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Achados e perdidos – Luiz Alfredo Garcia-Roza

O que acordou o menino tarde da noite não foram os palavrões, estava acostumado a dormir com barulho, mas o chute na caixa de papelão, uma embalagem de geladeira largada na calçada havia dois dias que lhe servia de cama e casa. Não queria que lhe caíssem em cima. Permaneceu imóvel, silencioso, à escuta, coração batendo forte, até certificar-se, pela natureza dos sons, de não estar sendo alvo de predadores. Esticou o pescoço para fora da caixa e espiou. Cuidava de não fazer ruído, estratégia de sobrevivente. O homem saíra bêbado do restaurante e tentava ajudar uma mulher cheia de dourados a entrar no carro estacionado a pouco mais de dois metros da caixa. Na verdade, era ela quem o ajudava. O homem, já entrado em anos e em álcool, além de tropeçar nas pernas da mulher, ameaçava cair em cima da caixa. Com muito esforço, aboletou-se no banco ao lado do motorista, deixando a perna do lado de fora, presa entre o meio-fio e o carro, e não parecia preocupado em recolhê-la. A mulher assumira o lugar do motorista e estava para dar partida no carro não fosse o fato de a chave estar no bolso dele, que por sua vez estava com a porta aberta e a perna do lado de fora. O menino desinteressara-se da cena e estava prestes a recolher a cabeça quando viu a carteira de dinheiro no bolso de trás da calça do homem, quase inteiramente para fora, numequilíbrio precário, pronta para ser colhida. Manteve a posição de vigia e esperou. O homem tentava sem sucesso recolher a perna cujo sapato ficara preso entre o carro e o meio-fio. A cada movimento que fazia para se desvencilhar, a carteira oscilava, o corpo balançava perigosamente ameaçando desabar na calçada, enquanto entre bufadas tentava retirar as chaves do bolso. Não as encontrando no bolso esquerdo, procurou no direito, e nesse movimento pendular do corpo a carteira caiu entre a calçada e o carro, sem fazer ruído. A chave foi finalmente encontrada, o manobrista aproximou-se para ajudar, a perna foi colocada para dentro do carro, mas a porta não foi imediatamente fechada porque o corpo do homem permanecia adernado para o lado de fora. O manobrista empurrou gentilmente o ombro do passageiro e, não sem alguma força física, conseguiu fechar a porta. O menino pensou que o homem daria por falta da carteira quando procurasse dinheiro para gratificar o guardador, mas antes mesmo de a mulher dar partida no motor ele já estava com o queixo enfiado no peito, murmurando palavras desconexas, cuspindo na camisa. O carro saiu aos solavancos, deixando para trás o manobrista. O menino esperou ele se afastar, verificou se não vinha ninguém pela calçada e esgueirou-se para fora da caixa como uma cobra. Poderia ter transposto os dois ou três metros que o separavam do meio-fio andando normalmente, mas os filmes a que assistira na televisão nas vitrines das lojas de eletrodomésticos lhe haviam ensinado que os Comandos atacam rastejando. Pegou a carteira e voltou, ainda ao rés-do-chão, com ela escondida debaixo da camisa. Apesar de escuro, havia luz suficiente dentro da caixa para examinar o conteúdo do butim. Contou o dinheiro. Três notas de cinqüenta, cinco ou seis notas de dez (não deu para saber com certeza), uma nota de cinco e duas ou três notas de um.


Nas outras divisões havia cartões de crédito, talão de cheques e uma carteira de plástico na qual, com dificuldade, conseguiu ler a palavra POLÍCIA, em vermelho. A surpresa o paralisou por alguns segundos. O primeiro impulso foi jogar tudo fora imediatamente. Tudo menos o dinheiro. Se não era louco para ficar circulando com uma carteira de policial no bolso, também não era louco a ponto de jogar dinheiro fora. Mesmo àquela hora, o trecho da rua era movimentado; se jogasse fora a carteira, em pouco tempo ela seria encontrada por alguém. Esperou o momento propício, saiu da caixa e largou a carteira a uma distância que lhe permitisse ver quem a pegaria. Pessoas vindas dos bares e restaurantes da avenida Atlântica, casais de namorados, pequenos grupos de rapazes, passaram indiferentes pelo local. O menino achou que era porque estava escuro naquela parte da calçada. Saiu novamente da caixa e deu um pequeno chute na carteira, deslocando-a para um trecho mais iluminado. Voltou para a caixa. Quando viu o homem se aproximando, não teve a menor dúvida de que seria ele; andava e olhava como quem não perdia nada, e ele de fato a viu muito antes do que a veria qualquer transeunte; apressou o passo, olhou para os lados, abaixou-se com agilidade e graça, pegou a carteira e meteu-a no bolso sem parar para examiná-la. O menino não gostou. Afinal, a carteira era um pouco dele, fora ele quem a jogara na calçada, e não gostou de ela ser encontrada por aquele tipo. Saiu da caixa e seguiu-o, mantendo distância. O homem tomou a direção da avenida Atlântica, de onde viera, dobrou a esquina e sentou-se na ponta de um longo banco de cimento, vazio àquela hora. Fingiu que amarrava o sapato, enquanto olhava para os lados. Certificou-se de não estar sendo observado, tirou a carteira do bolso, outra olhada emvolta, esvaziou todo o conteúdo sobre o banco e examinou coisa por coisa. Verificou cuidadosamente o talão de cheques e os cartões de crédito, até se deparar com a carteira da polícia. Examinou-a detidamente de um lado e de outro, guardando-a em sua própria carteira. O talão de cheques e os cartões de crédito, meteu-os no bolso da calça. Depois de enfiar o dedo em cada compartimento da carteira, jogou-a debaixo do banco, levantou-se e saiu andando. E o andar era diferente. Havia uma mulher, mas não se lembrava do que fora feito dela. Estava deitado em sua própria cama, de cuecas, camisa da véspera, meias, sem sapatos.

Como chegara até ali, e quem tirara suas calças e sapatos, não sabia. Poderia ter vindo sozinho, tirado a roupa, deitado na cama e dormido instantaneamente. E o carro? Não se lembrava de ter dirigido até em casa, como também não se lembrava da mulher, não era a primeira vez que acontecia. Amnésia alcoólica, diziam. Não tinha nada contra ela, a não ser pelo fato de apagar os bons momentos. Não se recordava da mulher, do que acontecera… da parte boa, enfim; como tampouco sabia como viera parar em sua própria casa. Não poderia ter sido trazido por um estranho, sua carteira não continha nenhuma indicação de endereço. A carteira. Procurou-a em volta e viu a calça embolada ao pé da cama; quando se abaixou para apanhála, parecia que o pescoço não suportaria o peso da cabeça, os objetos estavam um pouco fora de foco, e foi com muito esforço que conseguiu pescar a calça. Examinou os bolsos, não havia carteira. Sentou-se na beirada da cama, a cabeça latejando insuportavelmente, olhou em volta, vasculhando a cômoda, a mesinha-de-cabeceira, o chão, as cadeiras, nenhum sinal dela, tentou ficar de pé, só conseguiu se levantar segurando a cabeça com ambas as mãos, resmungou alguma coisa e constatou que a boca estava colada. Com grande esforço, andou até a sala, distante apenas alguns passos da cama. Não sabia o que esperava encontrar. De qualquer maneira, não encontrou nada; ou pelo menos nada de diferente. Voltou ao quarto, atravessando-o em direção ao banheiro. A tentativa de urinar no vaso sanitário foi desastrosa. Olhou-se no espelho da pia, passando o dedo indicador na face amassada, não se assustava mais com o próprio rosto. Tirou a roupa e entrou no chuveiro. A água fria não melhorou a dor de cabeça, apenas acrescentou um pequeno choque térmico ao estado geral do corpo. Ainda não recuperara suficientemente o equilíbrio para conseguir enxugar-se de pé; foi até a cama apoiando-se com uma das mãos na parede, enquanto com a outra arrastava a toalha pelo chão. Deitou-se e permaneceu imóvel esperando que a cabeça, que parecia ter ficado no banheiro, alcançasse o corpo. Permaneceu deitado o tempo suficiente para secar inteiramente sem precisar fazer uso da toalha. Tinha quase certeza de que era sábado, talvez domingo, mas com certeza não era um dia de semana. Depois de grande hesitação, foi até a porta pegar o jornal. Era sábado.

O relógio da sala marcava meio-dia e vinte. Sabia que não marcava meia-noite e vinte devido à luz insuportável que entrava pela janela. O ponteiro do relógio percorreu um bom espaço até ele se decidir se saía para almoçar ou para tomar o café da manhã; achou mais prudente a segunda opção. Ao se vestir, deu por falta do cinto. Não estava na calça que usara na véspera, nem conseguiu encontrá-lo em nenhum lugar. Talvez tivesse estado num motel; em que outro lugar perderia o cinto da calça? Apanhou outro no armário, terminou de se vestir, pegou o dinheiro que mantinha guardado para alguma emergência, e aquela era uma emergência, certificou-se de que estava com a chave do apartamento, bateu a porta e somente no momento de sair percebeu que a chave do carro tambémdesaparecera. Enquanto tomava café, em pé no bar da esquina, tentou recuperar algum acontecimento da noite anterior, mas o máximo que conseguiu foi uma imagem imprecisa de Magali e do restaurante. Apesar de a imagem não ser nítida, achava que só poderia ser Magali. Tinha que transformar a suposição em certeza, a carteira poderia estar com ela, embora não conseguisse atinar por qual motivo. Além do dinheiro, talão de cheques e carteira profissional, havia os cartões de crédito que teria que cancelar o quanto antes, caso a carteira não estivesse com Magali. Isso porém só foi pensado com um mínimo de clareza após a segunda xícara de café, um sanduíche de queijo e dois comprimidos para dor de cabeça. Tinha que voltar para telefonar. Esperava ardentemente que a mulher fosse Magali. De volta ao apartamento ainda fez, sem êxito, uma última busca antes de ligar para ela. O telefone tocou de quinze a vinte vezes. Desligou e ligou para comunicar a perda dos cartões de crédito, torcendo para que não tivessem comprado uma geladeira ou uma televisão em cores e renovado o guarda-roupa para a próxima estação. Voltou a ligar para a mulher. Ninguém atendeu. Teve a idéia de procurar a carteira no carro. Achou que se precipitara ao cancelar os cartões. E se a carteira estivesse caída no chão do carro? Não se lembrava de onde o estacionara, não se lembrava nem sequer de ter vindo de carro. Olhou pela janela, a rua era estreita e fazia uma curva logo depois do prédio; não estava visível, talvez estivesse estacionado depois da curva ou na outra rua; era uma região difícil de se encontrar vaga e o prédio não tinha garagem. Desceu, percorreu a rua, contornou a quadra, olhou nas ruas vizinhas. Nada do carro. Não podia esquecer de comunicar ao banco a perda do talão de cheques, devia estar pela metade, uns dez cheques; mais os cartões de crédito, o carro… a cabeça voltou a latejar.

Subiu ao apartamento e tomou mais um comprimido; restava esperar a manhã de segunda-feira para verificar perdas e danos. Pediu pelo telefone uma pizza que não chegou a comer; quando o entregador tocou o interfone, dormia profundamente. Acordou no final da tarde, tonto de tanto dormir mas sem dor de cabeça. Morava no limite de Copacabana com Ipanema e Magali morava próximo ao Túnel Novo, no outro extremo do bairro, no limite de Copacabana com Botafogo, mas estava decidido a procurá-la para saber o que acontecera. O fato de ela não atender o telefone fazia supor que estava tão ruim ou pior que ele. Havia uma remota possibilidade de ela ter guardado a carteira. O balanço do táxi fez embrulhar o estômago; um sanduíche de queijo era pouco para substituir o almoço. Enquanto atravessava Copacabana, refletia pela centésima vez sobre a possibilidade de parar de beber. Comer, beber, foder, as três melhores coisas da vida, não necessariamente nessa ordem, costumava dizer. Se largasse uma, sobrariam duas, sendo que uma delas suspeitava que estivesse com os dias contados. Como o destino de todos os idosos é submeter-se a regime alimentar, perguntava-se qual o sentido de continuar vivendo. Se é que poderia chamar de vida o que sobrasse. Assim que parou em frente ao prédio de Magali, teve a primeira boa surpresa do dia: seu carro estava estacionado a poucos metros. Intacto. Tomou o elevador, confiante de que encontraria a carteira com o talão de cheques, os cartões de crédito e seus documentos. Era um antigo prédio de apartamentos conjugados, quase duzentos no total, em precário estado de conservação. Pelo menos os elevadores funcionavam satisfatoriamente. Tocou a campainha do apartamento a ponto de os vizinhos reclamarem. Desceu e procurou o porteiro. Não, não vira a moradora do novecentos e dezoito desde o dia anterior, também não a vira chegar de madrugada, o porteiro da noite era outro, o turno dele começaria às dez horas, ainda não eram oito horas. Pediu um pedaço de papel, escreveu seu nome e telefone. — Fique com isto e passe para o porteiro da noite. Assim que ela chegar, qualquer que seja a hora, diga para me telefonar. — Reforçou o pedido com uma nota de dez. Apesar de o carro estar estacionado na porta, teve que voltar de táxi.

Comeu numa pizzaria perto de casa, a mesma que não conseguira entregar a pizza encomendada para o almoço. Tentou pagar as duas mas o gerente não aceitou, conheciam-se desde a inauguração da casa. Voltou ao apartamento antes das dez da noite, no exato momento em que começava na televisão um filme policial que já vira algumas vezes mas que não se incomodava de ver novamente. Assistir televisão era uma das poucas coisas que não colocavam à prova os limites do seu corpo. O filme estava quase terminando quando o telefone tocou. Atendeu imediatamente, pensando que fosse Magali. — Alô! — Vieira? — Voz de homem. — Sim. — É Espinosa quem está falando. Demorou dois segundos para desligar da mulher, do filme e sintonizar no telefonema. — Espinosa? — É. — Espinosa! Meu Deus, há quanto tempo! Como vai, meu querido? — Vou bem. E você, companheiro? — Nunca tão bem quanto você, mas vou levando a vida. Onde você está agora? — Depois do meu concurso para delegado fui transferido para a 12ª, pertinho de casa, vou a pé. — Você merecia. Mas o que manda, meu querido? — Vieira, você está namorando uma moça chamada Magali? — Estou, ou pelo menos estava até ontem. Não sei se ela aprontou uma para cima de mim ou se fui eu que aprontei para cima dela. Ainda não consegui saber. Por quê? Algum problema com ela? — Mais do que isso. Você pode vir até o apartamento dela? — Agora? — Agora. — Porra, Espinosa, o que aconteceu? — É melhor conversarmos pessoalmente. Resolveu seguir o homem para saber onde morava. O relógio da esquina marcava duas horas e seis minutos, temperatura de vinte e cinco graus. Ao sair da avenida Atlântica, o homem retomou a rua Santa Clara, caminhando um pouco apressado, mão no bolso da calça, provavelmente acariciando o achado. O menino seguia-o a uma distância prudente.

Não precisou andar muito, na quadra seguinte o homem dobrou à direita na avenida Copacabana e entrou num prédio que tinha no térreo uma galeria com bar e várias lojas pequenas, todos fechados àquela hora da madrugada. A portaria do edifício era gradeada, espremida num canto, no limite com o prédio vizinho. O homementrou usando sua própria chave, o prédio não parecia ter porteiro noturno. O menino atravessou a rua e ficou olhando para cima, na esperança de ver uma luz se acender em algum andar. Nada aconteceu. Pelo menos ficou sabendo onde ele morava e que não era num apartamento de frente para a rua. Voltou à sua caixa. Não era prudente continuar ali, poderiam voltar, fazer indagações e acabariam por chegar até ele. Quanto mais cedo sair, melhor. Não precisava se mudar para longe, nem sequer precisava mudar de bairro, bastava mudar de local. Sabia que os homens não distinguiam os meninos de rua uns dos outros. Verificou se o dinheiro estava em segurança no bolso do calção debaixo da bermuda, pegou um pedaço de lona que usava em cima dos jornais para dormir, olhou para a caixa e abandonou sua cama e casa. Caminhou pelo calçadão da avenida Atlântica em direção ao Leme até chegar à Fernando Mendes, uma rua pequena próxima ao Copacabana Palace, com prédios antigos, entradas amplas e marquises generosas, boas para se dormir. A cantina italiana, aberta até de madrugada, era um recurso para a fome durante a noite. Freqüentara aquele ponto quando tinha menos idade, ficava esperando junto aos carros, em frente à cantina, a chegada de um grupo de quatro ou cinco fregueses; assim que entravam, aproveitava a porta aberta e se enfiava pelo meio das pernas das pessoas, burlando a vigilância do proprietário e dos garçons. Uma vez dentro do restaurante, esgueirava-se quase de gatinhas até a mesa mais numerosa e pedia comida. Quase sempre, antes de ser expulso, conseguia pães, azeitonas, salaminho, e se demorassem a removê-lo conseguia até mesmo um pedaço de carne ou uma sobremesa. Quando cresceu mais um pouco mudou de estratégia, negociou com o proprietário um prato de comida no fim da noite em troca de não tentar invadir o restaurante nempermitir que algum amigo o fizesse, o que não era difícil, não tinha amigos. Agora estava de volta. Conhecia bem o local. Cuidou de esconder a muda de roupa que trouxera e mais uma vez certificouse de que o dinheiro estava protegido debaixo da bermuda. O apartamento não passava de um quarto com quitinete e banheiro, cujo luxo era o boxe comesquadrias de alumínio. No quarto, além do armário embutido, havia uma cômoda antiga em peroba e mármore rosa com um pequeno espelho bisotado; sobre o mármore, uma enorme variedade de vidros, potes, caixas e uma pena de pavão enfiada na junção do espelho com a moldura; num dos cantos, próximo à janela, um cabideiro com bolsas, chapéus, colares e lenços coloridos; uma pequena bergère necessitando de forração nova; na parede, duas reproduções de pintores famosos; debaixo da janela, uma mesa de dobrar com duas cadeiras; e, ocupando a maior parte do espaço, uma grande cama em ferro batido sobre a qual estava Magali inteiramente nua a não ser pelo saco plástico enfiado na cabeça. Os braços estavam amarrados à cabeceira da cama com peças de roupa (as gavetas da cômoda estavam abertas e remexidas) e as pernas estavam presas uma à outra com umgrande lenço de seda que por sua vez estava preso ao pé da cama por uma correia de couro. Da soleira da porta, o homem olhava perplexo para a cama, para Espinosa, novamente para a cama, de volta a Espinosa, até ouvir a pergunta: — É a sua namorada? — Espinosa teve que repetir a pergunta, e o fez aproximando-se do antigo companheiro de trabalho, tocando-lhe o braço.

— É a sua namorada, Vieira? — Porra, Espinosa, claro que é… você já sabia quando perguntou, pelo telefone. Quem foi o filho da puta que fez isso? — Não sabemos. O porteiro noturno tinha saído quando ela chegou ontem à noite, cada morador tem a chave da portaria. Os vizinhos não ouviram nada de anormal, ninguém ouviu gritos ou barulho de luta. De toda maneira, ela não tem marcas no corpo. A impressão é de que se deixou amarrar sem oferecer resistência, e o saco deve ter sido enfiado na cabeça sem que ela tivesse tido tempo de gritar. O corpo foi descoberto há menos de uma hora por uma amiga que tinha a chave do apartamento e que estranhou ela não atender ao seu chamado durante todo o dia, apesar de teremmarcado um almoço. Ninguém mexeu em nada. O porteiro falou que você tinha estado à procura dela, que deixou um bilhete e que seu carro está estacionado quase em frente ao prédio. Não está trancado. Espinosa falava como se estivesse fazendo um relatório. Não era seu modo de proceder, muito menos em se tratando de alguém que ele prezava. Queria estar presente quando Vieira fosse trazido à cena do crime e confrontado com alguns elementos colhidos até aquele momento. Estavam apenas os dois dentro do apartamento. — Desculpe, Vieira, poderia tê-lo prevenido, mas a única coisa que sabia é que vocês dois tinham saído juntos ontem à noite. A perícia ainda não chegou, não sei se ela foi dopada antes de ser morta, mas encontrei isto no chão do seu carro. — Mostrou uma pequena tampa de plástico. — É a tampa de um spray de gás paralisante que estava junto com a chave do carro, em cima da mesinhade-cabeceira. — E o que você está imaginando? Que fui eu o autor dessa estupidez? — A voz do ex-policial era de sofrimento e indignação. — Espinosa, sou um homem velho… e não sou rico, essa menina era uma das poucas alegrias que me restavam. Espinosa conhecia Vieira havia alguns anos; trabalharam juntos na mesma delegacia o tempo suficiente para saber que nunca fora um policial violento; seus modos eram grosseiros, falava muito palavrão, sentia-se perfeitamente à vontade no contato com marginais de toda espécie, mas nunca fora adepto de espancamentos e não se deixara corromper. Espinosa não o via cometendo um crime como aquele. — Você conhece os amigos dela? Tem idéia de quem possa ter feito isto? — Magali, aliás Lucimar, era puta; qualquer um pode ter feito isto. Ela achava que tinha uma dívida comigo. Há pouco mais de dois anos, eu ainda estava na ativa, botei para correr um cafetão violento que tomava o dinheiro dela, e ela soube retribuir o favor.

Havia um afeto verdadeiro entre nós. Isso aí é coisa de anormal, nada tem a ver comigo. — Não pensei que tivesse, mas precisava falar com você. — Após um pequeno intervalo, insuficiente para quebrar inteiramente o mal-estar, Espinosa perguntou — Aonde você foi ontem à noite, e a que horas foi para casa? Vou precisar desses dados. — Eu sei. Aí é que está a merda, não tenho a menor idéia de onde fui nem do que fiz, só sei que saí com Magali. Devo ter bebido demais. Acordei hoje por volta do meio-dia, na minha cama, vestido com a roupa da véspera. Ou pelo menos quase vestido, estava sem as calças, e minha carteira com dinheiro e documentos tinha desaparecido. Tenho uma vaga idéia de termos ido a um restaurante em Copacabana, mas como é um restaurante a que vamos muito, posso estar superpondo imagens de dias diferentes, mas isso é fácil de verificar. O spray de gás paralisante eu é que dei de presente a ela. Não sei como foi parar no meu carro. Aliás, não sei como meu carro veio parar aqui. Provavelmente ela me deixou em casa e veio para cá dirigindo. Já aconteceu outras vezes. Era uma boa motorista e nunca se embriagava. Graças a ela eu podia beber. Vieira ficou alguns segundos olhando para a cama, em silêncio, o rosto contraído pela dor. — E tem mais, Espinosa, o cinto que está prendendo as pernas dela é meu e eu o estava usando ontem à noite. Passava das duas da madrugada quando deixaram o prédio e foram à delegacia prestar depoimento. Vieira estava inteiramente desperto e todos os sinais externos indicavam que permaneceria assim até conseguir diminuir as sombras da noite anterior. Sabia que formalmente estava incluído na categoria de suspeito. Aliás, ao que tudo indicava, era o único. Não era isso que o incomodava, mas o fato de não se lembrar de absolutamente nada. E se num momento de loucura tivesse assassinado Magali? Mesmo admitindo essa hipótese, para ele absurda, sabia que não a mataria daquela maneira, mataria apaixonadamente.

Caso tivesse algum motivo para matar Magali, e não conseguia encontrar nenhum, a cena que conseguia imaginar era entrando no apartamento e atirando rápida e repetidamente de modo que ela não tivesse tempo do mínimo sofrimento. Afogar alguém num saco plástico, apesar de limpo e silencioso, é doentio. O que fez o filho da puta depois de enfiar o saco na cabeça da menina? Sentou-se na bergère e ficou olhando ela se contorcer até ficar roxa? Enquanto imaginava a cena, a caminho da delegacia, teve um leve estremecimento causado pela lembrança da sensação do brocado barato da poltrona de Magali em contato com seu braço. Sentara dezenas de vezes naquela cadeira enquanto ela se aprontava para sair ou experimentava umvestido novo esperando sua apreciação. Tinha certeza, porém, de que não se sentara para aquela última cena. O que não conseguia entender era como o cinto que estava usando na véspera fora parar nas pernas de Magali. Conseguia pensar uma razão plausível para tudo, menos para aquilo. Na delegacia, o depoimento foi burocrático. A temperatura da madrugada estava agradável e em pouco tempo começaria a clarear. Estava cansado, abatido emocionalmente, triste pela morte da amante e amiga, assustado consigo mesmo. Deixara o carro para ser periciado; decidiu voltar a pé para casa. Durante a caminhada de três ou quatro quilômetros poderia surgir alguma lembrança, e se fosse pela praia poderia encontrar um quiosque vinte-e-quatro-horas onde comer um sanduíche. Comeu cachorro-quente com água-de-coco, uma mistura não compatível. Chegou em casa semnenhuma lembrança confiável e com a cabeça povoada de fantasmas. Sentado na cama, teve vontade de chorar. Dormiu com medo. Melhor seria não ter pegado a carteira. Melhor mesmo não ter visto a carteira cair do bolso do homem. O dinheiro garantiria comida por muitos dias, mas não gostava nemum pouco do fato de ter vindo da carteira de um tira, era complicação na certa; quando querem, descobrem qualquer coisa. Bastaria o cara se lembrar de ter ido àquele restaurante, perguntar ao garçom, ao porteiro, ao manobrista, para este último se lembrar do lugar onde estacionara o carro, em frente à caixa de papelão onde dormia um menino de rua. Se alguém tinha alguma culpa, era ele. Dormiu com medo da polícia e do ladrão. Tinha mais medo da polícia, ou dos que faziam o serviço sujo para ela. Era de opinião que adiantava pouco procurar proteção junto aos outros meninos; quando querem liquidar um deles, liquidam todos. Menino de rua é tudo igual.

Além do mais, se não fosse perseguido pela polícia corria o risco de um vagabundo qualquer descobrir que estava com todo aquele dinheiro; tinha mais ódio de mendigo e vagabundo do que de polícia. Era mais seguro dormir cada noite num lugar diferente. Não queria abandonar o bairro, era seu território, conhecia cada recanto, sabia onde se proteger da chuva e do frio, onde conseguir comida e roupa, como arranjar alguns trocados, onde tomar banho e fazer as necessidades. Copacabana era seu local de trabalho, passava mais tempo perambulando pelas ruas do bairro do que dentro de sua própria casa, no subúrbio distante aonde ia uma vez por mês contribuir com o dinheiro que arrecadara emsuas andanças, nem sempre de forma muito honesta. Sairia das cercanias da avenida Atlântica por uns dias, uma semana seria o suficiente, ninguém se empenharia mais tempo procurando uma carteira. Encontrou um lugar protegido da rua por uma banca de jornal; quem passasse de carro não o veria. Não gostava de dormir desacompanhado, sentia-se exposto e com pouca possibilidade de escapar de um ataque de predadores, mas durante alguns dias teria de se arranjar sozinho. A noite estava mais para quente; ajeitou-se debaixo da marquise, retirou do bolso da bermuda um pão embrulhado em papel de padaria e comeu-o devagar. Acordou antes de o dia clarear, dormira pouco mais de três horas. Esfregou os olhos, urinou junto ao meio-fio, apalpou a bermuda para ver se o dinheiro continuava lá e olhou em volta para verificar se estava sozinho. Na calçada, num ponto próximo de onde dormira, levantou com o auxílio de um pedaço de arame a tampa de ferro de uma caixa de eletricidade medindo uns cinqüenta centímetros de lado e o mesmo de profundidade e retirou de dentro dela umas peças de roupa que guardara na véspera: bermuda, camiseta, tênis, colocou tudo dentro de um saco plástico, recolocou a tampa na caixa. O arame, guardou em outra caixa menor, distante poucos metros da primeira. Se ia passar uns dias fora, melhor levar uma muda de roupa. Ainda era cedo para tentar descolar o café da manhã. Voltou para debaixo da marquise. Tinha ainda umas duas horas, antes de começar o movimento na calçada. Deitou a cabeça sobre o saco plástico e pensou no homem da noite anterior saindo bêbado do restaurante. Ficou de olhos abertos até o dia amanhecer e a rua receber sua cota matutina de pedestres. Era sábado e logo cedo começaram a passar as primeiras pessoas a caminho da praia. Os que chegavam primeiro (e os últimos a irem embora) eram os suburbanos; queriam aproveitar todo o tempo possível, podiam vir à praia somente nos fins de semana e nem sempre coincidia de o tempo estar favorável. Quando o movimento aumentou, saiu em busca de um botequim. Café da manhã não era problema; em Copacabana é comum as pessoas tomarem café no bar ou padaria mais próximos. Bastava escolher o momento adequado, meter-se entre duas pessoas e pedir pão e café com leite. O dinheiro que tinha escondido na bermuda dava para muitos pães e cafés, mas não havia por que pagar do próprio bolso se outros podiam pagar por ele. Sua técnica era comer sempre que a ocasião se apresentasse.

Não bebia todos os dias, mas quando o fazia era sem limites. Era o bêbado do tipo eufórico, falava, contava piadas, ria, cantava, jamais do tipo desagradável e violento. Quando muito, tornavase chato. E era confiando em sua boa índole etílica que vez por outra bebia. Não era alcoólatra. Sua companheira e protetora nos últimos dois anos fora Magali. Gostava dela. Era carinhosa, tomava conta do seu dinheiro, protegendo-o dos bicões, e o deixava em casa ao final da aventura. Quando saíam para jantar, não era a puta Magali, era Lucimar. Por que iria matá-la? Brigaram inúmeras vezes, mas brigas apenas de barulho, nunca brigaram seriamente. O desentendimento maior que tiveram foi quando ela cismou de lhe dar dinheiro. “Porra, Magali, se foi precisamente por isso que te livrei daquele cafetão, agora vem você querendo me dar dinheiro?” Magali chorou, puro enternecimento. “Magali não era para se matar, era para se plantar pra ver se nascia mais”, dissera no depoimento. Agora só podia fazer duas coisas por ela: dar-lhe um enterro decente e descobrir o filho da puta que a matara. A primeira coisa não era problema, assim que liberassem o corpo providenciaria o enterro; a segunda apresentava uma dificuldade: perdera a carteira de policial, que conservara em seu poder mesmo depois de aposentado; não poderia tirar outra, o que o tornava ainda mais dependente de Espinosa. Nem todo policial gosta de ex-policial metendo-se em suas investigações. Tarde de domingo. Como todos os que vivem sozinhos, Vieira sabia que era o pior dia da semana e aquela a pior parte do dia. Quando ficou viúvo, achou que os fins de semana passariam a ser muito mais toleráveis; poderia ficar em casa, como agora, de bermuda, chinelo e camiseta, hesitando entre a janela aberta e o ar-condicionado, sem a mulher reclamar, fosse qual fosse a decisão que tomasse. Não era má pessoa, Maria Zilda, mas era insuportavelmente chata. “Vai ver que morreu porque não se suportou mais.” O fato é que os fins de semana continuaram enfadonhos. Por outras razões, é verdade. Mas naquele momento Vieira não pensava na mulher, pensava nos últimos acontecimentos, na noite de sexta-feira… Pensava, já que não conseguia se lembrar. Pensou até se a amnésia seria apenas alcoólica.

A frase dita durante o depoimento retornou várias vezes: “Magali não era para se matar, era para se plantar, pra ver se nascia mais”. Não era exatamente o que pretendia fazer? Enterrar Magali? A cabeça começou a doer, imagens confusas parecendo fragmentos de sonho pipocavam como flashes em entrevista de celebridade. Sentiu tonteira, enjôo, correu para o banheiro e vomitou. Estava com medo. Sentira medo muitas vezes, em face das mais variadas situações, mas daquela vez era diferente, a ameaça estava muito próxima e ele não conseguia vê-la. O vômito não era devido à bebida, não bebera desde a noite de sexta-feira. Também não comera, mas não tinha fome. Procurou alguma coisa na geladeira, encontrou apenas garrafas d’água (algumas vazias, outras quase) e uma caixa de leite azedo; preparou um café instantâneo apesar de saber que com o estômago vazio apenas acrescentaria azia ao mal-estar; ligou a televisão mas não encontrou nenhum filme, televisão aos domingos é uma merda. Saiu para andar em Ipanema. Na esquina da praça General Osório conseguiu comer um sanduíche empurrado por um suco de laranja. A feira de artesanato na praça serviu para distraí-lo por uma hora, não mais. Voltou para o apartamento ao cair da tarde. Começaria a última e mais melancólica etapa do fim de semana. Estava disposto a ir novamente para a rua, semdestino, quando o telefone tocou. — Vieira? — Ele mesmo. — É Florinda. — Florinda? — É. — …? — Flor, amiga de Magali. Já saímos juntos, uma vez, para jantar. — Ah… Flor… — Lembrou-se da morena que parecia uma tailandesa, corpo esguio, carnes durinhas, que saíra com eles havia alguns meses. — Vieira, estou triste e com medo. — Onde você está? — Estou no prédio de Magali, passei para pegar umas coisas que tinha emprestado a ela mas não pude entrar no apartamento. Estou muito assustada. Tinha seu telefone, liguei. Pode ficar um pouco comigo? — Flor… passo aí dentro de vinte minutos.

Flor tinha tudo para agradar na profissão: beleza, sensualidade e doçura, na proporção certa. Conseguira manter-se independente graças aos contatos obtidos com o cargo de recrutadora no município. Nunca entendera exatamente qual a natureza de sua função, de modo que com o passar do tempo acabou por exercer o cargo (ou função, não sabia ao certo) em benefício próprio. Recrutou fregueses em número e freqüência não excessivos, mas suficientes para lhe garantirem mais que a mera sobrevivência, ao que se somavam seus vencimentos de recrutadora municipal. Morava a poucas quadras de Magali, num prédio misto, residencial e comercial, muito conveniente para seu ramo de atividade. Quando se conheceram, não atingira ainda os vinte e cinco anos de idade, mas sabia tudo sobre formas de sobrevivência, sendo que as primeiras aulas foram nas ruas do Recife, antes de se mudar para o Rio de Janeiro acompanhando, como empregada doméstica, a família de umproprietário de terras em Pernambuco. Tinha na época catorze anos de idade e já era mulher. O patrão não demorou a perceber (e a provar) os encantos de Flor e a necessidade de trazê-la para o Rio “para cuidar do Júnior”. Algum tempo depois da mudança a patroa percebeu que Flor cuidava não apenas do Júnior e botou-a porta afora. O patrão apiedou-se da pobrezinha, que não podia ficar ao relento vivendo de esmolas, “além do mais, ela é menor de idade, somos responsáveis por ela”, e arranjou-lhe lugar para morar e emprego para se manter, sem que a patroa soubesse, claro, e sem que ninguém duvidasse da maioridade da moça. Desse dia em diante, se alguma vez Flor ficou ao relento foi por vontade própria ou exercício profissional. A amizade com Magali teve início numa fila de caixa de supermercado, quando Magali, na hora de pagar, percebeu que esquecera a carteira em casa. Flor ofereceu-se para adiantar o dinheiro, não era muita coisa, sem aceitar a carteira de identidade que a outra insistia em deixar como garantia. Pouco depois de chegar em casa, recebeu a visita da nova amiga pagando a dívida e trazendo um vaso de violetas: “Flores para uma flor”. Tornaram-se irmãs. Flor recordava-se dessa época enquanto andava de um lado para o outro pelo saguão do edifício. Sem dar-se conta do absurdo da situação, levara para a amiga morta um pequeno vaso de violetas, que carregava com ambas as mãos. Falara alguma coisa para o porteiro, tentando justificar a cena insólita, mas ele nem sequer entendera o que ela dizia na fala entrecortada de choro, e quando Vieira chegou, ela se atirou nos braços dele com vaso e tudo. — Vieira… — Flor, não devia ter vindo aqui sozinha. — Vieira, perdi a única amiga que tinha… perdi minha irmã. — Vamos embora, Flor, não há nada a fazer aqui. Na rua, as pessoas estavam com cara de noite de domingo. Os dois caminharam em silêncio, Flor segurando o vaso com uma das mãos enquanto com a outra enlaçava o braço de Vieira. Parecia que acompanhavam um enterro. Depois de escolher o lugar onde passaria as próximas noites e de esconder a muda de roupa que trouxera, decidiu acompanhar os passos do novo dono da carteira.

Não estava inteiramente certo de por que fazia aquilo, mas algo lhe dizia que era uma forma de se proteger. Sabia que com a idade que tinha não poderiam inculpá-lo pelo uso dos cartões de crédito ou da carteira de policial, mas poderiam acusá-lo de tê-los vendido para alguém. Estava a apenas três quadras do prédio do homeme tinha o domingo inteiro pela frente. Não que fizesse diferença ser domingo ou dia de semana, acreditava que assim como ele o homem não trabalhava. Vira-o outras poucas vezes pelas ruas de Copacabana e lembrou-se nitidamente de que em uma delas, numa madrugada como a da carteira, ele batia numa mulher, e quem espanca mulheres é capaz de espancar crianças. E logo ele fora achar a carteira. Sentia-se como se o tivesse premiado, e a cada minuto a idéia o atormentava mais. Antes, ao jogar a carteira na calçada, pensara que o destino dela lhe fosse indiferente, mas verificava agora que se enganara. Ao atirá-la na rua estava jogando com a sorte de quem a encontrasse, e agora estava pagando o preço. No seu modo de ver as coisas, tinha que recuperá-la ou inviabilizar sua utilização. Não fazia aquilo movido por nenhum senso de justiça. Só conhecia sua própria justiça, a qual se reduzia a uma máxima simples: o que era bom para ele, era justo. E aquele acontecimento tinha sido ruim para sua alma. Tomou a decisão de colar no homem e segui-lo por todos os lugares de Copacabana, cada bar, restaurante, inferninho, pontos de droga, casas de jogo, assim como cada pessoa, homens e mulheres, com quem ele estivesse. Isso na suposição de que não sairia do bairro, universo de ação de ambos. A tarde estava começando. Na sua opinião, o homem dormiria durante o dia para estar atento e operante à noite, talvez descesse para comer alguma coisa nas proximidades, talvez comprasse umgaleto, desses que ficam rodando dentro de uma máquina na porta das padarias, e o levasse para comer em casa. Pensou que, assim como ele, o homem deveria comer sozinho. Certas pessoas, a partir de acontecimentos insignificantes, são impelidas a uma guerra santa. Essa foi a dimensão que o fato tomou para o menino; aquele homem não podia, sob hipótese alguma, beneficiar-se do achado. Antes de a tarde chegar ao fim, a idéia assumira proporções épicas, ocupando todo o seu espaço de pensamento, transformando-o no cruzado de uma guerra da qual só ele tinha notícia. Na verdade, a guerra se reduzia a uma luta entre duas pessoas, mas atingia dimensões cósmicas, pouco importando quantos fossem os combatentes e pouco importando que o outro soubesse. — Vieira, quero dizer uma coisa… Magali sempre falou que tinha uma dívida de gratidão com você… — Pausa de segundos. — Agora que ela não está mais aqui… a dívida é minha. A fala era solene como o silêncio por ela rompido.

Vieira não disse nada, continuaram andando, Flor de braço dado carregando o vaso de violetas. Não houve reação visível por parte dele, mas ela percebeu um ligeiro aumento de pressão no braço e uma quase imperceptível diminuição no ritmo da marcha. Apesar de não terem interrompido a caminhada e de as coisas continuarem a acontecer em volta, era como se tivesse havido uma suspensão do tempo. — Você é uma flor. Não haviam combinado, mas estavam fazendo o percurso do prédio onde morava Magali ao de Flor. A distância era pequena, e já estavam quase chegando quando Vieira sugeriu comerem alguma coisa num dos restaurantes dos arredores. Escolheram o que estava com menos gente. Enquanto jantavam, Flor falou da época em que morava no Recife. A habilidade para os negócios manifestara-se muito cedo, antes de completar catorze anos. Morava com a mãe e três irmãos, dois mais velhos e uma irmã de nove anos, numa casa de pau-apique na zona pobre da cidade do Recife. A mãe trabalhava até tarde da noite como cozinheira numa lanchonete, os dois irmãos trabalhavam de dia e, quando a situação permitia, estudavam à noite. Ela cuidava da casa, fazia a comida e cuidava da irmã menor. A rua onde moravam era (ou ela pensava que fosse) passagem obrigatória para os meninos do colégio jesuíta que ficava no bairro vizinho. Os meninos diziam que por ali cortavam caminho. Quando descobriu que o percurso não diminuía distância nenhuma, mas pelo contrário era motivo de repetidos atrasos na chegada ao colégio, Flor percebeu que a verdadeira razão do itinerário do grupo (cada vez mais numeroso) era ela própria. Mais do que sentir-se envaidecida (era um bando de pirralhos), vislumbrou a possibilidade de umnegócio inocente mas lucrativo. Fez chegar aos ouvidos de alguns dos meninos que mediante o pagamento de módica quantia, na verdade pouco mais do que o preço de um refrigerante, eles poderiam vê-la trocar de roupa, pela janela do quarto. Bastaria uma parada na janela, um de cada vez para não atrair a atenção da vizinhança, dinheiro no peitoril, e a rápida cena de Flor tirando e vestindo a roupa. Em pouco tempo teve que estabelecer um horário, de modo que os meninos não fossem todos no mesmo dia e na mesma hora. Foi seu primeiro grande sucesso comercial. E a mercadoria melhorava dia após dia. A história tomou rumos diferentes quando os meninos não se contentaram mais em olhar e passaram a querer tocar em Flor. Num domingo em que a família foi à praia Flor se deu conta, pelos olhares dos homens, de possibilidades mais amplas. O emprego como babá e a posterior mudança para o Rio eram parte dos novos caminhos que antevia à sua frente.

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