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Acidente – Danielle Steel

A tarde de sábado estava deliciosa, a suave brisa acariciava a pele com o leve toque da seda, e a temperatura desse mês de Abril era de tal forma amena que apetecia ficar para sempre ao ar livre. O dia tinha sido longo e soalheiro, e Page, ao conduzir a sua espaçosa carrinha pela Ponte Golden Gate às cinco da tarde, em direção a Marin, maravilhavase com a formidável vista sobre a água. Olhou então para o filho sentado a seu lado, uma pequena réplica loura de si própria, diferenciando-se apenas pelo cabelo despenteado, amassado no sítio onde antes havia pousado o boné de basebol, e pela cara suja de terra. Andrew Patterson Clarke tinha completado sete anos na terça-feira anterior, e vendo-o ali sentado a recuperar da emoção do jogo, era fácil sentir a força da ligação existente entre mãe e filho. Page Clarke era uma boa mãe, uma boa esposa e pertencia àquele tipo de pessoas que todos desejariam ter como amigas. Agia sempre com amor e carinho, empenhava-se no que quer que levasse a cabo, estava sempre disponível para as pessoas de quemrealmente gostava, possuía um sentido artístico que provocava a admiração de todos os seus amigos e era despretensiosamente bonita e divertida. — Jogaste muito bem esta tarde — observou ela com um sorriso, afastando por breves instantes uma mão do volante para revolver ainda mais o cabelo do filho. Andy tinha o cabelo forte e louro como o da mãe, os mesmos olhos vivos e azuis, e a mesma pele leitosa, embora no seu caso estivesse coberta de sardas. — Foi incrível como conseguiste apanhar aquela bola fora de campo. A mim pareceu-me quase um home-run 1 . — Ela ia praticamente a todos os jogos do filho, às representações na escola, e às excursões com os colegas e amigos. Fazia-o por duas razões: porque gostava de o fazer e porque o seu amor pelo filho era muito grande. Quando Andy olhava para a mãe, era evidente que tinha plena consciência desse amor. 1 Home-run: um forte golpe que permite ao jogador de basebol completar o círculo das bases. (N. da T.) — Eu também acho que foi um homer. — Ele sorriu, mostrando as gengivas no lugar onde bem recentemente haviam existido dentes. — Tive quase a certeza que o Benjie conseguia chegar à base… — E no fim da ponte acrescentou com uma gargalhada maliciosa: — Mas não conseguiu! Page riu juntamente com o filho. Fora uma tarde bem passada. Teve pena de que Brad não tivesse podido estar presente, mas aos sábados à tarde ele costumava jogar golfe com os colegas, aproveitando a ocasião para descontrair e pôr a conversa em dia. Há já muito tempo que ele não passava uma tarde de sábado com ela, e quando isso de fato acontecia, era porque tinham algum sítio onde ir ou alguma coisa para fazer: ou por causa das provas de natação em que Allyson participava, sempre num local desconhecido e de difícil acesso, ou então porque o cão tinha ferido a pata, o telhado da casa gotejava, um cano rebentara ou qualquer outra emergência de menor importância precisava de ser resolvida. Um sábado de lazer era algo que já não sucedia há muitos anos, fato esse a que Page já se habituara. Ela e Brad aproveitavam todas as ocasiões que podiam para estar juntos, quer fosse enquanto os filhos dormiam, nos intervalos das viagens de negócio ou nos poucos fins-desemana que passavam fora. Com as vidas ocupadas que tinham, arranjar tempo para os dois era uma tarefa complicada que, apesar de tudo, eles conseguiam levar a cabo.


Depois de um casamento de dezesseis anos e do nascimento de dois filhos, Page era ainda louca por ele. Tinha tudo aquilo que sempre desejara: um marido que adorava e que a amava, uma vida confortável e dois filhos encantadores. A sua casa, em Ross, não era muito sofisticada, mas não deixava por isso de ser bonita e acolhedora. Estava situada numa zona bastante agradável e, com o seu constante desvelo e habilidade Page melhorara consideravelmente o aspecto inicial da casa. Os anos que passara como estudante de Belas-Artes e desenhadora de cenários em Nova Iorque não lhe haviam sido de muito uso, mas nos últimos anos Page tinha vindo a utilizar o seu talento para pintar lindos murais, tanto para ela como para os amigos. Um exemplo desse seu talento estava numa das paredes da escola primária de Ross, onde Page elaborara uma pintura soberba. A ela se devia a transformação da sua casa num local verdadeiramente aprazível, pois os seus murais e as suas pinturas, combinados com a sensibilidade artística que possuía, fizeram de uma típica pequena casa americana um verdadeiro exemplo da idéia de lar, que todos admiravam e invejavam. O mérito pertencia exclusivamente a Page, o que se tornava evidente a quem quer que visitasse a sua casa. No quarto de Andy, Page pintara uma cena de um jogo de basebol, plena de movimento, e oferecera-a ao filho como presente de Natal no ano anterior, para alegria daquele. No ano em que Allyson se maravilhava por tudo o que fosse de origem francesa, a mãe pintou-lhe no quarto uma rua de Paris; depois, substituiu essa pintura por uma fila de bailarinas, inspirada em Degas, e mais recentemente ainda, com o seu toque mágico, conseguira dar ao quarto da filha a aparência de uma verdadeira piscina; pintara até a mobília do quarto com tinta de água, para condizer. Como recompensa, Allyson e os amigos referiam-se ao aspecto do quarto como sendo «espetacular», já que Page era «impecável… superfixe… o máximo», termos estes que, vindos de um grupo de jovens de quinze anos, equivalem ao maior dos elogios. Allyson freqüentava o terceiro ano do liceu. Ao contemplar a filha e os seus amigos Page sentia sempre pena por não possuir uma família mais numerosa. Essa tinha sempre sido a sua vontade, mas Brad insistira em ter apenas «um ou dois filhos», dando ênfase especial ao número um. Com o nascimento de Allyson, o pai apaixonara-se pela «sua menina», e não conseguia entender o desejo que Page manifestava de ter outros filhos. Haviam sido necessários sete anos para o convencer a ter outro filho, o que ocorreu quando o casal mudou de cidade e veio viver para a casa de Ross. Foi nessa altura que Andy nasceu. O «bebê milagre», como a mãe lhe chamava, tinha nascido prematuro, dois meses e meio antes de tempo, depois de Page ter caído de um escadote enquanto pintava ummural na parede do seu quarto. Levaram-na de imediato para o hospital com uma perna partida e já em trabalho de parto. O bebê ficara numa incubadora durante dois meses, mas no fim desse prazo era já totalmente perfeito. Quando se lembrava desse período Page esboçava sempre um sorriso, recordando o tamanho mínimo do bebê e o medo que tiveram de o perder. Não era fácil imaginar como teria resistido a uma perda dessas, embora soubesse que, de alguma forma, o teria conseguido… por Allyson e por Brad. Mas a sua vida nunca teria sido a mesma sem aquele filho. — Gostavas de ir comer um gelado? — perguntou ela a Andy, ao virar no desvio de Sir Francis Drake. — Gostava muito! — Andy presenteou-a com outro dos seus sorrisos desdentados, o que fez com que ambos se rissem com vontade.

— Quando é que pensas voltar a ter alguns dentes, Andrew Clarke? Talvez seja melhor comprarmoste uma dentadura… — Na… — Ele mostrou as gengivas de novo, e recomeçaram os dois a rir. Gostava de estar sozinha com ele, já que depois dos jogos de basebol era costume trazerem o carro cheio de miúdos. Habitualmente, era Page quem os ia levar a casa, mas nesse dia uma outra mãe ficara com essa incumbência. Mesmo assim, ela não desistira de acompanhar o seu filho, pois já o havia prometido anteriormente. Allyson tinha passado a tarde na companhia de amigos, Brad estava a jogar golfe e Page continuava empenhada em todos os seus projetos: planeava uma outra pintura para a escola e prometera a uns amigos dar-lhes algumas idéias sobre a nova decoração da sala deles; mas nada que não pudesse esperar. Andy decidiu-se por duas enormes bolas de gelado com pedaços de chocolate e Page preferiu uma só com sabor a café e com poucas calorias, para que não se sentisse culpada de nenhum excesso. Sentaram-se na esplanada para comer os gelados, o que não impediu Andy de sujar a cara e pingar o fato de treino com gelado. Page tranquilizou-o, argumentando que não tinha importância, já que aquela roupa teria que ser toda lavada. Gozando a temperatura tépida do fim de tarde, observaram as pessoas que passavam, até Page sugerir que seria uma boa idéia fazer um piquenique no domingo. — Isso era muita bom. — A sua expressão de contentamento fez com que Page sentisse o coração a transbordar de amor pelo filho, vendo o enorme gelado cobrir-lhe a ponta do nariz e escorrer até ao queixo. — Tu és um rapazinho muito giro, sabias? Eu sei que não te devia dizer estas coisas, mas acho que és um espanto, Andrew Clarke! Além de seres um grande jogador de basebol… O que é que eu fiz para merecer um filho assim? Ele sorriu de novo, desta vez mostrando ainda mais as gengivas. O gelado ia ganhando terreno, deixando marcas até no nariz de Page, quando ela o tentou beijar. — És muito querido. — Tu também és… — Antes de lhe fazer uma pergunta, ele desapareceu novamente atrás do gelado: — Mãe…? — Sim…? — O gelado dela estava quase no fim, mas quanto ao de Andy dir-se-ia que ia continuar a derreter, verter e gotejar ainda por muito mais tempo. Os gelados aumentam misteriosamente nas mãos das crianças… — Achas que ainda vamos ter outro bebê? Page foi tomada de surpresa, pois não era bem aquele o tipo de perguntas que os rapazes costumavam fazer. Allyson já lhe colocara essa mesma pergunta várias vezes antes, mas agora, com trinta e nove anos, não lhe parecia uma hipótese muito provável. Não que se sentisse com muita idade para ter outro filho, pois de fato não a tinha, levando em conta a idade com que atualmente as mulheres decidiam engravidar, mas ela sabia que nunca conseguiria voltar a convencer o marido. Brad costumava dizer que isso já não era para ele. — Não me parece, filhote. Mas porque é que perguntaste isso? — Ela não conseguia perceber se o filho estava realmente preocupado ou apenas curioso. — Na semana passada, a mãe do Tommy Silverberg teve gêmeos e eu vi-os quando lá fui a casa. São giros… e são iguaizinhos! — explicou ele, bastante impressionado. — Pesam mais de três quilos cada, muito mais do que eu pesava! — Lá isso pesam… — Ele nascera com pouco mais de um quilo, devido ao parto prematuro. — Os irmãos do Tommy devem ser muito bonitos, mas não me parece que venhamos a ter gêmeos na nossa família… ou mesmo um só bebê… — Por estranho que fosse, sentiu tristeza ao afirmá-lo.

Sempre concordara com o marido, talvez por lealdade para com ele, que dois filhos lhes bastavam, mas mesmo assim havia momentos em que, sem nenhuma razão especial, dava por si imaginando-se comoutro bebê no colo. — E se falasses ao teu pai nisso? — brincou ela. — Sobre os gêmeos? — perguntou ele, sem perceber. — Sobre termos outro bebê. — Ia ser divertido… acho eu… mas dão muito trabalho. Na casa do Tommy estava tudo uma balbúrdia, as coisas dos bebês estavam espalhadas pela casa toda… os berços, as fraldas, os brinquedos… e havia dois de cada… a avó dele estava lá a ajudar, mas deixou queimar o jantar. O pai dele gritou que se fartou! — Não acho que isso seja assim muito divertido. — Page sorriu, imaginando a cena de caos total numa casa que já antes de acolher dois gêmeos recém-nascidos não primava pela organização e na qual já existiam duas crianças. — Mas no princípio é assim, até se apanhar o jeito. — Quando eu nasci também ficou tudo assim numa balbúrdia? — Com esta pergunta, ele acabou finalmente de comer o gelado, limpando a boca à manga da camisola e as mãos às calças de basebol, perante o sorriso da mãe. — Não, agora a balbúrdia é muito maior, meu menino. O melhor é irmos andando para casa e tratarmos de mudar essa roupa…! Entraram na carrinha e percorreram o caminho até casa conversando sobre outros temas, embora as perguntas de Andy sobre um outro filho continuassem na sua lembrança. Por alguns breves instantes, chegou mesmo a sentir uma velha e familiar sensação de angústia por algo muito desejado que nunca chegaria a acontecer. Atribuiu de imediato essa sensação ao dia quente e soalheiro que havia feito e à Primavera, mas logo voltou a sentir um enorme desejo de ter mais filhos, de fazer românticas viagens a dois, de poder passar mais tempo com Brad… aquelas tardes de sábado passadas na cama, longas e preguiçosas, sem nenhum sítio onde ir e nada para fazer, a não ser fazer amor com ele. Por muito que gostasse da sua vida atual, havia alturas em que ela desejava muito poder voltar atrás no tempo. No momento presente, a sua vida estava de tal forma ocupada com o círculo de amigos, com a ajuda que dava nos trabalhos de casa dos filhos e com as associações de pais, que ela e o marido só se encontravam ocasionalmente, quase sempre no fim de um dia exaustivo. O que, apesar de tudo, não impedia que existisse ainda amor e desejo… só não existia tempo para os cultivar. Era só isso que eles nunca conseguiam ter em quantidade suficiente: tempo. Não tardaram a chegar a casa, e enquanto Andy reunia as suas coisas Page viu que o carro de Brad estava já estacionado à porta. Olhou o filho com orgulho maternal, e, debaixo do calor tépido do fimde tarde, com o coração repleto de todo o amor que sentia por ele, disselhe: — Gostei muito desta tarde. — Chegava ao fim um daqueles dias especiais em que nos apercebemos com maior clareza da sorte com que fomos contemplados, e nos sentimos especialmente gratos por cada instante de felicidade. — Eu também. Obrigado por teres ido comigo, mamã. — Ele sabia que ela não precisava de o ter feito, mas gostava que a mãe o acompanhasse; era muito boa para ele, e ele tinha consciência disso. Mas como era um bom menino, merecia-o.

— Sempre às ordens Mister Clarke. Agora vai depressa contar ao teu pai como apanhaste aquela bola! Vais ficar famoso na história do basebol…! — Ele riu e apressou-se a correr para casa, enquanto Page levantava a bicicleta de Allyson, que estava tombada no jardim. Os patins da filha encontravam-se encostados à porta da garagem e a sua raqueta de tênis tinha ficado abandonada emcima duma cadeira ao pé da porta da cozinha, em conjunto com uma caixa de bolas de tênis que ela tinha pedido «emprestadas» ao pai. Eram os indícios necessários para concluir que Allyson tivera um dia atarefado. Assim que Page entrou em casa, viu a filha de costas para a porta conversando ao telefone da cozinha, vestida ainda com a roupa com que estivera a jogar tênis e tendo o cabelo preso numa longa trança loura. Depois de combinar os últimos pormenores de alguma saída para breve, desligou o telefone e voltou-se para a mãe. A beleza de Allyson era suficiente para, por vezes, ainda conseguir surpreender a própria Page, já que ela tinha a aparência de uma mulher adulta extremamente atraente. Apesar do seu corpo de mulher, possuía uma mentalidade de adolescente, sempre em movimento, sempre em ação, com algum projeto sempre por concluir. Nunca deixava de ter alguma coisa para dizer, para acrescentar ou para perguntar, algum sítio onde ir, ou algum encontro marcado, quer fosse nesse exato instante, ou há duas horas atrás… Era essa expressão de impaciência que a mãe detectava agora no seu rosto. Page observou a filha. Allyson era muito mais intensa que Andy, assemelhava-se a Brad, sempre em atividade, arquitetando um projeto antes mesmo de concluir um anterior, delineando sempre o que tinha de efetuar em seguida, onde tinha de ir e o que era importante para ela. O seu caráter era muito mais vivo e obstinado do que o de Page, mas não tão dócil e gentil como o de Andy viria a ser um dia. No entanto, Allyson era inteligente e sadia, cheia de boas idéias e boas intenções, embora por vezes, como todos os adolescentes, perdesse o bom senso. Nessas alturas, ela e a mãe envolviam-se numa discussão sobre algum engano típico da sua idade, mas, ao fim de algum tempo, Allyson acalmava e, regra geral, acabava por dar razão aos pais. Com apenas quinze anos, nenhuma dessas suas atitudes era de estranhar, pois aquela era a idade própria para uma rapariga começar a testar os seus limites, a formar as suas opiniões e a questionarse sobre que tipo de pessoa viria a ser; não queria ser a réplica da mãe ou do pai, e sim ela própria. Apesar das suas parecenças com os pais, Allyson era dotada de um caráter totalmente distinto; desejava formar a sua própria individualidade, ao contrário do irmão, cujo único desejo era vir a ser como o pai, mas que afinal era muito mais parecido com a mãe. Aos olhos de Allyson, o irmão continuava ainda a ser um bebê. O nascimento de Andy proporcionara a Allie, na altura apenas com oito anos, contato com a criatura mais linda e mais pequena que ela conhecera até então. Tal como os pais, ela temera que o irmão não resistisse, e quando finalmente ele pôde vir para casa, não havia ninguém mais feliz e orgulhoso do que Allyson. Percorrera toda a casa com ele nos seus braços, e com o correr do tempo, sempre que Page não encontrava o filho, já sabia que o ia encontrar no quarto de Allyson, aninhado na sua cama, como se fosse um dos seus bonecos. Durante anos, Allyson não escondera a paixão pelo irmão, e mesmo agora não deixava de lhe fazer secretamente todas as vontades, comprando-lhe doces e cromos de basebol e até, às vezes, dispondo-se a ir aos jogos dele, apesar de detestar basebol. Na maioria das vezes, Allyson nem se importava de admitir que adorava o irmão. — Como é que te saíste hoje, baixote? — Ela gostava de provocar Andy por ele ter nascido tão pequeno, mas agora o irmão já estava bastante alto para a idade, mais alto até do que a maioria dos seus colegas de turma. — Bem — respondeu ele, modestamente. — O teu irmão foi a estrela do jogo! — esclareceu Page.

Andy corou e foi em busca do pai, enquanto Page lançava um tímido «Boa tarde» em direção ao quarto de casal, pois queria adiantar o jantar antes de ir ao encontro do marido. — O teu dia correu bem? — perguntou ela à filha, enquanto abria a porta do frigorífico. Não haviam feito quaisquer planos para sair à noite e o dia tinha estado tão quente que ela pensou em servir o jantar no jardim, ou em pedir ao marido para fazer um churrasco. — Com quem é que estiveste a jogar tênis? — Com a Chloe e alguns outros amigos que estavam hoje no clube; uns eram de Branson e outros da Academia de Marin. Primeiro jogamos a pares e depois joguei só eu e a Chloe. A seguir fomos nadar — respondeu ela num tom de desinteresse. Vivia uma vida sem problemas, tipicamente californiana, o que para ela já não era nenhuma surpresa, visto ser natural daquela região. Tanto para Brad, que era de um estado central do Oeste, como para Page, natural de Nova Iorque, o clima e as facilidades ainda eram encarados como dois privilégios maravilhosos, ao passo que para os seus filhos estes eram apenas fatores naturais que faziam já parte do seu modo de vida. Por vezes Page invejava os despreocupados inícios de vida dos filhos, mas sentiase simultaneamente feliz por eles, pois era esse o tipo de vida que gostava de lhes proporcionar: fácil, segura, saudável, confortável, protegida de tudo aquilo que os pudesse entristecer ou endurecer. Fizera tudo o que estava ao seu alcance para lhes garantir isso e era com imenso prazer que os via crescer e desenvolverem-se nesse ambiente. — Deve ter sido divertido. Planeaste alguma coisa para hoje à noite? — Se ela respondesse que não, ou dissesse que Chloe viria passar o serão com ela, talvez pudesse ir com o marido ao cinema, ficando Allyson com o irmão. De qualquer forma, se tivessem de car em casa, isso não teria a mínima importância. Era sempre uma boa perspectiva, com uma noite tão quente, poder passar algumas horas a conversar com o marido no jardim. — O que é que pensaste fazer? — acrescentou. Antes de responder, Allyson voltou-se para a mãe com uma expressão ansiosa, que deixava adivinhar o seguinte pensamento: «Se não me deixares fazer o que eu tenho planeado, vais arruinar a minha vida.» Porém, disse-o de uma outra forma: — O pai da Chloe ofereceu-se para nos levar a jantar fora e ao cinema. — Está bem, queria apenas saber. — A expressão de Allyson relaxou de imediato, o que fez com que Page sorrisse, pensando que, por vezes, os filhos eram muito previsíveis. Crescer ainda continuava a ser um processo doloroso, pois mesmo inseridos numa família normal e feliz ainda viviam cada momento e cada plano com uma grande dose de angústia. De fato, não era nada fácil! — Que filme é que vão ver? — perguntou ela, enquanto descongelava carne no microondas. Tinha acabado por se decidir por uma refeição bastante simples. — Ainda não sei. Mas há três filmes que eu gostava de ver… e ainda não vi o Woodstock, que está a passar no Festival. Só sei que o pai da Chloe nos vai levar a jantar ao Luigi’s.

— Que bom! É muito simpático da parte dele. — Page foi buscar um pacote de batatas fritas e, ao começar a fazer a salada, olhou uma vez mais para a filha. Empoleirada num dos bancos do balcão da cozinha, a sua beleza parecia a de uma top-model; tinha os olhos castanhos e amendoados do pai, o cabelo louro da mãe e uma cor de pele que ao mínimo raio de sol se tornava dourada. As suas pernas eram longas e bem torneadas e a sua cintura estreita. Não admirava que as pessoas na rua parassem para a admirar, especialmente as do sexo masculino. Page costumava comentar com Brad que era pena que não lhe pudessem colocar na testa um letreiro com a idade. Até mesmo homens na casa dos trinta paravam para a contemplar, já que era fácil toma-la por uma rapariga de dezoito ou vinte anos. — Mister Thorensen é muito simpático em passar com vocês a noite de sábado. — Ele não tem mais nada que fazer… — retorquiu Allyson, de acordo com os seus quinze anos, fazendo rir a mãe. Era espantoso como os adolescentes conseguiam trazer os adultos de volta à realidade, referindo com tanta clareza os fracassos e infortúnios alheios. — Como é que sabes? — A mulher dele deixara-o no ano anterior e logo após o divórcio aceitara um emprego proposto por um agente de espetáculos em Inglaterra. Oferecera-se para levar consigo os três filhos do casal e inscrevê-los em colégios internos, pois apesar de ser de naturalidade americana, era da opino que o sistema educativo inglês era bastante superior; todavia, Trygve Thorensen não tinha a menor intenção de abdicar dos seus filhos e recusara-se a deixá-los ir. Lamentavelmente, depois de vinte anos passados num subúrbio, a sua mulher sentiase demasiado cansada de ser motorista, empregada e educadora dos filhos, e por isso decidiu abandonar tudo: Trygve, os filhos e toda a sua vida em Ross, a qual ela detestava. Para Dana Thorensen chegara a sua vez. Tinha, anteriormente, tentado avisar o marido, mas este nunca a ouvira; Trygve desejava tão intensamente que o seu casamento resultasse que se recusava a reconhecer a revolta e a frustração da mulher. Todos tinham ficado bastante abalados com a partida de Dana, incluindo a própria Page, que não conseguira deixar de ficar chocada por ela ter abandonado os filhos. No entanto, já há muito tempo que se sabia que aquela era uma carga demasiado pesada para uma pessoa como Dana; alémdisso, toda a população de Ross se espantava com a forma exemplar como Trygve lidava com os seus filhos, não havendo nada que não fizesse por eles. Era analista político em regime de free-lance, o que significava que não tinha de sair de casa para trabalhar. Para Trygve, essa era a situação ideal, pois ao contrário da mulher, nunca dava ostras de estar cansado das suas obrigações e responsabilidades paternas. Aceitava-as de bom grado, com o bom humor e a afabilidade que o caracterizavam. Por vezes admitia que não era uma tarefa fácil, mas acrescentava de imediato que estava tudo a correr bem e que os filhos aparentavam um contentamento que não tinham há anos. Só quando os filhos estavam na escola, ou depois de estes já terem ido dormir, é que ele se dedicava ao trabalho, o que contribuía para a sua acentuada popularidade dentro do círculo de amigos dos filhos. Daí que não constituísse nenhuma surpresa para Page o fato de ele se dispor a levar um grupo de miúdos ao cinema e a jantar no Luigi’s. Os dois filhos de Trygve já tinham idade para freqüentar a universidade e Chloe tinha a mesma idade de Allyson, tendo completado quinze anos no último Natal. A filha de Trygve era tão bonita quanto a de Page, apesar de possuírem tipos físicos completamente diferentes: Chloe era baixa, tinha o cabelo escuro da mãe, a pele clara, e os olhos nórdicos do pai, grandes e azuis.

Os pais de Trygve eram ambos noruegueses e este tinha vivido na Noruega até completar doze anos. Atualmente, era tão americano quanto a Estátua da Liberdade, embora os amigos, por brincadeira, lhe chamassem«viking». Era, sem dúvida, um homem atraente, e depois do seu divórcio não tinham sido poucas as mulheres divorciadas de Ross a ter esperança num possível envolvimento com Trygve. No entanto, essa esperança depressa esmoreceu, já que ele ocupava todo o seu tempo com os filhos e com o trabalho. Page suspeitava que, da parte de Trygve, não se tratava de uma questão de falta de tempo, mas sim de uma ausência de interesse e de motivação. A intensa paixão que dedicara à mulher tinha sido visível aos olhos de todos, tal como as freqüentes ligações amorosas que Dana, no seu desespero, mantivera nos dois anos anteriores à sua partida. Esta última tornara-se uma revoltada, para quem o casamento e a monogamia eram exigências demasiado pesadas. Trygve fizera tudo o que estivera ao seu alcance, pedindo conselhos e tentando mesmo duas separações a título experimental; mas o que ele queria era muito mais do que Dana lhe podia oferecer: ele queria uma mulher de verdade ao seu lado, meia dúzia de filhos e uma vida semcomplicações, que, se possível, incluísse umas férias ao ar livre, a acampar. Ela queria Nova Iorque, Paris, Hollywood ou Londres… Dana Thorensen era exatamente o oposto de Trygve. Tinham-se conhecido em Hollywood, numa idade que ainda nem se podia considerar adulta. Nessa altura, ele começara a escrever guiões, com o curso liceal recentemente concluído, e ela era uma atriz principiante. O seu gosto por aquilo que fazia era tanto, que quando ele lhe pediu para ir viver para São Francisco, ela reagiu com verdadeiro horror. Todavia, amava-o o suficiente para não deixar de o acompanhar, e, já em São Francisco, tentou fazer algumas substituições e atuou ainda em pequenas companhias teatrais de repertório fixo. Mas em nenhuma dessas experiências iniciais foi bem sucedida, e sentia cada vez mais a falta dos amigos, da agitação de Los Angeles e de Hollywood, e até de trabalhar como atriz substituta. Ao engravidar inesperadamente, Trygve surpreendeu-a com um pedido de casamento, o qual, depois de consumado, veio a piorar ainda mais a situação. E foi assim que ela se viu a desempenhar na vida real um papel que nunca tinha desejado para si. Quando Bjorn, o seu segundo filho, nasceu comsintomas de mongolismo, o fardo tornou-se ainda mais pesado, e Dana começou a culpar o marido pela sua situação. A única certeza que tinha era não querer ser mãe de novo, mas nem sequer sabia se de fato desejava estar casada. Assim, quando Chloe nasceu, a vida de Dana precipitou-se para o descalabro. Daí por diante, e aos seus próprios olhos, a vida tornou-se um autêntico pesadelo. Trygve tentava fazer tudo aquilo que podia, já que os seus artigos publicados no New York Time, em várias revistas e em jornais estrangeiros rendiam bem, pelo menos o suficiente para lhes proporcionar a todos uma vida confortável. Mas aquilo que Dana realmente desejava era sair daquele local, conquistar a sua liberdade. Durante mais de metade dos anos em que foram casados, ela nem sequer conseguira manter um relacionamento civilizado com o marido. Só desejava ser livre. E tudo o que Trygve queria era que o casamento fosse feliz.

Aquilo que mais irritava Dana era o marido corresponder à imagem do pai ideal. O sonho impossível estava casado com a mulher errada. Trygve era paciente, simpático e estava sempre disposto a incluir os amigos dos filhos nos seus planos. Levava grupos de crianças para acampar, ensinava-as a pescar e era o principal impulsionador das Olimpíadas Especiais, nas quais Bjorn era sempre campeão. O excelente desempenho deste último surpreendia e encantava toda a gente, menos Dana, que não conseguia relacionar-se com nenhum dos filhos, mesmo quando tentava. Bjorn era para ela o máximo da vergonha e do desapontamento. Como resultado Dana era uma mulher de quem ninguém realmente gostava, uma revoltada contra um destino que, afinal, nem era assim tão mau: possuía três filhos encantadores, incluindo Bjorn, cujo caráter era especialmente carinhoso, e um marido que muitas mulheres invejavam. No entanto, as suas freqüentes aventuras não foram surpresa para ninguém. De fato Dana nem sequer se preocupara em mantê-las secretas, nem mesmo perante Trygve, pois o que na verdade lhe interessava era que ele se aborrecesse. Quando Dana finalmente abandonou o marido, foi um alívio para todos, menos para o próprio, que desde há vários anos se vinha a enganar, tentando confiar numa aparência ilusória. As suas inúmeras desculpas só conseguiam enganá-lo a ele próprio: «Ela vai acabar por se habituar… foi muito difícil para Dana abdicar da sua carreira… abandonar Hollywood não foi fácil para uma mulher como ela… o casamento é mais duro para ela do que para a maioria das pessoas, devido à sua sensibilidade artística… e, é claro, a doença de Bjorn foi um choque terrível para Dana.» Durante vinte anos, ele elaborara todas as desculpas possíveis e imaginárias para o comportamento da mulher, e quase não pôde acreditar na sua partida. Contudo, e para sua própria surpresa, foi como o fim de uma dor ininterrupta; mais surpreendido ficou ainda ao reconhecer que não tinha a mínima vontade de tentar iniciar outro relacionamento, envolvendo o mesmo risco de fracasso. Só nessa altura se apercebeu de quão horrível tinha sido o seu casamento, e era por isso que não conseguia pensar em casar novamente ou até mesmo em manter um relacionamento de caráter mais sério. Nos primeiros tempos, nem sequer admitia a hipótese de sair com alguma outra mulher, já que todas aquelas que conhecia lhe pareciam autênticas caçadoras, ávidas de uma nova presa; e ele não tinha a menor intenção de se transformar na sua próxima vítima, pois de momento sentiase muito feliz a viver sozinho com os filhos. — Desde que a mãe da Chloe se foi embora, há já mais de um ano, que ele não teve nenhuma namorada. Passa o dia todo com os filhos, e à noite trabalha. A Chloe diz que ele está a escrever um livro… Mas ele gosta mesmo de sair conosco, mãe; pelo menos, é o que diz. — Sorte a vossa. Pode ser é que um destes dias ele procure um outro tipo de companhia… uma amiga um bocadinho mais madura… — Page sorriu e Allyson encolheu os ombros. Não conseguia imaginar Trygve a escolher outra companhia, já que, durante toda a sua vida o tinha conhecido sempre disponível para os filhos e para os amigos dos filhos. Nunca lhe ocorreu que esse comportamento se devia não apenas ao gosto sincero que Trygve sentia em estar com eles mas também a uma espécie de fuga ao vazio de um casamento falhado. — Além disso, ele gosta de acompanhar o Bjorn… agora anda a ensiná-lo a guiar. — É um bom homem — concluiu Page, acabando de lavar as folhas de alface e colocando-as numa saladeira enquanto Allyson ia comendo batatas fritas. — A propósito, como é que está o Bjorn? — Há já muito tempo que não o via.

Apesar de não ser dos casos mais afetados pelo mongolismo, tinha ainda bastantes limitações. — Está ótimo. Todos os sábados joga basebol e agora anda doido por bowling. — Era espantoso. Como é que alguém aprenderia a lidar com uma situação dessas? De certa forma, ela conseguia compreender que Dana Thorensen tivesse fraquejado, embora não entendesse o seu comportamento posterior. Apesar de não serem amigos íntimos, ela conhecia Trygve Thorensen há muitos anos e simpatizava de todo o coração com ele, julgando-o merecedor de uma vida bem menos complicada e infeliz; na verdade, ninguém merecia uma vida com tantos problemas, e por aquilo que ela podia ver, ele era de fato um excelente pai. — Vais dormir em casa da Chloe? — perguntou Page à filha, enquanto enxugava as mãos, depois de ter acabado de colocar todas as folhas de alface na saladeira. Desde que chegara a casa ainda não tinha ido cumprimentar o marido, e, além disso, queria também ver o que é que Andy estaria a fazer. — Não — respondeu Allyson abanando a cabeça e trocando o pacote de batatas fritas, que deixou em cima do balcão, por uma maçã. O seu corpo era alto, de linhas esbeltas, e ela atirou a trança loura para trás dos ombros. — Depois do cinema eles vêm pôr-me a casa. A Chloe vai participar numa prova de corrida e saltos amanhã de manhã cedo. — A um domingo…? — comentou Page com alguma admiração, enquanto saíam da cozinha. — Sim… não tenho bem a certeza… acho que é um treino, ou alguma coisa do gênero. — A que horas é que sais? — Fiquei de ir ter com a Chloe por volta das sete. — Houve uma grande pausa até que os enormes olhos castanhos fitaram os da sua mãe. Por um breve instante, Page detectou neles algo que não conseguiu decifrar: algum segredo, um pensamento mais íntimo que Allyson não quis partilhar com a mãe. — Podes emprestar-me a tua camisola preta, me? — A de caxemira com pérolas…? — Tinha sido o presente de Natal do marido e era demasiado quente, demasiado sofisticada e demasiado cara para uma jovem de quinze anos. Quando Allyson respondeu afirmativamente Page não achou a mínima graça ao pedido despropositado da filha. — Não me parece; não é muito apropriada para sítios como o Luigi’s e o Festival, não achas? — Sim… tens razão… então e a camisola cor-de-rosa? — Essa é bastante mais apropriada. — Emprestas-me essa, então? — Empresto. — Page suspirou, e abanou a cabeça, esboçando um sorriso triste enquanto ia em busca do marido e Allyson seguia para o seu quarto. Havia alturas em que Page sentia que entre ela e Brad existiam várias barreiras e obstáculos. Era como se ambos fossem obrigados a participar numa maratona diária para depois terem direito a alguns momentos de privacidade; as exigências eramsempre as mesmas: «Leva-me a tal sítio, deixa-me não sei onde, vai buscar-me a tal parte, vem ajudar-me, posso fazer isto, onde está o meu casaco, como é que se faz isto, vem ver aquilo…» Nesse instante, ao virar no fim do corredor Page viu-o dentro do quarto e constatou, mais uma vez, que era difícil não o achar extremamente atraente. Brad Clarke era o exemplo típico do ideal de beleza masculina: alto, moreno e interessante; media mais de um metro e oitenta, tinha o cabelo escuro e bastante curto, uns grandes olhos castanhos e ombros largos; os seus lábios eram finos, as pernas longas, e o sorriso dele ainda fazia com que as pernas de Page fraquejassem.

Estava debruçado sobre uma mala de viagem aberta em cima da cama, mas ao vê-la entrar no quarto endireitou-se de imediato, dedicando-lhe um longo sorriso. — Então, que tal correu o jogo? — indagou ele, com um sorriso triste. Devido às suas constantes ocupações, já há bastante tempo que deixara de assistir aos jogos do filho. Por vezes, com a sua agenda superlotada e com os horários dos filhos Brad tinha a impressão de que nem sequer viviamdebaixo do mesmo teto. — Correu muito bem. O teu filho portou-se como um verdadeiro campeão — respondeu ela com umsorriso, colocando-se nas pontas dos pés para o poder beijar. — Foi o que ele me contou — confirmou ele, enquanto deslizava suavemente a sua mão para a cintura da mulher, de forma a puxá-la para junto de si. — Senti a tua falta — acrescentou. — Eu também… — Por alguns instantes, Page deixou-se ficar encostada contra o peito dele; depois, atravessou o quarto e deixou-se cair numa poltrona, enquanto ele voltava a fazer a mala. Era já umhábito de fim-de-semana, apesar de suceder geralmente nas tardes de domingo; era sempre nesse dia à noite que Brad partia nas suas inúmeras viagens de negócios. Apesar disso, quando tinha mais algum tempo disponível, antecipava essa tarefa para a véspera, de forma a que no dia seguinte pudessem dispor de mais algum tempo juntos. — E que tal se fizéssemos um churrasco para o jantar? Acabei de descongelar a carne e como está uma tarde tão bonita… Somos só nós os dois e o Andy, porque a Allyson vai jantar fora com a Chloe. — Era uma boa idéia, mas… — Brad aproximava-se da mulher com uma expressão de desalento no rosto — no consegui arranjar lugar no vôo de amanhã à noite para Cleveland, por isso vou ter de apanhar o avião de hoje à noite… e tenho que sair por volta das sete. — O desapontamento com que Page recebeu esta notícia tornava-se evidente aos olhos do marido. Tinha passado toda a tarde antecipando um serão a dois, talvez até no jardim ao luar… — Querida, lamento muito. — Sim… eu também… — respondeu ela, esboçando um tênue sorriso e acrescentando em seguida, acentuando ainda mais a sua decepção: — Andei o dia todo a pensar em ti. — Ele sentou-se no braço da poltrona sem proferir uma palavra. Page sabia que devia estar já mais habituada às viagens do marido e desejava conseguir encará-las de outra forma, mas, independentemente da sua vontade, acabava sempre por sofrer com a ausência dele. — Passar o domingo em Cleveland não deve ser uma perspectiva muito aliciante para ti — prosseguiu ela, tentando confortá-lo. A agenda onde Brad trabalhava exigia muito dele, o que até certo ponto era natural, pois ele funcionava como o seu grande trunfo, capaz de atrair multidões. Até já se contavam histórias a seu respeito, pela habilidade natural com que aliciava novos clientes e pela ainda mais rara facilidade com que os conseguia manter. — Como vou ter mesmo que ficar em Cleveland, lembrei-me de telefonar ao presidente da empresa com quem vou falar, e combinamos uma partida de golfe para amanhã de manhã. Assim pelo menos já não será uma perda total de tempo — afirmou ele, beijando os lábios da mulher, gesto suficiente para que esta voltasse a sentir aquela familiar sensação de desejo a percorrer-lhe todo o corpo. —Mas é claro que preferia poder ficar aqui contigo e com os miúdos — concluiu ele num tom mais grave, enquanto a envolvia nos seus braços. — Esquece os miúdos… — pediu ela com a voz levemente enrouquecida.

Ele soltou uma gargalhada bem-disposta. — Essa idéia agrada-me bastante! Vamos guardá-la para terçafeira à noite… depois do jantar já conto estar de volta. — Então eu encarrego-me de te lembrar… — murmurou ela antes de um novo beijo, altura exata em que Andy decidiu entrar de rompante no quarto dos pais. — A Allie deixou um pacote de batatas fritas aberto e agora a Lizzie está a comê-las! Ela vai vomitar o chão todo! — Lizzie era a cadela da família, uma labrador de pêlo dourado, dona de umapetite devorador e de um estômago proporcionalmente delicado. — Anda depressa, mãe! Se a deixares comer mais batatas, ela vai ficar doente! — Está bem, vou já… — acedeu ela, sorrindo pesarosamente para o marido, que se apressou a colocar a mão no ombro dela, numa tentativa de a animar. Page seguiu o filho até à cozinha, onde Lizzie devorava alegremente os restos das batatas fritas espalhadas pelo chão. — És uma selvagem, Lizzie. — exclamou Page num tom cansado, enquanto começava a limpar o chão, desejando que Brad não tivesse que viajar para Cleveland; logo nessa noite, que ela tanto desejara estar com ele! Era como se a vida de ambos pertencesse a toda a gente, menos a eles. Foi então que se lembrou de fazer uma pergunta a Andrew, enquanto Lizzie se esforçava por lamber as últimas migalhas: — Queres ir jantar fora com a tua mãe? O pai vai para Cleveland e, se quiseres, nós dois podemos ir comer uma pizza a algum lado. — É claro que também podiam comer uma pizza em casa, ou jantar os bifes que ela havia descongelado antes, mas Page não sentia a mínima vontade de car em casa sem a presença do marido. Além disso, era mais divertido programar uma saída a sós com Andy. — O que é que dizes?

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