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Abduzidos – Robin Cook

Uma vibração esquisita despertou Perry Bergman de um sono inquieto, e instantaneamente umestranho pressentimento o invadiu. O desagradável murmúrio o fez recordar unhas raspando umquadro-negro. Estremecendo, ele jogou para o lado o cobertor. Quando se ergueu, viu que a vibração continuava. Os pés descalços sobre o convés de metal lhe davam a impressão de se tratar de uma broca de dentista. Logo abaixo era capaz de detectar o zunido normal dos geradores do navio e o ronco dos ventiladores de ar-condicionado. – Mas que diabo?…– disse em voz alta, mesmo não vendo ninguém ao alcance de sua voz para poder lhe dar alguma explicação. Tinha vindo de helicóptero até o navio, o Benthic Explorer, na noite anterior, depois de um longo vôo de Los Angeles até Nova York e de lá até Ponta Delgada, na ilha açoreana de San Miguel. Devido à mudança de fusos horários e após ouvir uma longa exposição dos problemas técnicos que a equipe técnica de sua empresa vinha enfrentando, estava compreensivelmente exausto. Não gostou de ser despertado depois de apenas quatro horas de sono, ainda mais por uma vibração tão intensa. Arrancando do gancho o receptor do intercomunicador do navio, pressionou irritado os botões, digitando o número da ponte de comando. Enquanto aguardava que a ligação se completasse, espiou pela vigia de sua cabine VIP, pondo-se na ponta dos pés. Com um metro e setenta de altura, Perry não se considerava baixo, mas simplesmente um cara que não era alto. Lá fora o sol mal havia se erguido acima do horizonte. O navio projetava uma longa sombra sobre o Atlântico. Perry estava olhando para o oeste, além de um mar enevoado e calmo, cuja superfície lembrava uma vasta extensão de chumbo fundido. A água ondulava-se sinuosamente com ondas baixas e bem separadas umas das outras. A serenidade da cena contrastava com os acontecimentos que se davam abaixo da superfície. O Benthic Explorer estava sendo mantido numa posição fixa por um sistema de posicionamento dinâmico comandado por computador, que movimentava os hélices propulsores bem como os impelidores de proa e de ré acima de uma parte da vulcânica e sismicamente ativa Cadeia Meso-Atlântica, uma cadeia de montanhas pontiagudas de mais de 20 mil quilômetros de extensão, que divide o oceano. Com a extrusão constante de enormes quantidades de lava, as explosões submarinas de vapor e freqüentes miniterremotos, a cordilheira submersa era a antítese da tranqüilidade estivai da superfície do oceano. – Ponte – Perry ouviu uma voz entediada dizer. – Onde está o capitão Jameson? – indagou Perry, irritado. – Na cama dele, pelo que sei – disse a voz, tranqüilamente. – Mas que porra de vibração é essa? – insistiu Perry. – Sei lá, mas não está vindo do grupo gerador do navio, se é o que quer saber.


Senão eu teria ouvido da sala de máquinas. É provável que seja apenas a sonda de perfuração. Quer que eu ligue para a cabine de perfuração? Perry não respondeu; só bateu o telefone na cara do outro. Não podia acreditar que o sujeito lá da ponte não estivesse pensando em investigar a vibração ele mesmo. Será que não estava ligando a mínima para o trabalho? Perry ficou fulo da vida com aquela falta de profissionalismo na operação do navio, mas resolveu tratar disso depois. Em vez disso tentou se concentrar em vestir sua calça jeans e blusa grossa de gola alta. Não precisava que ninguém lhe dissesse isso para saber que a vibração podia estar vindo da sonda de perfuração. Estava na cara. Afinal, tinha sido devido a dificuldades na perfuração que ele havia vindo de Los Angeles. Perry sabia que havia apostado o futuro da Benthic Marine naquele projeto: perfurar uma câmara magmática no interior de uma montanha submarina a oeste dos Açores. Era um projeto independente, e por isso a empresa estava gastando em vez de receber, de forma que a sangria de dinheiro estava sendo pavorosa. A motivação de Perry para essa empreitada estava na crença de que o feito iria chamar a atenção da opinião pública, concentrar o interesse na exploração submarina e catapultar a Benthic Marine para a dianteira da pesquisa oceanográfica. Infelizmente, parecia que o empreendimento não estava saindo como havia sido planejado. Depois de se vestir, Perry deu uma espiada no espelho acima da pia no banheiro apertado. Alguns anos antes ele não teria se incomodado em fazer isso. Mas as coisas haviam mudado. Agora, que estava com mais de quarenta, achava que a aparência desleixada que costumava funcionar a seu favor estava fazendo com que ele parecesse velho, ou, na melhor das hipóteses, cansado. Os cabelos estavam ficando ralos, e ele precisava de óculos para leitura, mas ainda exibia um sorriso triunfante. Perry tinha orgulho de seus dentes brancos e perfeitamente alinhados, principalmente porque enfatizavam o bronzeado que ele fazia tudo para não perder. Satisfeito com seu reflexo, tratou de ir saindo da cabine e correr pelo corredor. Quando passou pelas portas do capitão e do imediato sentiu-se tentado a esmurrá-las para desabafar sua irritação. Sabia que as superfícies de metal iriamreverberar como timbales, despertando brutalmente os ocupantes adormecidos de seu pesado sono. Como fundador, presidente e maior acionista da Benthic Marine, ele esperava que as pessoas ficassem mais alerta quando ele estivesse a bordo. Será que era o único que estava preocupado o suficiente para investigar aquela vibração?Quando chegou ao convés superior, Perry tentou localizar a fonte do zunido estranho, que agora se mesclava ao som da sonda em funcionamento. O Benthic Explorer era uma embarcação de quatrocentos e cinqüenta pés com uma sonda de perfuração de vinte andares a meia nau, sobre um poço central.

Além da sonda de perfuração, o navio gabava-se de ter um complexo de mergulho saturado, um submersível para águas profundas e vários trenós de câmera móveis controlados remotamente, cada um com uma impressionante série de câmeras fixas de monitoração e câmeras de televisão para gravação. Combinando-se esse equipamento com um amplo laboratório, o Benthic Explorer dava a sua empresa-mãe, a Benthic Marine, a capacidade de realizar uma extensa gama de estudos e operações oceanográficos. Perry viu a porta da cabine de perfuração aberta. Um homem gigantesco apareceu. Bocejou e espreguiçou-se antes de erguer as alças do macacão para recolocá-las sobre os ombros e pôr na cabeça o capacete amarelo onde se lia Supervisor de Turno em letras de fôrma acima do visor. Ainda meio entorpecido de sono, ele se encaminhou para a mesa rotativa. Obviamente não estava com pressa alguma, apesar da vibração que percorria o navio. Apressando o passo, Perry alcançou o homem exatamente no momento em que dois outros operários se juntaram a ele. – Já faz vinte minutos que está acontecendo isso, chefe – disse um dos homens de área berrando acima do barulho da sonda. Todos os três ignoraram Perry. O capataz que supervisionava o turno resmungou ao calçar um par de pesadas luvas e atravessou todo lampeiro a estreita grade de metal sobre o poço central. O sangue-frio dele impressionou Perry. A passarela parecia frágil e tinha apenas um corrimão baixo para evitar que alguém caísse 15 metros e batesse contra a superfície do oceano lá embaixo. Atingindo a mesa rotativa, o supervisor curvou-se e colocou ambas as mãos enluvadas em torno do eixo em rotação. Não tentou agarrá-lo com força, mas deixou-o girar entre as mãos. Inclinou a cabeça para o lado enquanto tentava interpretar o tremor transmitido tubo acima. Levou apenas um momento fazendo isso. – Parem a sonda! – berrou o gigante. Um dos peões correu de volta ao painel de controle externo. Dentro de instantes a mesa rotativa parou, estalando, e a vibração cessou. O supervisor voltou e subiu ao convés. – Mas que merda! A broca arrebentou de novo! – reclamou ele, com uma expressão de ódio. – Isso já está parecendo até brincadeira de mau gosto. – O engraçado foi que nós só perfuramos um metro, mais ou menos, nos últimos quatro ou cinco dias – disse o outro peão. – Cale essa boca! – disse o gigante.

– Vê se vai até ali e me iça a coluna de perfuração até a cabeça do poço! O segundo assistente de sonda foi ajudar o primeiro. Quase imediatamente ouviu-se novo somde máquinas potentes enquanto os guinchos eram engatados para cumprir a ordem do capataz. O navio estremeceu. – Como tem certeza de que a broca se quebrou? – berrou Perry, tentando se fazer ouvir apesar do barulho. O capataz baixou o olhar para ele. – Experiência – berrou, depois virou-se e afastou-se a passos largos na direção da popa. Perry foi obrigado a correr para alcançá-lo. Cada passada do supervisor era o dobro de uma das suas. Perry tentou fazer nova pergunta, mas o homem não ouviu ou ignorou-o. Eles chegaram à escada meia-laranja e o supervisor começou a subir, três degraus de cada vez. Dois conveses acima, ele entrou num corredor e depois parou diante da porta de um compartimento. O nome que se lia na porta era MARK DAVIDSON, COMANDANTE DE OPERAÇÕES. O capataz bateu à porta com toda a força. A princípio, a única resposta foi um acesso de tosse, mas depois uma voz lhe disse para entrar. Perry espremeu-se no pequeno compartimento atrás do capataz.– Más notícias, chefe – anunciou o capataz. – Acho que a broca estourou de novo. – Mas que horas são, cara? – indagou Mark. Passou os dedos através dos cabelos arrepiados. Estava sentado na beira da cama, de cueca e camiseta. O rosto estava inchado, e a voz, grossa de sono. Sem esperar resposta, estendeu o braço para pegar um maço de cigarros. O ar no quarto estava fedendo a fumaça entranhada. – São mais ou menos zero-seiscentos – informou o capataz. – Meu Deus – exclamou Mark.

Os olhos dele depois focalizaram Perry. Mostraram surpresa. Ele piscou. – Perry? O que está fazendo acordado? – Não tinha como dormir com essa vibração – disse Perry. – Que vibração? – indagou Mark. Olhou outra vez para o supervisor de turno, que fitava Perry. – Você é o Perry Bergman? – perguntou o capataz. – Pelo menos era, da última vez que verifiquei – brincou Perry. Sentiu uma certa satisfação ao perceber o constrangimento do capataz. – Foi mal – disse o capataz. – Deixa pra lá – disse Perry, magnânimo. – A coluna de perfuração estava chacoalhando? – perguntou Mark. O capataz confirmou. – Exatamente como das últimas quatro vezes, e talvez um pouco pior. – Nós só temos mais uma broca de carbureto de tungstênio com diamante – lamentou Mark. – Não precisa me lembrar disso – disse o capataz. – Qual a profundidade? – indagou Mark. – Não mudou muito desde ontem – respondeu o capataz. – Já descemos quatrocentos metros de tubulação. Como o fundo fica a mais ou menos trezentos metros e não há sedimento, só penetramos na rocha cerca de cem metros, uns centímetros a mais ou a menos.– Era isso que eu estava lhe explicando ontem à noite – disse Mark a Perry. – Estávamos indo muito bem até quatro dias atrás. Desde então não saímos do lugar, talvez tenhamos descido de sessenta centímetros a um metro, apesar de termos acabado com quatro brocas. – Então acha que encontrou uma camada de rocha dura? – indagou Perry, achando que tinha que dizer alguma coisa. Mark riu sarcasticamente.

– Dura não é bem a palavra. Estamos usando brocas diamantadas com as ranhuras mais retas possíveis! O pior é que ainda vamos enfrentar mais trezentos metros da mesma coisa, seja lá o que for, até chegarmos à câmara magmática, pelo menos de acordo com nosso radar de penetração no solo. Pelo andar dessa carruagem, vamos ficar aqui dez anos. – O laboratório analisou a rocha que tiraram da última broca quebrada? – perguntou o capataz. – Sim, analisou – confirmou Mark. – É um tipo de rocha que jamais haviam visto antes. Pelo menos de acordo com o Tad Messenger. Compõe-se de um tipo de olivina cristalina que ele acha que talvez possua uma matriz microscópica de diamante. Acho que podíamos tentar obter uma amostra maior. Um dos maiores problemas de se tentar perfurar no mar aberto é que não temos um retorno dos fluidos de perfuração. É como perfurar no escuro. – Será que não dava para mandarmos um extrator de amostras lá para baixo? – Grande coisa conseguiríamos, se não conseguimos nem meter uma broca diamantada nessa pedra – comentou Mark. – E que tal acoplá-lo à broca diamantada? Se conseguíssemos obter uma boa amostra dessa coisa que estamos tentando perfurar, talvez pudéssemos traçar um plano razoável para contornarmos esse obstáculo. Já investimos dinheiro demais nessa operação, não dá para desistir sem uma boa briga. Mark olhou para o capataz, que deu de ombros. Depois voltou a olhar para Perry.– Você é quem manda. – Pelo menos por enquanto – disse Perry. Não estava brincando. Imaginava por quanto tempo iria conseguir ser o mandachuva se o projeto abortasse. – Tudo bem – disse Mark. Colocou o cigarro na beirada de um cinzeiro já transbordante. – Icem a broca até a cabeça do poço. – Os rapazes já estão fazendo isso – informou o supervisor. – Peguem a última broca do estoque – orientou Mark.

Pegou o intercomunicador de bordo. – Vou mandar o Larry Nelson preparar o sistema de mergulho saturado e lançar o submersível no mar. Vamos substituir a broca e ver se conseguimos uma amostra melhor do que estamos perfurando. – Sim, senhor – disse o capataz. Virou-se e saiu, enquanto Mark erguia o receptor até o ouvido para ligar para o comandante das operações de mergulho. Perry fez menção de sair também, mas Mark ergueu a mão, pedindo-lhe que ficasse. Depois de terminar a chamada para Larry Nelson, Mark olhou para Perry. – Há um assunto no qual não toquei ontem à noite na palestra – disse ele. – Mas acho que devia ficar sabendo. Perry engoliu em seco. Sua boca havia ficado seca. Não estava gostando do tom de voz do Mark. Parecia que estava para dar péssimas notícias. – Talvez não seja nada – prosseguiu Mark –, mas quando usamos o radar de penetração no solo para estudar essa camada de rocha que estamos tentando perfurar como mencionei antes, encontramos uma coisa inesperada. Os dados estão aqui na minha escrivaninha. Quer ver? – Vá falando – disse Perry. – Mostre-me os dados depois. – O radar deu a entender que o conteúdo da câmara magmática talvez não seja o que pensamos a partir dos estudos sísmicos originais. Talvez não seja líquido.– Está brincando!? – Essas novas informações aumentaram os receios de Perry. Tinha sido por acaso, no verão anterior, que o Benthic Explorer havia encontrado a montanha submarina que estavam perfurando no momento. O impressionante na descoberta é que, como parte da Cadeia Meso-Atlântica, a área já havia sido exaustivamente estudada pelo Geosat, o satélite de medição de densidade da Marinha norteamericana, usado para gerar mapas do fundo do oceano. Mas de alguma forma aquela montanha submarina em particular não havia sido detectada pelo Geosat. Embora a equipe do Benthic Explorer andasse ansiosa para voltar para casa, haviam parado tempo suficiente para passar várias vezes acima da misteriosa montanha. Com o sofisticado radar do navio, fizeram um estudo superficial da estrutura interna do guyot.

Para surpresa de todos, os resultados foram tão inesperados quanto a presença da montanha. Ela parecia ser um vulcão inativo de crosta particularmente fina, cujo núcleo líquido estava a apenas 120 metros do fundo do oceano. Ainda mais espantoso era o fato de que a substância no interior da câmara magmática possuía características de propagação do som idênticas às da descontinuidade de Mohorovicic, ou Moho, a misteriosa fronteira entre a crosta terrestre e o manto. Como ninguém jamais havia sido capaz de obter magma do Moho, embora os americanos e russos houvessem tentado durante a Guerra Fria, Perry resolvera voltar lá e perfurar a montanha na esperança de que a Benthic Marine fosse a primeira organização a obter uma amostra do material derretido. Raciocinou que a análise do material poderia esclarecer a estrutura e talvez até mesmo a origem da terra. Mas agora o comandante de operações do Benthic Explorer estava lhe dizendo que os dados sísmicos originais talvez estivessem errados! – A câmara magmática pode estar vazia – disse Mark. – Vazia? – gaguejou Perry. – Bom, não exatamente vazia – corrigiu-se Mark. – Cheia de algum tipo de gás comprimido, ou talvez vapor. Sei que extrapolar dados a essa profundidade é levar a tecnologia de radar de penetração no solo além de seus limites. Aliás, muitas pessoas diriam que os resultados dos quais falo são apenas especulação, meramente deduzidos, por assim dizer. Mas o fato de que os dados de radar não combinam com a sísmica me preocupa do mesmo jeito. Eu detestaria fazer esse esforço todo e só encontrar uma lufada de vapor superaquecido. Ninguém vai gostar disso, muito menos seus investidores. Perry mordiscou a parte de dentro da bochecha enquanto refletia sobre a preocupação de Mark. Começou a desejar que jamais tivesse ouvido falar no Monte Olimpo, que era o nome que a tripulação havia dado à montanha submarina de cume achatado que estavam tentando perfurar. – Já mencionou isso à Dra. Newell? – perguntou Perry. A Dra. Suzanne Newell era a oceanógrafa sênior do Benthic Explorer. – Ela já viu esses dados de radar dos quais está me falando? – Ninguém os viu ainda – disse Mark. – Eu só notei a sombra na tela do meu computador ontem, quando estava me preparando para sua chegada. Estava pensando em levar os dados para sua palestra ontem à noite, mas resolvi esperar para falar com você em particular. Caso não tenha observado, há um problema de moral lá com alguns componentes da equipe. Várias pessoas já estão começando a achar que perfurar esse guyot é mais ou menos o mesmo que atacar moinhos de vento.

As pessoas estão começando a falar em pedir demissão e voltar para casa, para as famílias delas, antes do fim do verão. Não queria botar mais lenha na fogueira. Perry sentiu os joelhos bambos. Puxou a cadeira de Mark e sentou-se pesadamente. Esfregou os olhos. Estava cansado, faminto e desanimado. Sentia vontade de se esganar por apostar assim o futuro da empresa todo em dados tão pouco confiáveis, mas a descoberta havia parecido extremamente fortuita. Ele se sentira compelido a agir. – Ei, não estou a fim de bancar o estraga-prazeres – disse Mark. – Vamos fazer o que você sugeriu. Vamos tentar entender melhor o tipo de rocha que estamos perfurando. Nada de desânimos antes da hora.– É meio difícil não ficar desanimado – disse Perry–, considerando-se a nota preta que a Benthic Marine está desembolsando para manter o navio aqui. Talvez fosse melhor evitarmos prejuízo maior. – Por que não vai comer alguma coisa? – sugeriu Mark. – Não adianta tomar decisões precipitadas assim, de barriga vazia. Aliás, se me esperar tomar uma ducha, eu o acompanho. Danese! Logo, logo vamos ter mais algumas informações sobre esse troço que estamos tentando atravessar. Talvez tenhamos uma idéia mais clara do que fazer. – Quanto tempo vão levar para trocar a broca? – indagou Perry. – O submersível pode ser lançado em uma hora – informou Mark. – Eles vão levar a broca e as ferramentas para a cabeça do poço. Os mergulhadores levam mais tempo para descer porque precisam ser pressurizados antes de baixarmos o sino. Isso vai levar umas duas horas mais, se eles apresentarem dores devido à compressão. Trocar a broca é mole.

A operação toda deve levar de três a quatro horas, talvez menos. Perry se ergueu com certo esforço. – Ligue para a minha cabine quando estiver pronto para ir comer. – Dirigiu-se à porta. – Ei, espere aí um segundo – disse Mark, subitamente entusiasmado. – Tive uma idéia que talvez levante o seu astral. Por que não desce no submersível? Parece que o guyot lá embaixo é lindo, pelo menos, a Suzanne sempre diz isso. Até o piloto do submersível, Donald Fuller, ex-oficial do corpo da armada, que em geral é um sujeito assim compenetrado, objetivo, diz que a paisagem é magnífica. – O que pode haver de tão maravilhoso em uma montanha submersa de cume achatado? – indagou Perry. – Eu não desci lá – admitiu Mark. – Mas parece que a geologia da área é que é bonita. Sabe, esse negócio dela fazer parte da Cadeia Meso-Atlântica, e coisa e tal. Mas fale com a Newell ou o Fuller! Vou lhe dizer, eles vão ficar nas nuvens quando eu lhes pedir que desçam lá. Com as luzes de halogênio do submersível e a limpidez da água do mar, dizem que a visibilidade é entre sessenta a noventa metros. Perry concordou. Não era má idéia dar um mergulho, pois isso, sem dúvida, o faria parar de pensar um pouco na situação atual e sentir que estava fazendo algo. Além disso, só havia estado no submersível uma vez, ao largo da ilha de Santa Catalina, quando a Benthic Marine recebera a embarcação, e tinha sido uma experiência memorável. Pelo menos ele teria uma chance de ver aquela montanha que estava lhe causando tanto aborrecimento. – A quem devo anunciar que farei parte da tripulação? – indagou Perry. – Deixe isso comigo – disse Mark. Pôs-se de pé e tirou a camiseta. – É só eu avisar ao Larry Nelson. 2 Richard Adams vestiu ceroulas de malha folgadas e compridas, tiradas do armário do navio, e fechou a porta com um pontapé. Depois de vestir a roupa de baixo, colocou, com toda a cerimônia, seu gorro preto de tricô do turno de vigia. Assim paramentado, saiu do compartimento e esmurrou as portas de Louis Mazzola e de Michael Donaghue.

Ambos responderam com uma torrente de imprecações. Os xingamentos já haviam perdido o poder de ofensa, uma vez que constituíam uma percentagem predominante do vocabulário desses tripulantes. Richard, Louis e Michael, mergulhadores profissionais, eram do tipo que gosta de encher a cara, viver perigosamente, arriscar periodicamente a vida fazendo solda submarina quando necessário, explodindo coisas como recifes, por exemplo, ou trocando brocas durante operações de perfuração submarina. Eram trabalhadores braçais submarinos, e se orgulhavam disso. Os três haviam se submetido a treinamento juntos, na Marinha norte-americana, haviam se tornado amigos do peito, bem como membros bem-sucedidos da força de demolição submarina da Marinha. Todos aviam aspirado a se tornarem Navy Seals {1} , mas isso não estava escrito nas estrelas. A predileção deles por cerveja e pancadarias excedia de longe a de seus colegas. O fato de todos haverem tido pais alcoólatras, brutos, violentos, preconceituosos, proletários e que gostavam de espancar as mulheres explicava o comportamento deles, mas não o justificava. Longe de ficaremconstrangidos pelo exemplo paterno, os três viam suas infâncias barra-pesada como uma progressão natural até a autêntica masculinidade. Nenhum deles jamais parou para pensar num certo ditado antigo: filho de peixe, peixinho é. A masculinidade era uma virtude crítica para todos os três. Eram impiedosos ao punirem qualquer homem que considerassem menos macho do que eles e que tivesse a audácia de entrar numbar onde estivessem bebendo. Costumavam meter o malho em advogados “malandros” e em caras do Exército metidos a besta. Também condenavam qualquer pessoa que considerassem imbecil, um “cdf” ou homossexual. A homossexualidade era o que mais os incomodava, e, por eles, a política do “eu não pergunto, você não revela” era ridícula, uma verdadeira afronta pessoal. Embora a Marinha tendesse a ser clemente com os mergulhadores e tolerasse comportamento que não seria admitido em outros colegas, Richard Adams e seus amigos exageraram na dose. Numa tarde quente de agosto, refugiaram-se no seu minúsculo bar de mergulhadores predileto em Point Loma, em San Diego. O dia havia sido arrasador, os mergulhos, árduos. Depois de numerosas rodadas de uísque com cerveja e um número igual de discussões sobre a temporada de beisebol que estava rolando, ficaram chocados e consternados ao verem um casal de caras do Exército entrar, todo lampeiro. De acordo com os mergulhadores, na corte marcial, os dois foram “dar um amasso” em umdos reservados dos fundos. O fato de um dos soldados ser oficial só tornou a sensação de ultraje mais intensa nos mergulhadores. Eles nem pensaram em se perguntar o que um casal de oficiais do Exército estaria fazendo em San Diego, uma cidade sabidamente repleta de gente da Marinha e dos Fuzileiros. Richard, o eterno cabeça do trio, foi o primeiro a se aproximar do reservado. Perguntou – em tomsarcástico – se podia participar da orgia. Os homens do Exército, sem entender direito qual era a do Richard – que era expulsá-los dali –, riram, negaram que estivessem fazendo orgias de qualquer tipo, e ofereceram pagar para ele e os amigos uma rodada de bebidas, para acalmar os ânimos.

O resultado foi uma pancadaria unilateral que mandou os dois oficiais do Exército para o hospital naval Balboa. Também mandou Richard e os amigos direto para o xadrez, e de lá para fora da Marinha. Acontece que os homens do Exército eram do JAG, o Corpo Jurídico e Legal Geral do Exército. – Vamos, seus babacas! – berrou Richard, quando viu que os outros ainda não haviam aparecido. Olhou de relance o relógio de mergulho. Sabia que o Nelson ia ficar uma fera. As ordens dele pelo intercomunicador haviam sido para irem para o centro de comando de mergulho imediatamente. O primeiro a surgir foi o Louis Mazzola. Era quase uma cabeça mais baixo do que Richard, que tinha um metro e oitenta de altura. Richard considerava Louis um cara tipo bola de boliche. Tinha feições carnu-das, a parte inferior do rosto eternamente mais escura onde a barba havia sido cortada, e cabelos curtos e negros que caíam escorridos pela cabeça redonda. Parecia não ter pescoço; o trapézio saía em ângulo do crânio sem nenhuma reentrância.– Para que a pressa? – queixou-se Louis. – Vamos mergulhar! – explicou Richard. – Mais alguma novidade? – reclamou Louis. A porta de Michael se abriu. Ele ficava num ponto entre a silhueta esquelética de Richard e a troncuda de Louis. Como os amigos, tinha músculos atléticos e obviamente estava em boa forma. Também era igualmente desmazelado, vestido com as mesmas ceroulas folgadas. Porém, ao contrário dos outros, estava com um boné de beisebol do Red Sox com a viseira virada para o lado. Michael vinha de Chelsea, Massachusetts, e portanto era um ávido torcedor do Sox e do Bruins. Michael abriu a boca para reclamar por ter sido acordado, mas Richard o ignorou e seguiu para o convés principal. Louis fez o mesmo. Michael deu de ombros e foi atrás dos outros. Quando desceram a meia-laranja principal, Louis gritou para Richard: – ô Richard, você trouxe o baralho? – Claro – retrucou Richard, virando a cabeça.

– E você, trouxe o talão de cheques? – Vá para o inferno – disse Louis. – Nos últimos quatro mergulhos, você nem chegou perto de me vencer. – Era estratégia, cara – revelou Richard. – Andei armando uma pra você. – Danem-se as cartas – disse Michael. – Trouxe as revistas de sacanagem, Mazzola? – Acha que vou mergulhar sem elas? – retrucou Louis. – Nem pelo cacete! Preferiria esquecer as nadadeiras! – Espero que tenha olhado para ver se trouxe as revistas com ga-tinhas, e não as de garotões – provocou Michael. Louis parou de chofre. Michael esbarrou nele. – Que porra foi essa que você disse? – rosnou Mazzola. – Só estava querendo saber se você trouxe as revistas certas – disse Michael com umsorrisinho sarcástico. – Talvez eu queira pedi-las em-prestado, e não quero ter a péssima surpresa de ter que encarar um monte de paus. Louis rapidamente agarrou com toda a vontade a blusa de Michael. Michael reagiu agarrando o braço de Louis com a mão esquerda e cerrando o punho para dar-lhe um murro. Antes que a coisa ficasse mais feia, Richard interveio. – Ei, dêem um tempo aí, seus babacas! – berrou Richard, me-tendo-se entre os dois amigos. Com um murro para cima, jogou o braço de Louis para o lado. Ouviu-se um som de alguma coisa se rasgando, e a mão de Luis voltou com um pedaço arrancado da camiseta de Michael entre os dedos. Como um touro enfurecido, Louis tentou empurrar Richard para alcançar Michael. Quando viu que não conseguia, tentou agarrar a blusa de Michael por cima do ombro de Richard. Michael, soltando uma sonora gargalhada, esquivou-se. – Mazzola, seu babaca! – gritou Richard. – Ele só está tentando te botar pilha. Esfria essa cabeça, pelo amor de Deus! – Filho da puta! – disse Louis entre os dentes. Jogou o pedaço de tecido rasgado que havia arrancado da camiseta de Michael na cara do zombeteiro.

Michael tornou a rir. – Já chega! – disse Richard, com asco, enquanto continuava a percorrer o corredor. Michael abaixou-se e pegou o retalho da blusa. Quando fingiu estar colando o tecido de volta no peito, Louis não agüentou e teve que rir. Depois correram para alcançar Richard. Quando os mergulhadores chegaram ao convés principal, viram que o guincho estava erguendo o tubo. – A broca deve ter se quebrado outra vez – disse Michael. Tanto Richard quanto Louis concordaram, sem nada dizer. – Já sabemos o que vamos fazer. Entraram na cabine de perfuração e se acomodaram em três cadeiras dobráveis perto da porta. Era ali que ficava o posto de trabalho de Larry Nelson, o homem que coordenava todas as operações de mergulho. Atrás dele, do lado direito da cabine, estendendo-se até o outro lado, ficava oconsole de mergulho. Ali se viam todos os mostradores, medidores e controles para operar o sistema de mergulho. Do lado esquerdo do painel se encontravam os controles e monitores dos trenós das câmeras. Também do lado esquerdo havia uma janela que dava para o poço central do navio. Era por esse poço central que o sino de mergulho descia. O sistema de mergulho do Benthic Explorer era um sistema saturado, e isso significava que os mergulhadores deviam absorver o máximo possível de gás inerte durante qualquer mergulho. Ou seja, o tempo de descompressão necessário para que eles se livrassem do gás inerte seria o mesmo, por mais tempo que permanecessem na câmara hiperbárica. O sistema se compunha de três câmaras de descompressão de convés cilíndrico, cada uma com três metros e sessenta centímetros de largura e seis de comprimento. As câmaras eram interligadas, como se fossem enormes lingüiças, com portinholas de pressão dupla entre elas, e dentro delas se achavam quatro camas, várias mesas dobráveis, um banheiro, uma pia e um chuveiro.

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