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Acontece a cada primavera – Gary Chapman, Catherine Palmer

Certa noite, após uma sessão de autógrafos, fui a um restaurante em companhia de CC McClure, gerente da Downtown Book and Toy, em Jefferson City, Missouri. Depois que relatei várias histórias sobre minha vida numa pequena comunidade em Lake of the Ozarks, ela me interrompeu repentinamente e perguntou: “Por que você não escreve a respeito do lago?”. Bem, porque eu não havia pensado nisso… e provavelmente nunca teria pensado, não fosse a sugestão de CC. Aliás, poderia até ter-me esquecido completamente do assunto, mas, algumas semanas depois, recebi um bilhete dela insistindo em que eu escrevesse a respeito do lago. Portanto, querida amiga, aqui está seu livro. E sou muito grata a você! Enquanto eu escrevia Acontece a cada primavera, contei com o apoio e incentivo de muitas pessoas. Numa tarde de verão em Denver, o Senhor colocou o dr. Gary Chapman — na ocasião, um ilustre desconhecido para mim — frente a frente comigo num salão de conferências completamente lotado, e deu-nos a oportunidade de discutir a possibilidade de parceria no projeto de um livro. Obrigada, Gary, por abraçar a ideia de que seu conceito, inspirado por Deus, da obra As quatro estações do casamento e as sete estratégias para reconciliar casamentos desfeitos pudessem adquirir vida numa obra de ficção. Que alegria ser sua parceira neste projeto! Ron Beers e Karen Watson, da Tyndale House Publishers, tiveram a ideia inicial de reunir um autor de obras de não ficção com uma romancista. Agradeço imensamente o incansável trabalho que vocês dedicaram a esta série de ficção, desde o conceito até a realização. Kathy Olson, minha admirável editora, é um presente de Deus. Posso escrever com a confiança de que ela ajudará a dar vida às minhas palavras e transformá-las numa história que valerá a pena ser lida. Meus sinceros agradecimentos a todo o pessoal na Tyndale: marketing, equipe de vendas, relações públicas, logística e a todos os que colaboraram comigo neste ministério. Minha família me proporciona o casulo no qual me sinto segura para sonhar, criar enredos e escrever. Obrigada, Tim, pelos mais de trinta anos de vida conjugal. Sou muito grata pelo seu trabalho minucioso de editar cada palavra de meu manuscrito antes de ser enviado pelo correio. Que você seja muito abençoado por assumir tantas responsabilidades em casa a fim de eu ter mais tempo livre para trabalhar. Geoffrey e Andrei, meus filhos, tenho muito orgulho de vocês. Ambos são milagres que recebi do céu. Amo muito vocês. Catherine Palmer 1 A descarga elétrica atingiu no início da noite um poste de eletricidade no lado oeste de Lake of the Ozarks. Patsy Pringle percebeu imediatamente que haveria problemas em Deepwater Cove. Logo após o zunido da faísca reluzente, ouviu-se o ruído ensurdecedor do trovão, e a eletricidade foi interrompida em todas as 23 casas da vizinhança. As lâmpadas se apagaram, os computadores pararam de funcionar, as telas dos aparelhos de TV escureceram e os cães, encolhidos de medo, correram para esconder-se embaixo da cama.


Na rua que principiava na enseada, exatamente no salão de beleza Assim Como Estou, na cidadezinha de Tranquility, Missouri, o secador na mão de Patsy deu um gemido e parou, e a sessão de cabeleireiro de Esther Moore, marcada semanalmente, chegou ao fim. — Que coisa! — disse Patsy. — Ainda bem que você é minha última cliente do dia. Vou ter de fechar o salão. — Droga! — Esther murmurou, passando a mão nos cabelos molhados. — Acho melhor ir para casa e ajudar Charlie. Meu marido não é capaz de encontrar uma vela, nem mesmo com um mandado de busca. Patsy pegou uma lanterna guardada na gaveta de um dos móveis de seu salão e ligou-a. Enquanto ajudava a senhora idosa a encontrar a bolsa e as chaves, ela começou a preocupar-se com as viúvas da vizinhança. Sete delas moravam em Deepwater Cove, com idades variando entre 63 e 94 anos. Naquele início de março, muitas deveriam estar com os aquecedores elétricos ligados durante a tempestade. Patsy esperava que houvesse cobertores suficientes para mantê-las aquecidas. — Aposto que Boofer está apavorado — disse Esther. — Aquele vira-lata é gordo demais para entrar embaixo do sofá. Deve estar uivando, e Charlie vai machucar os joelhos velhos e ossudos na mesa de café, tentando encontrar o cão. Acho que a companhia de eletricidade vai demorar horas para restabelecer a energia. É sempre assim. Bom, até logo, Patsy. Charlie deve estar morrendo de vontade de sair com seu carrinho de golfe para ver se tudo está bem na vizinhança. — Diga-lhe que tome cuidado — Patsy advertiu. — A chuva está começando a congelar. Patsy franziu a testa ao pensar naquele homem idoso atravessando estradas estreitas e cobertas de gelo, dirigindo o meio de transporte preferido da comunidade. Deepwater Cove orgulhava-se de ter quinze carrinhos de golfe, embora o campo mais próximo de dezoito buracos estivesse localizado do outro lado, em Osage Beach. Um carrinho de golfe confiável tinha capacidade para carregar uma vara de pescar, uma caixa de ferramentas, um balde de iscas vivas, uma fieira de pequenos peixes e um cão. Podia transportar uma pessoa até a beira do lago, até a caixa de correio, até a casa de umvizinho ou dar uma volta pela enseada e retornar.

A lógica era simples, e Patsy sabia disso. Se um carrinho de golfe era capaz de nos levar a qualquer lugar, por que fazer o percurso a pé? Enquanto Patsy abria o guarda-chuva e conduzia Esther Moore pelo caminho encharcado até o carro, ocorreu-lhe que, naquele momento, ambas estavam preocupadas com os vizinhos. Elas poderiam ter pensado em muitos outros problemas: rompimento de diques, vazamento em telhados, queda de galhos de árvores solapados pelo vento. Mas não. O ser humano vinha em primeiro lugar. Os vizinhos, é claro, cuidariam uns dos outros. A vida era assim em Deepwater Cove. — Uma pequena tempestade não vai deter Charlie assim que ele entrar em seu carrinho. — Esther teve de gritar em razão do ruído do vento. — Nem neve, nem chuva, nem calor, nem a escuridão da noite são capazes de impedir aqueles funcionários do correio de entregar até a última correspondência de seu percurso. Já ouvi isso uma vez, ou melhor, um milhão de vezes. Não foi por acaso que Charlie foi carteiro durante todos esses anos. Brenda Hansen estava no porão pintando uma cadeira da sala de jantar quando o raio atingiu o poste de eletricidade perto de sua casa na Sunnyslope Lane, em Deepwater Cove. Assustada com o estrondo do trovão e as faíscas riscando a escuridão, ela derrubou o pincel no chão. O gato, todo enrolado com a cauda sobre o nariz naquele cômodo frio, deu um berro, saltou com o corpo ereto e caiu com as quatro patas na bandeja de tinta cor-de-rosa. No instante em que suas patas bateram no líquido frio, ele deu outro berro, saltou para fora da bandeja e correu em busca de abrigo. — “Ora, Ozzie, e agora?” — Ainda assustada com o barulho ensurdecedor do trovão, Brenda olhou para o poste elétrico. Havia um homem do lado de fora da porta de vidro corrediça do porão. Alto, magro, de pele morena. Outro clarão em zigue-zague iluminou o céu, e ela conseguiu ver a barba, os cabelos compridos e as calças ensopadas do homem. Ele estava com os olhos fixos nela. — Steve! — ela gritou. Ao lembrar-se imediatamente que seu marido não estava em casa, correu em direção à escada e segurou firme no corrimão. Com passos cambaleantes, tropeçando e arranhando as canelas, Brenda conseguiu, a muito custo, chegar ao pavimento principal da casa. “Senhor, me ajude.

Senhor, Senhor, por favor me ajude”, ela orou em voz alta, enquanto tateava no escuro para chegar à sala de estar. Teria ela trancado a porta do porão naquele dia, antes de iniciar a pintura? Não, ela havia apenas empurrado a porta de vidro e puxado a tela para arejar o ambiente e permitir a saída do cheiro forte da tinta. E se o homem já estivesse dentro da casa? E se fosse atrás dela? Teria ele subido a escada? Brenda olhou sorrateiramente para o vestíbulo ladrilhado, mas não conseguiu enxergar nada. Assim que ela esticou o braço para alcançar a fechadura, alguém bateu no vidro duplo isolante, encaixado na porta de aço da entrada da casa. Era ele. Brenda conseguiu apenas distinguir um vulto — alto e desgrenhado — na varanda da frente. Ela fechou com força a tranca da porta e encostou-se na parede, sentindo um aperto no estômago. Onde estaria o celular? Quanto tempo o delegado levaria para chegar a Deepwater Cove? Oito minutos, disseram-lhe certa vez. Tempo suficiente para alguém morrer. — Ei, ei, quem está aí? — A voz do lado de fora da porta era forte, masculina e misteriosamente alta. Embora o vidro isolante da porta impedisse a passagem do ar frio, por certo não abafou o somdas palavras do homem quando ele gritou: — Sou eu, Cody! Brenda fechou os olhos e engoliu seco. Não conhecia ninguém chamado Cody. Não conhecia nenhum homem alto, barbudo, estrangulador em série, que costumasse rondar a vizinhança tranquila à beira do lago nas noites de chuva. O certo seria voltar correndo para o porão, puxar a porta de vidro corrediça e tentar trancá-la. — Estou vendo você aí. — O homem precisou gritar por causa de outro trovão. — Ei, sou eu, Cody! Brenda encostou o corpo na parede e começou a afastar-se da porta do vestíbulo. Onde estaria Steve no momento em que ela mais precisava dele? Talvez mostrando uma casa a um possível comprador no meio de uma tempestade de primavera. Quando voltasse para casa depois de fechar umótimo negócio, ele encontraria sua esposa deitada no vestíbulo, assassinada. — Você tem bolo de chocolate? — o homem perguntou, batendo mais suavemente no vidro. — Estou com fome, e gosto de bolo de chocolate. Gosto muito. O pedaço cortado em triângulo é bom, mas prefiro quadrado. Porque o quadrado tem mais glacê. Brenda imaginou que o celular devia estar em sua bolsa.

Ela não se lembrava da última vez que havia ligado para alguém. Nem de ter ido fazer compras, a bem da verdade. Ultimamente sua vida era vazia. Fazia dias que ela não tinha nenhum motivo para usar a bolsa, mas sempre a deixava em cima da mesinha no vestíbulo. Ela conseguiu dar mais dois passos de lado, sem afastar-se da parede. — Você pode me ouvir, porque eu estou pedindo bolo de chocolate. — O homem voltou a bater no vidro. — Porque eu estou encharcado e com fome. O meu papai me disse que, quando a gente está com fome, alguém pode dar comida pra nós, mas só um cristão dá bolo de chocolate também. Com o coração batendo forte, como se fosse saltar do peito, Brenda olhou de relance para o vidro na porta da frente. O homem estava com o rosto encostado no vidro, fazendo uma espécie de concha com as duas mãos, na tentativa de enxergá-la. — Não! — Ela balançou a cabeça furtivamente, sem querer olhar para ele, mas incapaz de controlar-se. — Vá embora! — Você é cristã? — ele perguntou, em tom de lamento. Outro clarão deixou à mostra seus cabelos longos e embaraçados. Ele tinha olhos azuis e dentes sujos. — Estou com fome. Ela balançou a cabeça novamente. — Vá embora! Suma daqui! Saia da minha porta! — OK. — Ele resmungou as palavras com sotaque da região interiorana do Mississippi. — Tá bom. Enquanto o homem se virava para ir embora, com os ombros curvados, Brenda correu para um dos cantos do vestíbulo. Na escuridão, ela bateu na mesa e, ao constatar que sua bolsa não estava ali, abaixou-se no chão frio e curvou o corpo. Steve era sempre assim. Ela estava furiosa. Deixava-a sozinha, para exibir-se diante de um dos clientes de seu cadastro.

Ultimamente era raro os dois jantarem juntos. Ele nunca tinha tempo para ela. E quando estava em casa, Steve só falava de fechamento de negócios, inspeções para detecção de cupins e fossas sépticas. Brenda passou os braços ao redor das pernas dobradas e encostou a testa nos joelhos. Pela centésima vez ela se perguntou por que tudo dera errado. Aguardara com ansiedade a época do “ninho vazio” e imaginara todos os tipos de atividade: redecorar a casa, trabalhar como voluntária na igreja, ingressar no clube de jardinagem e costurar para satisfação própria. Talvez pudesse realizar o sonho de um dia abrir um pequeno negócio de decoração de interiores. Melhor ainda, ela e Steve teriam tempo ilimitado para passar juntos depois que os filhos saíssemde casa para cuidar da própria vida. Poderiam viajar, jantar fora, ir ao cinema, receber visitas e passear de barco ao pôr do sol. Nada disso, porém, se transformou em realidade. Steve não parava em casa e, sem alguém comquem trocar ideias sobre seus planos, a vida passou a ser sem graça, artificial e até mesmo maçante. No Natal os filhos voltavam do colégio, mas iam embora rapidamente — com os olhos brilhantes, ansiosos por estar com os amigos e reiniciar os estudos. Nos últimos tempos Brenda tinha dificuldade para sair da cama e encontrar o que fazer. A casa parecia silenciosa e abandonada. Se os filhos ainda estivessem por perto, ela jamais teria sentido tanto pavor de uma simples tempestade no Missouri ou de um estranho à sua porta. As pessoas não se apavoram quando há alguém necessitando delas. Agora, lá estava ela sozinha naquela casa enorme e vazia, com um homem aparentemente louco na varanda da frente. Ele poderia cortá-la em pedacinhos e atirá-la no lago, mas quem se importaria com isso? — Porque eu vi Jesus no porão da sua casa. — O homem estava de volta, batendo no vidro. — Eu vi. Vi, sim. Ele estava olhando pra mim. — Jesus não mora nesta casa! — ela gritou. — Vá embora! Deixe-me em paz! — Porque eu vi Jesus. Foi por isso que pedi bolo de chocolate.

— Você não vai comer o meu bolo de chocolate, está bem? Eu fiz esse bolo para… para… — Para quem ela havia feito o bolo naquela tarde? Vivia em constante regime. E Steve costumava levar os clientes ou colegas para jantar no clube de campo. — Você é cristã? — o homem perguntou. — Porque o meu papai me disse… — Ouça, qual é o seu problema, homem? — Subitamente zangada, ela levantou-se rápido. — Você não pode ficar batendo nas portas das casas no meio de uma tempestade e sem luz elétrica! Não pode ficar pedindo bolo de chocolate! E para seu conhecimento, Jesus não mora aqui! Ele passou o dedo por baixo do nariz. — OK. — Vá embora antes que eu chame a polícia! — OK. — O homem coçou a cabeça. — Estou com fome. Você tem outra coisa pra eu comer? Porque se Jesus não mora aqui, eu posso comer batata. Ou pão. — Você está me ouvindo? — ela perguntou através do vidro. O rosto dele iluminou-se na escuridão. — Ah! Eu esqueci as palavras mágicas: por favor. Foi aí que eu errei. Eu sabia que tinha esquecido alguma coisa. Oi, o meu nome é Cody. Por favor, você me dá um pedaço de bolo de chocolate? Por favor. Curiosa apesar de tudo, Brenda parou de tremer e analisou a figura atemorizante em sua varanda. Cabelos longos, esquisitos. Barba cerrada, comprida. Olhos azuis misteriosos. Por que ele falava daquele jeito — como um menino? Os adultos não usam a expressão “palavra mágica”. Não pedembolo de chocolate no meio da noite. E, claro, não dizem ter visto Jesus no porão.

Ele deve ser esquizofrênico, psicótico ou coisa parecida. — Ei, o meu nome é Cody — ele voltou a dizer. — E o seu? — Brenda. — Ela não sabia por que havia respondido. — Quantos anos você tem? — Você não deve fazer essa pergunta. É falta de educação. — OK. — Ele virou-se para ir embora. Brenda caminhou em direção à porta. — Espere. Só um instante, está bem? O homem deu meia-volta e encostou o rosto no vidro novamente. Fazendo um túnel com as mãos, ele olhava para ela. Certa de que perdera completamente o juízo, Brenda caminhou às cegas em direção à cozinha. Encontrou uma caixa de fósforos, acendeu uma das muitas velas aromáticas que havia na casa e cortou um pedaço perfeitamente quadrado do bolo. “Em triângulo é bom, mas prefiro quadrado”, o homem dissera. Quem falaria assim? Ela deveria ter procurado o celular e ligado para a polícia em vez de cortar um pedaço de bolo para o assassino à porta de sua casa, mas e daí? Colocou a porção num prato pequeno e pegou umgarfo e um guardanapo. Em seguida, segurou a vela numa das mãos, o bolo na outra e dirigiu-se à porta da frente. — Achei que você tinha ido embora — ele disse. — Que me abandonou aqui. — Eu trouxe um pedaço de bolo de chocolate. Sente-se ali, no balanço da varanda. Ele sorriu. — Bolo de chocolate! Eu adoro bolo de chocolate! — Sente-se no balanço da varanda. Estou mandando. Sente-se e não saia dali.

— OK. — Ele curvou os ombros e atravessou o piso de madeira até o balanço, com seus sapatos enlameados. Brenda ouviu a chuva caindo lá fora enquanto destrancava a porta. Colocou rapidamente o prato e a vela no tapete da entrada e voltou a fechar a porta. Assim que ela girou a chave na fechadura, a energia elétrica voltou a iluminar a casa. — Ei! — Cody disse, olhando para o ventilador de teto da varanda, onde havia uma lâmpada. Ele concentrou o olhar em Brenda. — Ei! Veja! Ela assentiu com a cabeça. — Pode comer o bolo. Está perto da porta. — Eu não posso mexer com vela — ele disse. — Porque o fogo é quente. Porque ele machuca. — Então deixe a vela aí e coma o bolo. Ele levantou-se, voltando a ter a aparência de um homem alto, desgrenhado, assustador. Usando apenas uma camiseta amarela, jaqueta de zíper de cor azul desbotada, calça jeans surrada e tênis encardidos furados na ponta, o homem parecia um cão sem dono — molhado, sujo e abandonado. “Ele está prestes a congelar”, Brenda pensou. Curvando o corpo, ele levantou o pedaço de bolo do prato. Comeu-o em duas mordidas. — Bolo de chocolate! — disse, rindo para ela, com os dentes tortos cobertos de farelos marrons. — Eu sabia que você era cristã. — É verdade — Brenda confirmou através da porta trancada. — Eu sou cristã. — Porque eu vi Jesus no seu porão. — Não, você não viu.

Ele não está aqui, Cody. Brenda analisou o homem enquanto ele lambia os dedos. Devia ser algum sem-teto. Ela havia lido no jornal que muitos deles tinham problemas mentais. Talvez fosse inofensivo. Sentindo-se menos temerosa por ver o vestíbulo e a varanda iluminados, ela respirou fundo. — Ainda está com fome? — perguntou. Ele levantou a cabeça, surpreso. — Sim, estou! Quero outro pedaço de bolo de chocolate. — Vou arrumar um prato de comida para você. Espere no balanço da varanda. Não saia de lá. Pelo menos ela teria alguma coisa para contar a Steve quando ele voltasse para casa, Brenda pensou enquanto retornava à cozinha. Seu marido não demonstrava nenhum interesse pelas cadeiras que ela estava pintando no porão. A bem da verdade, não se importava com nada do que ela fazia. Trabalhando dia e noite durante o outono, ela havia costurado capas novas para o sofá e duas poltronas. Steve nem sequer notara. Ela esperou três dias para chamar a atenção dele para as capas. E ele limitou-se a dizer: — Brenda, por que você não me disse que queria comprar móveis novos? Estou ganhando dinheiro suficiente para comprar um conjunto de móveis para a sala de estar. Como se fosse isso o que ela queria. Brenda abriu a geladeira e pegou dois pedaços de frango assado, um pouco de sobra de feijão-verde e uma colherada de purê de batatas. Ao colocar o prato no micro-ondas, ela sentiu a raiva e a mágoa aumentarem enquanto apertava os botões. Quando as crianças eram pequenas, Steve trabalhava como vendedor numa loja de autopeças, e se interessava por tudo o que a família havia feito em sua ausência. Queria ver todos os desenhos e lia os boletins dos filhos. Fazia algazarra com Justin e carregava Jennifer e Jessica nas costas pela casa toda e pelo quintal.

Ria das histórias tolas que elas contavam e ouvia os planos de Brenda para o fimde semana ou para as próximas férias escolares. Steve, porém, não fez caso das cadeiras cor-de-rosa e amarelas que ela havia pintado em forma de xadrez para a sala de jantar. A pintura em xadrez era muito complicada — faixas de tamanhos variados de cor brilhante, num sentido e no outro. Ele não tinha ideia de quanto era difícil pintar. Quem se interessaria pelas complexidades do xadrez? Steve não notaria que as cadeiras da sala de jantar combinavam com os guardanapos e os apoios de pratos que ela costurou. Nem que combinavam com as novas capas para os móveis da sala de estar. — Cor-de-rosa? — ele disse quando finalmente olhou para o sofá com sua linda estampa de rosas, heras, grades e borboletas. — Bem… acho que posso aprender a conviver com isso. Aprender a conviver com isso? Que tipo de comentário era aquele? — Não era mesmo Jesus. A voz na cozinha fez Brenda parar de respirar. Ela virou-se e viu o estranho de cabelos longos a menos de 1,5 metro de distância. Rastros de lama dos tênis dele marcavam todo o caminho da sala de estar até a escada do porão. A porta de vidro corrediça. A tela destrancada. Brenda agarrou a faca que usara para cortar o bolo. — Eu lhe disse para esperar no balanço da varanda! Ele afastou-se e levantou as mãos. — Calma! Você está brava comigo? — Vá para fora. Saia daqui. Já! — Porque eu andei em volta da casa pra ver se via Jesus, e ele não estava lá. Não era ele mesmo, e sabe como eu descobri? — Cody, não quero que você fique aqui na cozinha. Saia e espere lá fora. Eu estou mandando. — Não era Jesus. Era eu. — Ele sorriu, com os farelos de bolo ainda entre os dentes.

— A porta parecia um espelho. Quando olhei no porão, pensei que era Jesus, mas era eu. Era eu no vidro, como um espelho. Você viu? Eu fiquei confuso com a minha barba e os cabelos compridos. Era eu, não Jesus. Que engraçado! — Não é engraçado você ter entrado em minha casa sem pedir licença. Saia daqui neste minuto. — OK. — Ele olhou para o chão e deu meia-volta. — Achei que você podia me dar outro pedaço de bolo de chocolate, mesmo sabendo que Jesus não mora no porão. — Eu vou lhe dar um pouco de comida… e bolo… se você sair daqui. — Aqui está mais quente. — Mas você não pode ficar. Não foi convidado. — OK. — Cody deu de ombros, saiu arrastando os tênis enlameados pela cozinha e atravessou o vestíbulo. — Você é a cristã mais educada que conheço. E é a única mulher que tem um gato cor-derosa. — Um gato cor-de-rosa? — Brenda caminhou atrás dele segurando o prato de comida quente, abriu a porta e empurrou-o levemente em direção à varanda. Estava frio lá fora. — Para seu conhecimento, meu gato é cinzento. Venha, pegue isto — ela ordenou, entregando-lhe o prato. Em seguida, apanhou a vela que deixara no tapete, entrou e voltou a trancar a porta. Enquanto Cody se sentava no balanço da varanda para comer a refeição, Brenda desceu a escada correndo e trancou a porta de vidro corrediça. Ao virar-se para voltar, ela viu algo que não havia notado quando desceu a escada.

Rastros de lama misturados com marcas cor-de-rosa de patas cobrindo o piso do porão. E em cima da mesinha de café, onde seus três filhos costumavam apoiar os pés para ver televisão, estava sentada uma criatura infeliz e cor-de-rosa — um gato. Charlie Moore tiritava de frio quando passou pela casa dos Hansens, dirigindo seu carrinho de golfe. Com a energia elétrica restabelecida em Deepwater Cove e todos os vizinhos sãos e salvos, ele estava ansioso por chegar em casa e ver Esther. Antes de Charlie sair para sua ronda naquela noite, Esther lhe entregara uma garrafa térmica com água — fria, é claro, porque, em razão da falta de energia elétrica, ela não pôde preparar o café. Além da água, ela colocara alguns de seus famosos docinhos de lascas de chocolate dentro de uma sacola. Não sobrara nada! “Uma caneca de chocolate quente cairia muito bem”, Charlie pensou. Esther sempre mantinha o fogão ligado e a água aquecida, aguardando sua chegada. Ele pediria dois marshmallows, apesar de saber que estaria infringindo as regras de seu regime de diabetes. Esther não lhe negaria os marshmallows porque sabia que ele estava a ponto de congelar de frio. Além do mais, se um homem não pudesse comer marshmallows com chocolate quente, que sentido a vida teria? — Ora, ora, que coisa estranha… — Charlie murmurou quando chegou ao topo da Sunnyslope Lane em seu carrinho de golfe. Pisou no freio, engatou a marcha à ré, olhou por cima do ombro e desceu a ladeira. Havia um homem sentado na varanda da casa de Steve Hansen. Ele estava com um prato na mão, comendo alguma coisa, e dava impulsos tão fortes no balanço de vime que, pelo jeito, poderiamcausar o desabamento da varanda. Satisfeito por ter decidido deixar seu cão, Boofer, em casa, Charlie estacionou o carrinho de golfe ao lado de um grande arbusto lilás que começava a perder as folhas. Notou imediatamente que a pessoa sentada no balanço não era Steve Hansen. Steve tinha cabelo escuro, cortava-o regularmente e barbeava-se todos os dias. Nos últimos tempos, andava de terno e gravata, porque estava sempre dirigindo seu carro, a trabalho, ao redor do lago a fim de mostrar as casas de sua corretora imobiliária disponíveis. Ganhara alguns quilos na cintura, mas quem ficaria a salvo disso com o passar dos anos? O sujeito na varanda era esquelético como um velho gato de rua. Usava uma camiseta amarela como nome de uma marca de cereais impressa na frente, em negrito. Tinha barba marrom e cabelos compridos e embaraçados. Charlie teria cogitado em ir para casa e pegar sua arma se o homem não tivesse uma expressão tão simplória no rosto, balançando as pernas como se fosse um garoto. Charlie abriu rapidamente o porta-luvas do carrinho de golfe e pegou uma lata de spray de pimenta. Um carteiro devia estar prevenido o tempo todo, em qualquer circunstância. Colocou a lata no bolso e pisou com todo o cuidado na rua molhada.

Enquanto Charlie caminhava em direção à casa de Hansen, o homem no balanço ergueu a cabeça. — Oi, o meu nome é Cody! — ele gritou. — Você sabia? Ela tem bolo de chocolate em casa! Cortado em quadrado, não em triângulo. Ressabiado e com os ombros tensos como se estivesse enfrentando um cão rosnando, Charlie subiu os degraus da varanda. — A noite está fria para andar sem agasalho — ele comentou, mantendo um tom de voz natural. Ao ver que o estranho não esboçou nenhuma reação, Charlie perguntou: — Steve Hansen está em casa? — O meu nome é Cody! — O homem barbudo parou de balançar e mostrou-lhe o prato vazio. —Veja. Comi frango com batata e feijão-verde. E bolo de chocolate. Comi dois pedaços, por isso você deve saber o que isso significa. Charlie segurou com força a lata de spray de pimenta no bolso. — Não. O que significa? — Significa que ela é cristã. Porque o meu papai me disse que, quando a gente está com fome, qualquer um pode dar comida pra nós, mas só um cristão dá bolo de chocolate também. — Claro. — Aquele sujeito devia ter problemas mentais. Qualquer um notaria pelo seu jeito de ser. Mas seria ele perigoso? — Quem lhe deu o bolo? — Ela — respondeu o homem apontando para a porta da frente da casa dos Hansens. — Jesus não está no porão, mas ela é cristã. — E daí? Bem, acho melhor dar uma espiada. Quero ter certeza de que ela está bem depois dessa grande tempestade.

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