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Acima do Veu – Garth Nix

Era raro os Escolhidos penetrarem nos níveis do Castelo habitados pelo Povo Inferior. Contanto que estes continuassem a trabalhar como criados, os Escolhidos os ignoravam. Há muito tempo atrás, havia capatazes que inspecionavam regularmente todos os sete níveis dos Inferiores, e até mesmo os aposentos e oficinas vazios que ficavam abaixo do último desses níveis. Entretanto, há cerca de cem anos, ou mais, só ocasionalmente Escolhidos adultos apareciam por ali, embora grupos de crianças passassem, às vezes, algumas horas explorando o local. De um momento para outro, tudo isso mudou. Subitamente, milhares de Escolhidos se espalharam por todo o sétimo e último nível ocupado pelo Povo Inferior. Vários deles usavam os braçais de ouro com Pedras-do-Sol da Guarda Imperial, e empunhavam espadas. Empurravam portas e corriam pelos corredores, seus gritos enchendo o ar e seus EspíritosSombra deslizando pelas paredes e pelo chão. Pedras-do-Sol emitiam clarões brilhantes, iluminando os cantos mais escuros e qualquer possível esconderijo. Se algo se movesse, à luz seguiam-se raios incandescentes que incineravam cavaratas, ratos e o que mais tentasse escapar àquela busca minuciosa. Os Inferiores paravam e ficavam imóveis como estátuas, enquanto aqueles pelotões de caçadores vasculhavam suas oficinas e cavernas. Sabiam que essa era a coisa mais segura a fazer. Mas nem todos se deram conta do perigo, ou foram rápidos o bastante para parar e se identificar. Uma velha, muito surda, que andava com dificuldade por um corredor fracamente iluminado, não ouviu quando lhe mandaram parar. O guarda não gritou duas vezes; limitou-se a disparar um Raio Vermelho da Destruição, com sua Pedra-do-Sol. Quando se viu que o corpo era de uma velha — e não de um dos fugitivos que estavamprocurando —, não houve desculpas ou explicações. Simplesmente, os guardas seguiram em frente, com seus Espíritos-Sombra de cintura fina deslizando atrás deles. O corpo, como tudo o que era destruído, estragado ou jogado fora pelos Escolhidos, seria retirado dali pelos Inferiores. No aposento onde terminava a rampa de lavanderia do quinquagésimo-sexto nível do Castelo, o Escolhido que comandava essa caçada sem precedentes pelo território do Povo Inferior sentou-se tranqüilamente numa pilha de sacos de roupas para comer camarões secos que trazia num dos bolsos de sua manga. À primeira vista, parecia um Escolhido bem comum. Suas Pedras-do-Sol e seu bastão luminoso indicavam que era um Ofuscador, Representante Lumenor da Ordem Laranja, e Mestre-dasSombras da Imperatriz. Seu rosto era rechonchudo, sua boca pequena e cruel, mas, afora isso, não tinha qualquer traço muito característico. Seu Espírito-Sombra era mais imponente. Uma coisa angulosa e pontuda, mais alta que umhomem. Tinha dois chifres na cabeça e, além de uma boca com várias presas, todos os seus quatro membros superiores tinham, na extremidade, um feixe de garras recurvadas.


A criatura se pôs de pé, por trás de seu amo, apoiando-se nas patas com menos garras, e ficou andando de um lado para o outro como se estivesse mais preocupado com o objeto da caçada do que com seu senhor. À luz de tantas Pedras-do-Sol, ele mais parecia feito de carne negra que de sombra. O homem gordo que comia camarões não era um Escolhido comum. Dava ordens aos guardas que iam e vinham, e todos eles eram de Ordens e níveis superiores. Havia Escolhidos das Ordens Azul, Anil e Violeta, mas todos baixavam a cabeça diante desse Escolhido da Ordem Laranja e, respeitosamente, ofereciam-lhe luz de suas Pedras-do-Sol. Vários deles curvavam-se um pouco mais para não ter de encarar a ferida aberta em seu peito, um buraco medonho, do tamanho de um punho fechado, e que atravessava seu corpo de um lado a outro. O ferimento não estava sangrando, e aquele estranho Escolhido não parecia nem um pouco incomodado com ele, embora a espada de chifre de Merwin, que traspassara ossos e carne com tanta facilidade, houvesse sido retirada dali há menos de uma hora. A espada jazia agora a seus pés, brilhando suavemente. E não havia sangue nela. O Mestre-das-Sombras Sushin se recostou um pouco mais em sua poltrona improvisada e comeu o último camarão seco. Depois, limpou as mãos numa túnica amarela que estava num dos sacos de roupa suja, e olhou para o último guarda que vinha lhe fazer um relatório — era uma mulher, Senhora-das-Sombras da Ordem Violeta. — Nós os perdemos —, disse ela, inclinando a cabeça. — Eles foram para uma floresta de raízes Belish, e desapareceram. Estamos removendo as raízes, mas não há sinal deles. Enquanto a guarda falava, seu Espírito-Sombra foi se encolhendo, a ponto de ficar quase escondido atrás dela, embora seus ombros fossem pelo menos um trecho mais largos que os de qualquer ser humano. Sushin franziu a testa. — Continuem procurando, Ethar — disse ele. — Faça com que os Inferiores entendam que devem informar sobre qualquer pista dos fugitivos. Vou voltar lá para cima, para tratar de… outros assuntos. Lembre-se, quero os dois mortos, e seus corpos e roupas destruídos. Mas suas Pedras-doSol devem ser devolvidas a mim. Isto é muito importante. Não podemos correr o risco de perder suas Pedras-do-Sol. Ethar ergueu os olhos, fitando diretamente o buraco no peito de Sushin. Pareceu que ia dizer alguma coisa, mas Sushin a interrompeu.

Ergueu a mão, ostentando um anel com uma Pedra-do-Sol particularmente grande e vibrante, que emitiu a mais pura luz Violeta e ofuscou a luz dos outros anéis que havia em sua mão. — Vai discutir minhas ordens, Senhora-das-Sombras, ou minha autoridade? Ethar continuou a fitá-lo por mais um segundo e, depois, desviou os olhos. — Não, Sushin — disse ela, afinal. — Sei em nome de quem você está falando. Ela se afastou e gesticulou para os guardas que se mantinham a uma distância respeitosa. Quando todos se foram, Sushin riu e murmurou algo, baixo o bastante para que Ethar não o ouvisse. — Sabe mesmo, Ethar? Tem certeza? Capítulo Dois — Você tem de empurrar e girar ao mesmo tempo — disse Tal, enquanto Adras, seu EspíritoSombra, tentava mais uma vez, inutilmente, fechar o alçapão. — Veja, é assim. Começou a subir de volta mas, finalmente, Adras conseguiu mover a alavanca da tampa. E a escotilha se fechou atrás deles. — Agora, quero que você torça a alavanca — disse Tal. Não havia nenhum ferrolho mas, se Adras tentasse torcer a alavanca, certamente emperraria o mecanismo. Ninguém conseguiria descer atrás deles. — Preciso de luz — disse Adras, bufando e fazendo o maior esforço para torcer a alavanca. — Não tenho força suficiente. Antes de erguer a mão, Tal verificou se seus pés estavam bem firmes. A Pedra-do-Sol de seu anel emitiu luz laranja e depois branca, tornando-se cada vez mais brilhante. Com a luz, Adras ficou mais claramente definido. Um Pastor de Tempestades do mundo dos espíritos de Aenir que, aqui, no Mundo das Trevas, era um Espírito-Sombra livre, fadado a estar comTal mas não necessariamente a obedecer-lhe. Situação que Tal lamentava a maior parte do tempo. A nuvem de sombra ondulante tinha uma forma vagamente humana mas era duas vezes mais alta que Tal. Um braço possante deu um puxão e a alavanca se soltou em suas mãos. Estava prestes a deixá-la cair quando Tal gritou: — Não! Dê isso aqui! Lembre-se que Milla e Odris estão ali em baixo! — Desculpe — disse Adras estendendo a alavanca para Tal. O menino a pôs no bolso, deu um suspiro e recomeçou a descer. Foi por puro acaso que Tal encontrou o alçapão.

Tropeçou em sua tampa enquanto corriam por uma das enormes cavernas onde os Inferiores cultivavam centenas de fileiras de uma raiz vegetal que eles chamavam Belish. Tal nunca tinha gostado de Belish, e abrir caminho através de uma espessa floresta dessas raízes lamacentas também não era nada agradável. Mas sua descoberta acidental fez com que aquilo tudo valesse a pena. Os guardas estavam fechando o cerco. Agora, Tal estava dentro de um tubo estreito que descia formando um ângulo de quarenta e cinco graus. Não havia propriamente uma escada, mas ferros encravados na rocha, próximos o bastante uns dos outros para serem usados como apoio para as mãos e para os pés. Tampouco havia iluminação, pois não se viam Pedras-do-Sol nas paredes, no teto ou no chão. Para ter alguma luz, Tal dirigia sua Pedra-do-Sol para baixo e, de lá, vinha a resposta de Milla, fazendo brilhar a Pedra-doSol que era gêmea da sua. Milla ia descendo bem depressa, sem perder tempo. Agora, pensava apenas em deixar o Castelo e voltar para o Gelo. Acreditava que tinha tomado decisões erradas e se desviado do caminho certo. O Espírito-Sombra a seu lado era um lembrete constante de seu orgulho e de seu fracasso. Só no Gelo poderia reparar os seus erros. Aquele Espírito-Sombra a estava seguindo agora. Como Adras, até menos de um dia atrás Odris era uma Pastora de Tempestades, mas aquilo fora no mundo dos espíritos de Aenir. Aqui, no Mundo das Trevas, ela era o Espírito-Sombra de Milla — e ter um Espírito-Sombra contrariava todas as regras e costumes dos Homens-do-Gelo. Milla estava convencida que a perda de sua sombra natural significava o fim de seu sonho de se tornar uma Donzela Guerreira… e provavelmente, também, o fim de sua vida. Só a necessidade de informar as Matriarcas acerca do que estava ocorrendo no Castelo e em Aenir a impediria de se lançar ao Gelo tão logo saísse dali. Antes disso, porém, precisavam escapar de Sushin e dos guardas. Tinham de encontrar Ebbitt, o tio-avô de Tal, e tentar entender tudo o que haviam descoberto. Não que Ebbitt fosse lá muito bom em ajudar a entender coisas, pensava Tal. Mas poderia ser capaz de explicar o que vinham a ser as Grandes Pedras, como elas controlavam o Véu, e como o pai de Tal, Rerem, podia ser afetado pela Grande Pedra Laranja… O que significava aquilo que o Códex tinha dito? Ele é o Guardião da Grande Pedra Laranja. Ela foi violada e, portanto, seu Guardião não pode viver. Até que, ou a menos que a Grande Pedra Laranja volte a ser lacrada, ele não deve viver. Se ela for lacrada, seu Guardião voltará a viver.

Também não podiam esquecer Gref, o irmão de Tal. Tal quase tinha conseguido salvá-lo, mas no último minuto o resgate foi frustrado pelas artimanhas de Sushin. De algum modo, Gref havia sido envenenado ou posto em coma. Exatamente como Graile, sua mãe… se bem que ela já estivesse doente há bastante tempo. Tal tinha se esforçado muito para ajudar sua família, e cumprir o desejo manifestado por seu pai, de que tomasse conta de todos. Mas tudo o que fazia acabava dando errado. No começo, achava que tudo o que precisava fazer era conseguir uma nova Pedra-do-Sol, e isso já era bastante difícil. Agora, viver era bem mais difícil. Distraído em seus pensamentos, Tal nem ouviu que Milla o estava chamando, mais lá de baixo, até que seu Espírito-Sombra lhe deu um tapa bem forte na cabeça. — Ai! — Milla está dizendo que esse tubo acaba na água — repetiu Adras, falando alto demais, como sempre. Mesmo sendo um Espírito-Sombra, ele conservava as características de um Pastor de Tempestades. Mais trovejava que falava, e relâmpagos de sombra crepitavam ao redor de seus olhos e de seus dedos. Tal olhou para baixo, fazendo brilhar a Pedra-do-Sol. Milla tinha parado e estava iluminando o túnel, mais à frente, com a sua. Alguma coisa refletia a luz, a uma boa distância de onde ela estava. Que água poderia ser essa? Tal franziu a testa, tentando lembrar das aulas que tinha tido, há muito tempo, sobre a planta do Castelo. O lugar para onde estavam descendo ficava além do sétimo nível do Povo Inferior, onde havia inúmeras oficinas, culturas de legumes e cogumelos, e manufaturas. Aquele era o último nível completo do Povo Inferior, a não ser por algumas forjas isoladas e… os tanques de peixes. Era isso que estava lá embaixo. Um dos imensos tanques onde os Inferiores criavam peixes: marlins e cações para a mesa dos Escolhidos, e os camarões translúcidos que, quando secos, eramuma iguaria tão apreciada. Às vezes, havia também enguias naqueles lagos, mas os Escolhidos tinhamnojo daquilo e, portanto, só os Inferiores as comiam. — É raso! — gritou ele para Milla. — Não mergulhe. Milla franziu a testa, e pulou assim mesmo. Mas pulou agarrada a Odris.

Como Espíritos-Sombra, eles conservavam algumas de suas características de nuvens. Milla flutuou como uma pluma, com Odris toda esparramada, como uma grande onda de escuridão acima dela. A menina caiu suavemente na água que lhe batia pela cintura. Ergueu a mão e aumentou a luz de sua Pedra-do-Sol. Não fazia muito tempo que possuía uma, mas Tal notou que ela estava aprendendo a controlá-la bem depressa, embora ele só lhe houvesse dado uma aula das mais elementares a este respeito. Achou aquilo preocupante. Supostamente, só os Escolhidos eram capazes de usar Pedras-do-Sol. Era mais uma parte de seu mundo e de suas crenças que começava a não se encaixar muito bem. Tal já não sabia mais o que era verdade. Boa parte das coisas que lhe haviam ensinado no Lectorium parecia resumir-se a meias-verdades, ou ser apenas uma parcela do todo. Era quase como se o objetivo principal de seus estudos fosse o de incapacitá-lo para um conhecimento mais amplo, em vez de ensinar-lhe algo. — Venham! — ordenou Milla. Tal suspirou e desceu para o último ferro encravado naquele tubo. Estendeu, então, o braço para pegar a mão de Adras. O Espírito-Sombra aceitou aquilo, distraído, e o soltou exatamente no momento em que Tal ia pular. — Segure-se em mim! — disse Tal. — E você precisa se afofar mais para podermos flutuar até lá embaixo. — Desculpe — trovejou Adras. — Estava pensando em minha terra. — Bem, é melhor não fazer isso — resmungou Tal. Desta vez, o Espírito-Sombra obedeceu, segurando Tal e afofando-se para fazerem uma descida controlada. Mesmo assim, Tal gritou quando chegaram na água. Na pressa de escapar, esquecera, momentaneamente, a dor da queimadura com ácido de Vêsbora. O contato com a água e o frio fizeram-no sentir uma dor violenta. Ele caiu para a frente e quase afundou.

Adras o ergueu, e Milla e Odris voltaram-se para eles. — Você está bem? — perguntou Odris. Bem a seu jeito, Milla não disse nada. Tal sabia que ela jamais gritaria por causa de algo tão simples quanto uma dor. Ele cerrou os dentes e se pôs de pé, estremecendo porque sua perna se contraiu num espasmo. — Tudo bem — disse ele, embora precisasse fazer um esforço para falar. — Vamos. — Para onde? — perguntou Milla. Ela estava erguendo bem alto o anel de Pedra-do-Sol, de sorte que sua luz se espalhava em torno deles todos, iluminando um vasto círculo e fazendo tremeluzir a água. Fora deste círculo, estava tudo escuro. Tal virou a cabeça, olhando para todos os lados. Sabia que os tanques de peixes eram muito grandes, alguns deles chegando a ter duzentos ou trezentos trechos de diâmetro. Mas, em algum ponto, haveria um cais ou uma plataforma para que os peixes, depois de pescados, pudessem ser encaixotados e transportados para os armazéns e as cozinhas. O único problema era saber para que lado ficava o cais. Capítulo Três — Apague sua luz — disse Milla, de súbito. Fitou seu anel de Pedra-do-Sol. Como a luz não se reduziu rápido o bastante, ela a encobriu com a outra mão. Tal, que tinha tido um treinamento adequado, fez a sua pedra se apagar num segundo. — Por quê? — sussurrou ele quando ficaram no escuro. Por alguma razão, a caverna toda parecia muito mais silenciosa sem a luz e ele não queria perturbar aquele silêncio. A única resposta de Milla foi um ruído bem leve. Ela estava andando. — Não gosto nada disso — disse Adras. — Sinto-me fraco. — E eu me sinto mal — disse Odris.

— É como estar com sede, lá em Aenir. — É só um momentinho — disse Milla. Tal se surpreendeu com aquela voz que vinha de trás dele, e de muito mais longe do que imaginava. — Ah! Agora entendi. Sua pedra voltou a se acender. Tal deixou a sua brilhar, em resposta. — Entendeu o quê? — perguntou ele. — Há luz daquele lado — disse Milla, apontando com o dedo. — E também ouvi algo. Mas ao longe. Essa caverna… esse tanque de peixes… é muito grande. — Talvez seja o maior deles — disse Tal. — Acho que são três. Lembranças vagas e desagradáveis de histórias infantis estavam passando por sua mente. Alguma coisa sobre o grande tanque e enguias imensas, cada uma com dez trechos de comprimento e um apetite igualmente grande. Lembrava-se de rir, em criança, imaginando um Inferior surpreendido por uma enguia gigante. Não parecia tão engraçado, agora que era ele que estava andando pelo tanque de peixes. Alguma coisa roçou em sua cintura e Tal soltou um ganido, dando um pulo para trás. No mesmo instante, porém, viu o que era. Uma planta: uma tira fina de uma erva marinha, com enormes bulbos cheios de ar que a faziam boiar na superfície da água. Milla pegou uma daquelas tiras. — E diferente das ervas marinhas que colhemos sob o Gelo. Acho que essas não se comem. — Não mesmo —, disse Tal, com uma careta de nojo. Empurrou a planta para longe.

Ela era pegajosa, cheirava mal — e havia muitas outras por onde tinham de passar. Quando afastou a planta, Tal viu um rosto na água. Já ia se encolhendo, achando que alguma coisa estava subindo por trás dele, quando compreendeu o que era. Era o seu próprio reflexo. No entanto, era tão diferente da última vez que se olhara numespelho de verdade, que quase não se reconheceu. Só tinham se passado umas poucas semanas, mas quanta coisa tinha acontecido… O jovem Escolhido com o cabelo castanho-escuro um tanto despenteado e o sorriso meio torto tinha desaparecido. Em seu lugar, havia alguém que, em outra época, Tal teria descrito como umselvagem. Seu cabelo estava muito mais desgrenhado e sujo, e tinha, bem no meio, uma larga faixa de um verde brilhante, resultado de seu encontro com um monstro em Aenir. Seu rosto mostrava uma expressão constantemente tensa, meio carrancudo, meio preocupado. Na verdade, aparentava bemmais que os seus quase quatorze anos. — Venham — disse Milla. Tal se deu conta que estava olhando fixamente para o reflexo na água. Voltou-se para Milla e percebeu que ela também tinha mudado. Dispensara o vestido amarelo que temporariamente lhe servira de disfarce, e estava usando, abertamente, suas peles de Garota-do-Gelo e a armadura de couro de Selski. Ainda tinha o cabelo louro-branco amarrado para trás. Mas alguma coisa havia mudado. Tal levou um momento para se dar conta que a mudança estava em seus olhos cinzentos. Não havia mais ferocidade ali, como se eles houvessem perdido algo de seu brilho. Só então Tal compreendeu que ela ia realmente se lançar ao Gelo. Quando pensou estar salvando a vida dela — e a sua própria —, aceitando os dois Pastores de Tempestades como Espíritos-Sombra, tinha simplesmente adiado o destino de Milla. Ela tiraria a própria vida porque tinha perdido sua sombra natural e adquirido, em seu lugar, um Espírito-Sombra. — Venham! —repetiu Milla. Ela começou a caminhar pela água, detendo-se, aqui e ali, para afastar algumas tiras da erva bulbosa que atrapalhavam mais que outras. Tal foi atrás dela, avançando mais devagar. De repente, estava se sentindo incrivelmente cansado.

As coisas pareciam difíceis demais. Qualquer atitude que tomasse só fazia piorar tudo. Agora, sabia que precisava garantir que Milla sobrevivesse. A única maneira que lhe ocorria, para conseguir isso, era impedir que ela deixasse o Castelo, o que contrariava inteiramente os próprios desejos da menina. E contrariar os desejos de Milla quase nunca era uma boa idéia. Talvez Ebbitt pudesse encontrar uma saída, pensou Tal, desanimado. Ebbitt. Precisavam encontrar Ebbitt — onde quer que ele estivesse — antes que os guardas os alcançassem. Ou alcançassem Ebbitt, pensou Tal, subitamente. Não tinha pensado nisso antes. Soltou um gemido. Milla, Adras e Odris pararam, e olharam para ele. — O que foi? — perguntou Milla. Num instante, já tinha sacado a faca de osso e a segurava na mão. Tal abanou a cabeça. — Nada. Só que percebi como tudo isso é estúpido. Estamos procurando Ebbitt, mas não sabemos onde ele está, nem o que poderemos fazer quando o encontrarmos. Há guardas por toda parte, sem falar em Sushin, seja lá o que ele for, efetivamente. Estamos num tanque de peixes poluído. Não fiz nada certo e não consigo entender o que está acontecendo… Calou-se vendo que Milla o fitava. Sabia que isso não eram modos de um Homem-do-Gelo se lamentar. Mas era o que faziam os Escolhidos. Eles se queixavam dos criados Inferiores, da qualidade da comida, de suas roupas, de qualquer coisa. Qualquer coisa trivial, pensou Tal.

Será que queria realmente ser desse jeito? Voltou a olhar para o seu reflexo na água e tentou forçar um sorriso. Ele veio vindo lentamente e, por algum motivo, não tinha mais aquela curvatura irritante para o lado esquerdo. — Por outro lado — disse, bem devagar — tenho uma nova Pedra-do-Sol, que era tudo o que eu queria no começo. E um Espírito-Sombra… — Eu — disse Adras, todo prosa. — E temos o Códex, escondido lá no Mausoléu — prosseguiu Tal. Enumerar os pontos positivos fez com que se sentisse um pouquinho melhor. — Então, por que estou me queixando? — Não sei — disse Milla. Franziu a testa e acrescentou: — Você está vivo. Seja grato pelo dom da vida, até que ele lhe seja retirado. Virou-se e recomeçou a abrir caminho em meio às ervas, mais depressa que antes. Tal foi atrás dela, estremecendo por causa da dor na perna. Milla estava andando muito mais depressa do que ele poderia suportar, mas não se queixou. Era difícil seguir em frente, movendo-se por entre aquelas plantas. A quantidade delas era muito maior do que Tal supunha que fosse saudável para um tanque de criação de peixes. Falando nisso, não parecia haver nenhum peixe ali. Nem enguias. Embora fosse possível que eles houvessemespantado os peixes, ou não pudessem vê-los no escuro. Milla insistira para que reduzissem a luz das Pedras-do-Sol para evitar centelhas que os denunciassem. A princípio, Adras e Odris reclamaram, mas pareciam ter se acostumado à sensação de fraqueza causada pela falta de luz. Tal caminhou uns bons quinze minutos sem pensar em absolutamente nada, e sem se dar conta do que fazia. Apenas ia abrindo caminho em meio às plantas, seguindo Milla. E teria continuado a fazer isso, distraidamente, se ela não tivesse parado. — O que foi? — sussurrou Tal, aproximando-se dela. — Olhe — sussurrou Milla, em resposta. Tal olhou.

Havia luz mais à frente. Mas não era a iluminação clara e regular das Pedras-doSol. Era uma luz que piscava, bastante fraca, e de coloração um tanto variável. Uma ou duas lamparinas a óleo, pensou Tal — que os Inferiores usavam nas partes do Castelo onde não havia qualquer Pedra-do-Sol instalada. É claro que o Povo Inferior não podia usar Pedras-do-Sol. Deviam, pois, fabricar lamparinas a óleo e artefatos similares. Àquela luz fraca, Tal podia ver quatro… não… cinco pessoas trabalhando duro. Duas delas estavam na água, passando fardos de alguma coisa para os que estavam em cima, enquanto estes pegavam o que quer que fosse aquilo e punham tudo em barris. — Inferiores recolhendo peixes — disse Tal, sem se preocupar em falar baixo. — Podemos simplesmente passar… Uma mão fria tapou sua boca, fazendo-o calar-se. — Cale a boca — sussurrou Milla, feroz. — Não são Inferiores comuns. E não estão recolhendo peixes. Por um momento, Tal ficou tentado a morder a mão de Milla, mas não fez nada disso e, logo depois, ela retirou a mão. Além do mais, quando olhou para o cais, percebeu que havia realmente algo estranho com relação àqueles Inferiores. Para começo de conversa, não estavam usando as túnicas brancas habituais. E não estavam recolhendo peixes. Eram aquelas plantas que eles estavamretirando da água e, no cais, cortavam-nas ao comprido antes de pô-las nos barris. — Eles têm lanças — disse Milla, bem baixinho. A visão dela era muito melhor que a de Tal, especialmente no escuro, ou quase no escuro. — E um deles tem uma longa faca. Ah… Um deles tinha parado exatamente no ponto mais iluminado pela lamparina. Era um menino, não muito mais velho que Tal, mas bem mais alto e musculoso. Estava usando a roupa branca dos Inferiores mas havia alguma coisa pintada ou bordada nela — uma espécie de figura ou de coisa escrita que Tal não conseguia decifrar àquela distância. Usava também um estranho chapéu triangular com a ponta maior virada para a frente.

Nesse chapéu, havia várias penas longas, negras ou azulescuras, num arranjo vistoso. Ele parecia vagamente familiar. Tal tinha certeza de já tê-lo visto antes, mas não conseguia saber onde. Mas Milla sabia. — É aquele que chamam de Corvo — disse ela. — O líder do grupo que nos tirou dos túneis de aquecimento, quando o ar ficou ruim. — São eles? — perguntou Tal. Ficara meio inconsciente, ou delirante, por causa dos gases dos túneis de aquecimento. Se não tivessem sido resgatados, teriam morrido lá mesmo. Não tinha tido tempo de pensar nas pessoas que os tiraram dali. Agora, tudo aquilo estava voltando. — São — disse Milla. — É melhor termos cuidado. A maioria deles queria nos matar. E eles odeiam os Escolhidos. — O quê? — perguntou Tal. — Eles são Inferiores! Não podem odiar os Escolhidos! Isso… isso não é permitido. — Eles não são Inferiores comuns. É como eu disse antes. São Renegados. Tal ficou olhando para os Inferiores. É verdade que estavam usando roupas muito velhas. E nenhum Inferior tinha nada que ficar andando pelos túneis de aquecimento, onde eles resgataram Tal e Milla. Ouvira dizer que alguns Inferiores tinham se rebelado contra os Escolhidos, e viviam abaixo dos níveis normais. Mas nunca tinha acreditado de fato nisso.

— São só cinco — disse ele, afinal. — Nós dois temos Pedras-do-Sol, e Adras e Odris. — Mas nós estamos fracos — disse Odris, com uma voz queixosa no meio da escuridão. —Não poderia esmagar uma cavarata do jeito que estou agora. — Eu poderia — intrometeu-se Adras. — Poderia esmagar uma cavarata, na maior facilidade, e talvez algo do tamanho de um Dattu, ou, quem sabe, de um Lowok… — Eu estava exagerando — interrompeu Odris. — É claro que poderia esmagar uma cavarata. Mas não poderia fazer muita coisa numa luta de verdade… — Eu poderia — disse Adras, orgulhoso. — Mas, se houvesse mais luz… — Calem-se, vocês dois — ordenou Milla. — Temos que passar por eles — disse Tal. — Não há outra maneira de sair desse tanque. E, logo, logo, os guardas devem encontrar o alçapão. — Devemos a vida a eles — disse Milla, e as palavras vieram saindo bem devagar, como se ela estivesse pensando alto. — Isso significa que devemos falar com eles antes. Talvez saibam onde podemos encontrar seu avô-tio Ebbitt. — Tio-avô, e não avô-tio — emendou Tal. — Mas eu duvido. Em geral, os Inferiores não sabem nada, a não ser sobre seu trabalho. O que será que eles planejam fazer com essas plantas? — Adras, Odris, preparem-se para nos defender se eles atacarem — disse Milla. — Aumentaremos a luz. Vamos lá. Capítulo Quatro Estavam a uma dezena de trechos das docas quando os Inferiores os viram. Foi o Corvo que olhou para a água, alertado por um ruído. Em seu rosto, houve um breve lampejo de surpresa, que logo passou, quando ele gritou e empunhou a lança. — Olhem lá! Na água! Os dois outros que estavam no cais também foram pegar suas lanças enquanto os que estavamna água se precipitaram para os degraus.

Voaram plantas por todo lado quando os Inferiores as empurraram em sua pressa de chegar até as armas ou em sair da água. — Viemos em paz! — gritou Milla. — Não atirem! — Conversar! — gritou Tal. — Queremos apenas falar com vocês! Infelizmente, naquele instante, Adras decidiu que poderia ajudar soltando um grito de trovão. O ruído irrompeu da água com toda a força de um trovão de verdade, encobrindo todas as falas e atordoando momentaneamente os Inferiores. Quando o trovão ecoou pelo tanque, o Corvo atirou sua lança na direção de Tal. Milla deu umsalto para a frente e a agarrou em pleno ar. Tal afundou até o pescoço, mas manteve a mão com o anel de Pedra-do-Sol fora da água. Enfurecido, concentrou toda a sua atenção em provocar luz ofuscante. A luz jorrou da pedra, dissipando a escuridão. Adras e Odris rugiram deliciados, subitamente visíveis como sombras de contornos bem traçados, imensas figuras de nuvem, ondulantes, comformas humanas. Correram para os outros Inferiores, que atiraram suas lanças nos Espíritos-Sombra, mas em vão. Adras e Odris as rebateram. Uma batalha de grandes proporções parecia estar se armando quando Milla gritou, usando o tom de voz que aprendera a usar a bordo de um navio do Gelo no auge de uma ventania. — Parem! Parem todos vocês! Todos pararam. Talvez houvessem recomeçado, se Milla não tivesse continuado a gritar. — Adras! Odris! Voltem aqui. Vocês, Inferiores, fiquem onde estão. Queremos apenas falar com vocês! Não somos Escolhidos! Tal foi saindo da água, tirando aquelas ervas de seus ombros. A Pedra-do-Sol continuava a brilhar com toda força, mas seu foco tinha sido desviado lá para o teto e, portanto, não ofuscou ninguém. — São eles — disse um dos Inferiores, um menino… não… uma menina alta, de cabelo louro, que se chamava Gill, como Tal de repente se lembrou. — Aqueles dois que resgatamos do Acesso 3. Eu disse que devíamos tê-los matado. — Cale a boca! — disse o Corvo. Estava olhando para Tal e Milla, mas seus olhos continuavam indo e vindo de Adras a Odris.

Tinha uma faca na mão, mas esta pendia ao lado do corpo. — Não somos Escolhidos — repetiu Milla, ignorando o olhar furioso que Tal lhe dirigia. Ela podia não ser uma Escolhida, mas ele era um, e não via razão para fingir o contrário. — Não? — perguntou o Corvo. — Vocês têm Pedras-do-Sol e Espíritos-Sombra. — Eu sou Milla, dos Homens-do-Gelo, de fora do Castelo. Tal… era um Escolhido, mas não é mais. Os Escolhidos o baniram. Os guardas estão atrás dele. Tal chegou a abrir a boca para protestar, mas voltou a fechá-la. Milla estava contando o que acontecera, com suas próprias palavras, mas continuava sendo verdade. Ele era efetivamente um Renegado. Na verdade, ainda não tinha refletido a esse respeito. O Corvo ouviu aquilo sem alterar a expressão de seu rosto. Mesmo o fato de Milla vir de fora do Castelo não pareceu perturbá-lo. Os outros se remexiam, nervosos, e olhavam para trás emdireção à porta aberta e ao túnel que estava além dela. — Estamos procurando meu tio-avô Ebbitt — disse Tal. — Um velho Escolhido. Seu Espírito-Sombra tem a forma de um gato com uma crina. Vocês o viram por aqui? — Talvez — disse o Corvo. Tal percebeu que os outros Inferiores pareciam reconhecer o nome de Ebbitt e estavam evitando encará-lo. Também estava claro que o Corvo era o líder do grupo e que todos ficariam calados enquanto ele conduzia as conversações. — Podem nos levar até ele? — perguntou Milla. — Depende, não é? — disse o Corvo. — De quê? — perguntou Tal.

Ele estava ficando cada vez mais zangado. — Por que vocês… por que vocês simplesmente não fazem o que estamos dizendo? As palavras ainda estavam saindo de sua boca e Tal já se arrependia de tê-las pronunciado. Foi exatamente por isso que teve problemas com os Homens-do-Gelo. Sua mente já tinha aprendido isso, mas ela era mais lenta que sua língua. O Corvo o fitou com os olhos escuros brilhando de ódio. — Você ainda é um Escolhido, não é? — disse ele, erguendo a faca. — Faça isso, faça aquilo! Aqui embaixo, não somos seus criados! Somos um Povo Livre, e não o Povo Inferior. E, por mim, vocês podem ficar vagando por aqui, como bonequinhos de luz inteiramente perdidos, até que os guardas os apanhem! Tal ergueu a Pedra-do-Sol e mentalizou um Raio Vermelho da Destruição. Se o Corvo saltasse sobre ele, ou tentasse atirar a lança, dispararia. O Corvo viu a luz vermelha girando em torno da pedra, e hesitou. Antes que um dos dois resolvesse romper aquele impasse momentâneo, Milla se meteu entre eles e fitou o Inferior que estava no cais. — Não deve haver luta entre nós, quando o verdadeiro inimigo está tão perto — disse ela. —Mais tarde, quando a tempestade houver passado, podemos acertar nossas contas. O Corvo olhou para ela, o rosto ainda visivelmente furioso. Parecia que ia atacar, de qualquer maneira, mas um de seus companheiros se adiantou e sussurrou alguma coisa em seu ouvido. — Cale a boca, Clovil! — disse o Corvo, empurrando o outro rapaz com tanta força que ele caiu em cima de um barril, numa pilha daquelas plantas. — Tudo bem, vou falar alto, para todos poderem ouvir — gritou Clovil, tentando sair do meio das plantas. Agora, ele também estava zangado. — Temos ordens para levar quem quiser ver Ebbitt até… — Cale a boca! — repetiu o Corvo. Mas sua raiva parecia ter se abrandado, pois não havia força em suas palavras. — Então, vocês conhecem Ebbitt — disse Milla. — E há alguém que lhes dá ordens. Levemnos até a sua Matriarca. — Nossa o quê?

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