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A Vinganca de Smiley – John le Carre

Dois acontecimentos aparentemente sem qualquer relação entre si fizeram com que George Smiley fosse chamado a deixar a sua duvidosa condição de aposentado. O primeiro teve como cenário Paris e, como época, o escaldante mês de agosto, quando é tradição dos parisienses abandonarem a sua cidade aos raios implacáveis do Sol e às caravanas de turistas. Num desses dias de agosto — o quarto, e exatamente ao meio-dia, pois o carrilhão de uma igreja estava dando as doze badaladas e uma sirene de fábrica tinha acabado de tocar para o almoço — num quartier outrora conhecido pela sua grande população de pobres emigrados russos, uma mulher corpulenta, dos seus cinquenta anos, carregando uma sacola de compras, saiu da escuridão de um velho armazém e dirigiu-se, com a sua costumeira energia e decisão, para o ponto de ônibus. A rua era cinzenta e estreita, com dois pequenos hotéis de passe, uma porção de gatos, e prédios de janelas fechadas e persianas corridas. Uma rua excepcionalmente quieta. Apenas o armazém, por servir de depósito a mercadorias perecíveis, permanecera aberto durante as férias. O calor, poluído pela fumaça dos exaustores e sem ter a mais leve brisa a aliviá-lo, envolvia-a toda, mas as feições eslavas da mulher não revelavam qualquer irritação. Nem a sua compleição nem o seu traje eramapropriados para um dia tão quente, pois ela era muito baixa e gorda, o que a fazia gingar quando andava. Seu vestido preto, de uma severidade eclesiástica, não tinha cintura nem qualquer enfeite, a não ser uma gola de renda branca e uma grande cruz de metal, bem trabalhada, mas sem nenhum valor intrínseco, no peito. Os sapatos, cambaios, inclinavam-se nas pontas para fora, quando ela andava, com um ruído ritmado que ecoava na rua estreita. A sacola de compras, cheia desde manhã cedo, fazia com que ela se dobrasse ligeiramente para estibordo e indicava claramente que a sua dona estava acostumada a carregar fardos. Apesar disso, ela não tinha um ar amargurado. Os cabelos grisalhos eram puxados num coque, mas uma mecha permanecia solta, batendo-lhe na testa a cada passo que ela dava. Seus olhos castanhos tinham a iluminá-los um resistente senso de humor. Sua boca, abrindo-se sobre um queixo de lutadora, parecia sempre pronta a sorrir. Chegando ao ponto de ônibus, ela pousou no chão a sacola das compras e, com a mão direita, massageou o traseiro, no lugar onde ele se encontrava com a coluna, num gesto que, embora lhe trouxesse pouco alívio, se tornara familiar nos últimos dias. O banco alto no qual ela passava a manhã toda sentada, trabalhando como verificadora no armazém, não tinha encosto e aquilo estava dando cabo da sua coluna. — Diabo! — disse, entre dentes, para a parte dolorida. Depois de a ter massageado, dobrou os negros cotovelos para trás como se fosse um velho corvo preparando-se para levantar voo. —Diabo! — repetiu. De repente, percebendo que estava sendo vigiada, deu meia-volta e ergueu os olhos castanhos para o homenzarrão atrás dela. Era a única pessoa que estava no ponto de ônibus, além dela e, naquele momento, a única pessoa que estava na rua com ela. Nunca falara com ele, mas o seu rosto já lhe era familiar: tão grande, tão indeciso, tão suado. Vira-o no dia anterior, vira-o dois dias antes e, se não estava enganada, antes disso também — afinal de contas, ela não era nenhum diário ambulante! Nos últimos três ou quatro dias, aquele gigante nervoso, à espera de um ônibus ou parado diante do armazém, tornara-se uma figura conhecida dela e, o que era mais, uma figura que correspondia a um tipo que ela conhecia, embora não soubesse dizer ao certo de onde. Achou que ele parecia traqué, como tantos parisienses, atualmente.


Havia tanto medo nos rostos deles, na maneira de caminharem pelas ruas, não ousando falar uns com os outros. Talvez fosse a mesma coisa em outros lugares, ela não saberia dizer. Mais de uma vez, também, ela sentira que ele tinha algum interesse nela. Chegara a pensar se ele não seria um policial e por pouco não lhe perguntara, pois era uma mulher extrovertida. O aspecto lúgubre cheirava a polícia, da mesma forma que o terno suado e a inútil capa de chuva, pendente do seu braço como se fosse um pedaço de um velho uniforme. Se ela não estivesse enganada e ele fosse mesmo um policial, até que enfim — finalmente os idiotas tinham resolvido tomar medidas contra os furtos que vinham ocorrendo nos últimos meses no armazém. A essa altura, o desconhecido continuava de olhos fixos nela. — Tenho a infelicidade de sofrer da coluna, monsieur — disse ela, dirigindo-se a ele no seu francês lento e clássico. — A dor é cada vez maior. Por acaso o senhor não será médico? Reumatologista, talvez? De repente, olhando para ele, ela achou-o com cara de doente e arrependeu-se da brincadeira. Um brilho oleoso cobria-lhe o pescoço e a mandíbula e seus olhos fracos tinham uma expressão obcecada, como se contemplasse algum problema, algo que o preocupasse. Ela ia perguntar-lhe: “Alguma paixão o devora, monsieur? Sua mulher o trai com outro?” — e já estava pensando emlevá-lo para um café e fazer com que ele tomasse um copo de água ou uma tisane, quando o desconhecido se afastou abruptamente e olhou para trás e para a frente, nervoso. Só então lhe ocorreu que o que ele tinha era medo, que não estava apenas traqué, mas apavorado. Quem sabe não era umpolicial, e sim um ladrão? Embora a diferença, conforme ela bem sabia, muitas vezes fosse quase nula. — Seu nome é Maria Andreyevna Ostrakova? — perguntou o homem de repente, como se a pergunta lhe desse medo. Falou em francês, mas ela viu que essa não era a sua língua materna e a correta pronúncia do seu nome e do seu patronímico alertaram-na para a verdadeira nacionalidade do homem. Reconheceu imediatamente o sotaque e identificou, tarde demais, e com um sobressalto íntimo, o tipo familiar que até ali lhe escapara. — E se eu for, que é que o senhor tem com isso? — retrucou, projetando o queixo e franzindo a testa. O homem dera mais um passo na direção dela. A diferença de altura entre os dois tornara-se subitamente absurda e as feições do desconhecido, vistas de perto, traíram o seu caráter desagradável. Olhando para cima, Ostrakova percebeu que ele não só tinha medo, como era fraco. O queixo úmido estava fixo numa careta, a boca se retorcera para parecer mais forte, mas ela notava que ele apenas procurava disfarçar uma incurável covardia. É como um homem que põe uma couraça para um ato heroico, pensou. Ou criminoso. Nenhum dos seus atos é espontâneo.

— A senhora nasceu em Leningrado, a 8 de maio de 1927? — perguntou ele. Provavelmente, ela respondeu que sim. Não saberia dizer ao certo. Viu-o passar de novo a língua pelos lábios. Viu-o levantar o olhar pálido e assustado para o ônibus que se aproximava. Viu uma indecisão muito semelhante ao pânico tomar conta dele e ocorreu-lhe — o que, no fundo, era umato de quase clarividência — que ele estaria pensando em empurrá-la para debaixo do veículo. Não a empurrou, mas fez-lhe a pergunta seguinte em russo — e nos modos brutais da burocracia moscovita: — Em 1956, a senhora recebeu permissão para deixar a União Soviética a fim de cuidar do seu marido doente, o traidor Ostrakov? E também com outros fins em vista? — Ostrakov não era um traidor — replicou ela. — Era um patriota. E, instintivamente, agarrou a sacola de compras, segurando com força a alça. O desconhecido ignorou a contradição e falou muito alto, de modo a ser ouvido acima do barulho do ônibus: — Ostrakova, trago-lhe notícias da sua filha Alexandra, que mora em Moscou, e também de certas esferas oficiais! Preciso lhe falar a respeito dela! Não tome esse ônibus! O ônibus encostara. O motorista a conhecia e estendeu a mão para que ela lhe desse a sacola das compras. Baixando a voz, o desconhecido acrescentou: — Alexandra tem problemas sérios, que exigem a imediata assistência da sua mãe. O motorista gritou para ela subir logo, com falso mau humor, brincando com ela: — Vamos, Dona Maria! Está calor demais para namorar! Dê-me a sua sacola e entre de uma vez! Dentro do ônibus, ouviram-se risadas. Depois, alguém gritou um insulto: — Olha só a velha, pensa que todo o mundo tem que esperar por ela! Sentiu a mão do desconhecido apertando-lhe inexperientemente o braço, qual um amante desajeitado, procurando os botões da roupa. Soltou-se e tentou dizer algo ao motorista, mas não conseguiu: abriu a boca, mas parecia ter-se esquecido de como falar. O máximo que pôde fazer foi abanar a cabeça. O motorista gritou de novo e depois gesticulou com as mãos e deu de ombros. Os insultos multiplicaram-se. Lembrando-se de onde estava, Ostrakova viu o ônibus desaparecer, à espera de que a vista se lhe desanuviasse completamente e o coração parasse de bater como louco. Agora, sou eu quem precisa de um copo de água, pensou. Dos fortes eu sei me proteger, mas Deus me livre dos fracos! Acompanhou o homem até ao café, coxeando. Exatamente vinte e cinco anos antes, num campo de trabalhos forçados, ela quebrara a perna em três lugares, no deslizamento de um monte de carvão. Naquele dia 4 de agosto — não esquecera a data — sob a tensão do recado do desconhecido, a velha sensação de ter ficado aleijada voltou a acometê-la e ela inconscientemente submeteu-se à ideia. O café era o último da rua, senão de toda Paris, a não ter vitrola e iluminação a néon, e a permanecer aberto em agosto, embora houvesse mesas de bilhar e as bolas batessem umas nas outras da manhã até a noite. Quanto ao resto, pairava no ar o costumeiro vozerio da hora do almoço, das discussões sobre política e corridas de cavalos, o habitual trio de prostitutas falando baixinho e umjovem e mal-encarado garçom, metido numa camisa suja, que imediatamente os conduziu a uma mesa de canto, reservada com um ensebado anúncio de Campari.

Seguiu-se um momento de ridícula banalidade. O desconhecido mandou vir dois cafés, mas o garçom protestou que, ao meio-dia, ninguém ocupa a melhor mesa só para tomar um cafezinho — o proprietário precisa pagar o aluguel da casa, monsieur! Como o desconhecido não conseguia acompanhar o patois do rapaz, Ostrakova teve que traduzi-lo para ele. O homem corou e pediu duas omeletes de presunto com batatas fritas e duas cervejas alsacianas, tudo sem consultar Ostrakova. Depois, dirigiu-se ao WC dos homens para retemperar a coragem — aparentemente, confiando em que ela não fugiria — e, quando voltou, seu rosto estava enxuto e os cabelos ruivos penteados, mas o cheiro que emanava dele, agora que estavam num lugar fechado, fez com que Ostrakova se lembrasse do metrô de Moscou, dos bondes de Moscou e das salas de interrogatório de Moscou. De maneira mais eloquente do que qualquer outra coisa que ele lhe pudesse ter dito, os poucos passos que ele dera voltando do banheiro para a mesa convenceram-na do que ela já temia: o homem era um deles. O andar contido, o deliberado embrutecimento das feições, o modo com que cruzou os braços em cima da mesa e, com fingida relutância, tirou um pedaço de pão do cesto, como se estivesse mergulhando uma pena no tinteiro —tudo aquilo reviveu nela as piores recordações da sua vida de uma mulher caída em desgraça, sob o peso da terrível burocracia moscovita. — Pois é — disse ele, partindo um pedaço de pão, como que para se fortalecer. Escolheu a extremidade de uma baguete. Com aquelas mãos, podia tê-la partido num segundo, mas preferiu parti-lo em pequenos pedaços, com as gordas pontas dos dedos, como se aquela fosse a maneira oficial de comer. Enquanto mordiscava, as sobrancelhas se arquearam e ele deu a impressão de estar com pena de si mesmo, um estrangeiro naquela terra estranha. — Por acaso aqui sabem que a senhora levava uma vida imoral na Rússia? — perguntou, por fim. — Pode ser que, numa cidade cheia de prostitutas, ninguém ligue. A resposta dela estava na ponta da língua: Minha vida na Rússia não era imoral. O sistema vigente é que era. Mas não disse nada, manteve-se rigidamente calada. Ostrakova jurara a si mesma que controlaria o seu gênio e a sua língua, e tratou de pôr o juramento em prática beliscando-se através da manga, debaixo da mesa, exatamente como fizera mais de cem vezes, nos velhos tempos, quando tais interrogatórios faziam parte do seu cotidiano: — Quando foi a última vez que viu o seu marido Ostrakov, o traidor? — Diga o nome de todas as pessoas com as quais a senhora tenha convivido nos últimos três meses! — Com amarga experiência, aprendera também as outras lições dos interrogatórios. Uma parte da sua pessoa passava-as em revista naquele momento e, embora elas pertencessem, em termos de história, a uma geração anterior, pareciam-lhe agora tão vívidas e valiosas quanto outrora: nunca responder malcriadamente às observações malcriadas; nunca se sentir provocada, nunca se mostrar irônica, superior ou intelectual, nunca se deixar levar pela fúria, pelo desespero ou por uma esperança súbita, suscitada por alguma pergunta ocasional. E no fundo, bem no fundo, preservar os dois segredos que tornavam todas aquelas humilhações suportáveis: o ódio que sentia deles e a esperança de que, um dia, após incontáveis gotas de água sobre a pedra, ela conseguisse desgastá-los e, por um milagre causado pelos seus próprios processos elefantinos, obtivesse deles a liberdade que eles lhe negavam. O homem tirara do bolso um caderninho. Em Moscou, teria sido a ficha dela, mas ali, num café de Paris, era um caderninho revestido de couro preto, algo que em Moscou mesmo um funcionário público teria orgulho de possuir. Ficha ou caderninho, o preâmbulo era o mesmo: — A senhora nasceu em Leningrado, no dia oito de maio de 1927, recebendo o nome de Maria Andreyevna Rogova — repeliu ele. — No dia 1.º de setembro de 1948, com vinte e um anos, casou com o traidor Ostrakov Igor, capitão da Infantaria no Exército Vermelho, filho de mãe estoniana. Em 1950, o dito Ostrakov, então de serviço em Berlim Oriental, fugiu para a Alemanha fascista, com a ajuda de emigrados estonianos reacionários, deixando-a em Moscou. Seu marido adquiriu permanência e, mais tarde, a cidadania francesa, passando a residir em Paris, onde continuou a contatar com elementos antissoviéticos.

Quando ele se passou para o Ocidente, a senhora não tinha filhos dele, e nem estava grávida. Correto? — Correto — confirmou ela. Em Moscou, ela teria dito “Correto, Camarada Capitão” ou “Correto, Camarada Inspetor”, mas naquele café francês tal formalidade ficaria deslocada. O pedaço de pele do pulso que ela beliscara tinha ficado dormente. Soltou-o, permitindo que o sangue voltasse a circular, e depois pegou outro pedaço entre os dedos. — Como cúmplice da traição de Ostrakov, a senhora foi condenada a cinco anos de detenção num campo de trabalhos, mas solta quando da anistia que se seguiu à morte de Stalin, em março de 1953. Correto? — Correto. — De volta a Moscou, apesar da pouca probabilidade de que o seu pedido fosse satisfeito, a senhora requereu um passaporte para ir ter com seu marido na França. Correto? — Ele estava com câncer — disse ela. — Se eu não tivesse pedido o passaporte, não estaria cumprindo com os meus deveres de esposa. O garçom trouxe as omeletes e as batatas fritas, mais as duas cervejas. Ostrakova pediu-lhe que lhe trouxesse um thé citron. Tinha muita sede, mas não gostava de cerveja. Dirigindo-se ao rapaz, tentou em vão conquistar a simpatia dele, com sorrisos e olhares. Mas a insensibilidade do garçomrepeliu-a. Percebeu que era a única mulher no café, além das três prostitutas. Segurando o caderninho como se fosse um hinário, o desconhecido comeu uma garfada, depois outra, enquanto Ostrakova apertava com mais força o próprio pulso e o nome de Alexandra pulsava na sua mente como uma ferida aberta, fazendo-a imaginar mil problemas sérios que exigissem a imediata assistência da mãe. O homem prosseguiu com a história dela, enquanto comia. Teria prazer em comer ou comeria para não dar na vista? Ela achou que ele era dessas pessoas que comem compulsivamente. — Entrementes — disse ele, sempre comendo. — Entrementes — murmurou ela, involuntariamente. — Entrementes, apesar da sua pretensa preocupação com o seu marido, o traidor Ostrakov —continuou ele, com a boca cheia — a senhora teve uma relação adúltera com o pseudoestudante de música Glikman Joseph, um judeu quatro vezes condenado por comportamento antissocial, que a senhora conheceu durante o período em que esteve detida. Coabitou com esse judeu num prédio de apartamentos do 13.º distrito. Certo ou errado? — Eu me sentia muito só.

— Em decorrência dessa união com Glikman, a senhora teve uma filha, Alexandra, no hospital da Revolução de Outubro, em Moscou. A certidão de nascimento foi assinada por Glikman Joseph e Ostrakova Maria. A menina foi registrada com o nome do judeu, Glikman. Correto ou falso? — Correto. — Entrementes, a senhora insistia em pedir um passaporte para viajar ao exterior. Por quê? — Já lhe disse. Meu marido estava muito doente. O meu dever era insistir. Ele comeu outra garfada, com tanta avidez, que ela pôde ver-lhe vários dentes estragados. — Em janeiro de 1956, um ato de clemência fez com que a senhora obtivesse o passaporte, coma condição de que sua filha permanecesse em Moscou. Mas a senhora excedeu o tempo permitido e permaneceu na França, abandonando sua filha. Certo ou errado? As portas que davam para a rua eram de vidro, as paredes também. Um caminhão estacionou do lado de fora e o café ficou subitamente às escuras. O jovem garçom colocou o chá de qualquer maneira em cima da mesa, sem olhar para ela. — Certo — disse ela e olhou para o homem, sabendo o que viria a seguir, forçando-se a mostrar-lhe que, pelo menos naquele ponto, ela não tinha dúvidas e nem remorsos. — Certo — repetiu, desafiante. — A segunda condição para a obtenção do passaporte foi a senhora assinar um compromisso de que se desincumbiria de certas tarefas para os órgãos de segurança do Estado, durante a sua estada em Paris. A primeira era convencer seu marido, o traidor Ostrakov, a voltar à União Soviética. — Tentar convencê-lo — corrigiu ela, com um leve sorriso. — Ele não concordou com a ideia. — A segunda era proporcionar informações relativas às atividades e às personalidades dos grupos de emigrados antissoviéticos. A senhora mandou dois relatórios, destituídos de qualquer valor, e mais nada. Por quê? — Meu marido desprezava esses grupos e perdera o contato com eles. — A senhora podia ter tomado parte nas reuniões dos grupos sem que ele participasse. Assinou o compromisso e não o honrou.

Sim ou não? — Sim. — E por isso a senhora abandonou sua filha na Rússia? Com um judeu? Para poder dar atenção a um inimigo do povo, a um traidor do Estado? Por isso negligenciou os seus deveres, excedeu o período de permanência e ficou na França? — Meu marido estava à morte. Precisava de mim. — E sua filha? Ela não precisava da senhora? Um marido moribundo é mais importante do que uma filha viva? Um traidor, um conspirador contra o povo? Soltando o pulso, Ostrakova segurou deliberadamente o copo de chá e ficou a ver o líquido subir, com o limão boiando à superfície. Para além do copo, viu um chão de ladrilhos sujos e, para além do chão, o rosto amado, bondoso e feroz de Glikman, pressionando-a, exortando-a a assinar, a partir, a prometer tudo o que eles quisessem. A liberdade de uma pessoa vale mais do que a escravidão de três, murmurara. Uma criança com pais como nós não poderá nunca prosperar na Rússia, quer você fique ou vá. Saia do país e nós faremos o possível por ir atrás de você. Assine qualquer coisa, parta e viva em liberdade por todos nós. Se você me ama, vá… — Eram dias duros — disse ela finalmente, num tom de quase reminiscência. — Eu era muito jovem. E os tempos ainda eram duros, apesar da morte de Stalin. — O criminoso Glikman continua lhe escrevendo? — perguntou o desconhecido, num tomsuperior, de quem sabe tudo. — Ele nunca me escreveu — mentiu ela. — Como é que ele podia escrever, sendo um dissidente, vivendo sob restrições? A decisão de ficar na França foi exclusivamente minha. Assuma todas as culpas, pensou ela. Faça o possível para poupar os que ainda estão sob as garras deles. — Nunca mais tive notícias de Glikman, desde que vim para a França, há vinte anos —acrescentou ela, criando coragem. — Indiretamente, soube que ele estava indignado com a minha atitude antissoviética. Não queria nem ouvir mais falar no meu nome. Acho que já estava pensando em fazer as pazes com o governo, quando o deixei. — Ele nunca escreveu dando notícias da filha de ambos? — estranhou o homem. — Nunca escreveu, nem mandou qualquer recado, já lhe disse. — Onde está a sua filha, agora? — Não sei. — Nunca recebeu nenhuma carta dela? — Claro que não.

Só soube que ela havia sido levada para um orfanato do Estado e adquirido outro nome. Presumo que ela nem saiba que eu existo. O desconhecido comeu de novo com uma das mãos, enquanto a outra continuava a segurar o caderninho. Encheu a boca, mastigou um pouco e depois engoliu tudo com a ajuda de um gole de cerveja. Mas o sorriso superior permaneceu. — E agora quem está morto é o criminoso Glikman — anunciou o homem, revelando o seu segredo. Continuou a comer. De repente, Ostrakova desejou que os vinte anos fossem duzentos. Desejou nunca ter conhecido Glikman, nunca o ter amado, cuidado dele, cozinhado para ele ou se embebedado com ele, dia após dia, no seu quartinho de exilados, vivendo da caridade dos amigos, privados do direito de trabalhar, de fazer qualquer coisa a não ser música e amor, se embriagar, passear nos bosques e sendo difamados pelos vizinhos. — Da próxima vez que eu ou você formos presos, eles se apossarão dela. Alexandra está condenada, aconteça o que acontecer — dissera Glikman. — Mas você pode se salvar. — Decidirei quando estiver lá — retrucara ela. — Decida agora. — Quando estiver lá. O desconhecido empurrou o prato vazio para o lado e de novo segurou o caderninho de couro com ambas as mãos. Virou uma página, como se fosse iniciar outro capítulo. — A respeito da criminosa da sua filha, Alexandra — anunciou, com a boca cheia. — Criminosa? — murmurou ela. Para seu espanto, o homem pôs-se a recitar um novo catálogo de crimes. Ouvindo-o, Ostrakova desligou-se por completo do presente. Seus olhos estavam fixos no chão de ladrilhos e ela reparou nas cascas de mariscos e nas migalhas de pão espalhadas em volta das mesas. Mas o seu pensamento voltara ao tribunal moscovita, onde o seu julgamento de novo decorria. Se não o dela, o de Glikman — mas não, tampouco era o de Glikman. De quem era, então? Lembrou-se de julgamentos a que os dois tinham assistido, como espectadores indesejáveis.

Julgamentos de amigos, mesmo que amigos por acidente, como pessoas que tinham questionado o direito absoluto das autoridades, ou idolatrado algum deus inaceitável, ou pintado quadros criminosamente abstratos, ou publicado poemas de amor politicamente perigosos. Os ruidosos fregueses do café transformaram-se na claque da polícia do Estado. O bater das bolas de bilhar, no barulho das portas de ferro. Nesta data, por ter fugido do orfanato do Estado, sito à rua tal, condenada a tantos meses de prisão corretiva. Noutra data, por insultar órgãos da Segurança do Estado, mais não sei quantos meses, prorrogados por mau comportamento, seguidos de vários anos de exílio no interior. Ostrakova sentiu o estômago revirado, ficou com medo de vomitar. Segurou o copo de chá com ambas as mãos e viu as marcas vermelhas que as suas unhas tinham deixado no pulso. O desconhecido continuou a falar e ela ficou sabendo que a filha pegara mais dois anos por se recusar a aceitar emprego numa fábrica — e por que haveria de se recusar, Deus do céu? Onde teria ela aprendido a se rebelar?, perguntou Ostrakova a si própria, incrédula. O que teria Glikman ensinado à menina, no pouco tempo em que estivera com ela, que a fizera ser como ele e derrotara todos os esforços do sistema? Medo, júbilo, espanto se sucederam no seu espírito, até que algo que o homem dizia a obrigou a prestar-lhe atenção. — Não ouvi o que o senhor disse — murmurou ela, passado muito tempo. — Estou desnorteada. Pode repetir o que acabou de dizer? Ele repetiu o que havia dito e ela olhou para ele, procurando se lembrar de todos os truques contra os quais tinha sido prevenida, mas eram demasiados e ela já perdera o hábito. Já não tinha a esperteza de Glikman — se é que alguma vez a tivera — para decifrar as mentiras deles e fazer o jogo deles por antecipação. Sabia apenas que, para se salvar e poder se reunir com o seu amado Ostrakov, cometera um terrível pecado, o maior pecado que uma mãe podia cometer. O desconhecido começara a ameaçá-la mas, por uma vez, a ameaça parecia sem sentido. Caso ela não colaborasse —dizia ele — uma cópia do compromisso que ela assinara para com as autoridades soviéticas chegaria às mãos da polícia francesa. Cópias dos seus dois relatórios inócuos (enviados, ele bem sabia, apenas para mantê-los quietos) seriam postas a circular entre os emigrados que ainda viviam emParis — embora já houvesse muito poucos vivos! Entretanto, por que haveria ela de se submeter a pressões a fim de aceitar um presente de valor tão extraordinário — quando, por um inexplicável ato de clemência, aquele homem, aquele sistema lhe acenavam com a chance de se redimir e salvar a filha? Ela sabia que as suas orações diárias pedindo a Deus perdão haviam sido ouvidas, os milhares de velas e os milhares de lágrimas não tinham sido em vão. Fez com que ele repetisse o que dissera. Fez com que ele afastasse o caderninho do rosto avermelhado e reparou que a boca fraca do desconhecido se arreganhara num meio sorriso e que, por mais incrível que parecesse, ele parecia pedir-lhe a absolvição, ao mesmo tempo em que repetia a mesma louca pergunta, inspirada por Deus: — Partindo do princípio de que se tenha decidido livrar a União Soviética desse elemento subversivo e antissocial, a senhora não gostaria de que sua filha Alexandra seguisse as suas pegadas e viesse para a França? Durante semanas, depois daquele encontro, e através de todas as furtivas atividades que se seguiram— idas à Embaixada Soviética, preenchimento de formulários, compromissos assinados —certificats d’hébergement — a via-crucis pelos sucessivos ministérios franceses, Ostrakova seguiu os seus próprios atos como se estivesse vendo outra pessoa. Rezava frequentemente mas, mesmo nas suas orações, adotava uma atitude conspiratória, dividindo-as entre as várias igrejas ortodoxas russas, de modo a não ser surpreendida em nenhuma delas com um indevido ataque de religiosidade. Algumas dessas igrejas não passavam de pequenas casas particulares, espalhadas pelos 15.º e 16.º arrondissements, com cruzes duplas de madeira a distingui-las e velhos anúncios em russo nas paredes, procurando acomodações baratas e oferecendo aulas de piano. Foi à Igreja dos Russos no Exterior, à Igreja da Aparição da Virgem Santíssima e à Igreja de São Serafim de Sarov. Foi a todas elas.

Tocava a campainha até que alguém viesse, um porteiro ou uma frágil mulher de preto, davalhes dinheiro e eles deixavam-na ajoelhar no frio úmido, diante dos ícones iluminados a velas, e respirar o cheiro forte do incenso até ficar meio tonta. Fez promessas ao Todo-Poderoso, agradeceuLhe, pediu-Lhe conselho, quase Lhe perguntou o que Ele faria se aquele desconhecido O tivesse abordado em circunstâncias semelhantes, recordou-Lhe que, de qualquer maneira, ela estava sendo pressionada e eles acabariam com ela, se não obedecesse. Ao mesmo tempo, porém, o seu indômito senso comum fazia com que se perguntasse por que motivo ela, entre todas as pessoas, a esposa do traidor Ostrakov, a amante do dissidente Glikman, a mãe — pelo que lhe haviam dito — de uma filha turbulenta e antissocial, teria sido merecedora de tão incomum indulgência. Na Embaixada Soviética, ao fazer o seu primeiro requerimento formal, foi tratada com uma consideração que nunca teria sonhado fosse possível conceder a uma espiã renegada, ou à mãe de uma jovem tida como subversiva. Não a mandaram aguardar numa sala de espera e sim numa sala de entrevistas, onde um jovem e simpático funcionário a tratou com uma cortesia positivamente ocidental, inclusive ajudando-a a expor adequadamente o seu caso. E ela não disse nada a ninguém, nem mesmo às pessoas mais chegadas — embora nem essas fossem muito chegadas. O aviso do homem ruivo não lhe saía dos ouvidos: qualquer indiscrição, por menor que seja, e a sua filha não ficará livre. E a quem, a não ser a Deus, podia ela apelar? À sua meia-irmã Valentina, que morava em Lyon e era casada com um vendedor de automóveis? A simples ideia de Ostrakova negociar com um funcionário secreto do governo de Moscou a faria ter um ataque. Num café, Maria? À luz do dia, Maria? Sim, Valentina, e o que ele disse é verdade. Tive uma filha ilegítima com um judeu. O que mais a assustava era que todos os seus esforços em nada resultaram. As semanas foramse passando. Na embaixada, disseram-lhe que o seu requerimento estava merecendo “a melhor das atenções”. As autoridades francesas tinham-lhe garantido que Alexandra não tardaria a poder se naturalizar francesa. O desconhecido ruivo persuadira-a a antecipar a data de nascimento de Alexandra, para que ela pudesse figurar como uma Ostrakova e não como uma Glikman — segundo ele, as autoridades francesas achariam mais aceitável. E parecia que tinham feito isso, embora ela nem sequer houvesse mencionado a existência da menina quando requerera a naturalização. De repente, não havia mais formulários a preencher, mais obstáculos a vencer e Ostrakova esperava, sem saber o que estava esperando. Que o desconhecido voltasse? Ele já não existia. Uma omelete de presunto com batatas fritas, uma cerveja alsaciana, dois pedaços de pão tinham aparentemente satisfeito todas as suas necessidades. Qual a sua ligação com a embaixada, ela não conseguia imaginar. Ele lhe dissera para se apresentar lá, que eles a estavam esperando. Tinha razão. Mas, quando ela se referira ao “seu enviado”, ao “seu funcionário alto e ruivo, que entrou em contato comigo”, deparou apenas com uma incompreensão sorridente. Assim, aos poucos, fosse o que fosse que ela estava esperando, deixou de existir. Primeiro, era algo futuro; de repente, pertencia ao passado, sem que ela tivesse se dado conta da transição, do momento em si.

Por acaso já teria Alexandra chegado à França? Obtido sua documentação, se instalado em algum lugar? Ostrakova começou a pensar que era bem provável. Tomada de uma nova e inconsolável sensação de desapontamento, começou a olhar para os rostos das jovens que passavam pela rua, imaginando como seria Alexandra. Ao voltar a casa, seus olhos caíam automaticamente no capacho, na esperança de ver algum bilhete escrito à mão, algum pneumatique: “Mamãe, sou eu. Estou no Hotel Tal…” Ou um telegrama, dando o número de um voo que chegaria a Orly no dia seguinte, naquela mesma noite — ou não aterrissaria em Orly, e sim no Aeroporto Charles de Gaulle? Não entendia nada de voos nem de companhias aéreas, de modo que entrou numa agência de viagens, a fim de perguntar. Podia desembarcar em qualquer um. Pensou em mandar instalar um telefone — uma despesa a mais — para que Alexandra pudesse lhe telefonar. Mas o que era que ela estava esperando, após todos aqueles anos? Um encontro choroso com uma filha adulta, que ela deixara pequenina? O reatamento, com vinte anos de atraso, de um relacionamento ao qual ela voltara deliberadamente as costas? Não tenho direito a ela, dizia a si mesma, severamente. Só tenho as minhas dívidas e as minhas obrigações. Voltou à embaixada, mas não sabiam de mais nada. As formalidades tinham sido encerradas, isso era tudo o que lhe podiam dizer. E se ela quisesse mandar dinheiro à filha? — perguntou, astuciosa — para ajudar na viagem, por exemplo, para obter o visto — não lhe poderiam dar o seu endereço ou o de um departamento através do qual ela pudesse contatá-la? Não somos dos correios, responderam-lhe. Aquele tratamento frio, depois da boa acolhida, assustou-a e ela não voltou mais lá. Depois disso, ela começou a pensar de novo nas várias fotografias nebulosas, todas iguais, que lhe tinham dado para juntar aos formulários de requerimento. As fotografias eram tudo o que ela tinha visto. Arrependia-se de não ter mandado tirar cópias, mas nem pensaria nisso: estupidamente, partira do princípio de que não tardaria a conhecer o original. Não as tivera consigo mais de uma hora. Correra diretamente da embaixada para o ministério com elas e, quando saíra do ministério, as fotos já haviam iniciado outra escalada de burocracia. Mas como ela as olhara! Meu Deus, como olhara para aquelas fotos, apesar de serem todas cópias da mesma! No metrô, na sala de espera do ministério, até na calçada, antes de entrar, olhara para aquela representação parada da sua filha, procurando descobrir, naquelas sombras cinzentas e sem expressão, alguma semelhança com o homem que adorara. Em vão. Até então, sempre que se atrevera a pensar na filha, imaginara as feições de Glikman tão marcadas na criança quanto no bebê que ela recordava. Parecia impossível que um homem tão forte não tivesse deixado a sua marca bem profunda e duradoura. Não obstante, Ostrakova nada vira de Glikman naquela fotografia. Ele fizera questão de se mostrar judeu, fazia parte da sua revolução particular. Não era ortodoxo, nem mesmo religioso, detestava a religiosidade secreta de Ostrakova quase tanto quanto a burocracia soviética — mas lhe pedira emprestado os rolos de cabelo para ondular as suíças, à maneira dos Hassidim, só para provocar, dizia ele, o antissemitismo das autoridades. Mas, no rosto jovem da foto, não reconhecera uma só gota do sangue dele, nem a menor centelha do seu fogo — embora esse fogo, segundo o desconhecido, continuasse a arder na moça com toda a força.

— Se tivessem fotografado um cadáver — pensou Ostrakova, em voz alta, no seu apartamento — eu não ficaria espantada. Com esse comentário, ela manifestava, pela primeira vez, a dúvida que crescia no seu espírito. Trabalhando no armazém, sozinha no seu diminuto apartamento, nas longas noites, Ostrakova puxava pela cabeça à procura de alguém em quem ousar confiar. Não lhe ocorria ninguém capaz de entender. Acima de tudo, não queria ser indiscreta e deitar a perder — assim lhe tinham assegurado — as chances de voltar a se reunir com Alexandra. Até que, uma noite, Deus ou a sua memória lhe forneceram uma sugestão: o General!, pensou, sentando-se na cama e acendendo a luz. O próprio Ostrakov lhe falara nele! Esses grupos de emigrados são o fim, costumava ele dizer-lhe, trate de evitá-los como se fossem uma praga. O único em quem você pode confiar é em Vladimir, o General. É uma raposa velha e um mulherengo, mas é um homem, tem ótimas ligações e sabe manter o bico calado. Mas Ostrakov dissera isso havia mais ou menos vinte anos e nem mesmo os generais são imortais. Além disso… Vladimir o quê? Ela nem sabia o sobrenome dele. Inclusive o nome de Vladimir, conforme Ostrakov lhe contara, fora adotado como nome de guerra, já que o verdadeiro nome dele era estoniano e não adequado para uso no Exército Vermelho. Não obstante, no dia seguinte, ela dirigiu-se à livraria que havia ao lado da Catedral de Santo Alexandre Nevsky, onde se obtinham informações sobre a minguante população russa, e fez os primeiros contatos. Deram-lhe umnome e um número de telefone, mas nada de endereço. O telefone estava desligado. Foi até os Correios, conversou os funcionários e conseguiu descobrir, numa lista telefônica de 1976, um certo “Movimento Pró-Liberdade dos Povos Bálticos”, seguido de um endereço em Montparnasse. Foi à lista de endereços e descobriu quatro outras organizações no mesmo lugar: O Grupo de Riga, a Associação das Vítimas do Imperialismo Soviético, o Comitê dos Quarenta Pro-Letônia Livre e o Comitê Tallinn Pró-Liberdade. Lembrava-se vividamente da péssima opinião que Ostrakov fazia desses movimentos, embora tivesse contribuído para eles. Mesmo assim, dirigiu-se ao endereço e tocou a campainha. A casa era igual a uma das pequenas igrejas que ela frequentava: antiga e quase fechada. Depois de muito tocar, um velho russo branco abriu a porta, metido num casaco de tricô mal abotoado, apoiado numa bengala e olhando-a com ar superior. Já se mudaram, disse, apontando com a bengala para a outra extremidade da rua empedrada. Dissolveram-se, desbancados por outros, acrescentou, com uma risada. Restavam muito poucos, havia demasiados grupos e brigavam como se fossem crianças. Não admira que o czar tenha sido derrotado! O velho tinha dentes falsos, que não se ajustavam bem, e cabelo ralo, grudado por cima do crânio, a fim de esconder a calva.

Mas e o General?, perguntou ela. Onde estava ele? Ainda vivia, ou… O velho quis saber se Ostrakova tinha negócios com ele. Não, respondeu ela mais que depressa, lembrando-se da fama que o General tinha de esbanjar dinheiro, e deu um sorriso envergonhado. O velho russo riu e os dentes chocalharam. — Oh, o General! — disse ele, rindo. Voltou com um endereço em Londres, carimbado a roxo num pedaço de cartão. O General não mudaria nunca, disse, dando-lhe o endereço. Quando chegasse ao céu, sem dúvida iria correr atrás dos anjos para tentar descobrir-lhes o sexo. Nessa noite, quando toda a vizinhança dormia, Ostrakova sentou-se à mesa onde o finado marido costumava trabalhar e escreveu ao General com aquela franqueza que reservamos para os desconhecidos, preferindo o francês ao russo, para dar um tom menos emocional. Contou-lhe do seu amor por Glikman e disse-lhe que o fato de o General amar as mulheres da mesma forma que Glikman lhe dava coragem. Confessou ter ido para a França como espiã e explicou como preparara os dois inócuos relatórios que haviam sido o preço da sua liberdade. Fora à contre-cœur, disse ela: invenções e evasivas, mais nada. Mas os relatórios existiam, bem como o compromisso que ela assinara, o que limitava em muito a sua liberdade. Depois, falou-lhe de si, das suas orações a Deus, da sua peregrinação pelas igrejas russas de Paris. Desde que o desconhecido ruivo a abordara, continuou, os dias nunca mais lhe tinham parecido reais. Tinha a sensação de lhe estar sendo negada uma explicação natural da sua vida, mesmo que dolorosa. Não lhe escondeu nada porque os seus sentimentos de culpa nada tinham a ver com os seus esforços de trazer Alexandra para o Ocidente, e sim com a sua decisão de ficar em Paris e cuidar de Ostrakov até ele morrer — depois do que, explicou, os soviéticos não a deixariam voltar, considerando-a tão traidora do regime quanto o marido. “Mas, General — escreveu ela — se esta mesma noite eu tivesse que enfrentar o meu Criador e Lhe dizer o que me pesa no coração, eu Lhe diria o mesmo que lhe digo agora: General, a jovem que eles querem que eu traga para a França não é a minha filha.” Mal acabou de escrever, fechou imediatamente a carta, de modo a não poder relê-la e mudar de ideia. Depois, colou uma porção de selos no envelope, como quem escreve uma última carta a umnamorado. Nas duas semanas que se seguiram ao envio da carta, nada aconteceu e, à maneira estranha das mulheres, aquele silêncio foi um alívio para ela. Depois da tempestade viera a calma, ela fizera o pouco que pudera — confessara as suas fraquezas, as suas traições e o seu grande pecado — e o resto estava nas mãos de Deus e do General. Uma greve nos correios franceses não a perturbou. Ao contrário, encarou-a como mais um obstáculo que aqueles que pretendiam modelar-lhe o destino teriam que vencer, se tivessem forças para isso. Voltou a trabalhar como antes e as costas deixaram de lhe doer, o que ela tomou como um bom augúrio.

Conseguiu até ficar de novo filosófica. É uma coisa ou outra, disse para si mesma: ou Alexandra estava no Ocidente e melhor do que antes — se realmente se tratava de Alexandra — ou ela estava onde estivera até ali, e não pior do que antes. Mas, aos poucos, foi-se apercebendo de que tudo aquilo não passava de um falso otimismo. Havia uma terceira possibilidade, a pior e a que, com o correr do tempo, ela passou a achar mais provável: a de que Alexandra estivesse sendo usada para um fim sinistro e, talvez, até criminoso; que a estivessem forçando, exatamente como ela própria, Ostrakova, fora forçada, aproveitando-se da humanidade e da coragem que o pai, Glikman, lhe transmitira. Por isso, na décima quarta noite, Ostrakova desatou a chorar e, com as lágrimas escorrendo-lhe pelo rosto, atravessou Paris à procura de uma igreja, qualquer uma que estivesse aberta, até chegar à Catedral de Santo Alexandre Nevsky. Estava aberta e, ajoelhando-se, ela rezou durante horas a São José, que, afinal de contas, era pai e protetor, além de ter dado a Glikman o seu primeiro nome, muito embora Glikman tivesse caçoado daquela associação. E, logo no dia seguinte, ela teve a prova de que as suas orações haviam sido ouvidas. Chegou uma carta, sem selo ou carimbo dos correios. Ela acrescentara o endereço do trabalho como precaução e, quando chegou ao armazém, de manhã, a carta já lá estava, à sua espera, presumivelmente entregue por um mensageiro, durante a noite. Uma carta muito breve, sem assinatura nem endereço do remetente. Da mesma forma que a sua, estava escrita à mão, num francês deficiente e na caligrafia ousada, quase napoleônica, de uma personalidade ditatorial, que só podia pertencer ao General. Madame! — começava, como se desse uma ordem. Sua carta chegou a salvo às minhas mãos. Um amigo da nossa causa irá visitá-la em breve. Trata-se de um homem de toda a confiança, que se identificará entregando-lhe a outra metade do postal anexo. Recomendo-lhe não falar com ninguém sobre este assunto, até ele chegar. Irá ao seu apartamento entre as oito e as dez horas da noite. Tocará três vezes sua campainha. Repito, ele tem toda a minha confiança. Confie inteiramente nele e tudo faremos para lhe dar assistência. Apesar de aliviada, ela não pôde deixar de achar divertido o tom melodramático do remetente. Por que não entregar a carta diretamente no apartamento dela?, pensou. E por que deverei me sentir mais segura pelo fato de ele me mandar uma metade de um postal inglês? Porque o pedaço do postal mostrava uma parte de Piccadilly Circus e estava rasgado, não cortado, diagonalmente, comviolência deliberada. O lado em branco não tinha nada escrito. Para espanto dela, o enviado do General procurou-a nessa mesma noite.

Tocou três vezes a campainha, conforme combinado na carta, mas ele devia saber que ela estava em casa — devia tê-la visto entrar e acender a luz — porque tudo o que ela ouviu foi um ruído na caixa da correspondência, um ruído muito mais alto do que o normal e, quando se aproximou da porta, viu o pedaço de postal rasgado caído no capacho, o mesmo capacho para o qual olhara tantas vezes, quando ansiava por notícias de Alexandra. Pegando no pedaço, correu para o quarto e abriu a Bíblia, onde guardara o outro pedaço e… sim, os pedaços combinavam, Deus estava do lado dela, São José intercedera por ela. (Mesmo assim, que bobagem, tudo aquilo!) E, quando lhe abriu a porta, ele esgueirou-se como se fosse uma sombra, um sujeitinho pequeno, enfiado num sobretudo preto com colarinho de veludo, que lhe dava um ar de conspirador de opereta. “Mandaram-se um anão para pegar um gigante” — foi a primeira coisa que lhe veio à cabeça. O homem tinha sobrancelhas arqueadas, o rosto sulcado de rugas e cornichos de cabelo preto sobre as orelhas pontudas, que endireitou com as pequenas mãos, no espelho do hall, após tirar o chapéu — tudo tão cômico que, em ocasião diferente, Ostrakova teria rido alto. Mas não essa noite. Nessa noite, ele nada tinha de cômico — apesar da sua aparência — mas uma gravidade que, ela percebeu imediatamente, não fazia parte do seu normal. Nessa noite, à semelhança de um homemde negócios que acaba de desembarcar de um avião — porque ela também sentiu que ele acabava de chegar a Paris, na sua limpeza, no seu ar de quem viaja com pouca bagagem — ele só queria ir direto ao assunto. — Recebeu a minha carta, madame? Falava russo fluente, apesar do sotaque estoniano. — Pensei que a carta fosse do General — retrucou ela, mostrando, embora não quisesse, uma certa secura. — Fui eu quem a trouxe — explicou ele, gravemente. Enfiou a mão num bolso e ela teve o horrível pressentimento de que, à semelhança do gigante russo, também ele fosse puxar de um caderninho preto. Em vez disso, porém, ele tirou uma foto e umolhar rápido bastou para que ela reconhecesse as feições pálidas e oleosas, a expressão de desprezo por todas as mulheres, e não só por ela. — Sim — disse Ostrakova. — É esse mesmo, o desconhecido. Vendo a felicidade dele aumentar, ela percebeu imediatamente que ele era o que Glikman e seus amigos chamavam “um dos nossos” — não necessariamente um judeu, mas um homem que sentia como se fossem seus os problemas dos outros, um homem com os mesmos ideais, enfim. Desse momento em diante, ela o chamou mentalmente de “o mágico”. Pensou nos bolsos dele como se estivessem cheios de truques e nos seus olhos alegres como tendo um quê de magia. Ostrakova e o mágico passaram a metade da noite falando um com o outro, com uma intensidade que ela esquecera havia muito. Primeiro, contou-lhe o caso uma vez mais, revivendo tudo o que acontecera, intimamente surpresa ao ver quanta coisa não mencionara na carta, mas que o mágico parecia saber de cor. Explicou-lhe seus sentimentos e suas lágrimas, a terrível confusão que reinava dentro dela. Descreveu a falta de jeito do suarento e ruivo desconhecido. Tão inepto — repetiu várias vezes, espantada — como se aquela fosse a primeira vez. Não tinha finesse, nem confiança emsi mesmo, nem sentido de privacidade. Tão estranho, pensar no Diabo como um desajeitado! Faloulhe da omelete de presunto, das batatas fritas e da cerveja alsaciana, e ele riu; da sua sensação de que se tratava de um homem perigosamente tímido e inibido, nada à vontade com mulheres.

E a tudo o pequeno mágico assentia cordialmente, como se ele e o homem pálido já se conhecessem. Ela confiou inteiramente no mágico, conforme o General lhe dissera: estava farta até não poder mais de suspeitar de todos. Falou com ele, pensou depois, com a mesma franqueza com que falara comOstrakov quando eram namorados de infância, na sua cidadezinha natal, agarrando-se um ao outro, murmurando ao som dos canhões que se aproximavam; ou com Glikman, enquanto esperavam que viessem bater à porta para levá-lo de volta à prisão. Falou para o seu olhar alerta e compreensivo, para o riso que havia nele, para o sofrimento que — sentiu imediatamente — constituía o melhor aspecto da sua natureza não-ortodoxa e, talvez até, antissocial. E, aos poucos, à medida que ia falando, o seu instinto feminino fez-lhe ver que ela estava alimentando uma paixão nele. Só que, desta vez, não se tratava de amor e sim de um ódio especial, que dava força e percepção a cada perguntinha que ele fazia. O quê ou a quem ele odiava exatamente, ela não saberia dizer. Mas tinha pena de qualquer homem, fosse ele o pálido desconhecido ou outro qualquer, que atraísse o fogo daquele diminuto mágico. A paixão de Glikman, recordou, tinha sido uma paixão geral e insone contra a injustiça, fixando-se quase a esmo numa série de sintomas, grandes ou pequenos, ao passo que a do mágico era como que um único facho, fixo num ponto que ela não podia ver.

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