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A Virgem e o Cigano – D. H. Lawrence

Quando a mulher do pastor fugiu com um homem ainda jovem e sem um tostão no bolso, o escândalo não conheceu limites. As suas duas pequenas filhas tinham apenas sete e nove anos, respetivamente. E o pastor era um marido tão bom! Sim, era verdade que tinha o cabelo grisalho, mas o bigode era escuro, ele era bonito e elegante e dominava-o ainda completamente uma paixão secreta pela sua impulsiva e bela mulher. Por que é que ela se foi embora? Por que é que ela fugiu dali com um tão grande escândalo de revolta, repentinamente, como se acometida de loucura? Ninguém dava uma resposta. Apenas as beatas diziam que ela era uma má mulher, enquanto algumas das mulheres de bom coração se mantinham silenciosas. É que elas sabiam. As duas filhas pequenas nunca o souberam. Magoadas nos seus sentimentos, concluíram que era porque a mãe as considerava dignas de desprezo. Os maus ventos, que nunca trazem nada de bom para ninguém, arrastaram consigo a família do pastor. Então, quando assim acontece, cuidado! O pastor, até certo ponto um distinto ensaísta e polemista, e cujo caso suscitara algum movimento de simpatia entre os homens de letras, recebeu o benefício eclesiástico de Papplewick. O Senhor temperou os ventos da infelicidade com uma paróquia no Norte. A casa paroquial era um edifício de pedra, bastante feio, junto do rio Papple, antes de se entrar na vila. Mais para diante, para lá do sítio onde a estrada atravessa o rio, encontravam-se as grandes e antigas fiações de algodão, outrora movidas a água. A estrada subia, às curvas, até às desoladas ruas de pedra da vila. Depois da sua transferência para a paróquia, a família do pastor sofreu profundas modificações. O pastor, agora pároco, mandou buscar a sua velha mãe e a irmã dele, bem como um irmão que vivia na cidade. Assim, as duas meninas tinham um ambiente muito diferente do que existira no antigo lar. O pároco tinha agora quarenta e sete anos; demonstrara um intenso e não muito dignificante desgosto, depois da fuga da sua mulher. Senhoras compreensivas’ tinham-no mantido afastado do suicídio. O cabelo tornara-se quase branco e a expressão do olhar era trágica e selvagem. Bastava olharmos para ele para vermos que terrível fora tudo o que lhe sucedera e como se transformara numa vítima. No entanto, algo soava a falso e algumas senhoras, que mais compaixão tinham mostrado pelo pastor, detestavam, em segredo, o pároco. Bem vistas as coisas, havia à sua volta uma certa aura de farisaísmo. As menininhas, claro, daquela maneira vaga que é habitual nas crianças, aceitavam o veredicto familiar. A avó, que tinha já mais de setenta anos e cuja vista começava a falhar, tornou-se a figura central da casa.


A tia Cissie, que já passara dos quarenta, pálida e piedosa, consumida por um mal interno, tratava da lida da casa. O tio Fred, um homem de quarenta anos, mesquinho e de rosto acinzentado, ia para a cidade todos os dias. Tinha um aspecto esquálido e vivia apenas para si próprio. E o pároco, claro, era a pessoa mais importante, depois da avó. Chamavam-na a Mater. Era uma daquelas pessoas fisicamente vulgares, velhas e espertas, que toda a sua vida tinham aberto o seu próprio caminho, bajulando as fraquezas dos homens. A Mater orientou-se muito rapidamente. O pároco ainda “amava” a sua esposa delinquente e continuaria a “amá-la” até morrer. Portanto, calemo-nos! Os sentimentos do pároco eram sagrados. No seu coração encontrava-se, como que encerrada num relicário, a pura jovem com quem ele casara e que adorara. Ao mesmo tempo e lá fora, no mundo diabólico, vagueava uma mulher mal afamada que traira o pároco e abandonara as suas criancinhas, e que estava agora submetida a um jovem desprezível que sem dúvida a conduziria até à degradação que ela merecia. Que isto fique bem claro e, depois,… calemo-nos! Pois na majestade autêntica do coração do pároco ainda florescia a branca e pura flor da sua jovem noiva. Esta branca flor nunca murchava. Aquela outra criatura, a que fugira com aquele jovem desprezível, não tinha nada a ver com ele. A Mater, que se sentira um pouco desprezada e insignificante no seu papel de viúva, numa pequena casa, içava-se agora à dignidade do cadeirão principal na casa paroquial e instalava de novo e com firmeza o seu velho corpanzil. Não permitiria que a destronassem. Astutamente, soltou um suspiro em homenagem à fidelidade do pároco à branca flor, enquanto fingia desaprovar. Numa dissimulada reverência pelo grande amor do seu filho, não murmurou nem uma palavra contra aquela vadia que florescia no diabólico mundo e que outrora fora chamada senhora Arthur Saywell. Agora, graças a Deus, e uma vez que ela se tinha casado de novo, já não se chamava senhora Arthur Saywell. Mulher alguma usava o nome do pároco. A branca e pura flor florescia in perpetuum, semqualquer nomenclatura. A família até pensava nela como sendo A-que-foi-Cynthia. Tudo isto era água para o moinho da Mater. Dava-lhe a garantia de que Arthur não voltaria a casar-se. Mantinha-o seguro pelo seu ponto mais fraco, pelo seu acobardado amor-próprio.

Casara com uma imperecível, uma branca e pura flor. Que homem de sorte! Tinham-no magoado! Oh, homem infeliz! Sofrera! Ah, que coração cheio de amor! E ele tinha perdoado! Sim, a branca e pura flor fora perdoada. Até contara com ela no seu testamento, enquanto aquele outro patife… mas silêncio! Não se deve sequer pensar demasiado naquela horrível vadia, à solta no vil mundo exterior! A-que-foi-Cynthia. Deixemos que a branca flor floresça inacessível nos píncaros do passado. O presente é outra história. As crianças foram educadas nesta atmosfera de astuta autossantificação e de coisas não mencionáveis. Também elas viam a branca flor lá no alto, em alturas inacessíveis. Também elas a sabiam entronizada, num solitário esplendor, muito acima das suas vidas, nunca destinada a ser tocada. Ao mesmo tempo, do vil mundo exterior, surgia por vezes um grosseiro e diabólico odor de egoísmo e degradada luxúria, o odor daquela horrível vadia, A-que-foi-Cynthia. Essa vadia conseguia, de vez em quando, fazer chegar um bilhetinho às mãos das suas raparigas, das suas filhas. Quando isso acontecia a Mater, com os seus cabelos prateados, tremia interiormente de ódio. Se Aque-foi-Cynthia alguma vez regressasse, não restaria grande coisa da Mamãe. Era então que uma secreta rajada de ódio saltava da velha avó para as crianças, filhas daquela lasciva vadia, daquela Cynthia, que demonstrara um desprezo tão afectuoso pela Mater. Misturado com tudo isto havia o fato de as crianças se recordarem perfeitamente da sua verdadeira casa, o vicariato no Sul, e da sua fascinante, mas pouco dependente, mãe, Cynthia. Ela brilhara muito, fora uma torrente de vida, um vivo e perigoso sol no lar, sempre a ir e a vir. Para elas, a presença da mãe estivera sempre associada ao brilho, mas também ao perigo; ao fascínio, mas com um assustador egoísmo. Agora o fascínio desaparecera e a branca flor, como uma grinalda de porcelana, gelava no seu túmulo. O perigo da instabilidade, essa espécie de egoísmo peculiarmente perigosa, como a dos leões e dos tigres, também desaparecera. Havia agora uma estabilidade completa, onde era possível sucumbir em segurança. Mas as raparigas estavam a crescer e à medida que cresciam tornavam-se mais definitivamente confusas, mais activamente intrigadas. A Mater, à medida que envelhecia, via cada vez menos. Tinha de haver alguém para a guiar. Nunca se levantava antes do meio-dia. No entanto, cega ou presa à cama, dirigia a casa. Além disso, não estava presa à cama.

Sempre que estavam presentes homens, a Mater encontrava-se no seu trono. Era demasiado astuta para cortejar a negligência, muito em especial porque tinha rivais. A sua grande rival era a rapariga mais nova, Yvette. Yvette tinha alguma da vaga e descuidada jovialidade de A-que-foi-Cynthia. Mas esta era um pouco mais dócil. A avó talvez a tivesse agarrado a tempo. Talvez! O pároco adorava Yvette e mimava-a com apaixonada ternura, o que era o mesmo que dizer: então não sou um homem indulgente e de terno coração? Ele gostava de ter fraquezas. Ela conheciaas, esta opinião que ele tinha de si mesmo, e a Mater também conhecia as opiniões dele e utilizavaas, transformando-as em enfeites para uso dele próprio, para lhe embonecarem o carácter. Ele desejava, a seus próprios olhos, possuir um carácter fascinante, tal como as mulheres desejamvestidos fascinantes. Assim, astuciosamente, a Mater colocava sinais de beleza por cima dos seus defeitos e deficiências. O seu amor maternal dera-lhe a chave para as fraquezas dele, fraquezas que ela escondia dele próprio, enfeitando-as. Enquanto aquela, A-que-foi-Cynthia…! Mas a este respeito, não a mencionemos. Aos seus olhos, o pároco era quase um corcunda e um idiota. Mas o mais engraçado era o fato de a avó, secretamente, odiar mais Lucille, a rapariga mais velha, do que a mimada Yvette. Lucille, a inquieta e irritável, estava mais consciente de se encontrar sob o domínio do poder da avó do que a distraída Yvette, estragada com mimos. Por outro lado, a tia Cissie odiava Yvette. Odiava até o seu nome. A vida da tia Cissie fora sacrificada à Mater, a tia Cissie sabia-o e a Mater sabia que ela o sabia. Este fato, enquanto os anos passavam, foi-se tornando numa convenção. A convenção do sacrifício da tia Cissie era aceite por toda a gente, incluindo a própria Cissie. E ela rezava muito por causa disso. O que também queria dizer que, algures, tinha os seus próprios sentimentos pessoais, coitada dela. Deixara de ser Cissie, perdera a sua vida e o seu sexo. E agora que se arrastava em direcção aos cinquenta, surgiam nela estranhos e verdes clarões de ódio e, nessas ocasiões, ficava como louca. Mas a avó mantinha-a sob o seu domínio e o único objectivo na vida da tia Cissie era o de tomar conta da Mater.

Os clarões verdes de ódio infernal da tia Cissie dirigiam-se, por vezes, contra tudo o que era jovem. Coitada dela, rezava e procurava conseguir o perdão dos céus. Mas aquilo que lhe fora feito ela não conseguia perdoar e o vitríolo corria-lhe nas veias, de vez em quando. Não seria o mesmo se a Mater fosse uma alma bondosa e amável. Não era esse o caso. Só por astúcia é que revelava aquelas qualidades. Lentamente, as raparigas aperceberam-se desse fato. Por debaixo da touca de renda, fora de moda, por debaixo do seu cabelo prateado, por debaixo da seda preta do seu corpo velho e dobrado para a frente, esta mulher tinha um coração manhoso, sempre buscando o seu próprio poder feminino. Por intermédio das fraquezas dos homens envelhecidos e cansados que ela criara, mantinha o seu poder, enquanto os anos passavam, dos setenta para os oitenta e dos oitenta para o salto seguinte, a caminho dos noventa. Isto porque na família havia toda uma tradição de “lealdade”; lealdade de uns para com os outros e especialmente para com a Mater. A Mater, claro, era o centro da família. A família era uma extensão do seu próprio ego. Muito naturalmente, cobria-a com o seu poder. Os filhos e as filhas, fracos e desunidos, eram, naturalmente, leais. E fora da família o que é que existia para todos eles, além do perigo, dos insultos e da ignomínia? Como se o pároco não tivesse já experimentado tudo isso, no seu casamento! Portanto, agora cuidado! Cautela e lealdade enfrentando o mundo! Que surjam todos os ódios e todos os atritos que quiserem no seio da família. Para o mundo exterior, apenas um teimoso muro de união! Capítulo 2 Porém, foi apenas quando as raparigas regressaram finalmente a casa, vindas da escola, que sentiram todo o peso da querida e velha mão da avó sobre as suas vidas. Lucille tinha agora quase vinte e um anos e Yvette dezanove. Haviam frequentado uma boa escola para raparigas, depois tinham passado um ano num colégio em Lausana e eram exatamente aquilo que é normal: criaturas jovens e altas, com rostos frescos e sensíveis, cabelos cortados curtos, maneiras varonis e despreocupadas. — O que é tão aborrecido em Papplewick — disse Yvette, quando ambas se encontravam a bordo do barco que atravessa o canal da Mancha, vendo as cinzentas falésias de Dover a aproximarem-se — é o fato de não haver lá homens. Por que é que o pai não tem bons companheiros como amigos? Quanto ao tio Fred, ele é o cúmulo! — Oh, nunca se sabe o que é que poderá acontecer — disse Lucille, mais filosófica. — Sabes perfeitamente com o que podes contar — retorquiu Yvette. — Coro aos domingos, e eu odeio coros mistos! As vozes dos rapazes são amorosas, quando não há mulheres. A Escola Dominical, a Sociedade Feminina de Socorro Mútuo, as reuniões sociais e todas aquelas velhas e queridas almas a perguntarem pela saúde da avó! Não há um rapaz decente muitos quilómetros à volta. — Oh, não sei! — disse Lucilie. — Temos sempre de contar com os Framleys.

E sabes bem que Gerry Somercotes te adora. — Oh, mas eu odeio tipos que me adoram! — gritou Yvette, erguendo o seu delicado nariz. — Eles aborrecem-me. Não nos largam! — Então, o que é que queres, se não suportas que te adorem? Acho que está perfeitamente certo que sejamos adoradas. Sabes que nunca virás a casar comeles, portanto, por que é que não havemos de deixar que continuem a adorar-nos, se isso os diverte? — Oh, mas eu quero casar-me! — exclamou Yvette. — Então, nesse caso, deixa que eles continuem a adorar-te até que encontres um com quem te seja possível casares-te. — Dessa maneira, nunca! Nada me irrita mais do que um tipo adorador. Aborrecem-me tanto! Fazem com que me sinta abominável. — Oh, também a mim, quando se tornam insistentes. Mas, à distância, penso que são muito agradáveis. — Gostaria de me apaixonar violentamente. — É natural! Pois eu, nunca! Odiaria tal coisa. E, provavelmente, o mesmo sucederia contigo, se na verdade isso te viesse a acontecer. No fim de contas, temos de assentar um pouco, antes de sabermos o que é que queremos. — Mas não te horroriza ter de voltar a Papplewick? — perguntou Yvette, erguendo o seu delicado e jovem nariz. — Não, nem por isso. E penso que nos vamos sentir muito aborrecidas. Gostaria que o pai arranjasse um carro. Creio que teremos de pôr cá fora as velhas bicicletas. Não gostavas de ir até ao pântano de Tansy? — Oh, adoraria! Mas é um esforço terrível empurrar aquelas bicicletas velhas pelas colinas acima. O navio aproximava-se das falésias cinzentas. Era Verão, mas o dia estava carregado. As duas raparigas usavam os seus casacos com as golas de pele erguidas e uns pequeninos chapelinhos à moda, puxados para cima das orelhas. Altas, elegantes, de rostos frescos, inocentes, mas confiantes, demasiado confiantes, na sua arrogância de meninas de escola, tinham um aspecto tão terrivelmente inglês! Pareciam tão livres, mas, na verdade, por dentro de si próprias, estavam tão emaranhadas e amarradas. Pareciam tão espirituosas e tão anticonvencionais e eram, na realidade, tão convencionais, como se tivessem fechado portas dentro de si mesmas.

Pareciam-se com veleiros, altos e elegantes, jovens e audaciosos, deslizando para fora do porto em direcção ao mar alto da vida. Mas eram, na realidade, duas pobres vidas sem rumo, deslocando-se de um ancoradouro para outro. Quando entraram, a casa paroquial gelou-lhes os corações. Parecia feia, quase sórdida, com o ar húmido daquele degenerado conforto de classe média, que já deixara de ser confortável e se tornara abafado e sujo. A casa de pedra, rígida, provocou nas raparigas uma violenta impressão de ser suja, sem que elas fossem capazes de dizer porquê. A mobília gasta parecia, de algum modo, sórdida, nada era novo. Até a comida, às refeições, apresentava aquela terrível e lúgubre sordidez que é tão repulsiva aos jovens chegados do estrangeiro. Carne assada, couve cozida, carneiro frio e puré de batatas, picles avinagrados e os pudins incríveis. A avó, “que adorava um bocado de carne de porco”, tinha também pratos especiais, caldo de carne e biscoitos, ou um louco de creme especialmente saboroso. A tia Cissie, de cara triste, não comia. Sentava-se à mesa e punha no prato uma única solitária e nua batata cozida. Nunca comia carne. Assim, sentava-se à mesa todo o tempo que a refeição durava em reclusão sórdida, enquanto a avó engolia rapidamente o seu bocado e só com muita sorte não entornava nada por cima do seu estômago protuberante. A comida, já por si, era pouco apetitosa: como é que o poderia ser, quando a tia Cissie odiava comida, odiava o fato de se comer e nunca conseguia manter uma criada durante mais de três meses! As raparigas comiam com repulsa, Lucilie aguentando com bravura, enquanto o delicado nariz de Yvette demonstrava claramente a sua repugnância. Apenas o pároco, de cabelos brancos, limpava os longos bigodes grisalhos com o guardanapo e dizia piadas. Também ele começava a ficar pesado e lento, passava todo o dia sentado no seu gabinete, sem nunca fazer qualquer exercício. Porém, estava todo o tempo a soltar piadinhas sarcásticas, ali sentado sob a protecção da Mater. A região, com as suas colinas íngremes e vales profundos e estreitos, era sombria e triste, mas tinha, em contrapartida, uma certa força, muito sua. A vinte milhas dali encontrava-se a mancha negra do industrialismo setentrional, mas, no entanto, a vila de Papplewick, em comparação, dir-se-ia isolada, quase perdida, e nela decorria uma vida pétrea e rígida. Tudo era pedra, pedra de uma dureza que era quase poética, e de uma tal austeridade! Era tudo tal como as raparigas tinham previsto: regressaram ao coro, ajudavam na paróquia. Mas Yvette recusou-se terminantemente a participar na Escola Dominical, na Banda da Esperança e na Sociedade Feminina de Socorro Mútuo, ou seja, manifestou-se contra todas aquelas funções que eram dirigidas por velhas solteironas cheias de determinação e por velhotes estúpidos e obstinados. Evitava o mais possível os serviços da igreja e sempre que podia escapulia-se da paróquia. Os Framleys, uma familia enorme, desordenada e divertida que vivia lá em cima na granja, eram uma grande ajuda. Se alguém a convidava para uma refeição, ou até se uma mulher, numa das casas dos operários, lhe pedia que ficasse para o chá, ela aceitava imediatamente. Na verdade, ficava encantada.

Gostava de falar com os trabalhadores, pois tinham, frequentemente, umas cabeças belas e sólidas. Mas, claro, eles pertenciam a um outro mundo. Assim se passaram os meses. Gerry Somercotes continuava a ser um dos seus admiradores. Havia também outros, filhos de agricultores ou de proprietários de moagens. Na realidade, Yvette devia ter passado um tempo agradável. Estava sempre a sair para festas e bailes, os amigos iambuscá-la, nos seus automóveis, e aí iam eles para a cidade, para as matinées dançantes, no hotel principal ou no novo e maravilhoso Palais de Danse, a que chamavam o Pally. No entanto, ela parecia sempre uma criatura hipnotizada. Nunca se sentia suficientemente livre para ser feliz. Algures, dentro de si própria, permanecia uma irritação intolerável que ela pensava que não devia sentir, e que odiava sentir, o que ainda tornava tudo pior. Nunca conseguiu compreender qual a sua causa. Em casa, mostrava-se na verdade impaciente e imutável e ultrajosamente rude para com a tia Cissie. De fato, o terrível temperamento de Yvette tornou-se, dentro da família, um dado adquirido. Lucille, sempre mais prática, arranjou emprego na cidade, como secretária particular de umhomem que, necessitava de alguém fluente em francês e estenografia. Ia e vinha todos os dias, no mesmo comboio que o tio Fred, mas nunca viajava com ele e, chovesse ou fizesse bom tempo, ia de bicicleta para a estação enquanto ele ia a pé. As raparigas tinham ambas decidido que o que queriam era uma vida social realmente intensa e divertida e ficavam bastante ressentidas pelo fato de a casa paroquial ser, para os seus amigos, impossível. No andar térreo havia apenas quatro divisões: a cozinha, onde viviam as duas criadas descontentes; a escura sala de jantar; o gabinete do pároco e a enorme e caseira sala de estar ou sala de visitas. Na sala de jantar havia um fogão a gás. A sala de estar era o único local onde ardia um bom fogão a lenha, porque aí reinava a Mater. Era nesta divisão que a família se reunia. à noite, depois do jantar, o tio Fred e o pároco jogavam invariavelmente às palavras cruzadas com a avó. — Então, Mater, estás pronta? N, espaço, espaço, espaço, espaço, W: funcionário siamês. — Eh? Eh? M, espaço, espaço, espaço, espaço, W? A avó ouvia mal. — Não, Mamãe. Não é um M! N, espaço, espaço, espaço, espaço, W: funcionário siamês.

— N, espaço, espaço, espaço, espaço, W: funcionário chinês. — Siamês. — Eh? — Siamês! Do Sião! — Funcionário siamês! Que é que poderá ser? — dizia a velha senhora com um ar de profunda reflexão, dobrando as mãos por cima do arredondado do estômago. Os seus dois filhos começavam a fazer-lhe sugestões, às quais ela respondia com um “Ah! Ah”. O pároco era surpreendentemente hábil nas palavras cruzadas e o tio Fred dispunha de um certo vocabulário técnico. — Esta é certamente uma das difíceis — dizia a velha senhora, quando todos ficavam calados, sem mais ideias. Entretanto, Lucille sentava-se num canto com as mãos tapando as orelhas, a fingir que lia, enquanto Yvette desenhava nervosamente ou entoava melodias, num tom alto e exasperante para ajudar ao barulho familiar. A tia Cissie estendia continuamente a mão para levar chocolates à boca e os seus queixos trabalhavam sem parar. Vivia quase exclusivamente de chocolates. Sentada na outra ponta da sala, metia outro chocolate na boca e depois olhava de novo para a revista paroquial. A seguir levantava a cabeça e via que eram horas de ir buscar a chávena de chá para a avó. Quando ela saiu da sala, Yvette, exasperada e nervosa, quis abrir a janela. A sala nunca estava arejada e ela sentia que cheirava à avó. E a avó, que ouvia mal, ouvia perfeitamente quando não era preciso. — Abriste a janela, Yvette? Creio que te devias lembrar que há pessoas mais velhas do que tu aqui na sala — dizia ela. — Está abafado! É insuportável! Não admira que todos nós estejamos sempre a apanhar resfriados. — Ora, a sala é suficientemente grande e um bom fogo arde na lareira. — A velha estremeceu um pouco. — Uma corrente de ar que pode nos matar a todos. — Não é nenhuma corrente de ar — gritou Yvette. Apenas uma lufada de ar fresco. A velha tremeu de novo e disse: — Estou a sentir! O pároco, em silêncio, avançou para a janela e fechou-a firmemente, sem olhar para a filha, pois não gostava nada de contrariá-la. Mas ela tinha de saber como era! O jogo de palavras cruzadas, inventado pelo próprio Satanás, continuava até a avó ter bebido o seu chá e preparar-se para ir para a cama. Então vinha a cerimónia das “boas-noites”! Toda a gente se levantava. As raparigas aproximavam-se para serem beijadas pela velha cega.

O pároco dava-lhe o braço e a tia Cissie seguia-os com uma vela. Mas isto era já perto das nove horas da noite, apesar de a avó estar realmente a ficar muito velha e devesse ir para a cama mais cedo. Mas quando ela já se encontrava deitada, não conseguia adormecer, enquanto não chegasse a tia Cissie. — Sabem — dizia a avó —, nunca dormi sozinha. Durante cinquenta e quatro anos, nunca dormi uma noite sem o braço do pai à minha volta. Quando ele nos deixou, tentei dormir sozinha. Mas era certo e sabido que logo que os meus olhos se fechavam para dormir o meu coração quase que saltava para fora do meu corpo e ali ficava eu, cheia de palpitações. Oh, podem pensar o que quiserem, mas era uma experiência terrível, depois de cinquenta e quatro anos de uma perfeita vida de casados! Teria rezado para morrer em primeiro lugar, mas o pai, bom, não creio que ele tivesse resistido a tal golpe… Assim, a tia Cissie dormia com a avó. Mas odiava fazê-lo. Dizia que ela não era capaz de dormir. Deste modo, ficou cada vez com pior aspecto, cada vez mais acabrunhada, e a comida na casa cada vez pior e a tia Cissie teve de fazer uma operação. Mas a Mater levantava-se, como sempre, perto do meio-dia e, durante o almoço, presidia à refeição da sua cadeira de braços, com o estômago saliente, o rosto vermelho e oscilante, cheio de uma espécie de horrível majestade, uma face a cair da testa ampla e onde espreitavam uns olhos azuis que nada viam. O cabelo branco começava a escassear e tinha até um ar um pouco indecente. Mas o pároco, jovialmente, dirigia-lhe piadas, que ela fingia desaprovar. No entanto, sentia-se perfeitamente satisfeita consigo mesma, ali sentada com aquela obesidade antiga e, depois das refeições, fazendo sair o ar do estômago, premindo o peito com uma das mãos, arrotava, num prazer físico grosseiro. Aquilo com que as raparigas mais se importavam, quando levavam os seus jovens amigos lá a casa, era o fato de a avó se encontrar sempre ali, como um horrível ídolo de carne velha, que atraía sobre si todas as atenções. Só havia aquela única sala para todos e ali estava a velha senhora sentada, enquanto a tia Cissie mantinha sobre ela uma sarcástica vigilância. Toda a gente devia ser, em primeiro lugar, apresentada à avó e ela estava sempre pronta a mostrar-se sorridente, pois gostava de companhia. Tinha de saber quem era toda a gente, de onde é que vinham, todas as circunstâncias das suas vidas. E, então, quando já estava au fait, monopolizava a conversa. Nada conseguia ser mais exasperante para as meninas. — Não é verdade que a velha senhora Saywell é maravilhosa?! Interessa-se tanto pela vida, com quase noventa anos! — Interessa-se pela vida, sim, mas é pela vida dos outros! — dizia Yvette. A seguir, sentia-se imediatamente culpada. No fim de contas era maravilhoso ter quase noventa anos e uma mente ainda tão esclarecida! E a avó na verdade não fazia mal a ninguém! Acontecia apenas intrometer-se. Era capaz de ser muito feio odiar alguém, só porque esse alguém era velho e intrometido.

Yvette arrependia-se imediatamente e tornava-se, então, amável. A avó florescia em reminiscências de quando ela era uma rapariga e vivia na pequena cidade de Buckinghamshire. Falava pelos cotovelos e era tão interessante. Na verdade, ela era mesmo maravilhosa. Uma tarde, apareceram a Lottie, a Ella, o Bob Framley e o Leo Wetherell. — Oh, mas entrem! E todos eles se atropelaram para entrarem na sala onde a avó, com a sua touca branca, estava sentada junto da lareira. — Avó, este é o senhor Wetherell. — É o senhor Que-é-que-disseste? Tem de me perdoar, sou um bocadinho surda! A avó estendeu a mão ao jovem, já um pouco constrangido, e olhou silenciosamente para ele, sem o ver. — Não é da nossa paróquia? — perguntou-lhe ela. — De Dinnington! — gritou ele. — Queremos ir a um piquenique amanhã, a Bonsaíl Head, no carro do Leo. Bem apertados, cabemos todos — disse Ella, em voz baixa. — Foi Bonsaíl Head o que disse? — perguntou a avó. — Sim! Houve um incómodo silêncio. — Disse que iam de carro? — Sim! No do senhor Wetherell. — Espero que seja um bom condutor. É uma estrada muito perigosa. — Ele é muito bom condutor. — Não é muito bom condutor? — Sim, é muito bom condutor. — Já que vão a Bonsaíl Head, podiam dar um recado a Lady Louth. Quando tinha companhia, a avó conseguia sempre puxar o nome desta famigerada Lady Louth para tema de conversa. — Oh, não passaremos por ai — gritou Yvette. — Por onde? — perguntou a avó. — Mas têm que ir por Heanor. Todo o grupo se sentou, segundo a expressão de Bob, como se fossem patos embalsamados remexendo-se nas cadeiras.

A seguir, entrou a tia Cissie, acompanhada da criada, que trazia o chá. Lá estava o eterno bolo ressesso, que nunca mais se comia e parecia durar para sempre. Depois apareceu um prato combolinhos pequenos, frescos. A tia Cissie mandara-os buscar à confeitaria. — O chá, Mamãe! A velha senhora fincava as mãos nos braços da cadeira. Todos se levantavam e ficavam imóveis enquanto ela, apoiada ao braço da tia Cissie, se deslocava lentamente e com dificuldade para o seu lugar à mesa. Durante o chá chegou Lucille, vinda do seu emprego na cidade. Estava completamente esgotada, com grandes olheiras. Soltou um grito ao ver toda aquela gente. Quando o barulho abrandou e voltou a surgir o constrangimento, a avó disse: — Nunca me tinhas falado do senhor Wetherell, pois não, Lucille? — Não me lembro — respondeu Lucille. — Não é possível que o tenhas feito. O nome é-me inteiramente estranho. Com um ar ausente, Yvette pegou noutro bolo do prato que agora se encontrava quase vazio. A tia Cissie, que ficava quase louca pelas maneiras distraídas e imprudentes de Yvette, sentiu a raiva apertar-lhe o coração. Pegou no seu próprio prato, onde ainda se encontrava o único bolinho de que se havia servido, e perguntou, com uma cáustica polidez, a Yvette: — Não queres também o meu? — Oh, obrigado! — disse Yvette, parecendo acordar da sua irritada distracção. Depois, com o mesmo ar de vaga despreocupação, serviu-se do bolo da tia Cissie, acrescentando: — Se tem a certeza que não o quer… No seu prato, tinha agora dois bolos. Lucille ficou branca como um fantasma e debruçou-se sobre o chá. A tia Cissie permaneceu imóvel, com um olhar esverdeado de envenenada resignação. O constrangimento estava a desaparecer. Mas a avó, sem perceber o que se passava, disse apenas, no meio do ciclone: — Se vão amanhã de carro até Bonsaíl Head, então quero, Lucille, que leves um recado meu a Lady Louth. — Oh! — exclamou Lucille, lançando um olhar embaraçado para o outro lado da mesa, para a velha cega. Lady Louth era a coroa de louros da família, que a avó invariavelmente puxava à conversa para benefício das visitas. — Muito bem! — Ela foi muito simpática a semana passada. Enviou-me o seu motorista com um livro de palavras cruzadas para mim. — Mas tu agradeceste nessa altura! — exclamou Yvette.

— Gostava de lhe enviar um bilhete. — Podes mandá-lo pelo correio — gritou Lucille. — Oh, não! Gostava que fosses tu a levá-lo. Quando a Lady Louth telefonou da última vez… Os jovens sentados, imóveis, como um cardume de peixes abrindo e fechando a boca silenciosamente à superfície da água, enquanto a avó continuava a sua conversa a respeito de Lady Louth. A tia Cissie, as duas raparigas sabiam-no bem, estava ainda desamparada, quase inconsciente, num paroxismo de raiva por causa do bolo. Talvez, coitada, estivesse a rezar. Foi um alívio quando os amigos se foram embora, mas nessa altura já as duas raparigas tinhamos olhos encovados. Foi então que Yvette, olhando em volta, viu a inflexível, implacável fome de poder na velha e aparentemente maternal avó ali sentada, protuberante, na sua cadeira, impassível, a velha face avermelhada e oscilante, bastante manchada, quase inconsciente, mas implacável, o rosto como uma máscara que ocultava algo frio, inexorável. Era a inércia estática do seu repugnante poder; no entanto, daí a um minuto abriria a sua boca antiga para investigar todos os detalhes a respeito de Leo Wetherell. De momento estava a hibernar na sua velhice e senectude, mas dentro de um minuto a sua boca abrir-se-ia, a sua mente tremularia acordada e com a sua insaciável voracidade pela vida, a vida de outras pessoas, começaria o inquérito em busca de todos os detalhes. Era como um velho sapo que Yvette observara, fascinada, instalado na borda da colmeia, mesmo em frente do pequeno orifício por onde entravam e saíam as abelhas. O sapo, com um movimento diabolicamente rápido, como um relâmpago, apanhava com as suas mandíbulas enrugadas todas as abelhas que deixavam o cortiço e engolia-as, uma a uma, como se fosse capaz de consumir todo o enxame dentro do seu corpo velho, protuberante, como um saco cheio de pregas. Engolira abelhas, quando elas mergulhavam no ar primaveril, ano após ano, durante gerações. Mas o jardineiro, que Yvette chamou, ficou raivoso e matou a criatura com uma pedra. — Eles são bons para comer as minhocas — disse ele, enquanto fazia a pedra descer. — Mas este acabará por engolir toda a colmeia, se o deixarmos

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