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Abundancia – o Futuro E Melhor do Que Voce – Steven Kotler, Peter H. Diamandis

Gaius Plinius Cecilius Secundus, conhecido como Plínio, o Velho, 1 nasceu na Itália no ano 23. Foi um comandante naval e do exército no início do Império Romano, mais tarde um escritor, naturalista e filósofo natural, mais conhecido por sua Naturalis Historia, uma enciclopédia em37 volumes que descreve, bem, tudo que havia por descrever. Sua obra inclui um livro sobre cosmologia, outro sobre agricultura, um terceiro sobre magia. Precisou de quatro volumes para cobrir a geografia do mundo, nove para a flora e fauna e mais nove para a medicina. Em um dos seus últimos volumes, Terra, livro XXXV, Plínio conta a história de um ourives que trouxe um prato de jantar incomum à corte do imperador Tibério. Aquele prato era espantoso, feito de um metal novo, bem leve, quase tão brilhante quanto a prata. O ourives contou que o extraíra da argila comum, usando uma técnica secreta, cuja fórmula somente ele e os deuses conheciam. Tibério, porém, ficou um pouco preocupado. O imperador foi um dos grandes generais de Roma, um guerreiro que conquistou grande parte da atual Europa e no processo acumulou uma fortuna em ouro e prata. Era também um expert financeiro que sabia que o valor de seu tesouro despencaria se as pessoas subitamente tivessemacesso a um novo metal reluzente mais raro que o ouro. “Portanto”, narra Plínio, “em vez de dar ao ourives a recompensa esperada, ordenou que fosse decapitado.” O novo metal brilhante era o alumínio, 2 e aquela decapitação marcou sua perda para o mundo por quase dois milênios. Depois reapareceu no início do século 19, mas era ainda bastante raro para ser considerado o metal mais valioso do mundo. O próprio Napoleão III ofereceu um banquete ao rei do Sião onde os convidados de honra receberam talheres de alumínio, enquanto os demais tiveram de se contentar com ouro. A raridade do alumínio é uma questão de química. Tecnicamente, depois do oxigênio e silício, é o terceiro elemento mais abundante na crosta da Terra, constituindo 8,3% do peso do mundo. Atualmente é barato, generalizado, e usado de forma perdulária, mas – como o banquete de Napoleão demonstra – nem sempre foi assim. Devido à alta afinidade do alumínio com o oxigênio, ele nunca aparece na natureza como um metal puro. Pelo contrário, combina-se emóxidos e silicatos, formando um material semelhante à argila chamado bauxita. Embora a bauxita seja 52% alumínio, separar o minério de metal puro era uma tarefa complexa e difícil. Mas entre 1825 e 1845, Hans Christian Oersted e Frederick Wohler descobriram que aquecer cloreto de alumínio anídrico com amálgama de potássio e depois eliminar o mercúrio por destilação deixava um resíduo de puro alumínio. Em 1854, Henri Sainte-Claire Deville criou o primeiro processo comercial de extração, reduzindo o preço em90%. Mas o metal continuava dispendioso e com pouca oferta. Foi a criação de uma tecnologia revolucionária conhecida como eletrólise, descoberta de forma independente e quase simultânea em 1886 pelo químico norte-americano Charles Martin Hall e pelo francês Paul Héroult, que mudou tudo. O processo Hall-Héroult, como é agora conhecido, usa eletricidade para liberar alumínio da bauxita.


Subitamente todos no planeta tiveram acesso a quantidades absurdas de metal barato, leve e maleável. Salvo a decapitação, não há nada de tão incomum neste caso. A história está repleta de relatos de recursos antes raros que se tornaram abundantes pela inovação. O motivo é bemsimples: a escassez é muitas vezes contextual. Imagine uma laranjeira gigante cheia de frutas. Se eu colho todas as laranjas dos galhos inferiores, as frutas acessíveis acabam. De minha perspectiva limitada, as laranjas agora são raras. Mas uma vez que alguém invente uma tecnologia chamada escada de mão, subitamente meu alcance aumenta. Problema resolvido. A tecnologia é um mecanismo liberador de recursos. Pode transformar o outrora escasso no agora abundante. Desenvolvendo um pouco mais esta discussão, vejamos a cidade planejada de Masdar 3 , nos Emirados Árabes Unidos, que vem sendo construída pela Abu Dhabi Future Energy Company. Localizada na periferia de Abu Dhabi, depois da refinaria de petróleo e do aeroporto, Masdar em breve abrigará 50 mil moradores, enquanto outros 40 mil trabalham ali. Eles não produzirão nenhum resíduo nem liberarão qualquer carbono. Nenhum carro será permitido dentro do perímetro da cidade, e nenhum combustível fóssil será consumido dentro de seu território. Abu Dhabi é o quarto maior produtor da Opep, com 10% das reservas conhecidas de petróleo. A revista Fortune certa vez a designou a cidade mais rica do mundo. Tudo isso torna interessante o fato de estarem dispostos a gastar US$ 20 bilhões dessa riqueza construindo a primeira cidade pós-petróleo do mundo. Em fevereiro de 2009, viajei a Abu Dhabi para descobrir mais detalhes. Logo após chegar, deixei o hotel, peguei um táxi e pedi que me levasse ao canteiro de obras de Masdar. Foi uma viagem de volta no tempo. Eu estava hospedado no Emirates Palace, um dos hotéis mais caros já construídos e um dos poucos lugares que conheço onde alguém (com um orçamento bemmaior do que o meu) pode alugar uma suíte folheada a ouro por US$ 11.500 a diária. Até a descoberta de petróleo em 1960, Abu Dhabi havia sido uma comunidade de pastores e pescadores de pérolas nômades. Enquanto meu táxi passava pelo cartaz “Bem-vindo ao futuro local de Masdar”, vi sinais dessa época.

Eu estava esperando que a primeira cidade póspetróleo do mundo parecesse um pouco como um cenário de Star Trek. O que encontrei foramuns poucos trailers fixos para canteiro de obras estacionados num trecho árido de deserto. Durante minha visita, tive a chance de conhecer Jay Witherspoon, o diretor técnico de todo o projeto. Witherspoon explicou os desafios que estavam enfrentando e os motivos de tais desafios. Masdar, ele disse, estava sendo construída com base num fundamento conceitual conhecido como One Planet Living (OPL – Convivendo em um único planeta). 4 Para compreender o OPL, Witherspoon explicou, eu teria primeiro que entender três fatos. Fato um: atualmente a humanidade consome 30% a mais dos recursos naturais do planeta do que podemos repor. Fato dois: se todos neste planeta quisessem viver com o estilo de vida do europeu médio, precisaríamos de três planetas em termos de recursos. Fato três: se todos neste planeta quisessem viver como um norte-americano médio, precisaríamos de cinco planetas. OPL, portanto, é uma iniciativa global que visa combater essa escassez. A iniciativa OPL, criada pela BioRegional Development e pelo World Wildlife Fund, é na verdade um conjunto de dez princípios básicos. Eles variam de preservar culturas indígenas ao desenvolvimento de materiais sustentáveis do “berço ao berço” (cradle-to-cradle), mas tudo gira em torno de aprender a compartilhar. Masdar é um dos projetos de construção mais caros da história. A cidade inteira está sendo erguida para um futuro pós-petróleo, ameaçado pela falta dessa matéria-prima fóssil, e pelos conflitos por água. Mas é aqui que a lição do alumínio se aplica. Mesmo num mundo sem petróleo, Masdar continuará banhada pela luz solar. Muita luz solar. A quantidade de energia solar que atinge nossa atmosfera foi calculada como sendo de 174 petawatts (1.740 × 10^17 watts), 5 com variação de 3,5% para mais ou para menos. Desse fluxo solar total, cerca de metade atinge a superfície da Terra. Como a humanidade consome atualmente cerca de 16 terawatts anuais (em cifras de 2008), existe mais de 5 mil vezes energia solar atingindo a superfície do planeta do que consumimos num ano. De novo, o problema não é de escassez, mas de acessibilidade. Além disso, no tocante aos conflitos pela água, Masdar fica no Golfo Pérsico – um grande corpo aquoso. A própria Terra é um planeta aquoso, coberta em 70% por oceanos. Mas esses oceanos, como o Golfo Pérsico, são salgados demais para o consumo ou a produção agrícola.

De fato, 97,3% de toda a água neste planeta é salgada. Mas e se, assim como a eletrólise transformou facilmente bauxita em alumínio, uma tecnologia nova conseguisse dessalinizar uma fração minúscula de nossos oceanos? Quão sedenta ficaria Masdar então? O fato é que, vistos pelas lentes da tecnologia, poucos recursos são realmente escassos. Eles são principalmente inacessíveis. Contudo a ameaça de escassez continua dominando a nossa visão de mundo. Os limites do crescimento A escassez tem sido um problema desde que a vida emergiu neste planeta, mas sua encarnação contemporânea – o que muitos denominam o “modelo da escassez” – data do final do século 18, quando o economista inglês Thomas Robert Malthus 6 percebeu que enquanto a produção de alimentos se expandia linearmente, a população crescia exponencialmente. Por causa disso, Malthus convenceu-se de que chegaria um ponto no tempo em que excederíamos a nossa capacidade de nos alimentarmos. Em suas palavras: “O poder da população é indefinidamente maior do que o poder da Terra de produzir subsistência para o homem” 7 . Desde essa época, uma série de pensadores ecoou essa preocupação. No início dos anos 1960, uma espécie de consenso havia sido atingido. Em 1966, o dr. Martin Luther King Jr. observou: “Ao contrário das pestes da Idade Média ou das doenças contemporâneas, que não entendemos, a peste moderna de superpopulação é solucionável por meios que descobrimos e com recursos que possuímos” 8 . Dois anos depois, o biólogo da Universidade de Stanford dr. Paul R. Ehrlich fez soar um alarme ainda mais alto com a publicação de The population bomb. 9 Mas foi o resultado posterior de uma pequena reunião realizada em 1968 que realmente alertou o mundo para a profundidade da crise. Naquele ano, o cientista escocês Alexander King e o industrial italiano Aurelio Peccei reuniram um grupo multidisciplinar de grandes pensadores internacionais numa pequena vila emRoma. O Clube de Roma, 10 como esse grupo passou a ser conhecido, havia se juntado para discutir os problemas do pensamento de curto prazo em um mundo de longo prazo. Em 1972, publicaram os resultados daquela discussão. Limites do crescimento * tornou-se um clássico instantâneo, vendendo 12 milhões de cópias em 30 idiomas, e assustando quase todos que o leram. Usando um modelo desenvolvido pelo fundador da dinâmica de sistemas, Jay Forrester, o clube comparou as taxas de crescimento populacional mundiais com as taxas de consumo de recursos globais. Se a ciência por trás do modelo se mostrou complicada, a mensagem foi simples: nossos recursos estão se esgotando, e nosso tempo também. Já decorreram quatro décadas desde que o relatório foi divulgado. Embora muitas de suas previsões mais catastróficas não se concretizassem, os anos não atenuaram a avaliação. Atualmente continuamos encontrando provas de sua veracidade na maioria dos lugares que examinamos.

Um dentre cada quatro mamíferos está ameaçado de extinção, 12 enquanto 90% dos grandes peixes já desapareceram13 . Nossos lençóis aquíferos estão começando a secar, 14 nosso solo está se tornando salgado demais para a produção agrícola. O nosso petróleo está se esgotando, 15 bem como o urânio 16 . Até o fósforo – um dos principais ingredientes dos fertilizantes – anda escasso. 17 No tempo decorrido para ler esta frase, uma criança morrerá de fome. 18 No tempo que se gasta para ler este parágrafo, outra morrerá de sede (ou por beber água contaminada para matar essa sede). 19 E isso, dizem os especialistas, é só o começo. Existem agora mais de 7 bilhões de pessoas no planeta. Se a tendência não se reverter, em 2050 estaremos próximos de 10 bilhões. Os cientistas que estudam a capacidade biótica da Terra – o cálculo de quantas pessoas conseguem viver aqui de forma sustentável – têm apresentado estimativas bem divergentes. 20 Os otimistas acreditam que seja algo próximo de 2 bilhões. Os pessimistas pensam que poderiam ser 300 milhões. Mas quem concorda ainda que com a menos alarmante dessas previsões – como a dra. Nina Fedoroff, consultora de ciência e tecnologia do secretário de Estado norte-americano, recentemente contou aos repórteres – só pode chegar a uma conclusão: “Precisamos reduzir a taxa de crescimento da população global; o planeta não consegue suportar muito mais pessoas”. 21 Algumas coisas, porém, são mais fáceis de dizer do que de fazer. O mais deplorável exemplo de controle da população de cima para baixo foi o programa de eugenia dos nazistas, 22 mas houve alguns outros pesadelos também. A Índia realizou ligações das trompas e vasectomias em milhares de pessoas em meados da década de 1970. 23 Algumas foram pagas pelo sacrifício, enquanto outras foram simplesmente forçadas a se submeter ao procedimento. Os resultados derrubaram o partido dominante do poder, gerando uma controvérsia que persiste até hoje. Já a China passou 30 anos sob uma política de um único filho por família 24 (embora costume ser discutida como um programa universal, essa política na verdade se estende a apenas uns 36% da população). De acordo com o governo chinês, os resultados foram 300 milhões de pessoas a menos. De acordo com a Anistia Internacional, o que ocorreu foi um aumento do suborno, da corrupção, de taxas de suicídio, taxas de aborto, esterilizações forçadas e rumores persistentes de infanticídio. 25 (Segundo tais rumores, dada a preferência por um filho homem, meninas recém-nascidas são assassinadas.) De qualquer modo, como nossa espécie infelizmente descobriu, o controle da população de cima para baixo é bárbaro, tanto na teoria como na prática. Com isso parece só restar uma opção.

Se não se consegue se livrar das pessoas, é preciso ampliar os recursos que essas pessoas consomem. E ampliá-los substancialmente. Como atingir essa meta tem sido tema de muitos debates, mas atualmente os princípios do OPL vêm sendo defendidos como a única opção viável. Essa opção me incomodou, não porque eu não estivesse comprometido com a ideia de maior eficiência. Use menos, ganhe mais: quem poderia seriamente se opor à eficiência? Pelo contrário, o motivo de minha preocupação era que a eficiência vinha sendo defendida como a única opção disponível. Mas tudo que eu fazia na minha vida mostrava que havia caminhos adicionais dignos de ser seguidos. A fundação que dirijo, a X PRIZE Foundation, 26 é uma organização sem fins lucrativos dedicada a promover avanços radicais em benefício da humanidade, pelo planejamento e organização de grandes competições com prêmios de incentivo. Um mês antes de viajar para Masdar, presidi nossa reunião do conselho anual “Engenharia Visionária”, onde grandes inventores como Dean Kamen e Craig Venter, empresários da tecnologia brilhantes como Larry Page e Elon Musk e gigantes internacionais dos negócios como Ratan Tata e Anousheh Ansari estavam debatendo como obter avanços radicais em energia, ciências da vida, educação e desenvolvimento global. Todas essas são pessoas que criaram indústrias de grande impacto em setores antes inexistentes. Muitas delas realizaram essa façanha resolvendo problemas por muito tempo considerados insolúveis. Conjuntamente, constituem um grupo cujo histórico mostrou que uma das melhores respostas à ameaça da escassez não é cortar fatias menores de nosso bolo, e sim descobrir como produzir mais bolos. A possibilidade de abundância Claro que a abordagem de produzir mais bolos não é novidade, mas existem algumas diferenças importantes agora. Essas diferenças compreenderão grande parte deste livro. Em síntese, pela primeira vez na história, nossas capacidades começaram a alcançar nossas ambições. A humanidade está adentrando um período de transformação radical em que a tecnologia tem o potencial de elevar substancialmente os padrões de vida básicos de todos os homens, mulheres e crianças do planeta. Dentro de uma geração, seremos capazes de fornecer bens e serviços, antes reservados para uma minoria rica, a toda e qualquer pessoa que precisar deles. Ou que os desejar. A abundância para todos está na verdade ao nosso alcance. Nesta era moderna de ceticismo, muita gente acha absurda uma tal proclamação, mas elementos dessa transformação já são visíveis. Nos últimos 20 anos, as tecnologias sem fio e a internet se tornaram universais, acessíveis e disponíveis a quase todo mundo. A África saltou uma geração tecnológica, trocando as linhas de telefone fixo que riscam nossos céus ocidentais pela alternativa sem fio. A penetração dos telefones celulares vem crescendo exponencialmente: de 2% em 2000 para 28% em 2009, com uma estimativa de 70% em 2013. 27 Pessoas semescolaridade e com pouco para comer já conquistaram o acesso à conectividade celular, fato inimaginável 30 anos atrás. Neste momento, um guerreiro Masai com um telefone celular dispõe de mais recursos de telefonia móvel do que o presidente dos Estados Unidos 25 anos atrás. E se estiver com um smartphone com acesso ao Google, terá mais acesso às informações do que o presidente apenas 15 anos atrás.

No final de 2013, a grande maioria da humanidade terá sido capturada por essa mesma World Wide Web de comunicações e informações instantâneas e de baixo custo. Em outras palavras, estamos agora vivendo num mundo de abundância de informações e comunicações. De forma semelhante, o avanço de tecnologias transformacionais novas – sistemas computacionais, redes e sensores, inteligência artificial, robótica, biotecnologia, bioinformática, impressão tridimensional, nanotecnologia, interfaces homem-máquina e engenharia biomédica – logo permitirá que a vasta maioria da humanidade experimente aquilo a que apenas os mais abastados hoje têm acesso. Ainda melhor, essas tecnologias não são os únicos agentes de mudança em ação. Existem três forças adicionais atuando, cada uma ampliada pelo poder de tecnologias emcrescimento exponencial, cada uma com um grande potencial de produção de abundância. Uma revolução do Faça-Você-Mesmo (conhecido pela sigla inglesa DIY de Do-It-Yourself), que veio fermentando nos últimos 50 anos, ultimamente começou a crescer. No mundo atual, o alcance dos inventores de fundo de quintal se estendeu bem além de carros personalizados e computadores feitos em casa, e agora chega a áreas antes misteriosas como genética e robótica. Além disso, hoje em dia grupos pequenos de adeptos do DIY, bastante motivados, conseguem realizar o que antes era monopólio das grandes corporações e de governos. Os gigantes da indústria aeroespacial achavam que era impossível, mas Burt Rutan voou ao espaço. 28 Craig Venter desafiou o poderoso governo norte-americano na corrida para sequenciar o genoma humano. 29 O poder recém-descoberto desses ousados inovadores é a primeira de nossas três forças. A segunda força é o dinheiro – uma montanha de dinheiro – sendo gasto de uma forma bem específica. A revolução da alta tecnologia criou uma espécie inteiramente nova de tecnofilantropos ricos que estão usando suas fortunas para solucionar desafios globais relacionados à abundância. Bill Gates trava uma cruzada contra a malária, Mark Zuckerberg vem trabalhando para reinventar a educação, enquanto Pierre e Pam Omidyar se concentram emtrazer eletricidade ao mundo em desenvolvimento. E essa lista prossegue indefinidamente. Emseu conjunto, nosso segundo propulsor é uma força tecnofilantrópica sem igual na história. Finalmente, existem os mais pobres dentre os pobres, o bilhão mais carente, que estão enfim se plugando na economia global e tendem a se tornar o que denomino “o bilhão ascendente”. A criação de uma rede global de transportes foi o passo inicial nesse caminho, mas é a combinação de internet, microfinanças e tecnologia de comunicação sem fio que está transformando os mais pobres dentre os pobres numa força de mercado emergente. Agindo de forma isolada, cada uma dessas três forças possui um enorme potencial. Mas atuando juntas, e com a amplificação das tecnologias em crescimento exponencial, o antes inimaginável se torna agora possível. Então o que é possível? Imagine um mundo de 9 bilhões de pessoas com água limpa, alimentos nutritivos, moradia acessível, educação personalizada, assistência médica de primeira e energia abundante e não poluente. Construir esse mundo melhor é o maior desafio da humanidade. O que se segue é a história de como podemos enfrentar tal desafio. * MEADOWS, Donella H; MEADOWS, Dennis L.; RANDERS, Jørgen; BEHRENS III, William W.

Limites do crescimento. São Paulo: Perspectiva, 1973. CAPÍTULO 2 CONSTRUINDO A PIRÂMIDE O problema das definições A abundância é uma visão radical, e antes de começarmos a lutar por ela precisamos defini-la. Na tentativa de mapear esse território, alguns economistas adotam uma abordagem de baixo para cima e começam pela pobreza, mas isso pode ser traiçoeiro. O governo norte-americano define pobreza usando dois indicadores diferentes: “pobreza absoluta” e “pobreza relativa”. 1 A pobreza absoluta mede o número de pessoas que vivem abaixo de certo limite de renda. A pobreza relativa compara a renda de um indivíduo com a renda média da economia inteira. Mas a dificuldade de ambos os termos é que a abundância é uma visão global, e nenhum deles se sustenta além das fronteiras nacionais. Por exemplo, em 2008 o Banco Mundial revisou sua linha da pobreza internacional – umindicador da pobreza absoluta empregado de longa data – mudando-a de “aqueles que vivemcom menos de US$ 1 diário” para “aqueles que vivem com menos de US$ 1,25 dólar diário”. 2 Por essa cifra, alguém que trabalhe seis dias por semana por 52 semanas aufere US$ 390 ao ano. Mas naquele mesmo ano, o governo norte-americano divulgou que 39,1 milhões de indivíduos que viviam nos 48 estados contíguos (Alasca e Havaí tinham números ligeiramente diferentes) e ganhavam US$ 10.400 anuais também viviam em pobreza absoluta. 3 Claramente, existe um abismo entre esses totais. Retificar essa disparidade – o que precisa ser feito se quisermos fixar uma meta uniforme de redução global da pobreza – é um problema para o indicador de pobreza absoluta. Um problema do indicador de pobreza relativa é que não importa quanto a pessoa ganha em relação aos seus vizinhos, se esse dinheiro não permite comprar o que é necessário. A fácil disponibilidade de bens e serviços é outro fator crítico na determinação da qualidade de vida, mas essa disponibilidade varia tremendamente de acordo com a geografia. Atualmente, a maioria dos norte-americanos assolados pela pobreza possuem televisão, telefone, eletricidade, água corrente e canalização interna. A maioria dos africanos não dispõe desses confortos. Se os bens e serviços desfrutados pelos pobres da Califórnia fossem transferidos para o somaliano comum que vive com menos de US$ 1,25 ao dia, aquele somaliano subitamente ficaria riquíssimo. Isso inviabiliza qualquer indicador de pobreza relativa na definição de padrões globais. Além disso, ambos os termos se tornam ainda mais questionáveis numa linha do tempo. Os norte-americanos atuais que vivem abaixo da linha da pobreza estão não apenas a anos-luz de distância da maioria dos africanos, como estão a anos-luz dos norte-americanos mais ricos de apenas um século atrás. Atualmente 99% dos norte-americanos que se encontram abaixo da linha da pobreza possuem eletricidade, água encanada, toalete com descarga e um refrigerador, 95% possuem uma televisão, 88% têm um telefone, 71% têm um carro e 70% têm até ar- condicionado. 4 Isso pode não parecer grande coisa, mas cem anos atrás homens como Henry Ford e Cornelius Vanderbilt, que estavam entre os mais ricos do planeta, desfrutavam de poucas dessas comodidades. Uma definição prática Talvez um meio melhor de chegarmos a uma definição de abundância seja começar por aquilo sobre o que não estou falando.

Não estou falando sobre Trump Towers, Mercedes-Benz e Gucci. Abundância não significa proporcionar a todos neste planeta uma vida de luxo – pelo contrário, significa proporcionar a todos uma vida de possibilidades. Ser capaz de viver uma tal vida requer ter as necessidades básicas satisfeitas e muito mais. Significa também estancar algumas sangrias absurdas. Alimentar os famintos, dar acesso a água limpa, acabar com a poluição do ar em ambientes fechados e erradicar a malária – quatro flagelos totalmente preveníveis que matam, respectivamente, sete, três, três e duas pessoas por minuto no mundo inteiro – é uma necessidade. 5 Mas em última análise, abundância significa criar um mundo de possibilidades: um mundo onde os dias de todos sejam gastos com sonhos e realizações, não emluta pela sobrevivência. Certamente, as ideias acima ainda são nebulosas demais, mas representam um bom ponto de partida. Na tentativa de solidificar esse alvo, examino níveis de necessidade que tenhamalguma semelhança com a agora famosa pirâmide de Abraham Maslow. 6 De 1937 a 1951, Maslow foi uma estrela em ascensão na equipe do Brooklyn College, sendo orientado pela antropóloga Ruth Benedict e pelo psicólogo gestaltista Max Wertheimer. Naquela época, grande parte da psicologia se concentrava em resolver problemas psicológicos, em vez de celebrar as possibilidades psicológicas, mas Maslow teve ideias diferentes. Achou Benedict e Wertheimer “seres humanos tão maravilhosos” que começou a estudar seu comportamento, tentando descobrir em que estavam acertando. Com o tempo, começou a analisar o comportamento de outros modelos do supremo desempenho humano. Albert Einstein, Eleanor Roosevelt e Frederick Douglass foram objetos da sua pesquisa. Maslow estava em busca de traços em comum e circunstâncias em comum que explicassem por que aquelas pessoas conseguiam atingir alturas tão incríveis, enquanto tantos outros continuavam fracassando. Para ilustrar seu pensamento, Maslow criou sua “Hierarquia das Necessidades Humanas”, uma teoria disposta como uma pirâmide. 7 Em sua pirâmide existem cinco níveis de necessidades humanas – sendo que o topo corresponde à “autorrealização” ou a necessidade de um ser humano de alcançar seu pleno potencial. De acordo com Maslow, as necessidades em cada nível precisam ser satisfeitas antes que uma pessoa possa avançar para a próxima etapa. Por esse motivo, as necessidades físicas, como ar, água, comida, calor, sexo e sono, estão na base da pirâmide, seguidas de perto por necessidades de segurança como proteção, defesa, lei, ordem e estabilidade. O nível do meio é ocupado pelo amor e a afiliação: família, relacionamentos, afeição e trabalho. E acima disso vem a estima: realização, status, responsabilidade e reputação. No nível máximo estão as “necessidades de autorrealização” que envolvem o crescimento e a realização pessoal – embora na verdade constituam a devoção a umpropósito superior e a disposição em servir a sociedade. Minha pirâmide da abundância, embora um pouco mais compacta que a de Maslow, segue um esquema análogo, por razões semelhantes. Existem três níveis, o inferior correspondendo a comida, água, abrigo e outras preocupações de sobrevivência básicas. O do meio é dedicado aos catalisadores de mais crescimento, como energia abundante, oportunidades educacionais amplas e acesso a comunicações e informações globais, enquanto o nível mais alto está reservado à liberdade e à saúde, dois pré-requisitos básicos que permitem ao indivíduo contribuir para a sociedade. Vejamos mais de perto.

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