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Acesso aos bastidores (Sinners on tour) – Olivia Cunning

Uma pilha de panfletos da pasta de Myrna caiu no carpete florido. Logo agora! Na pressa de sair da sala de aula, tinha se esquecido de fechar o zíper. Com um suspiro exasperado, ela se abaixou para catar os papéis. Será que o dia poderia ficar ainda pior? Do outro lado do saguão, perto dos elevadores, ouvia-se um coro de “vira, vira, vira” e uma gritaria animada. Pelo visto, alguém estava se divertindo aquela noite. Com certeza não era ela. Myrna enfiou os panfletos na pasta, fechou o zíper e atravessou o saguão ostensivo do hotel a caminho de seu quarto, no sexto andar. Só precisava de um banho quente e demorado. Não tinha ideia de como caíra na conversa do chefe do departamento e aceitara participar daquela conferência idiota. Que perda de tempo. Os outros participantes não identificariam uma ideia inovadora nem que ela plantasse bananeira na frente deles e cantasse o hino nacional. E que importância tinha o que os outros achavam do método dela? Os alunos adoravam as aulas. Suas turmas estavam sempre lotadas. Tinham lista de espera e… Myrna ouviu passos atrás de si. Sentiu os pelos da nuca arrepiarem. Parou… coração acelerado, palma das mãos úmidas. A pessoa que a estava seguindo parou também. Podia ouvir sua respiração. Jeremy? Não. Não era seu ex-marido. Afinal, não tinha como achá-la. Não era? Mas o fio gelado de suor que escorria entre seus seios não sabia disso. Apertou a alça da pasta e se preparou para esmurrar o idiota que se atrevia a espreitá-la. “Excelente palestra, dra. Evans”, disse uma voz desconhecida às suas costas.


Não era Jeremy. Graças a Deus. Myrna respirou fundo, trêmula, e olhou por cima do ombro. Um homem alto e magro de meia-idade estendia a mão para ela. “Quem pensaria em usar riffs de guitarra em uma discussão sobre psicologia? Eu não seria capaz. Quer dizer, concordo com o método. Só não sei se daria conta com o mesmo nível de… hum…” Ele limpou a garganta. “Entusiasmo.” Em seguida, sorriu, baixando os olhos para o decote do terninho justo cor de chumbo dela. Com o coração ainda acelerado, Myrna reprimiu a vontade de voar em cima do estranho e apertou sua mão. “Obrigada, senhor…?” “Na verdade é doutor”, respondeu ele, envolvendo a mão de Myrna na sua e abrindo um sorriso de orelha a orelha. “Dr. Frank Elroy, da Universidade de Stanford. Psicologia da anormalidade.” Ah, o dr. Babaca. Dr. Grandessíssimo Babaca. Já fomos apresentados. Umas mil vezes. Ela assentiu e forçou um sorriso. “Prazer em conhecê-lo, dr. Elroy.” “Aceita beber alguma coisa?” Ele indicou o bar do hotel com a cabeça, acariciando a mão dela com o polegar. Myrna sentiu um calafrio, mas manteve o sorriso.

O cara era a antítese do seu tipo. Um chato. Não, obrigada. Sua aversão a gente chata tinha atingido picos viscerais. “Sinto muito, mas vou ter que recusar. Estava a caminho do meu quarto, para dormir direto até amanhã. Fica para a próxima.” Elroy murchou feito um balão furado. “Claro. Sei bem como é. Você deve estar exausta depois daquela…” Ele sorriu mais uma vez. “Discussão acalorada.” Discussão? Ele não tinha visto o que acontecera? “Banho de sangue” seria uma descrição mais adequada, e ela se sentia especialmente anêmica no momento. “Pois é”, murmurou, estreitando os olhos. Então puxou a mão e virou-se para seguir em direção ao elevador, contornando o bar do hotel e uma fileira de vasos de plantas. Uma rodada de risos escandalosos chamou sua atenção para o bar. Quatro homens estavam sentados, rindo de um quinto, deitado de costas sobre a mesa em meio a um monte de copos comdiferentes quantidades de uma bebida cor de âmbar. Ele virou-se de lado, fazendo a mesa inclinar perigosamente sob seu peso, e os quatro correram para salvar suas cervejas. “Alguém faça o teto parar de girar!”, gritou para o lustre Tiffany que iluminava a mesa. “Suspende a cerveja, Brian”, disse um dos amigos. Brian levantou um dedo. “Só mais uma.” E outro dedo: “Ou duas”. E mais um: “Talvez quatro”. Myrna riu consigo mesma.

Os cinco amigos destoavam dos participantes da conferência no bar e no saguão do hotel, em sua maioria professores universitários. Mas o grupo inusitado atraía mais olhares e animosidade do que merecia. Talvez por causa das tatuagens. Ou seriam os piercings e as pulseiras de tachinhas? Ou a roupa preta, o cabelo tingido e o corte estranho? Não importava. Era só um grupo de amigos se divertindo. E não sendo chatos, ela tinha certeza. Deu um passo hesitante em direção ao elevador. Adoraria bater um papo com eles. E bem que precisava de um pouco de descontração… qualquer coisa que não uma conversa edificante com umintelectual. Já tinha o suficiente disso no trabalho. Ainda deitado na mesa, Brian cantarolou um riff enquanto tocava uma guitarra invisível. Myrna reconheceu a sequência de notas de cara. Usava o solo em suas aulas sobre sensualidade masculina, porque ninguém no mundo tocava uma guitarra com tanta sensualidade quanto Mestre Sinclair. Espere aí! Será que…? Não, o que uma banda de rock como o Sinners estaria fazendo numa conferência acadêmica? Deviam ser apenas fãs, embora o nome Brian não lhe parecesse estranho. O guitarrista do Sinners não se chamava Brian Sinclair? Um dos homens virou o rosto para coçar o queixo no ombro. Apesar dos óculos espelhados, Myrna reconheceu imediatamente o vocalista Sedric Lionheart. Seu coração acelerou alguns compassos. Era o Sinners. “Estou tão mamado!”, exclamou Brian. Ele saiu da mesa e caiu no colo de dois amigos, derrubando vários copos vazios de cerveja. Os dois o deixaram se espatifar no chão sem qualquer cerimônia. Myrna riu pelo nariz e olhou ao redor para ter certeza de que ninguém a vira fazer um barulho tão deselegante. Tinha que falar com eles. Poderia fingir que queria se apresentar por causa da palestra. Na verdade, amava o som dos caras.

E eles não eram de se jogar fora. A definição exata do seu tipo. Loucos. Isso mesmo. Exatamente o que ela precisava depois daquele dia. Deixando de lado os planos de se esconder em seu quarto, Myrna contornou a divisória baixa que separava o bar do saguão. Parou na frente de Brian, que engatinhava com dificuldade, e pôs a pesada pasta no chão para ajudá-lo a se levantar. Assim que tocou o braço do guitarrista, seu coração parou por um instante, disparando logo em seguida. Magnetismo animal. Brian estava carregado de magnetismo animal. Olá, sr. Distração Bem-vinda. Ele correu os olhos ao longo das pernas e do corpo de Myrna, inclinando a cabeça de leve. Suas feições seriam um deleite para um escultor: mandíbula delineada, queixo pontudo, maçãs do rosto proeminentes. Seria ousadia demais examinar os contornos daquele rosto com os dedos? Com os lábios? Myrna baixou os olhos para as próprias mãos, que seguravam aquele braço musculoso. “Cuidado com esse braço”, disse ela. “Poucos guitarristas têm sua habilidade.” Ele apoiou-se para ficar de pé, mas em seguida tropeçou nela. Myrna inspirou seu cheiro profundamente, fechando os olhos com langor. Um desejo primitivo tomou seus sentidos. Teria rosnado em voz alta? Brian apertou os ombros dela com suas mãos fortes, tentando se firmar. Todas as terminações nervosas do corpo de Myrna ficaram em alerta. Não conseguia se lembrar da última vez que se sentira atraída por um homem tão instantaneamente. Ele a soltou e se escorou na parede do bar, piscando forte, como se tentasse focar o rosto dela. “Você sabe quem eu sou?”, perguntou, com a voz arrastada.

Myrna sorriu e fez que sim, animada. “Quem não sabe?” Ele acenou teatralmente ao redor de si, perdendo ainda mais o equilíbrio. “Todos esses nerds engomadinhos.” Ele rosnou para uma senhora de cabelos grisalhos e cardigã que o encarava boquiaberta. A mulher suspirou em desaprovação e voltou a atenção para seu drinque azul-celeste, sorvendo a bebida por um canudinho vermelho com estudada indiferença. “Brian, não comece”, disse Sed, o líder da banda. O olhar de Brian para seu colega foi tão ácido que seria capaz de corroer a pintura da parede. “Qual é o problema? Não comecei nada. Essa gente é que não para de encarar!” Era verdade. Todo mundo estava encarando. A maioria agora encarava Myrna, provavelmente pensando em como salvá-la do território inimigo. “Posso sentar com vocês um pouco?”, ela perguntou, torcendo para que, sentada, ficasse menos visível. Ajeitou uma mecha de cabelo que escapara do grampo atrás da orelha e sorriu esperançosa para Brian. Ele coçou a sobrancelha com o indicador, considerando a pergunta. Myrna sabia o que devia estar pensando. Por que uma mulher quadrada usando um terninho ia querer socializar comcinco roqueiros? Sed deslizou para o lado no sofá e deu uma palmadinha no estofado verde de plástico junto de si. Ela desviou os olhos de Brian para avaliar o líder do grupo. A aparência de bom moço destoava da fama de bad boy mulherengo. Myrna não acompanhava a vida pessoal dos integrantes das bandas que ouvia, mas até ela conhecia a reputação de Sed. Seu sorriso, com covinhas e tudo, era nada menos que perfeito, o que na certa era a razão pela qual o disfarçava com uma carranca. Após uma rápida expressão de indiferença, ele voltou a seu estado original. Aquelas covinhas de menino não encaixavam com sua imagem. Myrna sentou no sofá ao lado de Sed, enxugando as mãos suadas na saia. Certo, consegui. O que eu faço agora? “Você é uma executiva ou algo assim?” Sed reclinou-se no sofá para examinar sua roupa.

Myrna não se importou com o olhar a analisando uma segunda vez. “Algo assim. Na verdade, sou uma nerd engomadinha. Sou professora universitária e estou participando de uma conferência aqui.” “Não brinca!” Ela reconheceu Eric Sticks, baterista da banda, do outro lado da mesa. “Se eu soubesse que professoras universitárias podiam ser gostosas, teria pensado em estudar.” Myrna riu e olhou para Brian, ainda recostado na parede do bar, atrás do ombro direito de Eric. Seu coração pulsou dolorosamente. Meu Deus, como era bonito. “Não quer se sentar, Brian?” Ela se espremeu junto de Sed, seus joelhos tocando os dele sob a mesa. Brian desabou no sofá ao seu lado, o que significava que estava entre dois dos músicos mais atraentes e talentosos do mundo do rock. Tinha morrido e acordado no paraíso. Fica calma, Myrna. Se você perder a linha feito uma fã adolescente, vão mandar você embora. E isso é tudo que você não quer agora. Brian apoiou a testa na mesa, gemendo, e Myrna precisou se segurar para não fazer carinho nele. Ela o conhecia, mas ele nunca tinha visto mais gorda. Nem menos gorda, para falar a verdade, mas ainda assim… Ela respirou fundo para organizar os pensamentos desconexos e dirigiu seu olhar para Eric. Podia fitá-lo sem perder o controle, mas não conseguia parar de encarar aquele corte insano de cabelo: meio comprido, com uma faixa central de mechas curtas espetadas e o restante em diversos tamanhos e absolutamente esquisito. Um tufo vermelho da grossura de um dedo se encaracolava junto do pescoço. Cabelo de astro do rock. Myrna conteve uma risadinha empolgada. “E você dá aula de quê?” Eric deu um gole em sua cerveja, os olhos azuis fixos nos dela. Bem, talvez ele tenha dado uma leve conferida em seus seios, mas em geral manteve o olhar acima do pescoço dela. Myrna hesitou diante da pergunta e baixou os olhos para a mesa.

Qualquer chance que tinha de ganhar o respeito deles se extinguiria assim que revelasse sua disciplina. “Tenho mesmo que responder?” “Claro.” Ela respirou fundo. “Sexualidade humana.” Eric engasgou com a cerveja e limpou a boca com as costas da mão. “Não fode.” “Bem, acho que essa é minha especialidade”, respondeu Myrna, com um sorriso travesso. Eles riram. Menos Brian. Imóvel, continuava com a cara na mesa. Será que tinha apagado? Bêbado não chegava perto de descrever seu estado. “Tudo bem com ele?”, perguntou Myrna. “Tudo, ele só é um pouco descontrolado”, respondeu Eric. “Ele é muito descontrolado”, completou Trey Mills, o guitarrista base da banda, sentado ao lado de Eric. “Não enche”, murmurou Brian. E então deitou a cabeça para olhar para Myrna, fechando um dos olhos para focalizá-la melhor. Ela sentia uma vontade incontrolável de ajeitar aquele cabelo preto embaraçado, que caía na altura dos ombros, despontando em ângulos estranhos por toda a cabeça. “Como você se chama, professora do sexo?” Ela sorriu. Talvez estivesse interessado. “Myrna.” Ele deu um risinho. “Nome de velha.” Ou não. Torceu para ter disfarçado bem a decepção. Sed esticou o braço por trás de Myrna e deu um tapa nas costas de Brian por conta da grosseria.

O amigo não esboçou qualquer reação. Com certeza não estava sentindo dor. Myrna deu de ombros. “Ele tem razão. Myrna era o nome da minha tataravó. Ou seja, nome de velha.” Brian voltou o rosto para a mesa e engoliu várias vezes. “Acho que vou vomitar.” “Eric, leve nosso amigo aqui ao banheiro”, disse Sed. “A última coisa de que a gente precisa é uma mesa cheia de vômito do Sinclair.” “Mas quero ficar e conversar com a moça bonita”, reclamou Eric. “Não aguento mais esses caras chatos.” Apesar da reclamação, o baterista se levantou de seu lugar na ponta do sofá e botou Brian de pé. “Prometo que espero você voltar”, disse Myrna. “Pegue uma bebida pra ela, Sed. Ou melhor, já que é você que está bancando a noite, pegue logo duas.” Eric passou o braço de Brian ao redor dos ombros e levou o amigo trôpego na direção do banheiro. Myrna acompanhou os dois com o olhar, admirando a calça jeans preta de Brian e a bunda perfeita por baixo dela. “Não o leve a mal, Myr. Brian não é sempre assim. É que… bem… ele acabou de terminar um relacionamento”, disse Sed. Trey revirou os olhos e balançou a cabeça. “É, foi mais ou menos isso.” “Não sei por que isso sempre acontece com ele.” Jace Seymour, baixista, girou a argola prateada na orelha.

Era o único louro da banda… descolorido, a julgar pelas sobrancelhas castanhas e a barba mal feita da mesma cor. Era o mais baixo dos integrantes e tinha um jeito durão, meio James Dean. Provavelmente para disfarçar como era bonitinho. O que não diminuía a vontade de Myrna de apertálo. “É o cara que mais leva pé na bunda que conheço.” Trey era sexy demais. Toda vez que aqueles olhos lânguidos cruzavam com os dela, Myrna sentia um arrepio. “É porque é um retardado quando o assunto é mulher.” Sed correu a mão pelos curtos cabelos pretos. “Só pega interesseira. Parece que não aprende.” “Talvez o problema dele seja que sempre aparece alguém para estragar tudo”, comentou Trey. “É só uma ideia.” “Aquela pilantra não valia o tempo dele. Brian era bom demais pra ela”, resmungou Sed. Myrna fitou cada um dos homens na mesa. Tinha algo mais naquela história. Ou então… “Brian é um romântico incurável, não é?” Sed cochichou em sua orelha: “Shhh. Não conte pra ninguém”. Um arrepio correu sua nuca. Ela virou o rosto e ficou cara a cara com o vocalista. Podia distinguir as pontinhas da franja por trás dos óculos espelhados. Pouco à vontade com a ideia de ser encarada por um cara de óculos escuros, resolveu deslizá-los ao longo do nariz de Sed. Achou que seria melhor olhá-lo nos olhos, mas seu azul incisivo fez seu coração disparar. Ele sorriu, sem dúvida ciente do efeito que tinha sobre as mulheres.

Sed ergueu o braço para chamar a garçonete. “Qual é seu veneno, Myrna?” “Só água.” “Que tal uma coisa mais forte para se soltar um pouco?” Arqueando uma das sobrancelhas, Sed correu o olhar por seu terninho conservador. “Não preciso disso. Estou sempre solta.” “Não é o que parece.” Ele tocou o botão mais alto do blazer de Myrna, que por acaso ficava bemno meio dos seios. O cara era problema com P maiúsculo. Mantenha. Distância. Do. Vocalista. Gato. “As aparências enganam”, ela disse, e voltou-se em direção à garçonete, afastando seus joelhos de Sed. “De alguma forma, acho que no seu caso isso pode ser verdade.” Ele riu e então pediu à garçonete: “Duas águas, por favor”. “Só uma.” “A outra é para o Brian.” Myrna corou. “Ah, sim, claro.” A garçonete pousou um copo d’água na frente de Myrna, que olhava na direção do banheiro masculino na esperança de que Brian estivesse melhor. Ele não parecia nada bem. E ela preferia e muito se concentrar no guitarrista do que no sr. Garanhão ao lado, que no momento se ocupava em acariciar seu joelho com as costas dos dedos. Quando ele deslizou a mão para baixo da bainha de sua saia, ela arregalou os olhos e afastou-se mais alguns centímetros.

Trey parecia um cara mais seguro, esparramado do outro lado da mesa, chupando um pirulito vermelho. Talvez ela devesse mudar de lado. Myrna levou o copo d’água aos lábios. Sed apertou seu joelho. Ela engasgou e tirou a mão dele de sua perna. Sem se dissuadir, o músico se aproximou de novo. Não devia estar habituado a ser rejeitado. “Quer dar uma passada lá em cima comigo?”, sussurrou ele ao pé do ouvido de Myrna, o nariz roçando em seu pescoço. “Hum…” 2 Brian deu a descarga e se recostou na porta da cabine do banheiro. Apertou a boca com as costas do braço e engoliu diversas vezes para conter a náusea. Nada feito. Abaixou-se depressa e vomitou de novo. Um dia aprenderia seu limite alcoólico. Aparentemente, não era esse o dia. “Cara, quer que eu segure seu cabelo?”, perguntou Eric do outro lado, reprimindo o riso. “Vá à merda”, resfolegou Brian, e vomitou mais uma vez. “Que desperdício de cerveja.” “Se quiser, pode vir aqui beber.” Brian apoiou-se na divisória de metal das cabines e deu descarga com o pé. Então ficou ali uminstante até se sentir bem o suficiente para sair. Eric o fitou esperançoso. “Melhor?” Brian assentiu de leve. “Você tem que parar de cair na onda dessas mulheres.” Ideia brilhante. Brian foi até a torneira e lavou a boca várias vezes; por fim, encarou-se no espelho.

Olhos injetados de sangue. Pele branca e sem vida. Passou a mão pelo rosto flácido. “Cara, estou umbagaço.” “Não estou vendo diferença nenhuma.” Brian levantou três dedos da mão direita para o amigo. “Leia nas entrelinhas, seu babaca.” Eric parecia mais confuso que o normal. “Nunca aprendi a ler.” “Vou ajudar você.” Brian baixou o anelar e o indicador, deixando apenas o dedo médio erguido. “Entende linguagem de sinais?” “Não. Foi mal.” Eric deu um soco no braço do guitarrista, tirou um sarro dele, depois o socou uma segunda vez. Brian sabia que aquilo doeria no dia seguinte. Eric nunca pegava leve nos socos. “Pronto para voltar? Você sem dúvida deu uma de idiota na frente daquela delicinha.” “Obrigado por me lembrar.” Com sorte, Brian teria esquecido tudo pela manhã. “Ande. Vamos logo.” “Qual é a pressa?” “Com que frequência você encontra uma gostosa de classe feito ela?” “Tirando a noite passada, quando comi sua mãe?” “Cara, se eu tivesse mãe, talvez me ofendesse.” Brian fez uma careta. Por que tinha dito aquilo? A bebedeira não era desculpa. “Foi mal.

Não foi o que eu quis dizer…” Ele esfregou o rosto furiosamente com as duas mãos. “Merda.” “Se a gente não voltar logo, o Sed vai se jogar em cima dela.” Brian lavou o rosto com água gelada. “Novidade.” Sed se jogava em cima de todas as gatas. “Não tem a menor graça. O cara come geral.” Nenhum deles tinha problema com aquilo. Ou poderia reclamar. Na verdade, Brian bem que precisava dar um tempo na coisa. “Não tá faltando pra ninguém.” “Mas ele só pega as boas. E essa daí é bem boa, Brian. O cara provavelmente já deitou a gata de costas com os tornozelos em volta do pescoço dele.” Eric jogou a cabeça para trás e fez sua melhor imitação de garota transando com Sed. “Ai, Sed. Assim. Assim. Sed. Ahhhh!” Brian revirou os olhos e balançou a cabeça. “Você é um babaca, Eric. Sabia disso?” “Eu bem que podia comer alguém. Disso eu sei. Anda logo, ou vou pro quarto sozinho.

” Brian secou o rosto com uma toalha de papel e seguiu em direção à porta do banheiro. “Tudo bem, vamos lá arrumar uma gata de primeira pra você.” Ele deu um tapinha nas costas de Eric, caminhando sem a ajuda do amigo. Com Sed de olho em Myrna, Eric não teria a menor chance. Mas todo mundo tinha o direito de sonhar. Quando os dois chegaram à mesa, Brian a encontrou sentada ao lado de Sed, absolutamente composta, com todas as roupas no lugar. A mão dele não estava subindo por baixo de sua saia. E os dois não estavam se pegando. Na verdade, estavam conversando e rindo. Até Jace, que pronunciava menos de cinco palavras num dia normal, papeava calmamente com a professora do sexo de primeira. Quando a sombra de Brian encobriu o rosto da moça, ela ergueu o olhar e sorriu animada para ele. Tinha um sorriso bonito, que exibia os dentes brancos perfeitos por entre lábios delicados e altamente beijáveis. “Está se sentindo melhor?” Ela o fitou com uma preocupação sincera. Não faça isso, Brian pensou. Você ainda está tentando esquecer… Como é mesmo o nome dela? Angie. Isso. Você ainda está tentando esquecer Angie. Brian virou-se para Sed, que evitou seu olhar acusatório simulando um interesse incomum emJace. Angie… Brian sentiu uma fisgada dolorosa no coração e cerrou os punhos. Aquela vadia. “É, acho que estou melhor”, respondeu. “Vomitou horrores”, Eric sentiu necessidade de acrescentar. Myrna deu uma palmadinha no lugar vazio ao lado dela, o que parecia indicar a Eric que ele devia passar na frente de Brian e sentar ao lado dela. Myrna riu e se agarrou ao braço do baterista. “Obrigada por cuidar do Brian.

” Eric abriu um sorriso. “Não foi nada. É pra isso que servem os amigos.” Babaca. Brian sentou ao lado de Trey, que continuava esparramado do outro lado da mesa, com um palitinho na boca. Era o único cara capaz de parecer descolado chupando pirulito. Tinha largado o cigarro havia poucos meses, mais ainda precisava de algo na boca o tempo todo. Seu dentista agradecia. “Quer dizer que você é fã da gente?”, perguntou Eric. “Sou, há anos. Mesmo antes de vocês ficarem famosos. Uso trechos dos seus solos de guitarra emminhas aulas para discutir os homens e a sensua…” Ela olhou de relance para Brian, os olhos arregalados como se tivesse sido pega em flagrante. Não chegou a terminar a frase, pois Jace achou que era um bom momento para quebrar seu silêncio habitual. “Ela sabe até nossos nomes.” Parecendo aliviada pela mudança de assunto, Myrna apontou para todos eles, um de cada vez. “Eric Sticks, bateria. Três bumbos, catorze pratos. Perfeito no ritmo.” “Sempre fui”, disse ele, batucando na mesa com a palma das mãos. “Sedric Lionheart. Vocalista. Sua voz deixa qualquer garota com a calcinha molhada.” Sed se aproximou e perguntou em sua voz rouca de barítono: “A sua também? Posso cantar alguns versos se você quiser”. “Absolutamente desnecessário.” “Ah, Myr, assim você me mata.

” Ela sorriu com malícia. Brian se perguntou o que tinha perdido enquanto estava ajoelhado no templo do deus da louça branca. Era a cara de Sed atacar sem piedade. Myrna continuou: “Jace Seymour, baixista”. E então parou, examinando o mais novo integrante da banda. “Ei, não tenho direito a uma descrição?”, reclamou ele. Myrna debruçou-se por cima de Sed e chamou Jace para perto de si. Em seguida, sussurrou algo em seu ouvido, e o baixista corou até a raiz dos cabelos descoloridos. “Sério?”, gaguejou. Ela o fitou nos olhos e assentiu. “Sério.” Isso não se faz. O que tinha dito a ele? “Trey Mills, guitarrista base. Olhos verdes sonhadores de derreter corações. Dedos ágeis que, bem, fazem as meninas cultivar os mais indecorosos pensamentos.” Trey deu uma piscadinha e estalou os dedos na direção dela. Enfim chegara sua vez. “Brian Sinclair.” Ela parou. Ele se concentrou naqueles lábios rosados e carnudos. Pensou em quantos de seus alunos passavam a aula inteira de pau duro. Extasiado, ficou à espera de suas palavras. Um sorriso demorado se abriu naquele rosto gracioso. “Um gênio musical.” Fala sério! Onde estava a descrição sensual dele? No entanto, era como se Brian derretesse sob o calor dos olhos dela.

Estava caidinha por ele. Conhecia as mulheres o suficiente para saber aquilo. Por que tinha bebido tanto? Não estava em condições de seduzir ninguém. “Acho que ela realmente conhece a gente”, comentou Eric. “Achou que eu estava mentindo?”, perguntou Myrna, virando-se para ele. “É que você não tem cara de roqueira. Nem um pouco.” “E que cara tem uma roqueira?” “Ah, mais maquiagem. Menos roupa. Piercings. Tatuagens.” “Quem disse que eu não tenho piercings?” Sed correu o dedo ao longo da orelha de Myrna, notando duas pedrinhas de brilhante. “Brinco não conta.” “Não é na orelha.” Sed examinou seu rosto. “Onde então? Não estou vendo… Ah…” Brian ajeitou-se desconfortavelmente no sofá. “E aí? Onde?”, perguntou Eric animado. “Umbigo? Mamilo?” “Clitóris?”, aventurou-se Jace, olhando para o chão e sorrindo maliciosamente. Exatamente o que Brian tinha imaginado. No clitóris. Puta merda. Já estava difícil o bastante ficar acordado com a cabeça nadando em álcool. Ele definitivamente não precisava daquele fluxo de sangue deixando o cérebro em direção a outras partes do corpo. O teto rodou, e ele se firmou comforça na beirada da mesa. Myrna sorriu, os olhos castanhos parando no rosto de Brian.

“Nunca vou contar”, respondeu ela, mas seu olhar dizia: Pra você eu mostro, Brian. Ela estava brincando com ele. Tinha que estar. Ele praticamente tinha “bêbado idiota” tatuado na testa. Sed se aproximou mais uma vez e sussurrou algo em seu ouvido. Ela fez que não com a cabeça. “Assim você me mata, Myr.” “Você tem alguma tatuagem?”, perguntou Eric. “Não tantas quanto você.” Então arregalou os olhos e pousou a mão de Eric em cima da mesa. “Quem disse que tem permissão para me tocar?” Brian mordeu o lábio para conter uma risada e baixou os olhos. Direto ao ponto! Por incrível que pareça, ninguém ali caiu de pau em Eric pela rejeição patente de Myrna. Que mulher intimidadora. Não era capaz de lembrar a última vez que uma mulher havia mexido com sua autoconfiança. No ensino médio? “Imagino que suas tatuagens também não sejam visíveis.” Sed puxou a gola do terninho, revelando uma clavícula completamente limpa. A cotovelada que levou nas costelas o convenceu a interromper a inspeção. “Sou uma professora universitária. Tenho que manter certo decoro.” “E, no entanto, está aqui com a gente em público”, disse Trey, rindo consigo mesmo. Ela olhou para eles, avaliando cada um individualmente. “Bem lembrado.” E riu. Uma risada alegre. Calorosa.

Brian tinha certeza de que apreciaria outras coisas nela. “Bom, hora de ir pra cama. Foi um dia cheio.” “Fique mais um pouco”, protestou Eric. Brian ergueu as sobrancelhas, surpreso. Ela não tinha acabado de rejeitá-lo em público? Ele queria que ela ficasse? “Você vai no show amanhã à noite?”, perguntou Trey. Myrna ficou de queixo caído. “Vocês vão tocar aqui? Ai, meu Deus. Quero muito ir!” “Já está esgotado”, disse Sed. Ela fez uma cara feia. “Que merda. Quer dizer, que bom pra vocês, mas é uma merda pra mim.” “A gente bota seu nome na lista de convidados. E só aparecer na porta dos fundos e dar o nome de Myrna Suxsed que eles dão uma credencial de acesso aos bastidores”, disse Sed. Eric riu animado. “Isso seria demais”, disse ela. Brian não acreditava que ela não tinha entendido o duplo sentido no sobrenome. Ou talvez tivesse. Myrna envolveu o braço do vocalista e de alguma forma conseguiu escapar de seus lábios insistentes. “Certo, chega pra lá, Eric. Hora de ir embora.” “Se eu me recusar a sair daqui, você não vai poder ir a lugar nenhum”, disse Eric, muito satisfeito consigo mesmo. “Ah, é?” “É.” “Eu posso muito bem dar uma de Brian.” Brian não tinha ideia do que ela estava querendo dizer até Myrna se arrastar para cima da mesa e rolar para o colo de Trey.

Tinha um cheiro maravilhoso de coco, baunilha e mais alguma coisa só dela. A boca de Brian ficou seca, as palmas suadas. Deus do céu, era como se ele gostasse de sofrer. Já tinham partido seu coração uma vez aquela semana. Ela então se aproximou dele e sussurrou ao pé do ouvido: “Tenho uma coisa lá em cima no meu quarto que pode ajudar no seu estado atual”. Seu estado? Adoraria ser ajudado por ela em seu estado. Afinal, seu estado atual era culpa dela. Com a autoconfiança renovada, Brian sorriu, envolvendo a cintura fina da professora com uma das mãos. “Quarto seiscentos e quinze”, disse ela, a respiração fazendo cócegas na orelha dele. “Não demore. Estou doida para entrar na cama.” “Quarto seiscentos e quinze.” “Isso mesmo.” Ela saiu de cima dele e ajeitou a saia, antes de lançar uma olhada para Eric por cima do ombro. O baterista estava batendo a cabeça na mesa. “Você vai aparecer amanhã depois do show, não vai?”, perguntou Sed. “Claro.” Trey cumprimentou-a com dois dedos junto à testa. “Boa noite, professora.” “Boa noite, Trey, Jace, Sed, Eric”, respondeu, acenando para cada um deles. “Foi muito bom conversar com vocês. Obrigada pela distração.” Ela pegou a pasta e deixou o bar, atraindo o olhar de todos os homens no salão para o balanço suave de seus quadris. “E obrigado pela ereção”, murmurou Sed. “Ela está usando cinta-liga”, gemeu Eric.

“Eu vi”, comentou Sed. “Quando subiu em cima da mesa.” “Eu senti… quando enfiei a mão debaixo da saia.” E bateu a cabeça de novo na mesa. “Você não foi muito longe, foi?”, disse Sed. “Ela é boa em recusar cantadas sem ser direta.” “Ou, no caso do Eric, sendo completamente direta.” Jace riu e se esquivou do punho que atravessou a mesa em sua direção. “Segura a onda aí, Eric. Vai acabar sendo preso de novo”, disse Sed. “Por que ela não se despediu de você, Brian?”, perguntou Trey, sempre perspicaz. “Ela quer que eu vá até o quarto dela.” “Seu sortudo de uma figa.” Eric esticou o braço e agarrou Brian pela camiseta, mas o guitarrista afastou sua mão com um tapa. Ele ficou ali por um instante, lutando contra a vontade de descansar a cabeça na mesa de novo. Massageou o próprio rosto, mas estava dormente. “Daria tudo para não estar tão bêbado!” “Mas você vai, não vai?” Trey mastigou o pirulito e jogou o palitinho num cinzeiro. “Transar pra esquecer?” Brian olh

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