o primeiro a romper o silêncio. – Receei que pudesses ter saído para tratar de qualquer caso retorquiu. – Nem mesmo os bons conseguem estar sempre a trabalhar. Quincy ergueu uma sobrancelha. – A quem o dizes – respondeu em seguida, num tom seco que lhe provocou uma incontestável nostalgia.

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