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Acima de Qualquer Suspeita – Scott Turow

Eu deveria me sentir mais triste – diz Raymond Horgan. Imagino a princípio se ele se refere ao elogio solene que está prestes a pronunciar. Consultou mais uma vez suas anotações e está guardando os dois cartões de fichário no bolsinho do terno de sarja azul. Mas, quando percebo sua expressão, reconheço que o comentário foi pessoal. Do banco traseiro do Buick oficial, ele olha fixamente pela janela para o tráfego intenso à medida que nos aproximamos do South End. O olhar assumiu um aspecto meditativo. Enquanto o observo, ocorre-me que essa pose seria bastante eficaz como a imagem para a campanha deste ano: as feições rudes de Raymond fixadas num misto de solenidade, coragem e vestígio de pesar. Ele exibe algo do ar estóico desta metrópole às vezes triste, como os tijolos enegrecidos e os telhados de papel alcatroado desta parte da cidade. É um lugar-comum entre os que trabalham com Raymond comentar que parece que ele não está bem. Há vinte meses separou-se de Ann, sua esposa por trinta anos. Engordou e adquiriu uma perpétua expressão sombria, que sugere ter finalmente alcançado aquele estágio da vida em que acredita que muitas coisas dolorosas não vão melhorar. Um ano antes, a aposta era de que Raymond não teria a energia ou o interesse em concorrer de novo, e ele esperou até quatro meses antes das eleições primárias para anunciar sua decisão. Alguns dizem que foi o vício do poder e da vida pública que o levou a disputar outra vez. Creio que o principal impulso foi o ódio absoluto de Raymond a seu adversário, Nico Della Guardia, que até o ano passado era o outro vice-promotor emnosso gabinete. Qualquer que tenha sido a motivação, foi uma campanha difícil. Enquanto houve dinheiro, agências e consultores de mídia estiveram envolvidos! Três rapazes de sexualidade duvidosa decidiram questões de imagem e providenciaram para que esse retrato de Raymond fosse colocado na traseira de um em cada quatro ônibus da cidade. Ele exibe um sorriso insinuante, com a intenção de parecer alguém determinado. Acho que a fotografia o faz parecer um imbecil. É mais um sinal de que Raymond caiu em descompasso. Provavelmente, é a isso que se refere quando diz que deveria se sentir mais triste. Está querendo dizer que os acontecimentos parecem resvalar por ele mais uma vez. Raymond continua a falar sobre a morte de Carolyn Polhemus, há três noites, no dia 1º de abril. – É como se eu não pudesse chegar lá. Tenho Nico de um lado, procurando dar a impressão de que fui eu quem a matou. E todos os idiotas do mundo com credenciais da imprensa querem saber quando vamos descobrir o assassino.


E as secretárias se trancam no banheiro para chorar. E, ainda por cima, não se pode deixar de pensar nessa mulher. Afinal, eu a conheci como agente de condicional, antes de se formar na faculdade de direito. Trabalhava para mim. Fui eu quem a contratou. Uma garota esperta, sensual. Uma advogada sensacional. E a gente acaba pensando a respeito, sabe como é, o fato concreto… Acho que estou meio calejado, mas, mesmo assim, é demais. Algum cretino arromba o lugar. E é assim que ela se apaga, é esse o seu au revoir? Com algummaluco arrebentando seu crânio e lhe dando uma trepada. Santo Deus! – E Raymond repete: – Não se pode sentir pena suficiente. – Não houve arrombamento – finalmente me manifesto. O súbito tom assertivo surpreende até a mim. Raymond, que por um momento retomou a consideração de um punhado de papéis trazidos do escritório, inclina a cabeça para trás e me fita com um olhar astucioso. – De onde tirou essa idéia? Demoro a responder. – Encontramos a garota estuprada e amarrada – acrescenta Raymond. – Aqui entre nós, eu não começaria a investigação por seus amigos e admiradores. – Não havia janelas quebradas – ressalto. – Nem portas arrombadas. A essa altura, Cody, tira por trinta anos que passa seus últimos dias na polícia guiando a viatura oficial de Raymond, intervém na conversa, lá do banco da frente. Cody se mantém estranhamente quieto hoje, poupando-nos o devaneio habitual sobre as transas de vagabundos e os grandes golpes que testemunhou a granel na maioria das avenidas da cidade. Ao contrário de Raymond – e também de mim, não posso deixar de acrescentar –, ele não tem a menor dificuldade para chegar ao pesar. Parece estar sem dormir, o que dá a seu rosto uma expressão de desgosto irritado. Meu comentário sobre as condições do apartamento de Carolyn o atiçou, por algum motivo. – Todas as portas e janelas do apartamento estavam destrancadas – informa Cody.

– Ela gostava assim. A garota vivia num lugar semelhante a um reino de fadas. – Acho que alguém bancou o esperto – asseguro aos dois. – Queria nos lançar na direção errada. – Não venha com essa, Rusty – protesta Raymond. – Estamos procurando por um vagabundo. Não precisamos de nenhuma porra de Sherlock Holmes. Não tente se antecipar aos detetives da Divisão de Homicídios. Fique de cabeça baixa e ande em linha reta. Certo? Pegue um culpado e salve meu rabo imprestável. Ele me sorri então, um sorriso efusivo e sugestivo. Quer que eu saiba que está segurando a barra. Além disso, não há necessidade de enfatizar ainda mais as implicações de se pegar o assassino de Carolyn. Em seus comentários noticiados sobre a morte de Carolyn, Nico foi vil, aproveitador e implacável. – A negligência do promotor na aplicação da lei durante os últimos 12 anos converteu-o em cúmplice dos elementos criminosos da cidade. Até mesmo as pessoas de sua equipe não estão mais seguras, como demonstra esta tragédia. Nico não explicou como sua contratação de Raymond para promotor-assistente, há mais de dez anos, se enquadra na ligação deste com a ilegalidade. Mas os políticos não precisam explicar certas coisas. Além do mais, Nico sempre foi descarado em seu comportamento público. É uma das coisas que o tornam maduro para uma carreira política. Maduro ou não, todos esperam que Nico perca a eleição primária, daqui a 18 dias. Raymond Horgan vem fazendo o maior sucesso com 1,5 milhão de eleitores registrados do Condado de Kindle há mais de uma década. Este ano ele ainda precisa conquistar o endosso do partido, mas isso acontece em grande parte devido a uma antiga divergência de facções com o prefeito. O grupo político de Raymond – que nunca me incluiu – está convencido de que, no momento em que forempublicadas as primeiras pesquisas de opinião, dentro de uma semana e meia, outros líderes do partido poderão pressionar o prefeito a mudar de posição, e com isso Raymond estará garantido por mais quatro anos. Nesta cidade de um só partido a vitória na primária equivale à eleição.

Cody se vira do banco da frente e diz que já são quase 13 horas. Raymond balança a cabeça, distraído. Cody interpreta esse gesto como assentimento e estende a mão por baixo do painel para ligar a sirene. Usa-a em dois toques curtos, quase como uma pontuação no tráfego, mas os carros e caminhões se afastam e o Buick escuro arremete. A vizinhança por aqui ainda é marginal – casas mais antigas com as laterais de ripas, varandas arrebentadas. Crianças pálidas brincam com bolas e cordas na beira da calçada. Fui criado a uns três quarteirões daqui, num apartamento em cima da padaria de meu pai. Recordo esse tempo como anos sinistros. Durante o dia, quando não estava na escola, eu e minha mãe ajudávamos papai na padaria. À noite ficávamos em um cômodo trancado, enquanto meu pai bebia. Não havia outros filhos. O bairro hoje não é muito diferente, ainda habitado por pessoas como meu pai: sérvios, como ele era, ucranianos, italianos, poloneses – tipos étnicos que mantêm sua paz e as próprias perspectivas sombrias. Somos detidos no tráfego intenso da tarde de sexta-feira. Cody se enfiou atrás de um ônibus municipal, que lança suas fumaças nocivas ruidosamente. Um cartaz da campanha também está pregado ali, com 2 metros de largura, e Raymond observa lá de cima, a expressão infeliz de umentrevistador de televisão ou o porta-voz de comida enlatada para gatos. E não posso me controlar. Raymond Horgan é meu futuro e meu passado. Estou com ele há 12 anos, anos repletos de genuína lealdade e admiração. Sou o seu braço direito, e sua queda acarretaria a minha. Mas não há como silenciar a voz de descontentamento; ela possui seus próprios imperativos. E fala agora à imagem lá em cima com uma repentina franqueza. Você é um imbecil, diz ela. Isso mesmo, insiste, não passa de um imbecil. AO VIRARMOS na Third Street, posso constatar que o funeral se tornou um evento importante para o Departamento de Polícia. Metade dos carros estacionados tem duas cores, preto e branco, há policiais em duplas e trincas circulando pelos caminhos.

Matar alguém da promotoria só está a umpasso de matar alguém da polícia; e quaisquer que sejam os interesses institucionais, Carolyn tinha muitos amigos no departamento – o tipo de relacionamento leal que uma boa promotora desenvolve ao apreciar o eficiente trabalho policial e ao cuidar para que não seja desperdiçado no tribunal. Além disso, é claro, há o fato de que era uma mulher bonita e de temperamento extrovertido. Carolyn, todos sabemos, gostava de se divertir. Mais perto da capela o tráfego está irremediavelmente congestionado. Avançamos apenas uns poucos metros antes de parar e esperar que os veículos lá na frente descarreguem passageiros. Os veículos das pessoas importantes – limusines com placas oficiais, pessoal da imprensa à procura de vagas próximas – bloqueiam a passagem completamente indiferentes. Os repórteres de rádio e televisão não obedecem às posturas municipais nem às regras comuns da urbanidade. O furgão Minicam de uma emissora, equipado até com radar, está parado na calçada, bem diante da porta de carvalho aberta da capela. Diversos repórteres trabalham no meio da multidão, como se estivessemnuma luta de boxe, enfiando microfones na cara das autoridades que chegam. – Mais tarde – diz Raymond, arremetendo como um touro pela horda da imprensa, que cerca o carro no instante em que finalmente encostamos no meio-fio. Ele explica que fará alguns comentários em seu elogio fúnebre e que os repetirá ao sair. Faz uma pausa, tempo suficiente para fazer um agrado em Stanley Rosenberg, do Canal 5. Stanley, como sempre, terá a primeira entrevista. Paul Dry, do gabinete do prefeito, gesticula para mim. Vossa Senhoria, ao que parece, gostaria de trocar uma palavrinha com Raymond antes de a cerimônia começar. Transmito o recado no momento em que Horgan se desvencilha dos repórteres. Ele faz uma careta – uma reação insensata, pois Dry pode ver – antes de se afastar com Paul, desaparecendo na escuridão gótica da igreja. O prefeito, Augustine Bolcarro, tem o caráter de um tirano. Há dez anos, quando era o sujeito mais quente da cidade, Raymond Horgan quase tirou Bolcarro do cargo. Quase. Desde que perdera aquela primária, Raymond tivera todos os gestos apropriados de lealdade. Mas Bolcarro ainda sente a dor dos ferimentos antigos. Agora que finalmente chegou a vez de Raymond enfrentar uma eleição primária disputada, o prefeito alegou que seu papel no partido exige neutralidade e anunciou que pretende se abster na hora da decisão. É evidente que está gostando de observar Raymond lutar sozinho para alcançar a praia. E, quando Horgan chegar lá, Augie será o primeiro a cumprimentá-lo, garantindo que sabia desde o início que Raymond era um vencedor.

Lá dentro, quase todos os bancos já se encontram ocupados. O caixão na frente está cercado por flores – lírios e dálias brancas – e imagino sentir, apesar de tantos corpos, uma vaga fragrância floral no ar. Trato de avançar, acenando com a cabeça para diversos personagens, apertando suas mãos. É o que se poderia chamar uma multidão de peso: todos os políticos da cidade e do condado. A maioria dos juízes está presente; e também a maioria dos luminares de defesa. Alguns grupos esquerdistas e feministas, com os quais Carolyn às vezes se alinhava, também estão representados. A conversa é apropriadamente moderada, as expressões de choque e pesar são sinceras. Esbarro em Della Guardia, que também está no meio da multidão. – Nico! – Aperto sua mão. Ele tem uma flor na lapela, um hábito que adquiriu desde que se tornou candidato. Pergunta por minha mulher e por meu filho, mas não espera a resposta. Em vez disso, assume uma súbita expressão de sobriedade trágica e começa a falar da morte de Carolyn. – Ela era simplesmente… Ele gira as mãos, em busca da palavra certa. Percebo que o impetuoso candidato a promotor aspira à poesia e trato de interrompê-lo: – Ela era esplêndida – digo e fico momentaneamente espantado com o meu repentino ímpeto de sentimento e a força e a rapidez com que se desprendeu de algum lugar íntimo e secreto. – Esplêndida. É isso mesmo. Muito bom. Nico acena com a cabeça; depois, uma sombra parece atravessar seu rosto. Eu o conheço bastante bem para saber que encontrou um pensamento que pode lhe ser benéfico. – Imagino que Raymond está se empenhando ao máximo neste caso. – Raymond sempre se empenha ao máximo em todos os casos. Você sabe disso. – Ah… Sempre pensei que você fosse apolítico, Rusty. Mas agora está usando as frases dos redatores de campanha de Raymond. – Que são melhores do que os seus, Delay.

– Nico ganhara esse apelido quando ambos éramos novos no gabinete do promotor, trabalhando na seção de apelações. Nico jamais conseguia concluir um sumário no prazo. John White, o antigo subchefe da promotoria, chamava-o de “Sempre atrasado”. – Oh, não! – ele exclama. – Estão zangados comigo pelo que andei dizendo? Porque de fato acredito no que falei. Creio que a imposição eficaz da lei começa por cima. Estou convencido de que isso é verdade. Raymond está mole. E cansado. Não lhe resta ânimo para ser duro. Conheci Nico há 12 anos, em meu primeiro dia como assistente de promotoria, quando fomos designados para partilhar uma sala. Onze anos depois eu era o vice-promotor e ele, o chefe da Seção de Homicídios, e tive de despedi-lo. Àquela altura, ele já começara abertamente a tentar remover Raymond do cargo. Havia um médico negro, um aborteiro, que Nico queria processar por homicídio. Sua posição não fazia o menor sentido em termos legais, mas atiçava as paixões de vários grupos de interesses, cujo apoio ele procurava. Nico plantava notícias sobre suas divergências com Raymond; sustentava alegações em tribunais de júri – para os quais sempre havia uma abundante cobertura da imprensa – que não passavam de discursos de campanha. Raymond deixou o ato final para mim. Certa manhã fui ao Kmart e comprei o par de sapatos de corrida mais barato que encontrei. Deixei na mesa de Nico com um bilhete: “Adeus. Boa sorte. Rusty.” Sempre tive certeza de que uma campanha política combinaria muito bem com ele. Nico Della Guardia tem cerca de 40 anos agora, um homem de estatura mediana, com uma aparência esmerada desde que o conheço. Preocupa-se com o peso, em não comer carne vermelha, coisas assim. Embora a pele seja ruim e a combinação de cores esquisita – cabelos ruivos, pele azeitonada, olhos claros –, possui o tipo de rosto cujas imperfeições não são detectadas por uma câmera ou mesmo em umtribunal, sendo no conjunto considerado bonito.

E, sem dúvida, ele sempre se vestiu para corresponder a esse papel. Mesmo nos dias em que consumia a metade do seu salário, Nico sempre usou ternos sob medida. Muito além da boa aparência, no entanto, o aspecto mais fascinante de Nico sempre foi a audácia e a sinceridade indiscriminada que ele exibe aqui, recitando os aspectos de sua plataforma enquanto conversa, no meio de um funeral, com o principal assistente de seu adversário. Depois de 12 anos, inclusive dois em que partilhamos a mesma sala, aprendi que Delay sempre pôde ostentar esse tipo de fé espontânea e exuberante em si mesmo. Na manhã em que o despedi, há nove meses, ele passou por minha sala na saída, radiante como uma moeda nova, e disse simplesmente: “Eu voltarei.” Tento me livrar de Nico agora. – É tarde demais, Delay. Já prometi meu voto a Raymond Horgan. Ele demora a perceber a piada, mas não desiste mesmo depois disso. Continuamos numa espécie de jogo, realçando as fraquezas. Nico admite que sua campanha dispõe de pouco dinheiro, mas alega que o apoio tácito do arcebispo lhe empresta “capital moral”. – É nisso que somos fortes – ele declara. – De verdade. É com isso que conquistaremos os votos. As pessoas já esqueceram por que alguma vez quiseram votar em “Direitos Civis Raymond”. Ele não passa de uma lembrança vaga. Uma sombra. E eu tenho uma mensagem forte e clara. – A confiança de Nico é radiante, como sempre, quando se põe a falar de si mesmo. – Sabe o que me preocupou? Sabe a quem seria muito difícil derrotar? – Ele se aproximara mais um passo, baixando a voz. – Você. Solto uma risada, mas Nico continua: – Fiquei aliviado. Estou dizendo a verdade. Fiquei aliviado quando Raymond anunciou sua decisão. Já estava prevendo: Horgan convoca uma entrevista coletiva, diz que vai se aposentar, mas pediu a seu principal assistente para continuar sua obra.

A mídia vai adorar Rusty Sabich. Um cara apolítico. Um promotor profissional. Estável. Maduro. Alguém em quem todos podem confiar. O homem que acabou com a quadrilha dos Night Saints. Eles armam tudo isso e Raymond ainda consegue o apoio de Bolcarro para você. Seria um adversário difícil, muito difícil. – Isso é ridículo – respondi, fingindo bravamente que o roteiro descrito não aflorara em minha imaginação pelo menos cem vezes durante o último ano. – Você é mesmo terrível, Delay. Dividir para conquistar. Nunca vai parar de agir assim. – Ei, espere um pouco, meu amigo. Sou um dos seus verdadeiros admiradores. E falo sério. Não há ressentimentos aqui. – Ele toca na camisa, por cima do colete. – É uma das poucas coisas que continuarão como estão quando eu chegar lá. Você permanecerá no seu cargo. Digo a ele, muito afável, que tudo aquilo não passa de besteira. – Você nunca será o promotor. E, se fosse, Tommy Molto seria o seu homem. Todo mundo sabe que Tommy é o seu predileto. Tommy Molto é o melhor amigo de Nico, seu antigo subchefe na Seção de Homicídios.

Molto não dá as caras no escritório há três dias. Não telefonou e sua mesa está limpa. A convicção geral é de que, no momento em que diminuir um pouco a repercussão da morte de Carolyn, na próxima semana, Nico vai promover outra entrevista coletiva e anunciar que Tommy aderiu à sua campanha. Isso proporcionará mais algumas manchetes. ASSISTENTE DESAPONTADO DE HORGAN APÓIA NICO . Delay sabe encenar essas coisas muito bem. Raymond tem uma crise sempre que ouve o nome de Tommy. – Molto? – Nico me pergunta agora. Sua expressão de inocência não é nada convincente, mas não tenho a oportunidade de responder. O reverendo acaba de pedir aos presentes para que se sentem. Limito-me a sorrir para Della Guardia – um sorriso afetado – ao nos separarmos, e começo a abrir caminho para a frente da capela, onde Raymond e eu devemos sentar, como representantes da promotoria. Mas, enquanto avanço, fazendo gestos comedidos de reconhecimento para as pessoas que conheço, o calor da confidência veemente de Nico ainda me envolve. É como sair do sol ardente: a pele comicha e fica sensível ao contato. E me ocorre então, abruptamente, no momento emque tenho a primeira visão plena do caixão cinzento, que Nico Della Guardia pode até vencer. Essa profecia é anunciada por uma vozinha em algum lugar do meu íntimo, como uma consciência esganiçada, para me dizer o que não quero ouvir. Por mais indigno que Nico seja, desqualificado, um pigmeu na alma, algo pode estar impelindo-o para o triunfo. Aqui, nesta região dos mortos, não posso deixar de reconhecer o apelo carnal de sua vitalidade e como isso pode levá-lo longe. COMO ERA APROPRIADO àquela cerimônia pública, duas fileiras de cadeiras dobráveis foramdispostas junto ao caixão de Carolyn. A maior parte está ocupada pelas autoridades aguardadas. A única presença desconhecida é um garoto no final da adolescência, sentado ao lado do prefeito, ao pé do caixão. O garoto tem cabelos louros emaranhados e uma gravata tão apertada que as pontas do colarinho de camisa de raiom projetam-se pelo ar. Um primo, concluo, talvez um sobrinho, mas, com toda certeza – e surpreendentemente –, alguém da família. Os parentes de Carolyn, pelo que eu sabia, estavam todos lá no Leste, onde ela tencionara deixá-los, há muito tempo. Ao lado do garoto, na primeira fila, há mais gente do prefeito do que deveria, não sobra lugar para mim. Quando passo pela segunda fila, Raymond inclina-se para trás.

Ao que parece, observou minha conversa com Della Guardia. – O que Delay tinha a dizer? – Nada. Só besteira. Está ficando sem dinheiro. – Quem não está? Pergunto pelo encontro com o prefeito e Horgan revira os olhos. – Ele queria me dar uns conselhos, em caráter confidencial, só nós dois, pois não quer dar a impressão de que está apoiando apenas um lado. Acha que minhas chances aumentariam muito se prendêssemos o assassino de Carolyn antes da eleição. Dá para acreditar nisso? E ele falou com a cara mais limpa do mundo, não pude nem me mandar. Está no maior alvoroço. – Raymond aponta. – Olhe só para ele. O principal pranteador. Raymond, como de hábito, não é capaz de se controlar quando fala de Bolcarro. Olho ao redor, torcendo para que ninguém nos tenha ouvido. Balanço a cabeça na direção do garoto sentado ao lado do prefeito. – Quem é o garoto? – pergunto. Acho que não entendi a resposta de Horgan e me inclino ainda mais. Raymond levanta a cabeça, quase encosta em meu ouvido. – O filho dela. Eu me enrijeço bruscamente. – Foi criado com o pai em Nova Jersey e depois veio para cá – explica Raymond. – Está na universidade. A surpresa parece me empurrar para trás. Murmuro alguma coisa para Raymond e continuo ao longo da fila, a caminho de meu lugar, na ponta, entre dois grandes arranjos florais, sobre pedestais. Por um instante, tenho certeza de que aquele momento vertiginoso de choque passou, mas, enquanto um tom inesperadamente forte sai do órgão logo atrás de mim e o reverendo pronuncia suas primeiras palavras, meu espanto se aprofunda, ondula, espalha-se, sobrepõe-se à dor contagiante do pesar genuíno.

Eu não sabia. Experimento uma espécie de incompreensão vaga. Não parece plausível que ela pudesse manter em segredo um fato assim. A existência do marido, eu presumira há muito, mas ela nunca mencionara um filho, muito menos morando próximo. Tenho de reprimir um instinto imediato de me retirar, de me afastar daquela semi-escuridão teatral para o efeito tranqüilizante da claridade intensa. Como uma questão de força de vontade, trato de exortar a mim, depois de alguns momentos, a acompanhar o que está acontecendo. Raymond subiu ao púlpito; não houve apresentação formal. Outros – o Reverendo Hiller, Rita Worth, da Associação das Mulheres Advogadas – falaram rapidamente, mas agora paira no ar uma súbita solenidade, uma iminência de algo fora do comum, uma corrente bastante forte para me arrancar da mortificação. As centenas de pessoas se tornam ainda mais quietas. Raymond Horgan tem suas deficiências como político, mas é um homem público consagrado, um grande orador, uma presença e tanto. Calvo, começando a ficar corpulento, parado ali, de terno azul, irradia angústia e poder, como o foco luminoso de um farol. Seus comentários são anedóticos. Recorda a contratação de Carolyn, apesar das objeções dos promotores mais obstinados e renitentes, que consideravam as agentes de condicional autênticas assistentes sociais. Exalta a determinação e o brilho de Carolyn. Lembra casos que ela ganhou, juízes que desafiou, regulamentos arcaicos que expressou prazer ao destruir. Partindo de Raymond, essas histórias possuem um espírito emocionante, um hino doce e melancólico a Carolyn e a toda sua coragem perdida. Ele não tem igual quando se apresenta assim, apenas falando às pessoas sobre o que pensa e sente. Para mim, no entanto, não há uma recuperação rápida do distúrbio que sofri momentos antes. Descubro tudo – a mágoa, o choque, a força penetrante das palavras de Raymond, meu pesar profundo e indescritível – aflorando, pressionando os limites da tolerância e de um controle que procuro desesperadamente manter. Argumento comigo mesmo. Não assistirei ao enterro. Há muito trabalho a fazer e o escritório estará representado. As secretárias e escriturárias, as mulheres mais velhas que sempre criticaram o jeito de Carolyn e agora se acham aqui, chorando nas primeiras filas, vão se comprimir em torno da sepultura, soluçando por mais uma das intermináveis desolações da vida. Deixarei que testemunhem o desaparecimento final de Carolyn. Raymond chega ao fim.

O impressivo registro de seu desempenho, testemunhado por tantos que o consideram pressionado, causa uma emoção palpável na audiência, enquanto ele retorna a seu lugar. O reverendo relata os detalhes do sepultamento, mas ignoro. Já resolvi: voltarei ao escritório. Como Raymond deseja, recomeçarei a busca pelo assassino de Carolyn. Ninguém se importará – muito menos, penso, a própria Carolyn. Já lhe prestei minhas homenagens. Até demais, ela poderia dizer. Ela sabe, eu sei, que já cumpri meu lamento por Carolyn Polhemus. 2 O escritório está com o ar bizarro de calamidade, de coisas totalmente fora do lugar. As salas se acham vazias, mas os telefones tocam numa sucessão aflitiva. Duas secretárias, as únicas que ficaram, correm de um lado para outro, pelos corredores, atendendo às ligações. Mesmo nas melhores ocasiões, o gabinete do promotor público do Condado de Kindle tem umaspecto melancólico. A maioria das assistentes trabalha em duplas na mesma sala, num espaço de horror dickensiano. O prédio do Condado de Kindle foi construído em 1897, no estilo institucional então emergente de fábricas e escolas secundárias. É um bloco sólido de tijolos vermelhos, comumas poucas colunas dóricas para avisar a todos que se trata de um lugar público. Lá dentro, há bandeiras por cima das portas e austeras janelas de batente. As paredes são daquele verde-musgo de hospital. O pior de tudo é a luz, uma espécie de amarelo fluido, como goma-laca antiga. E aqui estamos, duzentas pessoas atormentadas tentando lidar com todos os crimes cometidos numa cidade de um milhão de habitantes e no condado ao redor, onde residem mais dois milhões. No verão trabalhamos numa umidade digna de selva, com as janelas matraqueando por cima do clamor constante dos telefones. No inverno os radiadores tossem e sacodem estrepitosamente, enquanto a insinuação de trevas parece jamais deixar entrar a luz do dia. A justiça no Meio-Oeste. Lipranzer me espera na minha sala, como um bandido num western, sentado atrás da porta, escondido. – Todo mundo morto e enterrado? – ele indaga. Faço um comentário sobre seu sentimentalismo e jogo meu casaco numa cadeira.

– Onde você estava, por falar nisso? Todos os tiras com cinco anos de serviço apareceram. – Não sou de ir a funerais – responde Lipranzer, secamente. Reflito que há alguma coisa significativa na aversão de um detetive da seção de homicídios a funerais, mas não me ocorre uma ligação imediata e por isso deixo a idéia passar. A vida no lugar de trabalho: tantos indícios do mundo oculto dos significados me escapam num dia, solavancos na superfície, sombras, como criaturas passando a toda velocidade. Cuido dos fatos. Há dois itens na minha mesa: um memorando de MacDougall, a subchefe administrativa, e um envelope que Lipranzer pôs ali. O memorando de Mac diz apenas: “Onde está Tommy Molto?” Ocorre-me que, apesar de todas as suspeitas de intriga política, não devemos ignorar o óbvio: alguém deve verificar nos hospitais e no apartamento de Tommy. Já há uma promotora-assistente morta. E esse é o motivo do envelope de Lipranzer. Há uma etiqueta datilografada do laboratório da polícia afixada: CRIMINOSO: DESCONHECIDO. VÍTIMA: C. POLHEMUS. – Sabia que nossa morta deixou um herdeiro? – pergunto, enquanto procuro a espátula. – Não diga – diz Lip. – Um garoto. Parece ter uns 18 ou 20 anos. Estava no funeral. – Não diga – repete Lip, contemplando seu cigarro. – Uma coisa que se espera num funeral é que pelo menos não tenha surpresas. – Um de nós deve conversar com o garoto. Ele está na universidade. – Arrume um endereço e irei procurá-lo. “Qualquer coisa que o pessoal de Horgan quiser.” Morano me veio com essa hoje de manhã, mais uma vez. – Morano é o chefe de polícia, um aliado de Bolcarro.

– Está esperando para ver Raymond cair de quatro. – Ele e Nico. Encontrei Delay. – Relato o encontro a Lip. – Nico está mesmo convencido. Até me fez acreditar por um momento que era possível. – Ele vai se sair muito melhor do que estão pensando. E você vai começar a chutar o próprio rabo, achando que deveria ter concorrido. Faço uma careta: quem sabe? Não tenho mais de me preocupar com Lip. Para a décima quinta reunião da minha turma no colégio recebi um questionário com uma porção de perguntas pessoais, que tive a maior dificuldade para responder. Qual o americano contemporâneo que você mais admira? Qual é o seu bem material mais importante? Indique o seu melhor amigo e descreva-o. Neste ponto fiquei confuso por algum tempo, mas acabei escrevendo o nome de Lipranzer: “Meu melhor amigo é um policial. Tem 1,72 metro de altura, pesa 55 quilos depois de uma lauta refeição, usa um penteado parecido com rabo de pato e tem a aparência furtiva de um garoto que gosta de fazer pequenas maldades e passa o tempo todo numa esquina. Fuma dois maços de Camel por dia. Não sei o que temos em comum, mas eu o admiro. Ele é muito bom no que faz.” Cruzei com Lip pela primeira vez há sete ou oito anos, quando acabara de ser designado para a Seção de Violência e ele mal começava a trabalhar na Delegacia de Homicídios. Cuidamos juntos de uma dúzia de casos desde então, mas ainda há coisas em que o considero um mistério, até mesmo umperigo. O pai era comandante de ronda numa delegacia do West End; quando morreu, Lip deixou o colégio para assumir o lugar que lhe pertencia por uma espécie de direito de primogenitura departamental. Agora, ele está destacado para o gabinete do promotor, num suposto Comando Especial. No papel, sua função é atuar como elo com a polícia, coordenando as investigações de homicídios com um interesse especial para nós. Na prática, ele é tão solitário como uma estrela cadente. Reporta-se a um tal de Capitão Schmidt, que só está interessado em ter 16 condenados por homicídio para exibir ao fim de cada ano fiscal. Lip passa a maior parte do tempo sozinho, em bares nas docas, bebendo com qualquer um que tenha boas informações – vigaristas, repórteres, homossexuais, agentes federais, toda e qualquer pessoa que possa mantê-lo atualizado sobre o mundo dos criminosos mais graúdos. Lipranzer é um estudioso do mundo do crime.

E acabei chegando à conclusão de que é o peso fantástico dessas informações que explica de alguma forma sua aparência soturna, de olhos úmidos. Ainda estou com o envelope nas mãos. – O que temos aqui? – O relatório da patologia. Três páginas. Uma porção de fotografias de uma dona nua e morta. As três páginas são a cópia da promotoria dos relatórios dos guardas que primeiro chegaram lá… a terceira cópia está a carbono. Conversei com os guardas pessoalmente. Tem o relatório do patologista da polícia, Dr. Kumagai, um japonês pequeno e esquisito, que parece ter saído de alguma propaganda dos anos 1940. É conhecido como “Indolor”, um chato notório. Nenhum promotor o chama ao banco das testemunhas sem cruzar os dedos. – E qual é a grande descoberta? Fluidos masculinos em todos os buracos? – Apenas o trivial. A mulher morreu de fratura do crânio e subseqüente hemorragia. As fotos podem levar a pensar que foi estrangulada, mas Indolor diz que havia ar nos pulmões. Seja como for, o cara deve ter batido nela com alguma coisa. Indolor não tem idéia do quê. Pesada, ele garante. E muito dura. – Posso presumir que já procuramos a arma do crime no apartamento? – Reviramos o lugar pelo avesso. – Alguma coisa óbvia faltando? Castiçais? Suportes de livros? – Nada. Mandei três equipes diferentes fazerem a revista. – Ou seja, nosso homem já foi até lá pensando que poderia dar algumas porradas. – É possível. Ou, então, ele simplesmente levou o que usou. Não tenho certeza se o cara foi preparado.

Parece que ele batia para subjugá-la… e não percebeu que a estava apagando. Imagino… você pode observar isso quando der uma olhada nas fotos… pela maneira como as cordas estavampresas, que o cara se colocou entre as pernas dela e tentava deixar seu peso sufocá-la. Os nós são corrediços. Em outras palavras, ele estava mais ou menos tentando fodê-la até a morte. – Fascinante. – Tem toda razão, é fascinante. O cara é do tipo encantador. – Ficamos em silêncio por um momento e depois Lip continua: – Não há equimoses nos braços e nas mãos, nada parecido. – Isso significaria a ausência de luta antes de Carolyn ser amarrada. – Há uma contusão atrás, no lado direito. É possível que ele a tenha acertado por trás, amarrando-a depois. Só que parece estranho que ele a tenha deixado sem sentidos para começar. A maioria desses caras gosta que as mulheres saibam o que estão fazendo. Dou de ombros. Não tenho tanta certeza assim. As fotografias são a primeira coisa que tiro do envelope. São bem nítidas, coloridas. Carolyn vivia num lugar à beira d’água, um antigo armazém dividido em apartamentos. Ela separara o lugar com biombos chineses e grossas tapeçarias. Seu gosto era mais para o moderno, com toques elegantes do clássico e antigo. Foi assassinada no espaço ao lado da cozinha, que usava como sala de estar. Uma fotografia de toda essa área é a primeira da pilha. O grosso tampo de vidro verde da mesinha de centro foi arrancado de seus encaixes de metal; uma cadeira modulada está virada de cabeça para baixo. Mas, de um modo geral, concordo com Lip, há menos sinais de luta do que tenho observado em outras ocasiões, particularmente se se ignorar a mancha de sangue que se entranhou nas fibras do tapete flokati, parecendo uma nuvem. Levanto os olhos.

Ainda não me sinto preparado para estudar as fotografias do cadáver. – O que mais Indolor tem para contar? – O garoto estava disparando tiros de festim. – Como assim? – Vai gostar dessa. – Lipranzer se esforça para repetir a análise de Kumagai sobre o depósito de esperma encontrado. Pouco vazara para os lábios vaginais, o que significa que Carolyn não pode ter passado muito tempo de pé depois do contato sexual. É a outra maneira que nos permite saber que o estupro e a morte não podem ter sido contemporâneos. A 1º de abril ela deixou o escritório pouco depois das 7 horas. Kumagai calcula a hora da morte por volta de 9 horas. – O que representam 12 horas antes de o corpo ser encontrado – diz Lip. – Indolor garante que normalmente, dentro desse prazo, ainda encontraria as coisinhas do cara nadando rio acima, nas trompas e no útero, ao examinar no microscópio. Em vez disso, toda a porra do cara estava morta. Nada foi a parte alguma. Indolor calcula que o cara é estéril. E diz que se pode ficar assim por causa de caxumba. – Ou seja, estamos procurando por um estuprador que não tem filhos e já teve caxumba? Lipranzer dá de ombros. – Indolor diz que vai recolher a amostra do sêmen e mandar para o laboratório. Talvez possam lhe dar outra idéia do que contém. Não posso reprimir um resmungo à idéia de Indolor explorando os reinos da química superior. – Não podemos arrumar um patologista decente? – Vocês têm Indolor – responde Lip, com uma expressão inocente. Solto outro grunhido e folheio mais algumas páginas do relatório de Kumagai. – Temos um segregador? As pessoas são divididas não apenas pelo tipo de sangue, mas também se segregam agentes identificadores nos fluidos do corpo. Lip me toma o relatório. – Claro. – Tipo de sangue? – A. – É o meu.

– Pensei nisso. Mas você tem um filho. Faço outro comentário sobre o sentimentalismo de Lipranzer. Ele não se dá ao trabalho de responder. Em vez disso, acende outro cigarro e sacode a cabeça. – Ainda não estou pegando a coisa. Toda a história é muito esquisita. Estamos perdendo algum detalhe. E assim recomeçamos o jogo de salão predileto dos investigadores: quem e por quê. A suspeita número 1 de Lipranzer, desde o começo, é a de que Carolyn foi assassinada por alguém que condenara. É a pior fantasia de todo promotor, a vingança por muito acalentada de algum cara que se pôs em cana. Pouco depois de minha designação para a seção de julgamento por júri, um jovem, como os jornais disseram, chamado Pancho Mercado, desaprovara minhas alegações finais, em que questionara a masculinidade de qualquer um que ganhava a vida batendo com uma pistola em homens de 77 anos. Com mais de 1,90 metro de altura e passando muito dos 100 quilos, Pancho pulara a grade do recinto dos réus e me perseguira por quase todo o tribunal, antes de ser detido no refeitório da promotoria por MacDougall, com cadeira de rodas e tudo. O incidente acabara na terceira página do Tribune, com uma manchete grotesca: PROMOTOR EM PÂNICO SALVO POR PESSOA ALEIJADA . Ou algo parecido. Barbara, minha mulher, gosta de se referir à ocorrência como meu primeiro caso famoso. Carolyn trabalhava com tipos mais estranhos do que Pancho. Por vários anos chefiara o que é conhecido no escritório como Seção de Estupro. O nome dá uma boa idéia do que está envolvido, embora todas as formas de agressão sexual sejam encaminhadas para lá, inclusive os abusos contra crianças. Posso recordar um caso em que um ménage à trois todo masculino se tornara tumultuado, a principal testemunha do Estado terminando a noite com uma lâmpada enfiada no reto. É a hipótese de Lipranzer que houve desforra de um dos estupradores processados por Carolyn. Portanto, concordamos em levantar os registros judiciais de Carolyn, a fim de descobrir se ela julgou – ou investigou – um crime parecido com o que ocorreu há três noites. Prometo verificar os arquivos na sala de Carolyn. As agências estaduais de investigação mantêm um registro em computador de criminosos sexuais e Lip vai verificar se podemos encontrar ali o nome de Carolyn ou a proeza com as cordas. – Quais são as pistas que estamos investigando? Lipranzer começa a enumerar para mim.

Todos os vizinhos foram procurados no dia seguinte ao assassinato, mas as entrevistas provavelmente foram apressadas e Lip vai providenciar para que o pessoal da Homicídios fale outra vez com todo mundo no quarteirão. Dessa vez farão isso à noite, a fim de encontrar os vizinhos que estão em casa na hora em que ocorreu o homicídio. – Uma mulher diz que viu um cara de capa no corredor. – Lip consulta seu caderno de anotações. – Sra. Krapotnik. Diz que talvez ele parecesse familiar mas acha que não mora ali. – A turma dos Cabelos e Fibras já passou por lá, não é mesmo? Quando darão notícias? A esse pessoal cabe a função grotesca de vasculhar o cadáver, examinar o local do crime com pinças, a fim de efetuar exames microscópicos de qualquer material descoberto. Muitas vezes, podem determinar o tipo de cabelo, identificar as roupas de um criminoso. – Teremos de esperar uma semana, dez dias – diz Lip. – Tentarão encontrar alguma coisa. O único fato interessante que me contaram é que havia muitas felpas no chão. Descobriram alguns cabelos, mas não o que haveria se houvesse alguma luta. – Impressões digitais? – Espalharam pó pelo apartamento inteiro. – Inclusive nesta mesa de vidro? – Mostro a fotografia a Lip. – Claro. – Encontraram algumas latentes? – Encontraram. – Alguma conclusão? – Só preliminares. – Impressões de quem? – Carolyn Polhemus. – Isso é ótimo! – Não é tão ruim assim. – Lip pega a fotografia e aponta. – Este bar aqui. Está vendo o copo? – Um copo alto, ali no canto. – Três impressões latentes aí. Três dedos.

E não são da vítima. – Temos alguma idéia de quem elas são? – Não. A identificação pede três semanas. O serviço está totalmente obstruído. A divisão de identificação do Departamento de Polícia mantém um arquivo de cada pessoa que já tirou impressões digitais, classificadas pelos chamados pontos de comparação, as cristas e os vales nas extremidades do dedo, a que são atribuídos valores numéricos. Nos velhos tempos, não podiam identificar uma impressão desconhecida, a menos que a pessoa deixasse latentes de todos os dez dedos, o que permitia à divisão vasculhar todo o catálogo existente. Agora, na era do computador, a busca pode ser efetuada pela máquina. Um mecanismo a laser lê a impressão e a compara com cada uma que se encontra na memória. O processo leva apenas uns poucos minutos, mas o departamento, por conta de restrições orçamentárias, ainda não possui todo o equipamento necessário e tem de pedir emprestadas peças à polícia estadual, nos casos especiais. – Falei com eles para acelerarem o processo, mas me vieram com toda aquela merda sobre Zilogs e carga, não sei mais o quê. Um telefonema da polícia ajudaria. Diga a eles para compararemcom todas as impressões conhecidas no condado. De qualquer pessoa. Qualquer mão suja que já tenha sido fichada. Faço uma anotação. – Precisamos também de RLUs – acrescenta Lipranzer. Ele aponta para o bloco. Não é um fato conhecido, mas a companhia telefônica mantém registros computadorizados de todas as ligações locais, da maioria das centrais: os Registros de Ligações de Unidade (RLU). Começo a escrever a intimação duces tecum, uma solicitação de documentos. E Lip sugere mais: – Aproveite e peça também os RLUs de todas as pessoas para quem ela ligou nos últimos seis meses. – Eles vão chiar. Provavelmente, está falando de uns duzentos números. – Qualquer pessoa para quem ela ligou três vezes. Tornarei a procurá-los com uma lista. Mas peça agora, a fim de que eu não tenha de correr de um lado para outro à sua procura para me arrumar outra intimação.

Balanço a cabeça. Estou pensando. – Se vai voltar seis meses, provavelmente encontrará este número. Aponto o telefone sobre a mesa. Lipranzer me fita calmamente e responde: – Sei disso. Então ele sabe. Levo um minuto remoendo a idéia, tentando imaginar como. As pessoas adivinham, concluo. E conversam. Além do mais, Lip perceberia coisas de que os outros sequer tomariam conhecimento. Duvido que ele aprove. É solteiro, mas não vive pulando de galho em galho. Tem uma polonesa pelo menos uns dez anos mais velha, uma viúva com um filho crescido, que prepara uma refeição e vai para a cama com Lipranzer duas ou três vezes por semana. Pelo telefone, ele a chama de Mama. – Já que estamos falando nisso, quer saber de uma coisa? Carolyn sempre trancou portas e janelas – digo com uma calma admirável. – E, quando falo sempre, é sempre mesmo. Carolyn podia ser meio mole, mas tinha a cabeça no lugar. Sabia que vivia em uma cidade grande. O olhar de Lipranzer focaliza gradativamente, os olhos assumem um brilho metálico. Não perdeu o significado do que estou lhe dizendo ou, ao que parece, o fato de que atrasei a informação. – O que acha então que aconteceu? – ele finalmente pergunta. – Alguém circulou pelo apartamento abrindo todas as janelas? – É possível. – Para dar a impressão de que houve uma entrada forçada? Alguém que ela deixou entrar sem problemas? – Não acha que faz sentido? Foi você quem me disse que há um copo no bar. Ela estava recebendo alguém. Eu não apostaria na possibilidade de o bandido ser um cara pirado em liberdade condicional.

Lip olha para seu cigarro. Espio pela porta aberta e constato que Eugenia, minha secretária, já voltou. Há vozes agora pelos corredores, enquanto as pessoas retornam do enterro. Escuto risadas nervosas de alívio. – Não necessariamente – comenta Lip, depois da pausa prolongada. – Não com Carolyn Polhemus. Era uma mulher bem esquisita. – Ele torna a me fitar nos olhos. – Acha que ela abriria a porta para algum vagabundo que mandou para a cadeia? – No caso de Carolyn, acho que não há como ter certeza. Vamos supor que ela tenha esbarrado com um desses caras num bar. Ou que algum cara tenha telefonado e dito: Vamos nos encontrar. Não haveria a menor possibilidade de ela responder sim? Lembre-se de que estamos falando de Carolyn. Posso perceber aonde Lip está querendo chegar. A Dama da Justiça, Promotora dos Pervertidos, Fode com Réu e Vive Fantasia Proibida. Lip está mesmo por dentro. Carolyn Polhemus não se importaria absolutamente com a idéia de que algum cara teria pensado nela por anos. Mas, por algummotivo, com essa discussão começa a me invadir uma angústia que me deixa tonto. – Não gostava muito dela, não é mesmo, Lip? – Não muito. – Olhamos um para o outro. E depois Lipranzer se inclina e me aperta o joelho. – Pelo menos sabemos de uma coisa. Carolyn tinha um péssimo gosto em matéria de homens. É a sua frase de despedida. Ele guarda os Camels no blusão e se manda. Peço a Eugenia para fazer o favor de não deixar ninguém me interromper por um momento.

Com algum tempo de privacidade, estou pronto agora para examinar as fotografias. Por um minuto, depois que começo, a atenção se concentra principalmente em mim mesmo. Como conseguirei? Exorto-me a manter umcontrole profissional. Mas isso, é claro, começa a desmoronar. É como um rendilhado que às vezes se espalha pelo vidro na esteira de um impacto. Há algum excitamento a princípio, lento e relutante, porém mais do que apenas um pouco. Nas fotografias de cima o pesado vidro da mesa está virado, comprimindo o ombro de Carolyn, o que permite que quase se faça a comparação com um slide de laboratório. Mas logo o tampo de vidro é removido. E lá está o corpo espetacularmente gracioso de Carolyn, numa pose que, apesar de toda agonia que deve ter havido, parece a princípio flexível e elástica. As pernas são bem torneadas e atraentes, os seios, empinados e grandes. Mesmo na morte, ela conserva uma postura erótica. Mas, pouco a pouco, reconheço, outras experiências devem influenciar esta reação. Porque a cena real é horrível. Há equimoses no rosto e no pescoço, manchas de amora. Uma corda se estende dos tornozelos aos joelhos, cintura, pulsos; depois, envolve apertada o pescoço, onde é visível a borda da queimadura. Ela está puxada para trás, num arco horrendo e atormentado, o rosto é medonho; os olhos estão enormes e saltados da tentativa de estrangulamento, a boca se encontra paralisada num grito silencioso. Observo, estudo. Seu olhar contém o mesmo aspecto desvairado, incrédulo, desesperado que tanto me assusta quando encontro coragem para contemplar o olho preto arregalado de um peixe encalhado, morrendo num píer. Contemplo agora, da mesma forma reverente, horrorizada, incompreensiva. E, depois, o pior de tudo, quando toda a terra é raspada da arca do tesouro, surge lá do fundo, sem se deixar estorvar pela vergonha ou mesmo pelo medo, uma borbulha bastante clara para que eu possa acabar reconhecendo como satisfação; e não há sermão sobre a vileza de minha natureza que possa me desencorajar. Carolyn Polhemus, aquela torre de graça e fortaleza, encontra-se aqui, no meu campo de visão, com uma expressão que nunca teve em vida. Agora finalmente percebo. Ela quer minha compaixão. Precisa da minha ajuda. 3 Depois que tudo acabou, procurei um psiquiatra.

Seu nome era Robinson. – Eu diria que ela é a mulher mais excitante que já conheci – comentei. – Sensual? – ele perguntou, depois de um momento. – Isso mesmo, sensual. Muito sensual. Torrentes de cabelos louros e quase nenhum traseiro, mas os peitos cheios. E unhas vermelhas compridas, ainda por cima. Decididamente, deliberadamente, quase ironicamente sensual. Nota-se logo. Essa é a idéia com Carolyn. Você tem de notar. E eu notei. Ela trabalhou no escritório por anos. Foi agente de liberdade condicional antes de ingressar na faculdade de direito. No começo, ela foi apenas isso para mim. Sabe como é: uma loura atraente de peitos grandes. Cada tira que aparecia por lá revirava os olhos e parecia tocar uma punheta mental. Isso é tudo. “Com o tempo, as pessoas começaram a falar sobre ela. Mesmo quando ainda trabalhava nos tribunais distritais. Sabe como é: dinâmica, competente. Depois, por algum tempo, ela saiu com umjornalista do Canal 3. Chet-qualquer-coisa. E aparecia em uma porção de lugares. Muito ativa nas organizações profissionais.

Diretora por algum tempo da seção local da National Organization for Woman (NOW), uma associação de mulheres. E esperta. Pediu para ser designada para a Seção de Estupro quando todos achavam que era o pior lugar para se trabalhar. Todos aqueles casos insuportáveis de um contra um, em que nunca se podia ter certeza se era a vítima ou o réu quemestava mais próximo da verdade. Casos difíceis. Só para descobrir os que mereciam ser levados a julgamento, para não falar em vencê-los. E ela se saiu muito bem. Raymond colocou-a no comando de todos aqueles julgamentos. Gostava de mandá-la para esses programas de televisão de entrevistas de serviço público, nas manhãs de domingo. Para mostrar sua preocupação com as questões femininas. E Carolyn gostava de empunhar essa bandeira. Adorava a luz dos refletores. Mas era uma boa promotora. E bem dura. Os advogados de defesa costumavam se queixar de que tinha umcomplexo, que tentava provar que possuía colhões. Mas os caras da polícia a adoravam. “Não sei direito o que eu pensava a seu respeito na ocasião. Acho que pensava que ela era um pouco demais.” Robinson olhou para mim. – Demais em tudo – expliquei. – Sabe como é. Ousada demais. Confiante demais. Sempre correndo em marcha muito alta. Não tinha um senso justo de proporções.

– E você se apaixonou por ela – disse Robinson, acrescentando o óbvio. Fiquei em silêncio, imóvel. Quando as palavras são suficientes? – Eu me apaixonei por ela – acabei murmurando. RAYMOND ACHAVA que ela precisava de um parceiro e Carolyn me escolheu. Foi em setembro do ano passado. – Você não poderia dizer não? – indagou Robinson. – Acho que sim. Não se espera que o segundo homem da promotoria atue pessoalmente em muitos casos. Eu bem que poderia dizer não. – Mas… Mas eu disse sim. Porque, aleguei para mim mesmo, o caso era interessante. Era estranho. Darryl McGaffen tinha um emprego num banco. Trabalhava para o irmão, Joey, que era um gangster, personalidade exuberante, um tipo agressivo que gostava de ser o alvo de todas as agências policiais e judiciárias da cidade. Joey usava o banco, lá em McCrary, para lavar um rio de dinheiro sujo, a maior parte da grana da Máfia. Mas essa era uma ação de Joey. Darryl mantinha a cabeça baixa e as contas em ordem. Era manso e discreto, enquanto Joey era ostensivo. Um cara comum. Vivia na região oeste, perto de McCrary. Tinha uma esposa. E uma vida um tanto trágica. A filha mais velha morrera aos três anos de idade. Eu sabia de tudo a respeito porque Joey testemunhara no grande júri sobre a queda da sobrinha de uma varanda, no segundo andar da casa do irmão. Joey explicara, de maneira quase convincente, que a fratura de crânio e a morte imediata da garota povoavam de tal forma seus pensamentos e obstruíam o julgamento que não dera muita importância quando quatro caras misteriosos entregaram em seu banco alguns títulos que, para sua consternação, eram roubados.

Joey retorcia as mãos ao falar sobre a menina. E levava aos olhos um lenço de seda que trazia no bolsinho do paletó. Darryl e a mulher tiveram outro filho, um menino chamado Wendell. Quando Wendell tinha 5 anos, a mãe o levou ao pronto-socorro do West End Pavillion Hospital. O garoto estava inconsciente e a mãe, histérica, pois o filho sofrera uma queda horrível, causando graves ferimentos na cabeça. A mãe alegou que ele nunca estivera no hospital antes, mas a médica do pronto-socorro – uma indiana, Dra. Narajee – lembrou-se de ter tratado de Wendell um ano antes. Pediu sua ficha médica e descobriu que ela já estivera no hospital duas vezes, uma com a clavícula fraturada, outra com o braço quebrado, resultado de quedas, segundo a mãe. O menino se encontrava inconsciente agora e, de qualquer forma, não era provável que falasse. A Dra. Narajee estudou as lesões. Ao testemunhar, mais tarde, disse que percebeu logo que os ferimentos eram muito simétricos e com umposicionamento lateral igual para resultarem de uma queda. Examinou várias vezes os talhos, 5 por 2 centímetros, nos lados da cabeça, por mais um dia, antes de chegar a uma conclusão. Ligou então para Carolyn Polhemus, no gabinete da promotoria, a fim de comunicar que estava tratando de uma criança cujo crânio parecia ter sido fraturado quando a mãe pusera sua cabeça num torno. Carolyn obteve no mesmo instante um mandado de busca. Encontraram o torno ainda comfragmentos de pele no porão da casa dos McGaffen. Examinaram o menino inconsciente e descobriram ferimentos curados, que pareciam ter sido queimaduras de cigarro no ânus. E esperavam para ver o que aconteceria com o menino. Ele sobreviveu. A essa altura, já se encontrava sob custódia do tribunal. E o gabinete do promotor se descobriu assediado. Darryl McGaffen partiu em defesa da esposa. Ela era uma mãe amorosa e devotada. Era insanidade, ele proclamou, alegar que ela poderia fazer algum mal ao filho. Ele vira o menino cair, assegurou McGaffen, um acidente terrível, uma tragédia, agravada por aquela experiência de pesadelo, em que médicos e advogados conspiravam loucamente para lhes arrebatar o filho doente.

Emocionante. E muito bem encenado. Joey providenciou para que as câmeras estivessem presentes quando o irmão comparecia ao tribunal e Darryl declarou que era uma vendeta de Raymond Horgan contra sua família. A fim de demonstrar sua integridade, Raymond decidiu a princípio atuar pessoalmente no julgamento. Mas a campanha começou a esquentar. Raymond devolveu o caso a Carolyn e recomendou, tendo em vista a atenção da imprensa, que ela trabalhasse com um veterano, alguém como eu, cuja presença indicaria todo o empenho da promotoria. E, assim, ela me pediu. E concordei. Disse a mim mesmo que estava fazendo aquilo por Raymond. OS FÍSICOS CHAMAM de movimento browniano a ação de moléculas colidindo no ar. Essa atividade produz uma espécie de zumbido, um som agudo, quase estridente, num nível de freqüência nas margens da audição humana. Quando criança, eu podia ouvir esse tom, se assim decidisse, praticamente a qualquer momento. Quase sempre o ignorava, mas, de vez em quando, a vontade se erodia e deixava que o som aumentasse nos ouvidos, a um ponto que era quase um clangor. Aparentemente, na puberdade, os ossos do ouvido interior endurecem e não se pode mais escutar o zumbido browniano. Ainda bem que isso acontece. Porque a essa altura existem outras distrações. Para mim, durante a maior parte da vida conjugal, a atração de outras mulheres foi como aquele zumbido diário, que eu deliberadamente ignorava; mas, quando comecei a trabalhar comCarolyn, essa determinação enfraqueceu, o som aumentou, vibrou, cantou. – E não posso realmente explicar o motivo – declarei a Robinson. Considero-me uma pessoa de valores. Sempre desprezei meu pai por suas aventuras extraconjugais. Nas noites de sexta-feira ele saía de casa como um gato ansioso, seguia para uma taverna e, depois, para o Hotel Delaney, na Western Avenue, apenas um pouco melhor que um albergue noturno, com os velhos carpetes puídos na escada e o cheiro de naftalina de algum agente químico usado para controlar a infestação de insetos. E ali se entregava à sua paixão com várias mulheres conspurcadas – prostitutas de bar, divorciadas cheias de tesão, esposas dissimuladas. Antes de partir nessas excursões, ele jantava com minha mãe e comigo. Ambos sabíamos para onde ele ia. O velho cantarolava, o único som próximo de música que emitia durante toda a semana.

Mas, de alguma forma, enquanto trabalhava com Carolyn, com suas jóias ostentosas e perfume inebriante, blusas de seda, batom vermelho e unhas pintadas, aqueles peitos grandes e pernas compridas, a cascata de cabelos brilhantes, acabei me deixando envolver por completo – e exatamente assim, detalhe por detalhe, de tal forma que me sentia excitado quando farejava seu perfume em outra mulher que passava por mim no corredor. – E não posso realmente explicar a razão – disse a Robinson. – Talvez seja por isso que estou aqui. Ouve-se alguma freqüência e tudo começa a desmoronar. Uma vibração se impõe, um tom fundamental, todo o interior treme. Conversávamos sobre o julgamento, nossas vidas, qualquer coisa, ela parecia uma mistura extraordinária de fatores. Sinfônica. Uma personalidade sinfônica. Disciplinada e encantadora. Uma risada musical. E um sorriso que era uma maravilha da ortodontia. Era muito mais espirituosa do que eu imaginara; dura, como todos diziam, mas nem tanto assim. Fiquei particularmente afetado por seus comentários casuais, a maneira como os olhos, escurecidos pela maquilagem, assumiam um ar de avaliação objetiva. Analisando política, testemunhas ou policiais, ela demonstrava como tinha uma visão firme de tudo o que estava acontecendo. E isso era muito excitante para mim, conhecer uma mulher que parecia estar de fato por dentro das coisas, que avançava pelo mundo com a velocidade de Carolyn e que era tantas coisas diferentes para pessoas diferentes. Talvez tenha sido o contraste com Barbara, que deliberadamente não é nada disso.

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