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A Viuva Indecisa – Georgette Heyer

ANOITECIA quando a diligência que fazia o trajeto Londres—Little Hampton desviou-se subitamente e entrou no povoado de Billingshurst, e um nevoeiro frio à altura do joelho começava a avançar furtivamente pela região rural que se avistava indistintamente. O coche parou à porta de uma estalagem e os degraus foram arriados para que uma pessoa pudesse descer. Quem desceu foi uma senhora sobriamente vestida numa peliça de cor castanha e um chapéu redondo, tipo boina escocesa, sem pluma. Enquanto ela esperava que uma grande mala atada com cordas e uma valise fossem retiradas do compartimento sob a boleia, o cocheiro, ao saber que estava alguns minutos adiantado em seu horário, prendeu as rédeas, desceu da boleia e, a despeito dos regulamentos que determinavam a conduta dos cocheiros de diligência, entrou gingando na taberna, à procura de algo revigorante que lhe permitisse realizar o restante da viagem sem comprometer uma constituição aparentemente enfraquecida. Nesse ínterim, a passageira ficou parada no meio da rua, com a mala aos seus pés, olhando em redor, um pouco indecisa. Supunha que a fossem receber, porém, como a experiência lhe ensinara que um cabriolé seria mais comumente empregado para apanhar a nova governanta do que a carruagem usada pelos patrões, ela hesitava aproximar-se do único veículo que conseguia distinguir, um brilhante e possante coche, parado do outro lado da rua. Enquanto ela permanecia olhando em redor, contudo, um criado pulou da boleia e, aproximando-se dela, levou a mão ao chapéu e indagou se ela seria a jovem senhora vinda de Londres, atendendo a um anúncio. À sua aquiescência, ele lhe fez uma pequena reverência, apanhou a valise e foi o primeiro a atravessar a rua em direção ao possante coche. Ela entrou no veículo, seu ânimo elevando-se inconscientemente diante dessa atenção inesperada ao seu conforto; e ficou mais encantada ainda com o gesto do criado ao estender uma manta sobre os seus joelhos e expressar sua esperança de que ela não ficasse gelada com o ar da noite. Os degraus foram levantados, a porta fechada, a mala grande depositada na capota e, em poucos instantes, o coche pôs-se em marcha, prosseguindo suavemente num modo satisfatório de locomover-se, formando um agradável contraste com a diligência sacolejante que a passageira tivera de suportar durante várias horas. Ela reclinou-se no encosto almofadado, com um suspiro de alívio. A diligência viera apinhada e a viagem fora desconfortável. Perguntava-se a si mesma se um dia chegaria a se acostumar com as economias desagradáveis da pobreza. Desde que tinha tido todas as oportunidades de habituar-se a essa contingência num período de seis anos, parecia improvável. Desalentada, porém determinada a não dar lugar a reflexões melancólicas, afastou seus pensamentos dos infortúnios de sua situação e procurou especular sobre a possível característica de sua nova posição. Fora sem grandes esperanças que ela partira de Londres bem cedo naquele dia. Sua patroa, vista apenas uma vez em uma entrevista intimidante no Fenton’s Hotel, não deixara nenhuma referência do generoso impulso que a induzira a enviar sua própria carruagem para ir esperar a governanta. A Srta. Eleanor Rochdale enganara-se ao julgar com severidade tanto seu busto avantajado quanto seus olhos mais proeminentes ainda, e, tivesse qualquer outra opção, não teria hesitado em recusar o cargo em sua casa. Nenhuma outra opção, porém, se lhe oferecia. Geralmente havia jovens cavalheiros em idade sensível nas famílias que solicitavam uma governanta, e a Srta. Rochdale, aos olhos das mamães mais prudentes, era muito jovem e muito bonita para ser uma candidata apropriada para o lugar. Felizmente, todavia — pois as economias da Srta. Rochdale eram insignificantes, e seu orgulho ainda muito grande para permitir que ela permanecesse por mais tempo como hóspede da sua própria ex-governanta —, o único filho da Sra. Macclesfield era um robusto menino de sete anos.


Segundo o relato da própria mãe, ele era alegre e de um temperamento tão suscetível que era preciso empregar o maior tato e persuasão para controlar suas atividades. Seis anos atrás, a Srta. Rochdale teria se encolhido por causa dos ataques de horror evidentemente reservados para ela, mas esses anos todos a ensinaram que a situação ideal dificilmente seria encontrada, e que onde não houvesse criança mimada para tornar a vida da governanta um fardo, provavelmente haveria a obrigação de poupar a bolsa da patroa, executando as tarefas subalternas geralmente conferidas à ajudante de criada. A Srta. Rochdale aconchegou mais a manta ao redor de suas pernas. Um espesso tapete de pele de carneiro sobre o piso do coche protegia seus pés contra a corrente de ar, e ela os aninhou ali muito grata, quase capaz de imaginar-se mais uma vez a Srta. Rochdale de Feldenhall, dirigindo-se a um sarau na carruagem de seu pai. As maneiras corretas do criado enviado para apanhá-la, a elegância da carruagem com cavalos ajaezados e a libre do lacaio surpreenderam-na um pouco; não julgara que a Sra. Macclesfield estivesse em condições financeiras tão confortáveis. Ao avistar o coche pela primeira vez, pensara ter visto um escudo na porta, mas na claridade indistinta do luscofusco era fácil cometer um engano. Começou a avaliar o provável nível de nobreza do estabelecimento à sua frente, assim como as diferentes características de seus moradores, e uma vez que estava com alegre disposição de ânimo, logo se perdeu nas malhas de várias histórias bastante improváveis. Ela foi chamada de volta ao ambiente que a cercava por um perceptível afrouxar na andadura dos cavalos; ao olhar pela janela, viu que a escuridão já se aproximara a essa altura. Não tendo a lua ainda aparecido, era impossível distinguir alguma coisa da região através da qual estava sendo conduzida, mas ela tinha a vaga sensação de um caminho estreito e sem dú— vida tortuoso. Não sabia há quanto tempo estava ali no coche, mas parecia um tempo considerável. Lembrava-se de que a Sra. Macclesfield descrevera sua casa em Five Mile Ash como estando a curta distância de Billingshurst, e só podia supor que o caminho para se chegar até lá devia ser mais tortuoso do que o costumeiro. Mas, à medida que o tempo passava, evidenciou-se que ou as noções de distância da Sra. Macclesfield eram rústicas, ou ela havia sido deliberadamente mentirosa. A viagem começava a parecer interminável; contudo, no momento exato em que a Srta. Rochdale nutria a suspeita de que o cocheiro se perdera na escuridão, os cavalos passaram da velocidade de um trote lento e regular para um andar a passo, e o veículo fez uma conversão em um ângulo agudo, suas rodas chocando-se com a superfície de cascalho irregular da mal conservada entrada de carruagem. A andadura foi retomada e mantida durante algumas centenas de metros. Então o coche imobilizou-se, e, mais uma vez, o empregado pulou da boleia. Uma tênue luz argêntea começava a iluminar o panorama, e, enquanto descia do coche, a Srta. Rochdale podia ver que a casa na qual estava a ponto de entrar era de um tamanho respeitável, embora construída em um estilo impreciso, e com um telhado de águas de pequena empena. Dois frontões In— m definidos e alguns grupos de chaminés muito altas apareciam em silhueta contra o céu noturno; e uma candeia ardendo em um dos aposentos revelava que as janelas eram de rótula.

Poucos momentos antes, um empregado puxara com força o grande sino de ferro, e o eco do seu clangor distante ainda soava quando a porta foi aberta. Um homem idoso, usando uma libre surrada, ficou segurando a porta para a Srta. Rochdale entrar na casa, obsequiando-a, enquanto ela passava por ele, com um olhar perscrutador, atento e um tanto ansioso. Ela mal notou isso, pois sua atenção foi atraída pelo ambiente que a cercava, surpreendente o bastante para obrigá-la a deter-se na entrada, olhando em redor de si num grande atordoamento. O que, seu cérebro espantado perguntava, a mulher que ela vira no Fenton’s Hotel tinha a ver com toda essa grandeza decadente? O vestíbulo onde ela se encontrava era um grande aposento modelado irregularmente com uma suntuosa escadaria de carvalho numa das extremidades e, na outra, uma colossal lareira de pedra, grande o suficiente para assar um boi inteiro, pensou a Srta. Rochdale, e com uma chaminé que poderia lançar fumaça a qualquer hora que algum imprudente acendesse o fogo no lajeado debaixo dela. O teto de estuque, enegrecido entre as vigas de carvalho, revelava como a observação prosaica da moça era correta. As escadas, como o piso do vestíbulo, não estavam atapetadas e careciam de polimento, longas cortinas de brocado outrora bonitas, mas agora desbotadas e em certos lugares puídas pelo uso, estavam corridas em toda a extensão das janelas; uma pesada mesa tipo console no centro do aposento portava, além de uma película de poeira, um rebenque, uma luva, um jornal amassado, um alguidar de latão embaçado possivelmente destinado a comportar flores, mas, agora, cheio de bugigangas, duas canecas de metal e uma tabaqueira; uma armadura completa e enferrujada achava-se junto ao final da escadaria; havia um brasão entalhado, pendurado em uma das paredes, com uma confusão de casacos lançados em seu topo; várias cadeiras, uma com o assento de palhinha rompido, e as outras estofadas de couro já surrado, estavam espalhadas aqui e ali; e nas paredes havia muitos quadros com pesadas molduras douradas, três cabeças de raposas roídas pelas traças, dois pares de chifres, além de várias pistolas grandes, usadas outrora pelos cavalarianos, e espingardas para a caça de aves selvagens. O olhar fixo e espantado da Srta. Rochdale pousou em seguida no criado que a recebera, e ela achou que ele a fitava com uma espécie de curiosidade melancólica. Algo na conduta dele, aliado, por assim dizer, à decadência deprimente que a cercava, forçosamente a fez recordar os romances mais fantásticos que se pode obter de uma biblioteca pública. Podia quase imaginar-se ter sido sequestrada, e foi forçada a concentrar todo o seu bom senso para dispersar a ideia ridícula. Com sua voz agradável e melodiosa, ela disse: — Eu não julgava que fosse tão distante do ponto de parada da diligência. Cheguei mais tarde do que esperava. — Ao todo são quase vinte quilômetros, senhorita — respondeu o mordomo. — Deve vir por aqui, por favor. Ela o seguiu pelo assoalho irregular até uma das portas que davam para o vestíbulo. Ele abriu-a, mas sua ideia de anunciá-la pareceu consistir apenas em um movimento súbito e brusco da cabeça, significando que ela devia entrar. Após um momento de hesitação, ela entrou, ainda mais aturdida, e, desta vez, consciente de uma pequena sensação de receio. Achava-se numa biblioteca. Era praticamente tão desordenada como o vestíbulo, mas uma grande quantidade de velas nos candelabros embaçados das paredes lançava uma claridade generosa no aposento, e um fogo de lenha ardia na lareira, na extremidade mais afastada da sala. Diante desse fogo, com uma das mãos apoiada no consolo e um pé calçado de bota sobre o guarda-fogo da lareira, encontrava-se um cavalheiro usando culotes de couro de gamo e um paletó cor de amora, olhando fixamente para as chamas crepitantes. Quando a porta se fechou depois que a Srta. Rochdale entrou, ele ergueu os olhos em sua direção, de modo avaliador, que poderia ter desconcertado uma pessoa menos acostumada a ser examinada como uma mercadoria à venda. Teria qualquer idade entre trinta e quarenta anos.

A Srta. Rochdale imaginava que ele devia ser o marido da sua patroa, e ficou bastante encorajada ao constatar que, além de ser um homem de aspecto e maneiras distintas, com um semblante bonito e um ar inconfundível de civilidade, estava vestido com esmero e propriedade, em discordância agradável com o ambiente. Na realidade, ele tinha toda a aparência de um homem elegante. Ele não se moveu para ir ao encontro dela, portanto a Srta. Rochdale caminhou para a frente, dizendo: -— Boa noite. O criado quis que eu entrasse neste aposento, mas talvez…? Pareceu distinguir uma leve expressão de surpresa no rosto do homem, mas ele respondeu, num tom frio: ao final da escadaria; havia um brasão entalhado, pendurado em uma das paredes, com uma confusão de casacos lançados em seu topo; várias cadeiras, uma com o assento de palhinha rompido, e as outras estofadas de couro já surrado, estavam espalhadas aqui e ali; e nas paredes havia muitos quadros com pesadas molduras douradas, três cabeças de raposas roí-das pelas traças, dois pares de chifres, além de várias pistolas grandes, usadas outrora pelos cavalarianos, e espingardas para a caça de aves selvagens. O olhar fixo e espantado da Srta. Rochdale pousou em seguida no criado que a recebera, e ela achou que ele a fitava com uma espécie de curiosidade melancólica. Algo na conduta dele, aliado, por assim dizer, à decadência deprimente que a cercava, forçosamente a fez recordar os romances mais fantásticos que se pode obter de uma biblioteca pública. Podia quase imaginar-se ter sido sequestrada, e foi forçada a concentrar todo o seu bom senso para dispersar a ideia ridícula. Com sua voz agradável e melodiosa, ela disse: — Eu não julgava que fosse tão distante do ponto de parada da diligência. Cheguei mais tarde do que esperava. — Ao todo são quase vinte quilômetros, senhorita — respondeu o mordomo. — Deve vir por aqui, por favor. Ela o seguiu pelo assoalho irregular até uma das portas que davam para o vestíbulo. Ele abriu-a, mas sua ideia de anunciá-la pareceu consistir apenas em um movimento súbito e brusco da cabeça, significando que ela devia entrar. Após um momento de hesitação, ela entrou, ainda mais aturdida, e, desta vez, consciente de uma pequena sensação de receio. Achava-se numa biblioteca. Era praticamente tão desordenada como o vestíbulo, mas uma grande quantidade de velas nos candelabros embaçados das paredes lançava uma claridade generosa no aposento, e um fogo de lenha ardia na lareira, na extremidade mais afastada da sala. Diante desse fogo, com uma das mãos apoiada no consolo e um pé calçado de bota sobre o guarda-fogo da lareira, encontrava-se um cavalheiro usando culotes de couro de gamo e um paletó cor de amora, olhando fixamente para as chamas crepitantes. Quando a porta se fechou depois que a Srta. Rochdale entrou, ele ergueu os olhos em sua direção, de modo avaliador, que poderia ter desconcertado uma pessoa menos acostumada a ser examinada como uma mercadoria à venda. Teria qualquer idade entre trinta e quarenta anos. A Srta. Rochdale imaginava que ele devia ser o marido da sua patroa, e ficou bastante encorajada ao constatar que, além de ser um homem de aspecto e maneiras distintas, com um semblante bonito e um ar inconfundível de civilidade, estava vestido com esmero e propriedade, em discordância agradável com o ambiente.

Na realidade, ele tinha toda a aparência de um homem elegante. Ele não se moveu para ir ao encontro dela, portanto a Srta. Rochdale caminhou para a frente, dizendo: — Boa noite. O criado quis que eu entrasse neste aposento, mas talvez…? Pareceu distinguir uma leve expressão de surpresa no rosto do homem, mas ele respondeu, num tom frio: — Certo, essas foram as minhas ordens. Por favor, sente-se! Espero que não tenha ficado esperando no ponto de parada da diligência. — Não fiquei, realmente! — respondeu ela, ocupando uma cadeira ao lado da mesa e cruzando as mãos sobre a bolsa em seu colo. — A carruagem aguardava por mim. Devo agradecer-lhe por têla enviado. — Eu seguramente tinha minhas dúvidas de que houvesse um veículo apropriado nestes estábulos — replicou ele. Esta observação, pronunciada como foi em um tom de indiferença, pareceu extremamente estranha para a Srta. Rochdale. Ela deve ter mostrado que estava confusa, pois ele acrescentou, formalmente: — Quero crer que a natureza exata da posição que lhe foi oferecida tenha sido explicada em Londres, não? — Creio que sim — ela respondeu. — Decidi que você devia ser trazida para cá diretamente — disse ele. Ela parecia surpresa. — Eu pensei… tinha a impressão… de que este era o lugar para onde deveria vir. — E é — respondeu ele, um tanto severamente. — Contudo, eu realmente não desejo que deva ficar sujeita a qualquer equívoco. Estou lhe dando a oportunidade para que veja com seus próprios olhos o que pode não lhe ter sido descrito adequadamente, antes de chegarmos a qualquer acordo definitivo. — Seus olhos cinzentos e francos percorreram o aposento desordenado enquanto ele falava, e depois voltaram para o exame que faziam do semblante da moça. Ela esperava que tivesse sucesso em preservá-lo inalterado. Disse: — Eu de fato não o compreendo, senhor. De minha parte, considerei-me definitivamente contratada quando parti de Londres para vir para cá. Ele inclinou-se ligeiramente. — Oh, sim! Se ainda desejar o lugar! Ela não estava certa de que desejava, mas a perspectiva de voltar para a cidade para procurar outra colocação obrigou-a a dizer, alegremente: — Farei o possível, senhor, para ocupar o lugar satisfatoriamente. — Ela detectou ironia no olhar firme de espanto dele e ficou embaraçada.

Com um rubor ligeiramente intensificado, acrescentou: — Contudo, eu não sabia que era o senhor quem me havia contratado. Pensei… — Não era necessário que soubesse — respondeu ele. — Uma vez que você se decidiu favoravelmente ao acordo, nada mais tenho a dizer a respeito. Pelo que vira de sua esposa, ela acreditou nisso sem grande esforço; a única surpresa que sentia era de que ele nada mais tinha a dizer a respeito. Contudo, suas maneiras eram muito próprias de um homem acostumado a mandar. Sentindo-se embaraçada, ela disse, depois de uma pequena pausa: — Talvez fosse aconselhável eu não perder tempo e travar logo conhecimento com meu pupilo. Ele franziu os lábios. — Um termo apropriado! — observou ele secamente. — Infelizmente, seu pupilo, no momento, não se acha no local. Logo o verá. Se o que já deve ter observado não a desanimou, você me encoraja a esperar que sua resolução não enfraquecerá quando for levada à sua presença. — Acredito que não, realmente — respondeu ela, com um sorriso. — Foi-me dado a entender, confesso, que eu poderia achá-lo um pouquinho… um pouquinho alegre, talvez. — Ou é um gênio para entender, madame, ou a verdade não lhe foi dita, se o que entendeu foi isso. Ela riu. — Bem, o senhor é muito franco! Eu não devia esperar que toda a verdade me fosse dita realmente, mas pude captá-la, lendo nas entrelinhas, imagino. — É uma mulher corajosa! — disse ele. A curiosidade dela aumentava. — Estou certa de que não sou nada disso! Apenas planejo o melhor que posso. Ouso afirmar que ele tem sido um pouco estragado com mimos? — Duvido que haja alguma coisa a ser estragada — respondeu ele. O tom frio e imparcial com que ele pronunciou essas palavras levou-a a responder num tom igualmente frio: — Estou convencida de que o senhor não deseja que eu me estenda demais sobre o que acabou de falar, senhor. Estou muito esperançosa de poder ensiná-lo a obedecer-me com o tempo. — Ensiná-lo a obedecê-la? — repetiu ele, com uma forte inflexão de surpresa na voz. — De fato você terá realizado algo importante se tiver sucesso fazendo isso! Além do mais, terá a honra de ser a única pessoa a quem ele tomou em consideração em toda a sua vida! — Sem dúvida, o senhor…? — Ela não conseguiu concluir. — Meu bom Deus, não! — respondeu ele impacientemente.

— Bem… bem, devo aplicar meus melhores esforços — disse ela. — Se pretende ficar, seria mais prudente voltar sua atenção para os males que possa remediar mais facilmente — disse ele, com outro olhar de desagrado pelo ambiente que o cercava. Ela ficou irritada e permitiu a si mesma responder com um toque de aspereza: — Não fui informada, senhor, de que era para preencher o lugar de governanta da casa que fui contratada. Estou acostumada a manter meus próprios aposentos em ordem e limpos, mas posso garantir-lhe que não me ocuparei do controle geral da casa. Ele deu de ombros e virou-lhe as costas para atiçar com o pé a lenha agora ardendo sem chamas. — Você fará como lhe parecer melhor — replicou ele. — Isso não compete a mim. Mas tire da cabeça qualquer ideia romântica que possa estar acalentando! Seu pupilo, conforme preferiu chamálo, talvez possa ser induzido a aceitá-la, mas isto porque eu o forçarei a fazê-lo, e não por qualquer outra razão. Não se iluda que ele venha a olhá-la com complacência! Eu de fato não espero que fique além de uma semana, nem precisa ficar tanto, a menos que prefira. — Não ficar além de uma semana! — exclamou ela. — Ele não pode ser tão ruim como o senhor quer que eu pense! É um absurdo falar desse modo! Perdoe-me, mas o senhor não deveria falar assim! — Quero que conheça a verdade, que tenha a oportunidade de reconsiderar sua decisão. Profundamente desanimada, ela só pôde dizer: — Devo fazer o que posso. Confesso, eu não tinha imaginado… mas não estou em condições… em condições de recusar levianamente… — Acho que não tinha imaginado mesmo. Suspeitei disso — disse ele. — Não poderia ter sido de outro modo. Ela olhou-o atentamente. — Bem! Isso é franqueza realmente! Estou certa de que não consigo imaginar por que, depois de me ter contratado, o senhor agora deveria estar tão inclinado a me mandar embora! Não obstante, ele sorriu, o que fez seu semblante um tanto amedrontador parecer muito mais agradável. — Sem dúvida é um absurdo — concordou ele. — Você não é o que eu esperava. Devo dizerlhe, madame, que a considero jovem demais. A coragem da moça soçobrou. — Não fiz segredo da minha idade, senhor. Talvez eu seja mais velha do que imagina. Tenho 26 anos. — Parece mais jovem — comentou ele.

— Espero que não precise denotar, senhor. Asseguro-lhe, não sou inexperiente. — Dificilmente teria tido uma experiência à altura da que se encontra à sua frente — retorquiu ele. Uma suspeita terrível passou pela mente da Srta. Rochdale. — Deus do céu, ele não é… ele por certo não pode ser… perturbado, não é? — exclamou ela. — Nada disso, ele é totalmente equilibrado — respondeu ele. — É ao conhaque, não à loucura, que se atribui a maior parte da sua propensão ao mal. — Conhaque! — ela deixou escapar um grito sufocado. Ele franziu o cenho. — Conhaque, sim. Eu suspeitava que não tivesse sido informada de tudo — disse ele. — Sinto muito. Tencionei… e, na verdade, ordenei… o contrário. Agora a Srta. Rochdale supunha que não era o seu pupilo mas o patrão que estava mentalmente perturbado. Levantou-se de um salto, dizendo com uma firmeza que ela esperava pudesse ocultar seu pânico interior: — Julgo, senhor, que seria melhor se eu me apresentasse sem mais perda de tempo à Sra. Macclesfield. — Quem? — perguntou ele, bastante confuso. — Sua esposa! — respondeu ela, retirando-se estrategicamente em direção à porta. Totalmente calmo, ele disse: — Eu não sou casado. — Não é casado? — exclamou ela. — Então… Teria eu me equivocado? Não é o Sr. Macclesfield? — Por certo que não — replicou ele. — Sou Carlyon.

Ele pareceu julgar esta declaração suficiente para informá-la de tudo que possivelmente ela desejasse saber sobre ele. A moça estava completamente aturdida e só conseguiu balbuciar: — Queira desculpar-me! Eu pensei… Mas onde, então, está a Sra. Macclesfield? — Eu acho que não conheço realmente a dama. — Não a conhece? Esta não é a casa dela, senhor? — Não — respondeu ele. — Oh, houve um terrível engano! — exclamou ela, de modo angustiante. — Não sei como isto pôde suceder! Na verdade, lamento muito, Sr. Carlyon, mas creio que me apresentei em casa errada! — Assim parece, senhora. — É a situação mais mortificante! Queira desculpar-me! Mas quando o criado perguntou se eu estava me apresentando em resposta a um anúncio, julguei… Eu devia ter pedido maiores informações! — Você veio respondendo a um anúncio? — interrompeu ele, erguendo a sobrancelha. — Não o meu, imagino! — Oh, não! Fui contratada pela Sra. Macclesfield para ser governanta de seus filhos… mais especificamente do garotinho. — Contra a vontade, ela começou a rir. — Oh, meu Deus, será que alguma coisa poderia ser mais absurda? O senhor bem pode imaginar que efeito suas palavras me causaram! — Imagino que deve ter julgado que estou maluco. — Julguei mesmo. Mas, de qualquer modo, isto não é um caso para rir! Por favor, onde estou, senhor? — Está em Highnoons, madame. Onde gostaria de estar? — A residência da Sra. Macclesfield fica em Five Mile Ash — respondeu ela. — Espero que não seja muito distante daqui, não?

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