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Acima de Suspeita – Helen MacInnes

AQUELE DIA DE JUNHO parecia igual a qualquer outro dia de verão em Oxford. Caminhava vagarosamente pela Jowett Walk, observando os tons brônzeos que o sol suave das cinco horas fazia irradiar das folhagens. Era a sua parte preferida do caminho que conduzia à Faculdade onde o marido leccionava. À sua esquerda, muros cinzentos coroados de rosas trepadeiras; à sua direita, extensões de campos de jogos com as suas áreas de relva verde e macia, onde apenas alguns homens praticavam desporto. Na sua maioria, arrumavam as malas ou preparavam-se para as festas de fim de período. Tal como ela, lembrou-se, e apressou o passo. Estava mais uma vez atrasada, com certeza. Richard esperava-a na Faculdade; mas era difícil apressar-se num dia de Verão como aquele. Havia tantas pequenas coisas para apreciar — aquelas vinte sombras verdes à sua volta, por exemplo, ou a maneira como aquele jovem apanhava a bola de críquete! Coisas pequenas, sim, mas os últimos meses tinham transformado as coisas pequenas emimportantes. Ao chegar ao Broad, deteve-se na vitrine de uma livraria. O último livro de Richard sobre poesia lírica inglesa encontrava-se bem em evidência; e até estava a ter saída, o que fora uma agradável surpresa. O vendedor explicara o fato um tanto secamente: as pessoas agora compravam livros estranhos, parecia que apaziguava o espírito. Seria uma ajuda para mais um Verão nas montanhas. Mais um Verão, ou talvez este Verão de 1939 fosse o último, pensou ela, e continuou o seu caminho. Há um ano, bastava escolher a montanha a que se gostaria de subir e passar depois todo o Inverno a escrever ensaios e artigos para cobrir as despesas dos trens. Mas de ano para ano as coisas estavam a tornar-se mais difíceis. Lembrou-se dos últimos Verões que passara no Tirol, nos Dolomitas. Bons tempos aqueles em que se podia percorrer à vontade os caminhos da montanha e passar as noites à volta de uma mesa da estalagem da aldeia. Cantava-se, dançava-se, e as conversas eram divertidas, as gargalhadas francas.Agora, porém, havia uniformes e regulamentos. Agora só se podia rir em determinadas alturas. Agora as conversas com estrangeiros acabavam normalmente em discussão. Richard analisara tudo isto com ela, e decidira-se por um último adeus à Europa em tempo de paz. Mas Frances sentia-se inquieta: tinha o pressentimento de que aquele dia seria muito diferente de qualquer outro dia de Verão.


E o certo é que o seu passo perdera toda a ligeireza. Atravessou o pátio a correr, e subiu rapidamente as escadas até o apartamento de Richard. A porta exterior estava fechada. Bateu repetidas vezes, e ouviu Richard abrir a porta da sala, antes de franquear a pesada porta de carvalho. Sorria, e tinha o ar de quem escondia uma surpresa. — Mas porque são estes cuidados todos, querido? — perguntou, enquanto ele limpava a face das marcas do seu batom e trancava atrás de si as duas portas. — Temos uma visita, Fran. Peter Galt sorriu e estendeu-lhe as mãos: — Viva, Frances! Pareces um pouco admirada… — Peter! Mas estavas em Bucareste! Quando voltaste? — Há duas ou três semanas. Não escrevi, de propósito; aliás, não vou ficar cá. Estava a explicar ao Richard. Richard passou-lhe um cálice de sherry. — O Peter está metido numa embrulhada. — Numa embrulhada? O Peter? — Frances sentou-se na cadeira mais próxima. — Foi por isso que me mandaram voltar à base. — E acrescentou, esboçando um sorriso: —Razões de saúde, claro. — Claro… — Frances estava já menos alarmada, mas continuava intrigada. Aguardava uma explicação. Foi Richard, com o seu ar mais despreocupado, que disse: — Arranjou um problema de espionagem. — Bem, espero que ela ao menos fosse bonita… — observou Frances, olhando divertida para o jovem, impecavelmente vestido e com uma expressão dura. Para um estranho, passaria por ser mais um janota da nova geração de secretários de uma embaixada britânica. — Infelizmente não era “ela”— disse Peter —, e meteu-nos em apuros. — Por isso tiveste de voltar para Inglaterra. — Frances ainda não estava levando Peter muito a sério. — Não me digas que ele quer dar cabo de ti… — Não, Bucareste encarregou-se dele. Mas os seus amigos podiam pensar que eu já sabia demais antes de isso acontecer. Agora estou a deixar que as coisas acalmem.

Peter reproduziu na perfeição o seu antigo sorriso. Mas Frances, observando os seus olhos, estava já a rever a sua opinião acerca desta visita: havia qualquer coisa de grave por detrás de tudo aquilo. Quando falou, a sua voz perdera toda a entoação irônica. — É só isso? — Desembucha, Peter — pediu Richard —, não vale a pena estares com esses rodeios todos por causa de Frances. Peter acabou de beber o seu sherry. E, passeando o olhar de Frances para Richard, parecia estar à procura da melhor forma de entrar no assunto. Naquele instante ambos se deram conta de estar perante um Peter mais velho, mais calculista… Além disso, estava preocupado. Escolhia cuidadosamente as suas palavras. — Já não estou no Foreign Office. Fui transferido para outro serviço. É por isso que aqui estou. — Deu uma rápida olhadela ao relógio, e observou: — Lamento muito, mas tenho de juntar o útil ao agradável, e não dispomos de muito tempo para contar tudo o que preciso dizer. — Antes de mais nada — esclareceu —, não queria que ninguém suspeitasse de que eu tinha me comunicado com vocês; por isso não avisei de que vinha a Oxford. A verdade é que tenho uma missão para vocês, e espero que aceitem desempenhá-la. Não há qualquer perigo, desde que sigam à risca as instruções. — E acrescentou com ênfase: — Vocês são exatamente as pessoas de que precisávamos! Estão ambos acima de qualquer suspeita e têm todas as probabilidades de levar a missão a bom termo. Richard voltou-se para Peter e perguntou com ar pensativo: — Mas que diabo de mistério é esse? — O melhor é falar primeiro do seu trabalho — respondeu Peter. — Prestem a máxima atenção aos pormenores. Os “porquês”e os “para quês”ficam para depois. Lembrei-me de ti, Richard, por causa da tua memória; se fosses tomando nota na tua cabeça à medida que eu for explicando, isso pouparia muito tempo. Richard inclinou a cabeça em sinal afirmativo. — Trata-se simplesmente do seguinte: vocês partem em viagem de férias, como de costume, e passam em Paris, onde se encontram com determinada pessoa; depois prosseguem a viagem conforme as suas indicações. Na volta nos darão algumas informações de que temos imperiosa necessidade. Estas são as linhas gerais. Agora vamos aos pormenores.

— Quando chegarem a Paris, vão para o hotel onde costumam ficar, frequentem seus restaurantes preferidos, façam a habitual ronda dos museus e dos cabarés. Mantenham-se assimdurante uns dias— até consolidarem bem a sua imagem de turistas inocentes. Então, no sábado à noite, vão ao Café de la Paix. Sentem-se numa das mesas ao ar livre, do lado esquerdo, e peçam café e cointreau. A Frances terá de levar uma rosa vermelha. Por volta das onze horas Richard entornará o cointreau, e o criado virá com um pano para limpar a mesa. Isso e a rosa vermelha são o sinal: nessa altura vai se aproximar um homem da sua mesa, e nesse momento um de vocês terá de dizer: “Mrs. Rose disse-me que devemos visitar…”, e acrescentam o nome de qualquer sítio, à sua escolha. Falem, portem-se sempre com a maior naturalidade possível, mas prestem atenção ao número que esse homem vai dar, de alguma maneira, ainda não sei como. No dia seguinte, dirijam-se ao sítio que tiverem mencionado, exatamente uma hora depois da hora que o número indicar, e esse homem entrará diretamente em contato com vocês. Ele tem uma mensagem para dar. — É tudo muito mais fácil do que parece. Ele os identifica pela posição da mesa, pela rosa vermelha e pelo cálice de cointreau entornado, aproxima-se da sua mesa no exato momento em que vocês o esperam, ouve o nome do lugar que vocês escolherem, juntamente com a frase prevista, e arranja maneira de lhes indicar a hora do encontro no dia seguinte. — Alguma dúvida, Richard? — Nenhuma. Mas porque nos escolheram? Palpita-me que vai haver muita complicação, e somos capazes de baralhar tudo. Sou um autêntico amador no assunto! E quanto à Fran… Frances, que parecia muito divertida, exclamou: — Eu te amo, querido. Continua, Peter. Peter seguiu o conselho. — A mensagem que lhes chegará às mãos deve estar escrita em código. Mas sei que Richard conseguirá captar o sentido; o seu cérebro tem tido o treino e a disciplina adequados. A mensagem os conduzirá a outro agente, que por sua vez os levará ainda mais longe. Vocês serão assim passados de agente a agente, até chegarem ao próprio chefe. É por causa do chefe que estamos preocupados. E essa a informação que desejamos. Peter fez uma pausa, e Frances voltou a ter a sensação de que ele pesava todas as palavras.

— Estamos agora chegando aos “porquês”?, e aos “para quês” — retomou Peter. — Já ouviram falar do chamado caminho de ferro subterrâneo, na Alemanha, não ouviram? Ajuda os antinazistas a fugir e cobre-lhes as pistas. Um dos cérebros que está por detrás disto é o chefe deste grupo de agentes. Além disso recolhe informações que nos têm sido muito úteis. Até há cinco semanas recebíamos dele, com toda a regularidade, relatórios muito precisos. Mas de então para cá não recebemos qualquer mensagem verdadeiramente informativa, e duas delas eram até perigosas, porque induziam em erro. Felizmente fomos alertados por outras fontes de informação, e não seguimos as indicações que ele nos dava. As nossas suspeitas aumentaram quando dois homens que tentavam evadir-se da Alemanha, seguindo esse caminho, pura e simplesmente desapareceram. Frances pousou o seu cálice e inclinou-se para diante na cadeira. Richard segurava na mão um cigarro por acender. E os olhos de ambos estavam fixos em Peter. — O que nós queremos saber, antes que seja tarde demais, é o seguinte: o homem estará a mandar-nos mensagens falsas para nos avisar de que se passa alguma coisa, ou o liquidaram? A sua missão é seguir o percurso que esses vários agentes forem indicando até o encontrarem. Não posso fornecer o nome nem o aspeto dele, porque utiliza vários, consoante as ocasiões. Aliás, quanto menos souberem mais facilmente poderão desempenhar o seu papel de turistas inofensivos. A única referência é o fato de ele ser inglês, o único inglês desta cadeia de agentes. Pode não parecer inglês à primeira vista, mas, se lhe transmitirem os sinais que o agente anterior tiver fornecido, verificarão que é. — Mas qual é a ideia de andar a saltitar de agente para agente? — perguntou Richard. —Porque é que o homem de Paris não nos manda diretamente para ele? — Ele. arranjou o sistema que mais lhe convinha para o seu gênero de trabalho. E tem funcionado sempre perfeitamente, até a data. O agente de Paris é o único fixo, por isso tem de tomar tantas precauções. Os outros deslocam-se conforme as ordens do chefe, muitas vezes em território ocupado pelos nazistas. Cada um dos agentes só sabe o nome e o endereço do homem que se lhe segue, e as informações são transmitidas através de toda a cadeia de agentes, até chegarem ao chefe. Quando alguém quer comunicar com ele tem de começar pelo agente de Paris. Só há dois pontos de partida para chegar a este contato: o nosso ?grupo, e um outro que é tão cauteloso como nós.

Como veem, isto pode parecer uma loucura dele, mas tem a sua lógica… — E ele também manda informações por outra via? — Sim, por um processo muito mais direto. Mais alguma pergunta, Richard? Richard hesitou: — O sistema parece ser bem seguro, mas tem um inconveniente: se o próprio chefe for apanhado, extraviam-se todas as informações que lhe deviam chegar às mãos, e os agentes podem muito bem ser eliminados, um por um, se o… persuadirem a falar. Já para não referir a sorte daqueles pobres diabos convencidos de que estariam a fugir da Alemanha… — Precisamente — exclamou Peter. — Por aqui já veem como é indispensável sabermos, antes que o vulcão entre em erupção por essa Europa fora, se ele ainda continua no seu posto. De qualquer forma, podem estar certos de uma coisa: ele nunca falará. — Mesmo assim, acho que para este gênero de trabalho tu precisavas de um profissional —insistiu Richard, com voz sombria. — Já experimentamos um — cortou Peter, num tom breve. — Como nunca mais soubemos nada dele sugeri ao meu chefe que tentássemos amadores. Umcasal de pessoas inofensivas talvez consiga levar o trabalho até o fim. O que vocês devem ter bempresente é que não são agentes. Se virem que as coisas estão a tornar-se demasiado complicadas não hesitem em afastar-se, usando todo o seu bom senso. Se fizerem perguntas, não são mais que um casal em férias na sua viagem anual ao estrangeiro. O seu trabalho estará terminado logo que encontraremo inglês ou, então, no caso de terem contatado o sexto agente sem o terem localizado: ele nunca trabalhou com mais de seis agentes numa rede. — Quando tiverem terminado mandem um telegrama para este endereço em Genève. — Peter escreveu algumas palavras num pedaço de papel e passou-o a Richard. — Decora o endereço e depois faz desaparecer o papel, aconselhou. — Se encontrarem o seu homem, mandem um telegrama a dizer chegamos Segunda, ou Terça, ou seja qual for o dia em que tenham realmente estado com ele. Se não o encontrarem, escrevam CANCELAR RESERVAS. — Suspirou profundamente, e concluiu: — Está tudo bem percebido, Richard? — Já tenho tudo na cabeça, se é isso que queres dizer. Mas, Peter, não te parece que é melhor eu ir sozinho? Não quero que a Frances corra qualquer perigo! — continuou, num tom sombrio. Frances voltou-se subitamente para ele: era então isso que o tinha feito hesitar… Numa voz suave, mas nem por isso menos firme, declarou: — Richard, nem penses que vou deixar-te ir sozinho! — Desculpa, mas concordo com a Frances — disse Peter. — Durante estes quatro anos do seu casamento vocês nunca se separaram nas férias. Será melhor procederem como habitualmente. Além disso, estarás mais seguro, porque se levares a Frances evitarás correr riscos. Peter pegou nas luvas, no guarda-chuva e no chapéu preto, e prosseguiu: — Nunca te pediria isto, Richard, se não tivesse a certeza de que podias sair-te bem.

E também se o caso não fosse tão urgente. A verdade é que não foi agradável para mim estar aqui a pedir-te… Mas tenho de ir embora. Vejo que estou atrasando vocês para a festa do Frame. — Agitou o chapéu na direção do convite que estava em cima da prateleira do fogão, e disse: — Encontrei-o, hoje, de manhã, e convidou-me para eu também lá aparecer. — Quanto tempo irá durar este trabalho? — perguntou Richard. — É melhor contarmos com cerca de um mês. Será mais prudente não precipitar as coisas. Demorem-se alguns dias em cada sítio, para dar uma ideia mais convincente. E, por amor de Deus, tomem cuidado com vocês! Ao chegar à porta, a sua voz retomara já toda a naturalidade. — Adeus, Frances! Adeus, Richard! Cá nos encontraremos quando voltarem! A porta fechouse sem ruído, e durante uns momentos reinou o silêncio. Frances foi a primeira a reagir: — Vamos, querido, já estamos três quartos de hora mais atrasados do que eu queria… Fixaste tudo? Richard acenou afirmativamente. — Tens de decidir se vens ou não, Frances. Agora. Frances ergueu-se e olhou para a costura das suas meias. — Quando começamos? — perguntou. Richard apreciou as bonitas pernas da mulher. — Diabos levem o Peter! — exclamou, então, e deu-lhe o braço, conduzindo-a para a porta. 2 A FESTA NO APARTAMENTO DE FRAME estava no auge quando Frances e Richard chegaram. O dono da casa, carregado de garrafas de sherry, abriu caminho por entre os convidados para lhe s ir falar. — Ainda bem que vieram — murmurou. — Desculpem esta gente toda… — E voltou-se para receber mais umas pessoas que estavam a chegar. Richard já tinha visto dois homens com quem queria falar, e olhava à volta com aquele ar particularmente ingênuo que assumia quando precisava de estar em guarda… Peter Galt ainda não aparecera. Entretanto, três jovens tinham-se já acercado de Frances e encetavam a habitual conversa “mole,? dos sherry-party. Todos evitavam falar de política. Discutiam a exposição de Picasso em Londres, ou então Gaudí e as suas fantasias de arquiteto.

— Eterna Oxford! É maravilhoso voltar, e estar tão longe dos problemas da vida! — Quem assim falava tinha um sotaque de Oxford bem pronunciado, quase excessivamente afetado. Era umhomem alto, extraordinariamente bem parecido. Algumas cicatrizes de antigos duelos marcavam-lhe o queixo e a face, as quais, juntamente com o seu cabelo louro, lhe conferiam um aspeto muito fora do vulgar. Inclinou-se profundamente para beijar a mão a Frances, e disse: — Mrs. Myles, encantadora como sempre! Frances dominou-se. — Olá, viva, como está? — E fez as apresentações, um tanto precipitadamente: Freiherr Sigurd von Aschenhausen, John Clark, Sir Michael Hampton, George Sanderson. Herr von Aschenhausen, como sabem, foi aluno do Richard na Universidade. Fez-se um silêncio. Os três estudantes mantinham um sorriso forçado. George fez uma observação qualquer para aliviar o ambiente. Frances recordou-se de que John era alérgico à Alemanha desde que, há uns quatro anos atrás, sofrera alguns dissabores por não ter saudado umdesfile em Leipzig, e que Michael pertencera à Brigada Internacional, em Espanha. A conversa arrastava-se. Frances falou nas férias de Verão. Os universitários iam para França. Von Aschenhausen voltava para Berlim. Ela e Richard gostariam de passar as suas habituais férias na montanha. — E para onde pensam ir? — perguntou Von Aschenhausen. — No ano passado estivemos no sul do Tirol. Gostaria de lá voltar pelo menos mais uma vez… — e a voz de Frances era doce como mel — antes que rebente o vulcão. — Os ingleses sorriram, sarcásticos. O alemão protestou delicadamente: — O quê!? Com uma Inglaterra assim tão pacata? Não vai haver guerra! — Há limites para tudo, sabe? — observou Michael. — Adeus, Frances, tenho de ir embora. Espero que passes um Verão muito agradável. Segundo parecia, os outros também tinham de partir. Von Aschenhausen deixou-se ficar.

Frances respirou aliviada. Von Aschenhausen costumava ser alegre e divertido. E ela interrogava-se como estaria ele a dar-se com a nova Alemanha. Afirmava sempre que não tinha qualquer interesse pela política. Mas havia tantas ideias de nacionalismo naquele Verão de 1939! — Parece-me que este rapaz não gostou muito de mim. — disse ele. — Será por eu ser alemão? E realmente muito triste verificar como é mal interpretado e insultado o nosso país… — É estranho que as críticas à Alemanha tenham vindo a aumentar! — disse Frances, olhando-o fixamente. — Sabe, até a senhora já não é a mesma — observou ele, num sorriso triste. — É deprimente voltar a Oxford, de que eu tanto gostava, onde há seis anos eu tinha tantos amigos, e ver-me rodeado de blocos de gelo… — Talvez a nossa modificação tenha sido provocada pela sua… Parecia surpreso. E protestou: — Não diga isso, Mrs. Myles! Não mudei assim tanto! Continuo a interessar-me por literatura e por música. Do ponto de vista político… bem, tenho visto praticar muito disparate em nome do idealismo. — E, com crescente entusiasmo: — Os povos precisam de chefes. Sob um comando forte qualquer povo pode conseguir seja o que for. — Você pensa que não mudou! Mas num governo desses você só pode ler determinados livros, ouvir determinada música, conviver com determinadas pessoas! — E porque não havemos de nos limitar ao que é bom? Elimine-se o que é mau! Já é tempo de vocês, Ingleses, se convencerem de que a Europa dos nossos dias precisa de disciplina e de medidas severas. A Europa hoje está muito mais perigosa e desagradável do que há uns seis ou sete anos atrás. — Aí é que está o problema — interveio Frances. — Que foi que tornou a Europa mais perigosa e desagradável? Von Aschenhausen riu, mas estava seriamente irritado. — Estou a ver que a senhora é uma pessoa cheia de preconceitos… Entretanto Richard tinha-se aproximado: — Viva! Que conversas tão profundas por estes lados! — Tenho estado a receber uma lição de arte de bem governar… — disse Frances. Von Aschenhausen retomara já o seu sorriso e as maneiras delicadas quando se despediram. Frances teve a sensação de que ele estava aborrecido pela má impressão que tinha provocado nela. Richard foi conduzindo a mulher para a saída. — Magnífica festa — exclamou Frances, de modo a fazer-se ouvir por Frame, no outro lado da sala. Mas o ruído das vozes abafou as suas palavras. Trocaram sorrisos e acenaram.

Saíram então ambos ao encontro do sossego e do ar puro da noite. — Fui para junto de ti o mais depressa possível, logo que reparei que havia discussão —disse Richard. — Sempre pensei que fosses suficientemente sensata para não perderes tempo a discutir com um nazi. Ele é mesmo nazi, não é? — É. Parece-me que ele não queria mostrar que era, mas eu irritei-o. — Espero que não tenhas ido longe demais. O Peter quer que sejamos simplesmente o professor de Oxford, metido consigo e com os seus livros, e a sua apagada esposa. — Mas escusamos de estar com essas coisas até chegarmos ao trem! — Também me parece que não é preciso, mas o Peter quis jogar pelo seguro. A propósito, ele não apareceu na festa! — Talvez mudasse de ideia — respondeu Frances. — Talvez. Ou talvez ele já soubesse que não voltaria a encontrar-nos. 3 O RESTO DA SEMANA passou depressa. Frances estava atarefada a fechar a casa. Richard concluía os últimos trabalhos que aparecem a qualquer professor no fim de um período. Comprou as passagens para Paris e foi ao banco tratar dos cheques de viagem. Aquelas despesas imprevistas tinham-lhe dado que pensar; mas o gerente do banco fora autorizado a conceder a Mr. Myles uma carta de crédito. Richard não perguntou quem concedera a autorização. Uma noite, Richard rebuscava todas as prateleiras à procura dos Baedekers e dos mapas que queria levar, enquanto Frances riscava na agenda todas as coisas que já fizera. — E pronto — disse ela. — Agora só falta arrumar as minhas malas, amanhã, depois de Anni ir embora. Vou sentir muito, Richard… Afeiçoei-me à Anni, tanto como ela a nós, e ela parece ter o pressentimento de que nunca mais voltará. Fui encontrá-la há pouco num vale de lágrimas, fazendo as malas! Agora deixei-a sair para ir despedir-se dos amigos. E lá se vai uma cozinheira como nunca havemos de ter outra… Ela quer que a gnädige Frau e o Herr Professor deem a honra de uma visita à quinta do pai, no caso de passarmos por Innsbruck este Verão. Mas tenho a impressão de que a família dela está diferente.

?Anni não tem falado neles desde que voltou de lá o ano passado. Quer dizer, contou-me apenas que a irmã lhe dissera que se estivesse em Inglaterra e rebentasse a guerra, seria morta à pedrada. É o que eles dizem que nós fizemos em 1914. Não achas horrível? — Bem, uma nação que admite campos de concentração deve ter dificuldade em acreditar que os outros países não usem os mesmos métodos… Frances chegou-se à janela, aberta de par em par, e inclinou-se para aspirar a fragrância dos lilases. Richard veio para junto dela e passou-lhe o braço pela cintura, lendo-lhe os pensamentos daquela forma tão inexplicável como só conseguem duas pessoas que vivem juntas. — Devíamos fixar na nossa memória a imagem deste jardim tão sossegado. Talvez precisemos de nos lembrar muitas vezes dele durante os anos mais próximos… Frances acenou com a cabeça, em sinal de aprovação, e exclamou subitamente: — Richard, vamos lá fora! Afinal, Frances também sentia o mesmo, um desejo de se despedir… Começaram a passear lentamente à volta do jardim banhado pelo luar. Rosas e madressilvas inundavam os muros e adquiriam tons mais pálidos sob a claridade intensa da Lua. Em seu redor, os outros jardins, os perfumes misturados das flores, as sombras profundas das árvores-. — Richard — disse Frances – —, penso que vais gostar do chapéu que comprei ontem… umchapeuzinho branco à marinheira, com uma rosa vermelha muito provocante por cima de um dos olhos! Ouviu-o rir. — É prático, não é? — E retomou o tom sério. — Richard achas que vai rebentar a guerra, este Verão? — É o que toda a gente pergunta! Parece que tudo depende de um homem. Frances calou-se. Quando voltou a falar a sua voz tremia com intensidade. — Porque será que a felicidade de todo o mundo civilizado tem de depender dele? Richard, sinto uma revolta contra esse homem e todos os da laia dele! — E não és a única! Foi por isso que acedi ao que Peter nos pediu. — Mas achas que seremos capazes? Richard concentrou-se por uns momentos e respondeu: — Pois, se eu pudesse travar um mínimo que fosse os planos nazistas, já achava que tinha valido a pena. Mas não pensemos em coisas tristes, Frances! Lembra-te de que estamos em férias! Frances baixara o tom de voz. — Estou muito enervada; nunca mais voltarei a falar nesse assunto. — Ora muito bem, assim é que és uma menina bonita… Quando passaram pela cancela, deram com Anni, que voltava para casa. — Guten Abend, gnädige Frau, Herr Professor. Era uma garota austríaca, alta, com a cara prazenteira e os cabelos louros entrançados à volta da cabeça. — Boa-noite, Anni. Então, sempre chegaste a ver os teus amigos? Anni inclinou a cabeça em sinal afirmativo. Trazia os braços cheios de pequenos embrulhos. — Deram-me estes presentes — disse ela.

— Fiquei tão contente… — Ainda bem, Anni. Agora não te demores a ir para a cama, e vê se dormes bem, pois tens uma grande viagem, amanhã. Anni fez novo sinal aprovativo com a cabeça. — Boa noite, Frau, Herr Professor. Demoraram-se mais uns minutos no jardim, depois de Anni se ter afastado. Então Richard beijou-a

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