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Abraham Lincoln; cacador de vampiros – Seth Grahame-Smith

Eu ainda estava sangrando… com as mãos trêmulas. Até onde eu sabia, ele ainda estava ali — observando-me. Em algum lugar, atravessando um vasto abismo no espaço, havia uma televisão ligada. Um homem falava sobre união. Nada disso tinha importância. Os livros dispostos à minha frente eram as únicas coisas que contavam agora. Dez volumes de diversos tamanhos encadernados em couro — cada um de um tom diferente de preto ou marrom. Alguns, apenas velhos e gastos. Outros, caindo aos pedaços, com suas capas rasgadas e páginas que davam a impressão de que se esfarelariam se fossem viradas por algo mais forte do que um sopro. Ao lado deles, havia um maço de cartas bem amarradas por um elástico vermelho. Algumas folhas tinham as bordas chamuscadas. Outras, amareladas como os filtros de cigarro jogados no piso do porão lá embaixo. A única coisa que se destacava entre essas relíquias era uma folha de papel muito mais branco. De um lado, os nomes de onze pessoas que eu não conhecia. Nenhum telefone. Nem email. Apenas o endereço de nove homens e duas mulheres… e um recado rabiscado ao pé da página: Aguardando você. Em algum lugar aquele homem continuava falando. Colonos… esperança… Selma. O livro em minhas mãos era o menor dos dez e, seguramente, o mais frágil. Sua capa de ummarrom esmaecido havia sido arranhada, manchada e muito manuseada. A fivela de latão que um dia guardara seus segredos em segurança fora rompida havia muito tempo. Dentro, cada centímetro quadrado de papel estava coberto de tinta — alguns deles com a tinta tão negra quanto estava no dia em que secara; outros trechos, tão apagados que eu mal conseguia ler. No total, havia 118 folhas escritas na frente e no verso, à mão, presas na lombada. Estavam repletas de anseios privados; teorias; estratégias; rudes esboços de homens com rostos estranhos.


Repletas de histórias ouvidas e listas detalhadas. Ao longo da leitura, fui percebendo a transformação da caligrafia do autor, de uma escrita cuidadosa de criança aos rabiscos compactos de um rapaz. Terminei de ler a última página, olhei para trás para me certificar de que estava sozinho e voltei para a primeira. Eu precisava ler de novo. Imediatamente, antes que a razão soltasse seus cachorros e espantasse as perigosas ideias que começavam a se formar em minha cabeça. O livrinho começava com essas sete palavras absurdas e fascinantes: Este é o diário de Abraham Lincoln. __________ Rhinebeck é uma dessas cidades do norte do estado que o tempo esqueceu. Uma cidade onde lojas de famílias e rostos familiares se enfileiram pelas ruas, e onde o mais antigo hotel da América (ali, como qualquer morador orgulhosamente confirmará, o general Washington, em pessoa, um dia deitou sua cabeça sem peruca) ainda oferece conforto a preços módicos. Trata-se de uma cidade em que as pessoas ainda dão de presente colchas feitas em casa e usam fornos a lenha para aquecer suas casas; e onde eu já vi, mais de uma vez, uma torta de maçã esfriando na janela. O lugar parece um globo de neve de brinquedo. Como quase tudo em Rhinebeck, o mercadinho na East Market Street é um pedaço vivo de umpassado moribundo. Desde 1946, os moradores vêm dependendo dele para tudo, de cronômetros para cozinhar ovos a fitas adesivas para bainha, de lápis a presentes de Natal. Se a gente não tem, você não precisa, diz a placa manchada de sol da vitrine. E se você precisar muito, nós aceitamos encomendas. Do lado de dentro, entre o linóleo xadrez e as desagradáveis luzes fluorescentes, você pode encontrar toda a variedade de produtos, organizados em caixas. Os preços escritos com lápis de cera. Cartões de débito aceitos com resmungos. Ali era minha casa, das 8h30 da manhã às 5h30 da tarde. Seis dias por semana. Toda semana. Sempre soube que acabaria na loja depois de formado, como eu havia feito todos os verões desde os 15 anos. Eu não era da família, a rigor, mas Jan e Al sempre me trataram como um de seus filhos — arranjando-me um emprego quando eu mais precisei, dando-me alguns trocados enquanto eu ainda estava na escola. No meu entender, eu lhes devia seis meses inteiros, de junho até o Natal. Esse era o plano. Seis meses trabalhando na loja de dia, e no meu romance à noite e nos fins de semana.

Era tempo suficiente para terminar a primeira versão e dar-lhe uma boa polida. Manhattan ficava a uma hora e meia de trem, e era para lá que eu iria quando terminasse, com 1,5 ou 2 quilos de material escrito, mas não solicitado, em provas de revisão, debaixo do braço. Adeus, vale do Hudson. Alô, circuito de palestras. Nove anos depois, eu ainda estava na loja. Em algum ponto entre me casar, sobreviver a um acidente de carro, ter um filho, abandonar meu romance, começar e largar meia dúzia de outros, ter outro filho e tentar sobreviver às contas, algo completamente inesperado e depressivamente típico aconteceu: parei de tentar escrever e comecei a tentar me importar mais com todo o resto: As crianças. O casamento. A hipoteca da casa. A loja. Passei a me irritar quando via as pessoas indo fazer compras na farmácia do fim da rua. Comprei umcomputador para ajudar a manter o controle do estoque. Basicamente, comecei a procurar novas formas de atrair pessoas para a loja. Quando a loja de livros usados em Red Hook fechou, comprei parte do estoque deles e coloquei uma prateleira de locação de livros nos fundos. Rifas. Liquidações. Wi-Fi. Qualquer coisa para fazer as pessoas entrarem por aquela porta. Todo ano eu experimentava uma coisa nova. E todo ano a gente mal conseguia pagar as contas. Mais ou menos um ano depois que Henry 1 começou a vir é que começamos a conversar. Trocávamos as cordialidades de costume; nada além de um “Volte sempre”, “Até a próxima”. Eu só sabia seu nome por ter ouvido alguém falar no burburinho da Market Street. A história era que ele havia comprado uma das maiores casas na Route 9G e tinha um exército de faz-tudo da região ajeitando as coisas para ele. Henry era um pouco mais jovem do que eu — talvez uns 27 anos, tinha um cabelo castanho desgrenhado, estava sempre bronzeado e usava óculos escuros diferentes para cada ocasião. Dava para ver que era rico.

Suas roupas eram provas gritantes disso: camisetas vintage, paletós de lã, jeans que custavam mais caro que o meu carro. Mas ele não era como os outros ricos que apareciam na loja. Os babacas de fim de semana, que gostavam de dizer o quanto nossa cidade era bonitinha e como nossa loja era uma gracinha, passando pela nossa placa de Proibido Entrar com Alimentos ou Bebidas segurando seus imensos copos de café com aroma de avelã e jamais gastando um tostão. Henry era gentil. Calado. E o melhor de tudo, ele nunca ia embora sem deixar pelo menos cinquenta pratas — a maior parte em refugos que hoje em dia só são encontrados em casas especializadas — sabonetes Lifebuoy, latas de graxa Angelus para sapato. Ele entrava, pagava em dinheiro e ia embora. Volte sempre. Até a próxima. Até que um dia, no outono de 2007, tirei os olhos do meu caderno de espiral e lá estava ele. De pé, do outro lado do balcão, olhando para mim como se eu tivesse acabado de dizer algo asqueroso. — Por que você parou? — Eu… como? Henry apontou para o caderno à minha frente. Eu sempre deixava um caderno ao lado do caixa, para o caso de alguma ideia brilhante ou alguma observação me ocorrer (o que nunca acontecia, mas, sabe como é, devemos acreditar sempre). Nas últimas quatro horas, eu enchera meia página comideias de apenas uma linha para futuros contos, que nunca chegavam à segunda linha. A metade de baixo da página havia se transformado numa garatuja de um homenzinho mostrando o dedo médio a uma gigantesca e irritadiça águia com garras afiadas. Embaixo, a legenda: Arremedo de pássaro assassino. Tristemente, esta havia sido a melhor ideia que eu tivera em semanas. — O que você estava escrevendo. Fiquei curioso para saber por que você parou. Agora era eu que estava olhando para ele. Não sei bem por que, subitamente fui tomado pela imagem de um homem com uma lanterna — vasculhando as prateleiras cheias de teias de aranha de um armazém escuro. Não era uma ideia agradável. — Desculpe, mas eu não… — Entendi não. Não, eu é que peço desculpas. Foi uma indelicadeza minha interrompê-lo.

Jesus… agora era eu que deveria pedir desculpas pelas desculpas dele. — Imagine. É que eu… por que você acha que… — Você parecia uma pessoa que escreve. Ele apontou para a estante de aluguel de livros. — Obviamente você gosta de livros. Eu vejo você escrevendo aqui às vezes… Achei que fosse uma aspiração sua. Só fiquei curioso para saber por que você não continuou. Era razoável. Um tanto pomposo (o quê? só porque eu trabalho num mercadinho não estou correndo atrás das minhas aspirações?), mas razoável o bastante para arejar o ambiente de novo. Dei-lhe a resposta sincera — e depressivamente típica — de que “a vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos”. O que levou a uma discussão sobre John Lennon, o que levou a uma discussão sobre os Beatles, o que levou a uma discussão sobre Yoko Ono, o que não levou a mais nada. Conversamos. Perguntei o que ele estava achando da região. Como estava ficando a casa. Que tipo de trabalho ele fazia. Ele respondeu satisfatoriamente às três perguntas. Mas mesmo assim — mesmo estando ali conversando educadamente, apenas dois caras jovens jogando conversa fora — não pude evitar a sensação de que não era eu ali. Era uma conversa da qual eu não estava participando. Senti as perguntas de Henry se tornando cada vez mais pessoais. Senti que minhas respostas foram no mesmo caminho. Ele perguntou sobre minha mulher. Meus filhos. Sobre o que eu escrevia. Perguntou sobre meus pais. Minhas frustrações.

E eu respondi tudo. Mesmo sabendo que era estranho. Nem me importei. Eu quis contar. Àquele sujeito novo, rico, de cabelo desgrenhado, jeans e óculos escuros caríssimos. Alguém cujos olhos eu nunca tinha visto. Que eu mal conhecia. Quis contar tudo a ele. As coisas foram saindo, como se ele houvesse tirado uma pedra enfiada em minha boca havia anos — uma pedra que mantivera todos os meus segredos represados. A morte de minha mãe quando eu era pequeno. Os problemas com meu pai. A fuga de casa. As coisas que eu escrevia. Minhas dúvidas. A enervante certeza de que a vida não era só aquilo ali. Nossos problemas financeiros. Das vezes em que pensei em largar tudo e fugir. Das vezes em que pensei em me matar. Mal me lembro de ter dito metade dessas coisas. Talvez eu nem tenha dito. A certa altura, pedi a Henry que lesse meu romance inacabado. Fiquei pasmo só de pensar nele ou em qualquer pessoa lendo aquilo. Fiquei pasmo até mesmo com a ideia de eu ler aquilo. Mas pedi a ele mesmo assim. — Não é necessário — respondeu ele.

Tinha sido (até esse ponto) a conversa mais estranha da minha vida. Quando Henry pediu licença e foi embora, senti como se tivesse corrido uns 15 quilômetros a toda velocidade. Nunca mais foi assim. Da outra vez que ele entrou na loja, trocamos as cordialidades de sempre; nada além. Volte sempre. Até a próxima . Ele comprou seu sabonete e sua graxa de sapato. Pagou emdinheiro. E continuou assim. Ele passou a vir cada vez menos. Quando Henry veio pela última vez, em janeiro de 2008, ele trazia um pequeno pacote —embrulhado em papel pardo e amarrado com um barbante. Sem dizer uma palavra, deixou-o junto ao caixa. Sua blusa cinza e o cachecol cor de vinho estavam salpicados de neve, e seus óculos escuros tinham gotículas de água. Nem se deu o trabalho de tirá-los, o que não me surpreendeu. Havia, sobre o pacote, um envelope branco com meu nome escrito — a tinta havia se misturado com a neve derretida e começara a borrar. Alcancei, sob o balcão, a pequena televisão que eu deixava ali para ver os jogos dos Yankees e retirei o som. A TV estava ligada no noticiário. Era o dia das primárias em Iowa, e Barack Obama vinha disputando pau a pau com Hillary Clinton. Qualquer coisa para passar o tempo. — Eu gostaria que você aceitasse isto aqui. Por um momento, o fitei como se ele tivesse falado em norueguês. — Espere, como assim? Isso é para mim? O que é… — Desculpe, mas estou com um carro me esperando. Leia primeiro o bilhete. Eu entrarei emcontato. E foi isso.

Fiquei olhando enquanto ele saía porta afora, em plena friagem, e me perguntei se ele nunca deixava a outra pessoa terminar a frase ou se aquilo seria só comigo. II O pacote ficou embaixo do balcão até o fim do dia. Eu estava louco de vontade de abri-lo, mas como não fazia ideia de quem seria aquele sujeito, não estava disposto a arriscar desembrulhar uma boneca inflável ou um quilo de heroína no instante em que uma bandeirante resolvesse entrar na loja. Deixei minha curiosidade arder até que as ruas estivessem escuras e a senhora Kallop finalmente se decidisse pelo carretel verde mais escuro (após excruciantes noventa minutos de discussão), então tranquei as portas alguns minutos mais cedo. Danem-se os mendigos hoje à noite. O Natal havia passado e, afinal, o movimento estava muito devagar. Além disso, todo mundo estava em casa assistindo à dramática disputa entre Obama e Hillary em Iowa. Resolvi fumar um cigarro escondido no porão antes de ir para casa e ver o resultado. Peguei o presente de Henry, apaguei as luzes frias e aumentei o volume da televisão. Se houvesse alguma notícia da eleição, eu ouviria lá de baixo. Não havia muitas coisas no porão. Além de umas poucas caixas estocadas rente às paredes, aquele era basicamente um cômodo vazio com um asqueroso piso de cimento batido e uma única lâmpada de quarenta watts pendendo do teto. Havia uma velha escrivaninha de metal encostada a uma das paredes com o computador do estoque em cima, um arquivo com duas gavetas, nas quais guardávamos alguns documentos, e duas cadeiras dobráveis. Um aquecedor de água. Uma caixa de força. Duas janelinhas que davam para o beco lá em cima. Mais do que tudo, era ali onde eu fumava no auge do inverno. Puxei uma cadeira até a escrivaninha, acendi o cigarro e comecei a desatar o barbante daquele bem embrulhado… A carta. O pensamento me ocorreu num sobressalto naquele momento, como uma daquelas ideias brilhantes ou observações pelas quais eu sempre mantinha o caderno à mão. Eu devia primeiro ler a carta. Achei meu chaveiro com canivete suíço no bolso da calça (7,20 dólares mais impostos — mais barato do que você vai achar em qualquer lugar de Dutchess County, eu garanto) e abri o envelope com um único movimento do pulso. Dentro havia um papel muito branco dobrado ao meio, com uma lista de nomes e endereços datilografados de um dos lados. Do outro, um aviso manuscrito. Existem algumas condições com as quais devo pedir que você concorde antes de abrir este pacote: Primeiro, entenda que isto não é um presente, mas um empréstimo. Quando me for conveniente, pedirei que você me devolva estes itens.

Quanto a isso, preciso que você jure solenemente que irá protegê-los a qualquer custo e tratá-los com o mesmo cuidado e respeito que você tem para com qualquer coisa de extremo valor. Segundo, o conteúdo deste pacote é de natureza extremamente delicada. Devo pedir que você não o compartilhe ou comente com quem quer que seja além de mim e dos onze indivíduos listados no verso até que receba minha permissão para fazê-lo. Terceiro, estes itens lhe estão sendo emprestados na expectativa de que você escreva sobre eles algo de, digamos, extensão substancial… e sujeito à minha aprovação. Você poderá levar o tempo que for preciso. Depois de completar satisfatoriamente o seu texto, você será bem recompensado. Se você não puder cumprir qualquer uma dessas condições por algum motivo, por favor, pare agora e espere meu contato. No entanto, se você concordar, então pode seguir em frente. Creio que seu propósito é fazê-lo. — H Merda, bem… não tinha como eu não abrir agora. Rasguei o papel, revelando um maço de cartas bem amarradas por um elástico vermelho e dez livros encadernados em couro. Abri o livro do topo da pilha. Ao fazê-lo, um cacho de cabelos loiros caiu sobre a escrivaninha. Peguei-o, analisei-o e fiquei torcendo-o entre os dedos enquanto lia ao acaso um trecho da página onde a madeixa estivera comprimida: … quem me dera desaparecer da face da Terra, pois não existe mais nenhum amor por aqui. Ela foi tirada de mim, e com ela, toda a minha esperança de… Espiei o restante do primeiro livro, fascinado. Lá em cima, uma mulher lia uma lista de nomes de condados. Páginas e páginas — cada centímetro preenchido com uma caligrafia bem apertada. Com datas como 6 de novembro de 1835; 3 de junho de 1841. Com desenhos e listas. Com nomes como Speed, Berry e Salem. Com uma palavra que aparecia a todo instante: Vampiro. Os outros livros eram a mesma coisa. Mudavam apenas as datas e a caligrafia. Dei uma olhada em todos. … lá que eu vi, pela primeira vez, homens e crianças vendidos… precauções, pois sabíamos que Baltimore estava cheia de… era um pecado que eu não podia perdoar.

Fui forçado a rebaixar o… Duas coisas estavam evidentes: tudo aquilo fora escrito pela mesma pessoa, e era tudo muito, mas muito velho. Além disso, eu não fazia ideia do que era aquilo tudo nem do que teria feito Henry me emprestar aquele material. E então deparei com a primeira página do primeiro livro, e aquelas sete palavras absurdas: Este é o diário de Abraham Lincoln. Soltei uma risada alta. Tudo fez sentido. Fiquei estupefato. Completamente de queixo caído. Não por ter em mãos os diários há muito perdidos do Grande Emancipador, mas por ter julgado tão equivocadamente uma pessoa. Eu havia achado que a tranquilidade de Henry era por ele ser um sujeito recluso. Havia achado que seu súbito interesse pela minha vida era por ele ser sociável. Mas agora estava evidente. O sujeito era claramente maluco. Isso, ou estava de brincadeira comigo. Algum tipo de brincadeira que os ricos com tempo de sobra costumam fazer. Mas não devia ser uma brincadeira, não é? Quem se daria a tanto trabalho? Ou seria? Seria aquilo um romance inacabado do próprio Henry? Umprojeto de livro numa embalagem sofisticada? Agora eu me sentia péssimo. Sim. Sim, claro que era isso. Folheei novamente os livros, esperando encontrar algumas pistas da presença do século XX. Não havia nenhuma — pelo menos que eu tivesse encontrado à primeira vista. Além disso, uma coisa me intrigava: se aquilo era um projeto de livro de gozação, por que todos aqueles onze nomes e endereços? Por que Henry me pedia para escrever sobre os livros em vez de me pedir para reescrevê-los? A agulha começou a apontar para maluco outra vez. Seria possível? Será que ele realmente acreditava que aqueles dez livrinhos eram… não, ele não podia acreditar nisso. Certo? Eu mal podia esperar para contar à minha mulher. Mal podia esperar para compartilhar aquela pura insanidade com mais alguém. Na longa fila de malucos do interior, aquele cara ficava com o troféu. Levantei-me, reuni todos os livros e cartas, joguei meu cigarro no chão, esmaguei-o com o pé e me virei para… Havia alguma coisa parada a dez centímetros de mim.

Recuei e tropecei na cadeira, caindo e batendo a cabeça na quina da escrivaninha. Meus olhos ficaram desfocados. Já podia sentir o calor do sangue se esvaindo entre meus cabelos. Alguma coisa se inclinou sobre mim. Seus olhos eram um par de bolas de gude negras. Sua pele, uma translúcida colagem de pulsantes veias azuis. E sua boca — sua boca mal podia conter as úmidas e vítreas presas. Era Henry. — Não vou machucá-lo — disse ele. — Só preciso fazê-lo entender. Ele me ergueu do chão pelo colarinho. Senti o sangue escorrer pela minha nuca. Desmaiei. Volte sempre. Até a próxima. III Fui instruído a não entrar em detalhes sobre o local para onde Henry me levou aquela noite, nemsobre o que ele me mostrou. Basta dizer que me deixou fisicamente mal. Não por nenhum horror que eu tenha presenciado, mas pela culpa que senti pelo fato de ter sido eu a diversão deles, voluntariamente ou não. Fiquei com ele menos de uma hora. Nesse breve período, minha compreensão do mundo foi abalada em suas fundações. Tudo o que eu pensava sobre a morte, sobre o espaço, sobre Deus… tudo se transformou irrevogavelmente. Nesse breve período, passei a acreditar — em termos bastante seguros — em algo que me teria soado insano uma hora antes: Vampiros existem. Não dormi por uma semana — primeiro, de pavor; depois, de excitação. Ficava até tarde na loja todas as noites, debruçado sobre os livros e as cartas de Abraham Lincoln. Verificando as incríveis alegações contrárias aos “fatos” decantados pelas biografias de Lincoln.

Cobri as paredes do porão com cópias e velhas fotografias. Linhas do tempo. Árvores genealógicas. Escrevia até o amanhecer. Nos primeiros dois meses, minha mulher ficou preocupada. Nos dois meses seguintes, ficou desconfiada. No sexto mês, nos separamos. Temi pela minha segurança. Dos meus filhos. Pela minha sanidade. Eu tinha muitas perguntas, mas Henry não apareceu mais. Por fim, tomei coragem de entrevistar os onze “indivíduos” da lista dele. Alguns foram meramente relutantes. Outros, hostis. Mas com a ajuda deles (mesmo que sob resmungos), lentamente comecei a costurar a história oculta dos vampiros dos Estados Unidos. Seu papel no nascimento, no crescimento e na iminência de morte de nosso país. E do único homem que salvou esse país da tirania deles. Ao longo de 17 meses, sacrifiquei tudo em nome daqueles dez livros encadernados em couro. Aquele maço de cartas bem preso por um elástico vermelho. De certa forma, foram os melhores meses de minha vida. Toda manhã eu acordava no colchão inflável do porão da loja com um propósito. Sabendo que fazia algo verdadeiramente importante, mesmo que estivesse completa e desesperadamente sozinho. Mesmo que eu viesse a enlouquecer. Vampiros existem. E Abraham Lincoln foi um dos maiores caçadores de vampiros de seu tempo.

Seu diário — que ele começou aos 12 anos e continuou até o dia de seu assassinato — é umdocumento ao mesmo tempo chocante, comovente e revolucionário. Um documento que lança luzes sobre diversos acontecimentos seminais da história norte-americana e agrega imensa complexidade à figura de um homem já considerado complexo como poucos. Existem mais de 15 mil livros sobre Lincoln. Sua infância. Sua saúde mental. Sua sexualidade. Suas opiniões sobre raça, religião e disputas judiciais. A maioria contém um bocado de verdade. Alguns sugerem a existência de um “diário secreto” e “uma obsessão pelo oculto”. Contudo, nenhumdeles contém uma única palavra sobre a luta central de sua vida. Uma luta que acabaria desaguando nos campos de batalha da Guerra Civil. A verdade é que o imponente mito de Abraham, o Honesto, arraigado nas lembranças de nossos primeiros dias na escola, é essencialmente falso. Nada além de uma colcha de retalhos de meias verdades e omissões. O que vem a seguir quase arruinou minha vida. O que vem a seguir, enfim, é a verdade. — Seth Grahame-Smith Rhinebeck, Nova York Janeiro de 2010 1 Não era esse o nome que ele usava na época. Por uma questão de coerência, vou me referir a ele por seu nome verdadeiro ao longo de todo o livro, inclusive aqui. MENINO UM Criança excepcional Neste mundo infeliz, todos experimentam a tristeza; e, para os jovens, essa experiência se mescla à mais amarga agonia, por pegá-los desprevenidos. — Abraham Lincoln, em carta a Fanny McCullogh 23 de dezembro de 1862 I O menino estava agachado fazia tanto tempo que suas pernas haviam ficado dormentes — ele, no entanto, não ousava se mexer agora. Pois ali, numa pequena clareira da floresta congelada, havia criaturas que ele há muito esperava ver. Criaturas que ele havia sido enviado para matar. Mordeu o braço para evitar que seus dentes batessem e fez pontaria com o rifle de pederneira de seu pai exatamente como lhe haviam ensinado. No corpo, lembrou-se ele. No corpo, não no pescoço. Tranquilamente, com cuidado, ele puxou o cão para trás e apontou o cano para o alvo, um macho imenso que ficara para trás do bando.

Décadas depois, o menino se lembraria do que aconteceu emseguida: Eu hesitei. Não por um conflito de consciência, mas por medo que meu rifle estivesse muito molhado, e assim não fosse disparar. No entanto, esse medo se provou infundado, pois quando puxei o gatilho, a coronha bateu com um tranco tão forte em meu ombro que eu caí de costas. Os perus se espalharam em todas as direções enquanto Abraham Lincoln, aos 7 anos, levantouse do chão coberto de neve. Pondo-se em pé, ele levou os dedos até o estranho calor que sentiu no queixo. “Eu mordi o lábio”, escreveu ele. “Mas não cheguei a gritar. Estava desesperado para saber se havia acertado o pobre-diabo ou não.” Ele acertara. O macho imenso batia atabalhoadamente as asas, tentando se erguer através da neve em pequenos círculos. Abe observou a distância, “receando que ele pudesse conseguir se levantar e me fazer em pedaços”. O bater de asas; o arrastar das penas pela neve. Eram os únicos sons do mundo. Aliados ao som dos pés de Abe, que tomou coragem e se aproximou. As asas batiam com menos força agora. Estava morrendo. Ele havia acertado bem no pescoço. A cabeça pendia num ângulo pouco natural — arrastada pelo chão enquanto o pássaro continuava a se remexer. No corpo, não no pescoço. A cada batida do coração, o sangue brotava da ferida e caía na neve, onde se mesclava às gotas escuras sangrando do lábio mordido de Abe e às lágrimas que já começavam a escorrer por seu rosto. Ele arfava em busca de ar, mas não conseguia, e seus olhos exibiam uma espécie de medo que eu nunca vira antes. Fiquei de pé sobre o miserável pássaro durante o que me pareceu um ano, implorando a Deus que apaziguasse suas asas. Suplicando por Seu perdão por ter prejudicado uma criatura que não me fizera mal algum; nem representava nenhuma ameaça à minha pessoa ou à minha prosperidade. Por fim ele parou, e, tomando coragem, arrastei-o por mais de um quilômetro de floresta e depositei-o aos pés de minha mãe — minha cabeça baixa de modo a esconder as lágrimas. Abraham Lincoln jamais ceifaria outra vida.

E, no entanto, se tornaria um dos maiores assassinos do século XIX. O menino choroso não pregou o olho aquela noite. “Só conseguia pensar na injustiça que fizera para com outra criatura vivente e no medo que vira em seus olhos enquanto a promessa de vida se esvaía.” Abe se recusou a comer aquilo que havia matado e alimentou-se praticamente só de pão, enquanto a mãe, o pai e a irmã mais velha deixaram a carcaça limpa nas duas semanas seguintes. Não existem registros da reação deles a essa greve de fome, mas deve ter sido vista como uma excentricidade. Afinal, passar voluntariamente sem comida, como uma questão de princípio, era uma opção notável para qualquer pessoa naquela época — especialmente para um menino que havia nascido e fora criado na fronteira norte-americana. Mas, enfim, Abe Lincoln sempre fora diferente.

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