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Abandonados em Andromeda – Clark Ashton Smith

“Camaradas, eu os desembarcarei no primeiro mundo do primeiro sistema planetário que encontrarmos.” A gélida determinação das palavras do Capitão Volmar era mais terrível do que qualquer demonstração de ira poderia ter sido. Seus olhos estavam frios e duros como gemas de safira sobre a neve e havia um rigor fanático no endurecimento de seus lábios após cada palavra pronunciada comrudeza. Os três amotinados olharam sombriamente um aos outros e depois ao capitão, mas nada disseram. O automatismo equilibrado de Volmar e dos três outros membros da tripulação do transporte espacial faziam todo apelo ou argumento parecer absurdo. Eles sabiam que não poderia haver qualquer abrandamento de sua parte, austero marinheiro dos vácuos interestelares que sonhara emcircunavegar o espaço e se tornar assim o Magalhães das constelações. Por cinco anos dirigira a grande embarcação mais e mais longe da Terra e do sistema solar, que haviam ambos diminuído há muito até se tornarem pontos de luz nos telescópios — por cinco anos ele a movera em frente mais rápido que a velocidade dos raios cósmicos, através da noite sem fundo e sem margens, por entre as estrelas móveis e nebulosas. A configuração dos céus tinha mudado além de todo conhecimento, os signos não eram mais aqueles conhecidos dos astrônomos terrestres: distantes estrelas haviam surgido como sóis escaldantes e novamente sido reduzidas a estrelas e houvera o encontro fugidio com planetas estranhos. E ano a ano o terror frio das profundezas sem fime o horror vertiginoso da infinitude incontável haviam crescido como uma lenta paralisia nas almas dos três homens, e a nostalgia da distante terra os havia subjugado com um mal estar indizível, até que não puderam mais suportar e fizeram sua apressada e mal planejada tentativa de tomar o controle da embarcação e voltá-la para casa. Fora uma luta breve e desesperada. Avisado por um instinto sutil, Volmar suspeitara deles e estivera preparado e assim, ele os homens que lhe eram leais tinham se armado furtivamente de antemão, enquanto os outros fizeram seu ataque de mãos vazias, homem a homem. Todos os amotinados haviam sido feridos, embora não com gravidade, antes de serem subjugados, e o seu sangue gotejava no chão da ponte de controle enquanto estavam diante de Volmar. Albert Adams, Chester Deming e James Roverton eram os nomes dos amotinados. Adams e Deming ainda eram bastante jovens e Roverton estava então se aproximando da meia idade. Sua simples presença na tripulação de Volmar era prova de capacidade intelectual e aptidão física superiores, pois todos haviam sido submetidos a exames dos mais rigorosos e prolongados. Umgrande conhecimento de matemática, química, física, astronomia e outras áreas do conhecimento tinha sido exigido, bem como o conhecimento da mecânica e uma compleição física perfeita, de visão, audição e equilíbrio. Além disso, não é preciso dizer que pertenciam ao tipo mais ativo e aventureiro, pois nenhum homem comum teria se voluntariado para um projeto tal como o de Volmar. Inumeráveis viagens já tinham sido feitas à Lua e aos planetas próximos, mas antes daquela, exceto por uma viagem a Alfa Centauro feita pela expedição de Allen Farquhar, ninguém desafiara o vazio externo e as constelações. Volmar e os três que lhe haviam permanecido leais eram do mesmo tipo: homens de devoção religiosa e quase desumana a um ideal, cientistas para quem nada mais importava fora da ciência, que eram capazes de martirizar-se e a outros se isso pudesse provar uma teoria ou contribuir para uma descoberta. E no próprio Volmar havia um espírito de louca aventura, um desejo de pisar aonde nenhum homem jamais estivera, a fria chama de um desejo imperativo da imensidão inexplorada. Os amotinados eram mais humanos, e os anos de estéril confinamento no transporte espacial, entre os terríveis abismos do infinito, longe de tudo o que é a vida das pessoas normais, havia alquebrado sua moral, por fim. Poucos, talvez, teriam suportado tanto quanto eles. “Uma outra coisa”, a voz fria de Volmar continuou: “Eu os deixarei sem armas, provisões ou tanques de oxigênio. Vocês terão que prover-se por si mesmos… e é claro que é provável que a atmosfera, se alguma houver, se revelará imprópria para a respiração humana. Jasper vai agora atálos, para que não aconteça mais nenhuma tolice.


” Alton Jasper, um conhecido astrônomo que era o primeiro oficial do transporte, deu um passo à frente e amarrou as mãos dos amotinados por trás deles usando uma corda. Depois eles foramtrancados em um apartamento na parte de baixo da embarcação, acima da escotilha de entrada e saída. Este apartamento estava isolado de todos os outros e a escotilha era aberta a partir da ponte de comando, por meio de um aparelho elétrico. Lá os amotinados permaneceram em escuridão absoluta, exceto quando alguém entrava com uma escassa ração de comida e bebida. Eras pareceram transcorrer e os três homens abandonaram o esforço de contar o tempo. Falavampouco, pois nada havia a se dizer a não ser fracasso, desespero e o horrível e desconhecido destino que enfrentariam. Às vezes um deles, particularmente Roverton, tentaria valentemente contar uma piada, mas a risada que respondia era como o último jorro de uma coragem provada além da capacidade humana de resistir. Um dia ouviram a voz de Volmar que os chamava através de um tubo de comunicação. Estava distante, alta e sem peso, como uma voz de uma altitude sideral. “Estamos agora nos aproximando de Delta Andromedæ”, a voz anunciou. “Ela tem um sistema planetário, pois dois mundos já foram avistados. Devemos pousar e deixar vocês no mais próximo deles, em cerca de duas horas.” Os amotinados sentiram certo alívio. Qualquer coisa, mesmo a morte súbita pela inalação de uma atmosfera irrespirável, seria melhor do que o longo confinamento. Estoicamente, como condenados à morte, eles se prepararam para o mergulho fatal no desconhecido. Os negros minutos se esgotaram e então as luzes elétricas foram acesas. A porta se abriu e Jasper entrou. Ele removeu em silêncio as amarras dos três homens, então se retirou e a porta foi trancada para eles pela última vez. Eles perceberam, de alguma maneira, que o transporte havia reduzido sua velocidade. Tentaram pôr-se de pé com seus membros enrijecidos e descobriram que era difícil manter o equilíbrio porque tinham se acostumado a uma velocidade de deslocamento muito além da de qualquer corpo cósmico. Então perceberam que a nave tinha parado: houve um súbito salto que jogou-os contra a parede e depois cessou o onipresente zumbido das máquinas. O silêncio era muito estranho porque a vibração dos grandes motores eletromagnéticos tinha sido familiar por tanto tempo quanto a pulsação de seu próprio sangue. A escotilha se abriu com um guinchar metálico agudo e entrou um brilho suave de luz azul esverdeada. Então veio uma rajada de vento acre e um cheiro carregado do odor indescritível de coisas que não se pareciam com nada da Terra. Os amotinados ouviram mais uma vez a voz de Volmar: — Saiam vocês, e saiam rápido.

Não tenho mais tempo a perder com lixo. Prendendo a respiração, Roverton se aproximou da escotilha, rastejou através dela e desceu pela escada de aço que ficava do lado externo do transporte. Cada um dos outros o seguiu por sua vez. Não podiam enxergar muito, porque era aparentemente noite ainda no mundo novo em que eramdesembarcados. Eles pareciam suspensos sobre um abismo indefinido e sem fundo, mas ao chegaremao fim da escada descobriram que havia chão sólido sob seus pés. O ar, embora ardente e desagradável às narinas, era aparentemente respirável. Deram uns poucos cuidadosos passos, permanecendo juntos, em uma superfície que era suave e nivelada sob suas pisadas. E quando ainda tentavam ajustar os seus sentidos às cercanias sombrias viram a forma vaga do transporte começar a se mover e então ouviram o rugido prodigioso de sua subida aos céus. — Abandonados! — disse Roverton, com uma risada breve — Bem, uma coisa é certa: somos os primeiros amotinados jamais deixados em Andrômeda. Voto por tirarmos o máximo de proveito da experiência. O ar ainda não nos matou, então é evidente que contém uma proporção de hidrogênio e oxigênio não muito diferente da atmosfera da Terra. E com esse ar existe uma boa chance de acharmos vida vegetal, ou até animal, de uma espécie que nos proporcione substâncias comestíveis. Os três homens olharam em volta, firmando os olhos em um esforço para penetrar a escuridão azul esverdeada. Nenhum deles era sem imaginação, e eles sentiram a tensão de uma estranheza semparalelo, uma opressiva alienação que atacava os seus nervos com um milhão de coisas amorfas ou não reveladas, nunca antes conhecidas pelo homem. Sua situação era inconcebivelmente desoladora, mas além da desolação parecia latente a abundância multiforme e numerosa da vida extraterrestre. No entanto não podiam ver nada de tangível, exceto umas massas vagas e imóveis que pareciamgrandes rochedos. O ar estava um tanto frio e a sua característica acidez se tornava mais perceptível, em uníssono com uma escuridão peculiar. Os céus acima eram tênues e vaporosos, com umas poucas estrelas brilhando palidamente em suas profundezas. Algumas destas estrelas eram momentaneamente obscurecidas e então reveladas, como se houvesse algum tipo de movimento ou mudança no meio que as ocultava. Por toda parte havia o senso de uma distância abismal e incomensurável, e os amotinados tinham consciência de uma vertigem estranha e impressionante, como se o espaço horizontal em todas as direções os pudesse atrair para algum abismo sem fundo. Roverton deu um passo adiante, em direção a uma das massas que pareciam rochedos, notando cuidadosamente a atração gravitacional exercida pelo chão. Ele não tinha certeza, mas pensou experimentar uma sensação de peso, de dificuldade na locomoção, um pouco mais do que é sentida na terra.

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