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Absalao, Absalao! – William Faulkner

De um pouco depois das duas da tarde até quase o sol se pôr na longa, calma, quente, maçante e ociosa tarde de setembro eles permaneceram sentados no que a Srta. Coldfield ainda chamava de escritório porque assim o tinha chamado seu pai – um quarto escuro, quente e abafado, com todas as venezianas fechadas e trancadas havia quarenta e três verões porque quando ela era menina alguémacreditara que luz e ar corrente traziam calor e que no escuro era sempre mais fresco, um cômodo que (na medida em que o sol batia com mais e mais força naquele lado da casa) ficava rajado de talhos amarelos repletos de grãos de poeira que, para Quentin, pareciam as lascas da própria tinta velha e seca, soltas das venezianas descamadas como se o vento as tivesse soprado para dentro. Havia uma trepadeira de glicínias florindo pela segunda vez naquele verão numa treliça de madeira em frente a uma janela na qual pardais surgiam de vez em quando em rajadas impetuosas, fazendo umbarulho seco, vívido e empoeirado antes de sair voando: e, diante de Quentin, a Srta. Coldfield no luto eterno que vestia havia quarenta e três anos, se por irmã, pai ou marido ninguém sabia, sentada tão empertigada na cadeira dura e reta que de tão alta para ela deixava suas pernas penderemverticais e rígidas como se tivessem tíbias e tornozelos de ferro, sem tocar o chão com aquela aparência de raiva impotente e estática como os pés de uma criança, e falando naquela voz soturna, exausta e atônita até que, por fim, o ouvir renunciaria e o sentido da audição se confundiria e o objeto havia muito enterrado de sua frustração impotente, mas indômita, emergiria como se evocado por ultrajada recapitulação, sereno, distraído e inofensivo, saído do paciente e onírico e vitorioso pó.* A voz não se calava, apenas se perdia. Tudo era a indecisa escuridão, aquele cheiro a mortos e à doce e aromática glicínia, por duas vezes florida contra a parede exterior da casa, que o sol de setembro, calmo e violento, batia, pontilhava e repontilhava, e os pardais visitavam num sonoro e informe esvoaçar como se fora o estalo de algum pauzinho que ocioso rapazinho castigasse, e o cheiro rançoso de carne fêmea, velha, por longo tempo encastelada na virgindade, enquanto o rosto lívido e encovado o vigiava por sobre o descolorido triângulo das rendas nos pulsos e no colo, de sobre a cadeira tão alta onde ela, sentada, parecia uma criança crucificada; e a voz, que sem calar-se apenas se perdia por longas pausas para delas refluir como vem o escasso arroio percorrendo os areais secos, e o fantasma, absorto em espectral docilidade, como se fora a voz que ele assombrasse por não ter, como outros mais felizes, casa que assombrar. Do murmurado fragor ele irrompia (cavalo-cavaleiro-demônio) pela cena tranquila e decorosa de uma aquarela pueril, um vago fedor a enxofre ainda nas barbas, no fato, no cabelo, com a cafraria em bando atrás de si, brutos que tivessem aprendido tão-somente o andar ereto de homens, selvagens e na postura plácidos, e forçado na leva com eles o arquiteto francês, soturno e descarnado e maltrapilho. Imóvel e barbado, a palma da mão erguida, estava o cavaleiro; atrás dele a cafraria mais o cativo arquiteto, sem rumor, apinhados, carregavam por incruento paradoxo as picaretas e as pás e os pacíficos machados da conquista. Então, no longo desassombro das coisas assombrosas, pareceu a Quentin que os via, invadindo num rompante as cem milhas quadradas de uma terra calma e surpresa, e do silencioso Nada arrancando violentos a casa e os jardins formais para assentá-los de chofre como quem bate a cartada, criando Sutpen’s Hundred à ordem pontifical, imóvel, em palma erguida, nesse Faça-se Sutpen’s Hundred como o primordial Faça-se Luz. Então o ouvido concorde perceberia dois Quentins separados — o Quentin Compson que no Sul se preparava para Harvard, no coração do Sul morto e acabado em 1865* e que só fantasmas aturdidos, ultrajados, gárrulos agora povoavam, ele escutando ali, por força escutando, o fantasma que se recusara enfim à quietude que outros, e por mais tempo, guardaram, e lhe contava como os idos foram daquele tempo fantasma também; e o Quentin Compson que não tinha pela pouca idade merecimento para ser um fantasma e contudo e apesar de tudo por força o era já, que no coração do Sul nascera e se criara, como ela — os dois Quentins separados e um com o outro falando no silêncio dos ausentes que não carece linguagem, assim: Parece que o tal demônio — chamava-se ele Sutpen (coronel Sutpen) — coronel Sutpen. Que um dia veio não se sabe de onde e apareceu aqui mais uma catrefa de negros* que nunca ninguém tinha visto e desbravou a terra e fez uma plantação — (Rasgou a terra brutalmente, diz Miss Rosa Coldfield) — ou a rasgou brutalmente. E casou com Ellen, a outra irmã Coldfield, e nela gerou um filho e uma filha que — (Emviolência os gerou, diz Miss Rosa Coldfield) — em violência. Que deveriam ter sido as joias do seu orgulho e o amparo e consolo da sua velhice mas — (Mas os filhos deram cabo da vida dele, parece, ou foi ele quem deu cabo da vida aos filhos, parece. E morreu) — e morreu. E ninguém lhe chora a morte, diz Miss Rosa Coldfield — (A não ser ela) Sim, a não ser ela. (E Quentin Compson) Sim. E Quentin Compson. “Porque tu vais embora, entras na universidade, Harvard pelo que sei”, disse ela. “E não vai querer voltar e ter a vida aqui de advogado em cidadezinha de província como é Jefferson, que os do Norte já se encarregaram de não deixar aqui muito com que prender um rapaz. Talvez abraces a profissão das letras, que é o que têm feito muitos homens do Sul, bem-nascidos, e muitas senhoras também, e talvez um dia te lembres disto e o escrevas. Estarás casado com certeza e pode bem ser que a tua mulher queira uni vestido novo ou uma cadeira nova para a casa e tu então escrevas isto e o mandes a um magazine. Pode até ser que te lembres com saudades da velha que te obrigou a ficar uma tarde inteira metido em casa a ouvi-la falar de pessoas e casos a que tu afortunadamente escapaste, quando o que tu querias era andar por fora com os teus amigos, rapazes da tua idade.” “Sissenhora”, respondeu Quentin. Mas ela diz isto só por dizer pensou ele. É só porque ela quer que um dia se conheça a história.


Ainda era cedo. Ele trazia no bolso ainda o bilhete que recebera de um garoto negro pouco antes do meio-dia, pedindo-lhe que a visitasse — pedido cerimonioso, esdrúxulo, mais se diria ordem que pedido, ou chamamento, que vinha de um outro mundo quase — a bizarra folha arcaica de antigo e bom papel de carta e a caligrafia clara, pálida, apertada, onde, no espanto que lhe enviasse tal convite mulher com o triplo da sua idade e que toda a vida conhecera sem ter com ela trocado mais de um cento de palavras, ou talvez porque só tivesse ele vinte anos, Quentin não soube ler os sinais de um temperamento frio, implacável, impiedoso até. Obedeceu ao convite mal terminou a refeição do meio-dia, percorreu a meia milha que os separava pela calma poeirenta desses dias primeiros de Setembro e depois entrou na casa (também ela parecia agora mais pequena — tinha dois pisos — e quase decrépita, a precisar de pintura, mas envolvida num quê, numa aura, de soturna resistência como se mulher e casa fossem criadas para caber nummundo, completar um mundo, em tudo mais pequeno do que este em que se achavam) onde na escurecida clausura do vestíbulo mais quente que a calmosa rua, como se ali estivesse aprisionado em túmulo todo o vivo respirar de um tem@o vagaroso e padecente de calor, ido e tomado quarenta e três vezes nesses anos, um vulto pequeno de vestido preto que nem sequer bulia, e o lívido triângulo das rendas nos pulsos e no colo, e o indistinto rosto de olhar indagador e sério, o esperavam e convidavam a entrar. É só porque ela quer que se conheça a história pensou e a leiam pessoas que ela jamais vai ver com nomes que ela jamais vai ouvir e que jamais ouviram pronunciar o seu nome ou de vista a conheceram, e saibam enfim por que Deus quis que perdêssemos a Guerra: que só com o sangue dos nossos homens e as lágrimas das nossas mulheres Ele podia vergar esse demônio e apagar o seu nome e a sua geração da face da terra. Ao pensá-lo porém entendeu que não seria essa a razão de ter ela mandado um tal bilhete, e logo a ele, porquê a ele, pois se quisesse apenas que a história ficasse contada, escrita, impressa, não precisava de chamar um estranho quem no tempo de seu pai (do pai de Quentin) provara ser a poetisa oficial da vila e da comarca (mesmo se os louros desse nome não tivera) quando ofereceu ao escasso número de austeros assinantes do jornal desta comarca os seus poemas, ode panegírico epitáfio, nascidos da implacável amargura de quem vencida embora continua invicta; e os poemas eram da mulher que apenas teve por marcial parentela, bem o sabiam a vila e a comarca, um pai que, sendo objetor de consciência por imposição de fé, se deixou morrer à fome no sótão da sua casa, escondido (emparedado, outros diriam) ali da polícia militar confederada e que a filha secretamente à noite alimentava, ela que ao tempo ia acumulando o seu primeiro fólio onde os vencidos da causa perdida, homens de antes quebrar que torcer, eram, nome a nome, por suas mãos embalsamados; e um sobrinho que se bateu durante quatro anos na mesma companhia com o noivo da irmã e depois o matou a tiros diante dos portões da mesma casa onde ela esperava no seu vestido de noiva em vésperas de casamento, e depois fugiu, sumiu-se, para onde não o sabia ninguém. Três horas haviam de passar antes que fosse revelada a razão daquele convite, pois esta parte, esta primeira parte, Quentin já conhecia. Era parte da sua herança, que há vinte anos respirava o mesmo ar ouvindo o pai que falava desse homem; e também parte de uma herança de oitenta anos da vila — de Jefferson — o mesmo ar que esse homem respirou entre esta tarde em setembro de 1909 e aquela manhã de domingo em julho de 1833 quando ele entrou na vila montado no seu cavalo sem a sombra discernível de um passado e comprou terras, como as terá comprado ninguém o soube, e nelas criou por acaso do nada a sua casa, a mansão, e casou com Ellen Coldfield e nela gerou dois filhos — aquela filha que antes mesmo de ser esposa foi viúva às mãos daquele filho — assimcumprindo o seu destino até o dia de violência (de justiça, outros diriam, diria Miss Coldfield) emque morreu. Quentin sempre ouvira contar a mesma história; só os nomes eram permutáveis e o seu número quase infinito. De muitos nomes se fizera a sua infância; e o seu corpo era a câmara vazia onde ecoavam os nomes sonoros dos vencidos; ele não era um ser, uma entidade, era toda uma nação. Era a caserna habitada por fantasmas de olhos teimosamente postos no passado que, volvidos quarenta e três anos, ainda saravam a febre que fora a cura da moléstia, depois da febre acordavamsem saber ainda que fora a mesma febre que não a moléstia o inimigo tão combatido, olhavam na teimosia inconformada a moléstia além da febre, olhavam com saudade verdadeira, fracos da febre mas libertos da moléstia, sem consciência sequer de que essa libertação era o privilégio de uma impotência. (“Mas contar-me isto a mim porquê?” perguntou ele ao pai quando, ao cair da noite, por fim se libertou com a promessa de voltar por ela na charrete e pôde regressar a casa; “contar-me isto a mim porquê? Que tenho eu com isso, que esta terra ou a terra inteira ou lá o que foi um dia se fartasse daquele homem e desse cabo dele? E se deu cabo ao mesmo tempo da família dela, que tenho eu com isso? É o que nos espera a todos nós qualquer dia, seja o nosso nome Sutpen ou Coldfield ou não.” “Ah”, disse Mr. Compson. “Houve tempo em que nós aqui no Sul fizemos das mulheres, senhoras. Depois veio a Guerra e fez delas fantasmas. E o que mais resta a um homem, quando é homem de bem, senão escutar estes fantasmas?” Depois disse: “Queres saber a verdadeira razão por que ela te escolheu?” Estavam sentados na varanda, finda a ceia, aguardando a hora que Miss Coldfield. Determinara que Quentin fosse buscá-la. “É que ela precisa de quem a acompanhe — umhomem, e mais, que seja um homem de bem, mas novo ainda para que faça o que ela quer, do modo como ela quer que seja feito. E escolheu-te porque o teu avô foi o único talvez a quem Sutpen quase podia chamar seu amigo na comarca, e ela crê provavelmente que Sutpen lhe terá contado o que entre ele e ela se passou, esse compromisso que não o foi, a promessa de casamento que não se cumpriu. Que terá mesmo contado ao teu avô a razão por que ela não quis afinal casar com ele. E que o teu avô me terá contado a mim e eu depois te contei. E assim, de certa maneira, tudo o que por lã aconteça esta noite, seja o que for, fica em família; o segredo (se um segredo houver) ficará guardado. Achará que, não fosse amigo dele o teu avô, Sutpen nunca teria granjeado uma certa posição aqui, e sem essa posição não teria se casado com Ellen. De forma que ela pensa talvez que tu serás em parte responsável, sendo neto de quem és, pelo que às mãos dele sucedeu a ela e à família dela.”) Fosse qual fosse a razão da escolha, aquela ou outra, muito, pensava Quentin, demorava ela em chegar ao ponto.

Entretanto, como na proporção inversa da voz que se perdia, o invocado fantasma desse homem que ela jamais perdoou e de quem jamais alcançaria vingança, quase ganhava solidez e permanência. Circum-ambiente mas preso nos flúvios infernais, na aura de um homem de antes quebrar que torcer, ele meditava (meditava, pensava, parecia possuir cinco sentidos como se, desapossado embora da paz — quem já fora insensível à fadiga — que ela recusava dar-lhe, irregressível estivesse ainda, e intocado pelo poder que ela teria de lhe causar ou dano ou dor) plácido e agora manso e nem sequer muito atento — a figura do ogro que, prosseguindo a voz de Miss Coldfield, se desdobrava aos olhos de Quentin nos dois filhos meio-ogros, formando os três o fundo espectral de onde surgia a quarta sombra. Era a mãe, Ellen, a irmã morta: esta Mobe semlágrimas que do demônio concebera como em pesadelo, que mesmo com vida e respirando não vivera e sofrendo não chorara, e tinha agora uma expressão de dor tranquila e extrema, inconsciente de si, não como se houvesse aos outros sobrevivido ou antes deles morrido, mas como se nunca tivera chegado a viver. Pareceu a Quentin que os via, os quatro, ocupando os seus lugares no retrato de família convencional da época, dignos e formais e frios, e agora os via como retrato antigo, esmaecendo, que alcançasse toda a parede atrás da voz e de cuja presença não sabia a possuidora da voz, como se ela (Miss Coldfield) nunca tivera visto a sua sala — fotografia, e grupo, até para Quentin se envolvendo em aura estranha, contraditória e bizarra; quase incompreensível, quase (até para os seus vinte anos) distorcida — um grupo cujo último elemento morrera há vinte e cinco anos e o primeiro há cinquenta, conjurado agora, na abafada escuridão de uma casa morta, pela soturna e implacável inclemência de uma velha e o passivo enervamento de um rapaz de vinte anos que se dizia mesmo no som daquela voz é preciso conhecer muito bem uma pessoa para se conseguir amá-la mas quando se passa quarenta e três anos a odiar alguém é fatal que se conhece muito bem essa pessoa e se calhar é melhor assim se calhar é assim mesmo que ao fim de quarenta e três anos essa pessoa já não nos pode surpreender nem nos traz grande alegria nem grande raiva. E talvez tudo (a voz, as palavras, o incrédulo e insuportável assombro) tivesse um dia sido um grande grito, pensou Quentin, há muitos anos, quando ela era nova — um indomável grito juvenil de impenitência, de incriminação também à cegueira das circunstâncias, à selvajaria dos fatos; mas já era agora: agora só existia a carne fêmea, velha, solitária e defraudada, por quarenta e três anos se encastelando no antigo insulto, na antiga impenitência traída e ultrajada pela derradeira e extrema afronta que foi a morte de Sutpen. “Ele não era bem-nascido. Não era sequer bem-nascido. Chegou aqui com um cavalo e duas pistolas e um nome que nunca ninguém tinha ouvido nem sabia ao certo se era o seu, como não sabia se era seu o cavalo ou eram suas as pistolas, à procura de lugar para se esconder, e a comarca de Yoknapatawpha foi esse lugar*. À procura do aval de homens de bem para assim se barricar dos estranhos, os outros como ele e os que pudessem vir ainda procurá-lo, e Jefferson deu-lhe esse aval — Depois quis ser respeitado, precisou de escudar-se com mulher virtuosa, para que a sua posição na vila fosse inexpugnável mesmo para os homens que o tinham protegido, quando viesse aquele dia inevitável, a hora de se erguerem todos contra ele em desprezo e em horror, ultrajados; e foi o nosso pai, meu e de Ellen, quem deu. Ah, eu não estou a defender Ellen: uma pateta, romântica e cega, que só a juventude e a inexperiência poderiam desculpar, se a desculpam; uma pateta, romântica e cega e depois mulher e mãe mais cega ainda e mais pateta quando já não tinha a juventude ou a inexperiência que a pudessem desculpar, quando morria naquela casa por que vendera o seu orgulho e a sua paz sem ter ninguém, só aquela filha que era quase uma viúva sem nunca ter sido esposa e que havia de ficar viúva, sim, três anos passados sem ter sido coisa alguma, e só o filho que enjeitara o teto que o viu nascer e onde havia de voltar apenas mais uma vez antes de sumir-se para sempre, feito um assassino, quase um fratricida; e ele, o miserável, o infame, o demônio, a combater na Virgínia, e onde melhor que na Virginia podia então a terra ver-se livre dele, mas Ellen bem sabia, como eu sabia também, que ele havia de voltar, que era preciso que morressem primeiro os homens todos do nosso exército antes que uma bala de trabuco ou de canhão o encontrasse; e eu, que era ainda uma criança, porque eu era uma criança, quatro anos mais nova que a sobrinha que ela me pediu para salvar, só eu a quem ela dissesse ‘Protege-a. Protege ao menos a Judith’. Sim, uma pateta, romântica e cega, que não tinha sequer as cem milhas de plantação que parece terem convencido o nosso pai, nem sequer a casa grande ou a ideia que teria os escravos dia e noite a seus pés, que foi a razão por que a tia dela se deu enfim por vencida, mesmo se não convencida. Nada: só tinha o rosto de um homem que todo ele era soberba até montado a cavalo — um homem que a saber-se (incluindo o pai que lhe deu a filha em casamento) não tinha uni passado ou não se atrevia a revelar qual fora —um homem que chegou aqui, vindo sabe-se lá donde, com um cavalo e duas pistolas, e uma cáfila de brutos que ele tinha caçado por suas mãos porque ele inspirava mais terror que os próprios brutos lá na barbárie de onde ele fugiu, e aquele arquiteto francês que antes parecia ter sido caçado e apanhado pelos negros — um homem que fugiu para cá e se escondeu, se encobriu com a respeitabilidade, com as cem milhas de terra que tomou duma tribo de índios ignorantes sabe-se lá como, e aquela casa do tamanho de um tribunal onde ele viveu três anos sem lhe pôr uma janela ou porta ou uma cama e ainda assim lhe chamou Sutpen’s Hundred como se ela fora a mercê de um Rei ou a herança legítima de um senhor seu avô — uma casa, posição: uma esposa e filhos, que por serem necessários ao disfarce ele aceitou com o mais que lhe daria trato de respeito, como aceitaria o desconforto necessário e até os espinhos do mato e das roseiras bravas se ali pudesse ter achado a proteção que buscava. “Não: não era sequer bem-nascido. E nem mesmo casado com Ellen, e nem que fosse casado com dez mil Ellens, podia ganhar o que o berço não lhe deu. Não era nem o queria ser, nem a que o tomassem por tal. Não. Para quê, se lhe bastava o nome de Ellen e do nosso pai na certidão do casamento (ou noutra carta patente que o tomasse respeitável) que todos vissem e lessem, como lhe havia de bastar a assinatura do nosso pai (ou doutro homem de bem) numa qualquer promissória, porque o nosso pai sabia quem tinha sido o seu pai no Tennessee e quem tinha sido o seu avô na Virgínia, e vizinhos nossos e todos aqui sabiam que nós sabíamos, e nós sabíamos que eles sabiam que nós sabíamos, e sabíamos também que eles teriam acreditado em nós mesmo que lhes tivéssemos mentido sobre a família ou o lugar de onde viéramos, tal como lhes bastava que olhassem uma vez para ele que percebiam que ele havia de mentir sobre a família e o lugar de onde viera e porquê, e pela simples razão de que ele pelos vistos era obrigado a calar-se. E o simples fato de ele se ter visto obrigado a escolher as aparências da respeitabilidade que o encobrissem já seria prova suficiente (se mais alguma prova ainda fosse necessária) de que o lugar de onde ele fugira só podia ser o oposto da respeitabilidade e tão sinistro que nem ousava nomeá-lo. Porque ele era muito novo. Só tinha vinte e cinco anos e um homem de vinte e cinco anos não se conforma por sua livre vontade com as privações e fadigas de arrotear terra virgem e fazer um plantação em lugar desconhecido só por mira no dinheiro; não se conformava um rapaz novo, com um passado que não lhe interessasse revelar, no Mississipi de 1833, com um rio cheio de vapores carregados de ingênuos a cair de bêbados, cobertos de diamantes, e dispostos a jogar e a perder o algodão e os escravos antes que o vapor tocasse Nova Orleans; — não aqui, a uma distância que uma noite de galope não vencesse e tendo por única barreira ou por único embargo apenas outros miseráveis como ele ou o risco de ser posto em terra nalgum banco de areia e, quanto muito, o baraço da forca. E ele não era um filho segundo nascido em lugar antigo e pacífico, a Virgínia por exemplo, ou a Carolina, que viesse mandado com os negros sobrantes a ocupar novas terras, porque toda a gente via que esses negros que ele tinha podiam vir (provavelmente vieram) de um lugar muito mais antigo que a Virgínia ou a Carolina, mas que não era pacífico. E a toda a gente bastava tê-lo visto uma vez para entender que, se ele pudesse escolher, teria preferido o Rio e mesmo a certeza da forca em vez de lançar mão ao que fez, ainda que lhe dissessem que havia um tesouro enterrado à sua espera naquelas terras que ele comprou. “Não. Eu não estou a defender Ellen nem me quero justificar a mim.

A mim então muito menos, que eu tive tempo, vinte anos, para o conhecer e a Ellen só teve cinco. E nem esses cinco ela teve porque não o conheceu, não o viu, só sabia dele e do que ele fazia por ouvir dizer, e nem sequer a metade ela sabia, porque daquilo que ele realmente fez durante esses cinco anos parece que nem a metade se sabia e o resto, homem que ao certo o soubesse não iria contá-lo à esposa quanto mais a uma menina solteira; ele chegou aqui e estendeu o tapete de saltimbanco e Jefferson pagou-lhe pelo entretenimento durante cinco anos, mais que não fosse por tê-lo protegido ao ponto de calar o que sabia na presença de senhoras. Mas eu tinha tido a vida inteira para o conhecer, porque afinal e por razões que só sabe a Divina Providência quis o destino que a minha vida acabasse numa tarde emAbril vai para quarenta e três anos, porque se alguém teve da vida nem que seja aquele pouco de antes que eu tinha, não poderá chamar vida a isto que eu tenho desde esse dia. Eu fui testemunha do que sucedeu a Ellen, à minha irmã. Ali quase em clausura, vendo aqueles filhos crescer malfadados e sem poder salvá-los. Vi o preço que ela pagou por essa casa e esse orgulho; vi as promissórias do orgulho e da felicidade e da paz, e tudo o que ela tinha firmado com o seu nome quando entrou naquela noite na igreja, vencerem-se uma após outra. Vi o casamento da Judith proibido sem uma razão ou sequer a sombra de um pretexto; vi Ellen morrer sem que tivesse alguém, só eu, uma criança, a quem pedir que lhe protegesse a filha que restava; vi Henry enjeitar a sua casa e tudo o que seria seu por direito e depois vi-o aparecer para manchar o vestido de noiva da irmã com o sangue do homem que ela amava; e vi-o regressar a ele — a fonte e origem do mal que sobrevivera a todas as suas vítimas — ele, que tinha gerado esses dois filhos não só para que se destruíssem um ao outro e à sua geração mas para destruírem a minha também, e eu mesmo assim aceitei casar-me com ele. “Não. Eu não quero justificar-me. Não me desculpo com a minha juventude, pois qual foi a criatura que, vivendo no Sul depois de 1861, homem ou mulher ou negro ou mula, teve ocasião ou tempo sequer para ser jovem, ou pelo menos saber o que isso é pela boca dos que puderam sê-lo. Não me desculpo com a proximidade: o fato de eu, mulher e jovem e em tempo de casar, e numa altura em que os rapazes que de ordinário havia de conhecer estavam mortos quase todos nalgumcampo de batalha algures, eu ter vivido por dois anos debaixo do seu teto. Não me desculpo com a necessidade material: o fato de eu, órfã e mulher e na miséria, me ter voltado naturalmente, não a pedir o amparo mas o pão da fome, para os meus únicos parentes: a família da minha irmã que morrera: mas ninguém me pode censurar, ninguém, por eu, órfã de vinte anos e mulher e sem recursos, a quem se impunha que justificasse a sua posição naquela casa e defendesse a honra também de uma família de cujas mulheres nunca uma suspeita sequer ofendeu o bom nome, eu ter consentido na proposta de casamento, que não me desonrava, de um homem de quem eu era obrigada a aceitar que me sustentasse. E mais do que tudo não me desculpo comigo mesma: uma jovem a quemesse holocausto havia roubado os pais e a segurança e tudo, que tinha visto aquilo que para ela era a vida ruir aos pés dalgumas figuras com aparência de homens e nome e estatura de heróis: — uma jovem, que eu era uma jovem, atirada para o convívio diário e constante com um desses homens que, apesar do que ele em tempos fora talvez e do muito que dele se dissera, ou do que ela própria soubesse, defendera com honra durante quatro anos o chão e as tradições da terra que a viu nascer (e o homem que assim fez, fosse ele capaz das vilanias mais abjetas, teria possuído aos seus olhos, ainda que por mera associação com eles, a estatura também e a aparência de um herói) e agora regressava do mesmo holocausto que ela sofrera, sem mais nada com que pudesse enfrentar o que o futuro reservava para o Sul do que as mãos vazias e a espada que ao menos para ele nunca foi penhor de rendição, e a menção por valor militar do punho do seu Comandante-em-Chefe derrotado. Que ele era valente. Isso eu nunca neguei. Mas ver a nossa causa, até as nossas vidas, e as esperanças de futuro, e o orgulho do passado, serem assim postos em risco sem outro esteio que o de homens como ele — homens valentes e fortes mas sem piedade nem honra. Será para admirar então que Deus tenha consentido na nossa derrota?” “Nossenhora”, disse Quentin. “Mas ter sido o nosso pai, meu pai e de Ellen, de todos os homens que ele conhecia, de todos aqueles que usavam lá ir beber e jogar e vê-lo combater comaqueles cafres*, homens com filhas que ele bem podia ter ganho às cartas. Mas ter sido o nosso pai. Como pôde ele ter-se abeirado do papai, com que pretexto; o que poderia ter havido entre eles, para além da usual cortesia de dois homens que se encontrassem na rua, entre um homem que veio sabe-se lá de onde ou de onde não ousava ele revelar, e o papai — mordomo da congregação Metodista, um comerciante que não era rico e nada poderia ter feito, nada, para ajudar na situação ou nos desejos de fortuna desse homem e que não possuía, e não é preciso ter muita imaginação para o perceber, alguma coisa que ele tivesse ambicionado ou fosse mais preciosa do que o pó do seu caminho — umhomem que não tinha terras nem escravos à exceção das duas criadas de dentro a quem ele deu alforria, tomou ao serviço, ou que as comprou, e não bebia nem jogava; — o que podia ter havido entre um homem que eu sei de certeza que não pôs os pés numa igreja de Jefferson mais que três vezes na vida — uma quando viu Ellen, uma quando ensaiaram o casamento, uma quando o celebraram; — esse homem que bastava olhar-se para ele para entender que mesmo aparentando nada possuir de seu agora fora habituado a ter dinheiro e fazia tenções de voltar a tê-lo, e não sentiria escrúpulos da forma de o ganhar — e ser esse homem a descobrir Ellen numa igreja. Porque foi na igreja; como se houvesse uma fatalidade e uma qualquer maldição ameaçando a nossa família e até Deus quisesse vê-las cumpridas e o cálice bebido até as fezes. Sim, fatalidade e maldição, sobre o Sul e sobre a nossa família, como se fosse castigo por algum antepassado nosso resolver que a sua descendência havia de se gerar numa terra escolhida pela fatalidade e já amaldiçoada, mesmo que tivera sido outra família que não a nossa, os antepassados do nosso pai, a chamar sobre si a maldição há muitos e muitos anos e a ser forçada por Deus a ganhar raízes numa terra e num tempo já malditos. E até eu, criança pequena que não sabia de nada, embora Ellen fosse minha irmã e Henry e Judith meus sobrinhos, eu não podia lá ir salvo se o papai ou a tia me levava nem tinha ordem de brincar com Henry e Judith a não ser dentro de casa (e isto não era porque eu tivesse menos quatro anos que Judith e menos seis que Henry: pois não foi a mim que Ellen disse ao morrer: ‘Protege-os’?) — até eu estranhava e dizia para comigo, que pecado fora o do nosso pai, ou do pai do nosso pai, antes de ele casar com a nossa mãe para que Ellen e eu tivéssemos de o expiar assim e o sacrifício de uma não bastasse; qual fora o crime que obrigara a nossa família amaldiçoada a ser o instrumento não só da destruição desse homem como da nossa também.” “Sissenhora”, disse Quentin. “Sim”, disse a voz serena e soturna para além do imóvel triângulo das indistintas rendas; e agora, entre os espectros absortos e dignos, parecia a Quentin que via um vulto surgindo, menina de sainha grave e calças de babados e tranças, graves e dignas, do tempo morto.

Ela parecia olhar, espreitar, atrás da cuidada cerca, na austeridade mediana de um acanhado pátio ou jardim, o mundo que via assustador e era a pacata rua de aldeia, com essa expressão comum às crianças que nascem muitos anos depois de se casarem os pais e estão condenadas a julgar todo o comportamento humano pelas inúteis e complexas loucuras dos adultos —uma expressão de Cassandra, sem um sorriso, e profundamente, severamente profética, desproporcional à idade verdadeira de uma criança mesmo a dessa criança que nunca o foi. “Porque eu já vim tarde a este mundo. Nasci com vinte e dois anos de atraso — uma criança para quem, por escutar escondida as conversas dos adultos, o rosto da própria irmã e os rostos dos filhos dela se haviam tornado iguais aos dos ogros duma história contada entre a ceia e a hora do sono, isto muito antes de eu ter idade ou tamanho ou licença para brincar com eles, mas essa mesma criança para quem se havia de voltar enfim aquela irmã já no seu leito de morte, com o filho sumido e a filha condenada a ser viúva antes mesmo de ser esposa, e dizer: ‘Protege-a a ela ao menos. Ao menos salva Judith’. Uma criança, e no entanto que instinto natural ou concedida graça poderia ter ditado essa resposta que a experimentada sabedoria dos seus maiores pelos vistos não soube dar: ‘Protegêla? De quê, de quem? Ele já lhes deu a vida: não precisa de lhes fazer maior mal. É de si mesmos que eles precisam proteção’.” Devia estar a tarde adiantada; devia ser tarde já, e no entanto as louras feridas palpitantes de poeira não se adufavam mais altas no impalpável muro de escuridão que um do outro os separava; o sol parecia não se ter movido quase. Tudo (as palavras, a narrativa) lhe estava (a Quentin) parecendo comungar dessa condição que da lógica e da razão escarnece num sonho que o sonhador sabe ter por força acontecido, nado-morto e completo, num só segundo, embora essa mesma condição, que ao sonho basta para levar o sonhador (verossimilhança) à credulidade — horror ou prazer ou assombro – esteja dependente por inteiro de um formal reconhecimento e duma aceitação de ter decorrido o tempo e decorrer no sonho como na música ou num conto que se lê. “Sim. Eu já vim tarde a este mundo. Fui uma criança que iria lembrar-se daqueles três rostos (e do dele também) tal como os viu pela primeira vez na carruagem, nessa manhã de domingo, o dia em que esta vila por fim compreendeu que ele tinha transformado o caminho de Sutpen’s Hundred à igreja numa pista de cavalos. Eu estava então com três anos, e sem dúvida já os teria visto; devo ter visto. Mas não me lembro. Nem me lembro sequer de ter visto Ellen antes desse domingo. Era como se a irmã que eu nunca vira, que antes de eu nascer se perdera no castelo de um ogro ou gênio-mau, voltasse agora, pela concessão de um dia apenas, ao mundo que deixara, e eu uma criança de três anos, cedo acordada porque era dia grande, vestida e encanudada como se fosse Natal, porque esse era um dia mais solene até que o dia de Natal, porque nesse dia enfim o ogro ou gênio-mau condescendia, por atenção à mulher e aos filhos, em vir à igreja, permitindo assim que eles se aproximassem ao menos das raias da salvação, e que Ellen tivesse ao menos o ensejo de lutar contra ele pelas almas daqueles filhos num lugar onde ela teria o amparo não só do Céu como da família e das pessoas do seu meio; sim, que nesse domingo ele sujeitava-se até a redenção ou na falta disso curvava-se de momento à galhardia, embora continuasse irregenerado. Era isto o que eu esperava. Era isto o que eu já via, aguardando na porta da igreja, entre o papai e a nossa tia, que chegasse a carruagem daquelas doze milhas de jornada. E embora eu já tivesse com certeza visto Ellen e os filhos, esta é a visão desse momento em que primeiro os vi e que vou levar comigo para a cova: um vislumbre, como as nuvens anunciando o tornado, da carruagem e do altivo rosto branco de Ellen, que seguia dentro, e as duas réplicas do rosto dele em miniatura que a ladeavam, e na boleia o rosto do cafre que vinha a guiar, e ele, o rosto dele que era tal e qual o do negro salvo nos dentes (isto com certeza porque ele usava barbas) — tudo numa fúria e num trovão de cavalos desenfreados e de poeira e de galope.

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