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Acqua alta – Donna Leon

Reinava a tranquilidade doméstica. Flavia Petrelli, a grande diva do Scala, estava em pé na cozinha aquecida picando cebolas. Uma porção de tomates italianos, dois dentes de alho finamente fatiados e duas berinjelas bojudas formavam pequenos montes diante dela. Parada em frente ao balcão de mármore, inclinada sobre os legumes, ela cantava, enchendo o recinto com as entonações douradas de sua voz de soprano. De vez em quando, afastava uma mecha de cabelo com as costas do pulso, mas, apenas ancorada atrás da orelha, a mecha se soltava e caía de novo sobre seu rosto. Na outra extremidade da vasta sala que ocupava quase todo o andar superior do palazzo veneziano do século XIV, Brett Lynch, dona do apartamento e amante de Flavia, esparramava-se no sofá bege, os pés descalços apoiados no braço afastado do móvel, a cabeça repousando no outro, seguindo a partitura de I puritani, cuja música estrondeava — os vizinhos que se danassem — de dois altofalantes montados sobre pedestais elevados de mogno. A música inundava toda a sala, e a cantante Elvira quase enlouquecia — pela segunda vez. Misteriosamente, a voz de duas Elviras ecoava pela sala: a primeira, a que Flavia havia gravado em Londres cinco meses antes e que agora saía pelos alto-falantes; a segunda, a voz da mulher que picavas cebolas. Às vezes, quando cantava em perfeita sincronia com sua própria voz gravada, Flavia parava para perguntar: “Báá, quem disse que eu tinha um registro médio?” ou “Os violinos estão pretendendo tocar um si bemol?”. Depois de cada interrupção, sua voz voltava à música, e suas mãos, às cebolas. À sua esquerda, uma grande frigideira repousava em fogo baixo, uma poça de azeite de oliva esperando os primeiros legumes. Quatro andares abaixo, a campainha da porta soou. “Eu atendo”, disse Brett, pousando a partitura no chão e levantando-se. “As testemunhas de Jeová com certeza. Elas aparecem nos domingos.” Flavia fez que sim com a cabeça, afastou do rosto um cacho de cabelo escuro com as costas da mão, e voltou a atenção para as cebolas e o delírio de Elvira, em meio ao qual continuou a cantar. Descalça, satisfeita com a temperatura do apartamento naquela tarde de fim de janeiro, Brett atravessou o piso lustroso e saiu para o hall de entrada, onde pegou o receptor do interfone pendurado ao lado da porta e perguntou: “Chi è ? ”. Uma voz de homem respondeu em italiano: “Somos do museu. Com papéis do dottor Semenzato”. Estranho o diretor do museu do Palácio dos Doges enviar papéis, especialmente num domingo, mas talvez ele tivesse se alarmado com a carta que Brett lhe enviara da China — embora não tivesse sido essa a impressão que ele dera no início da semana — e quisesse que alguma coisa fosse lida antes do encontro que aceitara, a contragosto, agendar para a terça-feira de manhã. “Tragam aqui em cima, por favor. Último andar.” Brett recolocou o aparelho no gancho e apertou o botão que abria a porta quatro andares abaixo, depois caminhou até a porta e chamou Flavia por cima dos violinos plangentes. “Alguém do museu. Papéis.


” Flavia anuiu com a cabeça, pegou a primeira berinjela e cortou-a pela metade. Depois, sem perder um compasso, voltou ao assunto sério de perder o juízo por amor. Brett andou em direção à entrada do apartamento, parou para endireitar o canto do tapete, e abriu a porta. Passos se aproximavam vindos de baixo, e dois homens apareceram, parando no patamar abaixo do último lance de degraus. “Só faltam dezesseis”, disse Brett, sorrindo amigavelmente para eles, e então, tomando consciência, de repente, do ar gelado e cortante do poço da escada, cobriu um pé descalço com o outro. Eles ficaram um instante imóveis, olhando para a porta aberta. O primeiro carregava um grande envelope de papel-manilha. Ainda pararam um pouco antes do lance final, e Brett tornou a sorrir, falando para encorajá-los: “Forza”. O primeiro, baixo e loiro, devolveu o sorriso e começou a subir os últimos degraus. Seu companheiro, mais alto e moreno, respirou fundo e o acompanhou. Quando o primeiro chegou à porta, parou para esperar o outro. “Dottoressa Lynch?”, perguntou o loiro, pronunciando seu sobrenome à maneira italiana. “Sim”, ela respondeu, recuando da porta para lhes dar passagem. Educadamente, ambos murmuraram “Permesso” ao entrar no apartamento. O primeiro, que tinha o cabelo claro cortado bem rente à cabeça e atraentes olhos escuros, estendeu o envelope. “Estes são os papéis, dottoressa.” Enquanto os entregava, disse: “O dottor Semenzato pediu que a senhora os examine imediatamente”. Muito suave, muito polido. O alto sorriu e se virou, distraído por umespelho pendurado à esquerda da porta. Ela abaixou a cabeça e começou a abrir a aba do envelope, fechada com lacre vermelho. O loiro se aproximou um pouco mais de Brett, como se fosse tirar o envelope de suas mãos para ajudá-la a abri-lo, mas, de repente, passou rapidamente por ela e agarrou-a por trás com muita força. O envelope caiu, ricocheteou nos pés descalços de Brett e pousou entre ela e o segundo homem. Ele o afastou com o pé, como que cuidadoso com o seu conteúdo, e aproximou-se mais pela frente dela. Enquanto ele se deslocava, o outro aumentou a pressão dos braços. O alto abaixou o rosto de sua altura considerável e disse, com voz baixa e muito grave: “Você não quer manter aquele encontro com o dottor Semenzato”.

Brett sentiu ódio antes de sentir medo, e falou pelo primeiro. “Me larguem. E saiam daqui.” Ela se contorceu ferozmente na tentativa de se libertar, mas o homem aumentou a pressão das mãos, prendendo os braços dela em seus flancos. Atrás dela, o volume da música aumentou e a voz duplicada de Flavia encheu o recinto. Ela dominava a passagem com tanta perfeição que ninguém diria que eram duas vozes e não uma cantando dor, amor e perda. Brett pensou em virar o rosto para a música, mas, de vontade própria, interrompeu o movimento e perguntou, dirigindo-se ao homem à sua frente: “Quem são vocês? O que querem?”. A voz do sujeito mudou, assim como o seu rosto; ambos se tornaram agressivos: “Não faça perguntas, sua vagabunda”. De novo, ela se contorceu para se libertar, mas era impossível. Apoiando o peso num pé, ela deu um chute para trás com o outro, mas não causou o menor efeito no homem que a segurava. De trás dela, ouviu o homem dizer: “Tudo bem. Manda”. Ela estava virando a cabeça para encará-lo quando recebeu o primeiro murro, que a atingiu no centro do estômago. A dor súbita, explosiva, a lançou para a frente com tanta força que ela quase escapou do homem que a retinha, mas ele a puxou de volta e a sacudiu para colocá-la em pé. O que estava na sua frente a esmurrou de novo, dessa vez acertando-a embaixo do seio esquerdo, e ela reagiu com o mesmo movimento involuntário que atirava seu corpo para a frente para se proteger da dor terrível. Em seguida, rapidamente, tanto que ela perdeu a conta de quantas vezes, ele começou a esmurrar seu corpo, atingindo-a seguidas vezes nos seios e nas costelas. Atrás dela, as vozes de Flavia cantavam agora o futuro feliz que ela almejava, de em breve ser a noiva de Arturo, e aí ele a atingiu na lateral da cabeça. Sua orelha direita zuniu, e ela só conseguia ouvir a música com a esquerda. Brett só tinha consciência de uma coisa — não podia emitir nenhum ruído. Não podia gritar, berrar, gemer. As vozes sopranos se fundiam atrás dela, exultantes de alegria, e seu lábio se partiu sob o punho do homem. O sujeito que estava por trás soltou seu braço direito. Não havia mais necessidade de contê-la, mas ele manteve uma das mãos sobre o braço dela para mantê-la em pé e a obrigou a girar para ficar de frente para ele. “Não compareça ao encontro com o dottor Semenzato”, disse ele, a voz ainda muito baixa e polida. Mas ela já se afastara, e não escutava mais o que ele dizia, vagamente consciente da música e da dor, e do obscuro pavor de que aqueles homens poderiam matá-la.

Sua cabeça pendeu, e ela via apenas os pés deles. Ela sentiu o mais alto fazer um movimento brusco na sua direção, e foi tomada por um calor nas pernas e no rosto. Tinha perdido o controle de seu corpo e pôde perceber o cheiro forte da própria urina. Sentindo gosto de sangue, ela o viu pingar no chão e se esparramar sobre os sapatos dos homens. Ela pendia entre eles, pensando somente que não podia fazer nenhum som e desejando apenas que eles a deixassem cair, a deixassem se encolher para abrandar a dor que vinha de todas as partes do corpo. De repente, enquanto isso acontecia, a voz dupla de Flavia Petrelli encheu o recinto com os sons de alegria sobrepondo-se às vozes do coro e do tenor, seu doce amado. Com um esforço maior do que já aplicara a qualquer coisa em sua vida, Brett levantou a cabeça e encarou o homem alto, agora parado bem na frente dela. Ele dirigiu-lhe um sorriso íntimo como o de um amante. Lentamente, ele estendeu a mão em concha, segurou o seio esquerdo dela, apertando comsuavidade, e sussurrou: “Quer um pouco mais, cara ? É melhor com um homem”. A reação de Brett foi inteiramente involuntária. Seu punho atingiu o rosto dele de raspão sem causar o menor dano, mas o movimento brusco a libertou da mão do outro. Ela caiu de costas contra a parede e teve consciência, de maneira incorpórea, da sua solidez de encontro a suas costas. Ela desabou, sentindo o suéter sendo puxado para cima pela textura áspera da parede de tijolo. Muito, muito lentamente, como num filme em câmara lenta, afundou contra a parede, que arranhava sua carne enquanto a gravidade puxava todo o seu corpo para baixo. As coisas foram ficando muito confusas. Ela ouviu a voz de Flavia cantando a cabaletta, mas aí ouviu a outra voz de Flavia, não mais cantando, mas gritando enfurecida: “Quem são vocês? O que estão fazendo?”. “Não pare de cantar, Flavia”, ela tentou dizer, mas não conseguiu se lembrar de como fazê-lo. Ela desabou no chão, a cabeça inclinada para a entrada da sala de visitas, onde via a Flavia real delineada contra a luz do outro cômodo, ouvia o mesmo contorno de música gloriosa que se esparramava com ela e vislumbrava a grande faca de picar na mão de Flavia. “Não, Flavia”, ela sussurrou, mas ninguém ouviu. Flavia se lançou através do espaço que a separava dos dois homens. Tão surpresos quanto ela, eles não tiveram tempo de reagir, e a faca cortou o braço erguido do mais baixo. Ele uivou de dor e recolheu o braço, cobrindo o ferimento com a outra mão. O sangue se espalhou pelo tecido da sua jaqueta. Outra cena congelada. O mais alto disparou então na direção da porta ainda aberta.

Flavia puxou a faca para a altura do seu quadril e deu dois passos na direção dele. O ferido a chutou com o pé esquerdo, acertando-a no lado do joelho. Ela caiu, mas pousou de joelhos, a faca ainda puxada para trás ao seu lado. Se houve alguma comunicação entre os dois homens, foi absolutamente silenciosa, porém, no mesmo instante, ambos dispararam para a porta. O alto fez uma pausa apenas suficiente para apanhar o envelope, mas Flavia, ajoelhada, atacou sua mão com a faca, e ele recuou, largando-o no chão. Flavia se levantou e correu alguns passos atrás deles, mas parou e voltou ao apartamento, fechando a porta atrás de si com um chute. Ela se ajoelhou ao lado da forma inerte da outra mulher. “Brett, Brett”, chamou, olhando para ela. A metade inferior do rosto de Brett estava estriada pelo sangue que escorria de seu nariz, de seus lábios e de um pequeno corte no lado esquerdo da sua testa. Ela jazia com um joelho dobrado embaixo do corpo, o suéter arregaçado até o queixo, os seios expostos. “Brett”, disse Flavia de novo — e por um momento acreditou que a mulher completamente imóvel estivesse morta. Ela afastou rapidamente essa ideia e encostou a mão no lado da garganta de Brett. Com a lentidão da aurora numa manhã brumosa de inverno, um olho se abriu, depois o outro, mas, começando a inchar, ele só conseguiu abrir pela metade. “Stai bene? ”, perguntou Flavia. A única resposta que ouviu foi um gemido fraco. Mas era uma resposta. “Vou buscar ajuda. Não se preocupe, cara. Eles não vão demorar.” Ela correu para telefone no outro cômodo. Por um segundo, não percebeu o que a impedia de pegar o aparelho, mas então notou a faca ensanguentada, sua mão crispada em volta do cabo. Ela a deixou cair no chão e pegou o telefone. Com dedos ágeis, digitou 113. Dez toques depois, uma voz de mulher respondeu e perguntou o que ela queria. “É uma emergência.

Preciso de uma ambulância. Em Cannaregio.” Entediada, a voz perguntou o endereço exato. “Cannaregio 6134.” “Sinto muito, signora. É domingo e só temos uma ambulância. Vou ter de colocar seu nome na lista.” A voz de Flavia aumentou. “Tem uma mulher ferida aqui. Alguém tentou matá-la. Ela precisa ir para o hospital.” A voz adquiriu um tom de paciência cansada. “Já expliquei, signora. Só temos uma ambulância, e há dois chamados na fila. Assim que estiver livre, eu a enviarei a seu endereço.” Quando não obteve resposta de Flavia, a voz perguntou: “Signora, ainda está aí? Pode me dar o endereço de novo? Vou colocar seu nome na lista. Signora? Signora? ” Em resposta ao silêncio de Flavia, a mulher na outra ponta cortou a ligação, deixando Flavia com o receptor na mão, desejando ainda estar com a faca. Com as mãos tremendo, Flavia recolocou o receptor no aparelho e voltou para o hall. Brett continuava onde ela a deixara, mas de algum jeito tinha conseguido se virar de lado e jazia quieta, segurando um braço sobre o peito, gemendo. Flavia ajoelhou-se ao seu lado. “Brett, preciso chamar um médico.” Flavia ouviu um ruído abafado, e a mão de Brett veio lentamente ao encontro das suas. Seus dedos mal tocaram no braço de Flavia, e tombaram no chão. “Frio”, foi a única coisa que ela disse. Flavia se levantou e foi ao quarto de dormir.

Arrancou as cobertas da cama e as arrastou para o hall onde as estendeu sobre a forma imóvel no chão. Ela abriu a porta do apartamento sem se preocupar em espiar pelo visor para ver se os dois homens tinham voltado. Deixando a porta aberta atrás de si, desceu correndo dois lances de escada e bateu com força na porta do apartamento de baixo. Alguns instantes depois, a porta foi aberta por um homem de meia-idade, alto e careca, segurando um cigarro numa mão e um livro na outra. “Luca”, disse Flavia, ofegante, lutando com o impulso de gritar enquanto as coisas se arrastavam e ninguém vinha em socorro da sua amada. “Brett está ferida. Ela precisa de um médico.” De repente, sua voz embargou e ela estava soluçando. “Por favor, Luca, por favor, arranje um médico.” Ela agarrou seu braço, incapaz de falar. Sem dizer uma palavra, ele voltou para dentro do apartamento e apanhou suas chaves na mesa ao lado da porta. Largou o livro no chão, fechou a porta atrás de si e desapareceu escada abaixo antes que Flavia pudesse dizer alguma coisa. Flavia subiu os degraus de dois em dois até o apartamento. Olhou para baixo e viu que uma pequena poça de sangue tinha se formado sob o rosto de Brett, uma mecha de seu cabelo flutuando sobre a superfície. Anos antes, ela tinha lido ou tinham lhe contado que pessoas em choque deveriam ser mantidas acordadas, e que era perigoso elas dormirem profundamente. Então tornou a se ajoelhar ao lado da amiga e a chamou. Agora, um olho estava fechado pelo inchaço, mas, ao som do seu nome, a americana abriu o outro, apenas uma fenda estreita, e olhou para Flavia sem dar sinal de reconhecê-la. “O Luca já saiu. O médico vai estar aqui num minuto.” Lentamente, o olho pareceu sair de foco, depois se recompôs para olhar para ela. Flavia se agachou mais. Afastou o cabelo do rosto de Brett, sentindo o sangue escorrer por entre seus dedos. “Tudo vai ficar bem. Eles voltarão num minuto, e você vai ficar bem. Tudo vai ficar bem, querida.

Não se preocupe.” O olho fechou, abriu, se perdeu na distância, depois retornou o foco. “Ferida”, ela murmurou. “Está tudo bem, Brett. Vai ficar tudo bem.” “Ferida.” Flavia permaneceu ajoelhada ao lado da amiga, olhando fixamente para seu olho, desejando que ele ficasse aberto e focado, e continuou murmurando coisas que, no futuro, ela não se lembraria de ter dito. Algum tempo depois, ela começou a chorar, mas não teve consciência disso. Ela viu a mão de Brett, meio oculta pelas cobertas, pegou-a, segurou-a suavemente, como se fosse feita das mesmas plumas que as cobertas que a envolviam. “Tudo vai ficar bem, Brett.” De repente, ela ouviu o som de passos e vozes altas vindo de baixo. Por um instante, ocorreu-lhe que poderiam ser os dois homens que voltavam para acabar o que fosse que tivessem vindo fazer. Ela se levantou e foi até a porta na esperança de conseguir fechá-la a tempo, mas quando olhou viu o rosto de Luca e, atrás dele, um homem de jaleco branco com uma maleta preta na mão. “Graças a Deus”, ela disse, e ficou surpresa de perceber que queria dizer aquilo mesmo. Atrás dela, a música parou. Elvira finalmente se reunira ao seu Arturo, e a ópera chegara ao fim. 2 Flavia recuou para dar passagem aos dois homens. “O que é isso? O que aconteceu?”, perguntou Luca, olhando para o amontoado de cobertas no chão e o que elas cobriam. “Dio mio”, disse ele, involuntariamente, e se curvou em direção a Brett, mas Flavia o conteve com o braço estendido e o puxou de lado, abrindo espaço para o médico se aproximar da mulher caída. O médico se inclinou sobre ela, estendeu a mão e auscultou sua pulsação no pescoço. Sentindo-a lenta, mas forte, puxou as cobertas para ver a extensão dos ferimentos. O suéter dela estava amontoado numa maçaroca manchada de sangue embaixo da garganta, expondo as costelas e o torso. Sua pele estava vermelha e lanhada em alguns lugares, e começava a ficar lívida e escura. “Signora, pode me ouvir?”, perguntou o médico. Brett fez um ruído; palavras eram difíceis demais agora.

“Signora, vou movê-la, apenas um pouco, para poder ver o que aconteceu.” Ele fez um gesto para Flavia, que se ajoelhou do outro lado da mulher imóvel. “Segure os ombros dela. Preciso endireitar as pernas.” Ele estendeu as mãos e pegou a perna esquerda de Brett pela panturrilha, esticando-a, e depois fez o mesmo com a direita. Lentamente, ele a virou de costas, e Flavia abaixou o ombro dela até o chão. Tudo isso reverberou por Brett como uma nova onda de dor, e ela gemeu. Virando-se para Flavia, o médico disse: “Arranje uma tesoura”. Solícita, Flavia foi até a cozinha e pegou uma tesoura num pote de cerâmica florida sobre o balcão. Enquanto estava ali, ela sentiu o calor que irradiava do azeite de oliva, ainda sobre a boca do fogão, assobiando para ela. Apagou a chama e voltou até o médico. Ele pegou a tesoura e cortou o suéter ensanguentado, e em seguida o puxou do corpo de Brett. O homem que a tinha espancado usava um anel pesado no dedo anular da mão direita, e este tinha deixado sinais, pequenas impressões circulares que se destacavam da pele lívida ao redor. O médico se curvou de novo sobre ela, e disse: “Signora, por favor abra os olhos”. Brett se esforçou para obedecer, mas só conseguiu que um deles se abrisse. O médico tirou uma pequena lanterna da maleta e apontou a luz para a pupila da paciente, que se contraiu, e fez com que o olho fechasse involuntariamente. “Bom, bom”, disse o médico. “Agora quero que mexa a cabeça um pouco, só um pouquinho.” Embora lhe custasse um grande esforço, Brett conseguiu fazê-lo. “E agora a boca. Consegue abrir?” Quando ela tentou fazê-lo, ofegou de dor, um som que empurrou Flavia contra a outra parede. “Agora vou tocar suas costelas, signora. Diga-me quando doer.” Cuidadosamente, ele apalpou as costelas. Por duas vezes, ela gemeu.

Ele pegou um pacote de gaze cirúrgica na maleta e o abriu. Umedeceu a gaze num frasco de antisséptico e lentamente começou a limpar o sangue das faces de Brett. Assim que o enxugou, mais sangue escorreu das narinas e do corte aberto em seu lábio inferior. Ele fez um sinal para Flavia, que se ajoelhou ao seu lado. “Tome, mantenha isso nela e não a deixe se mexer.” Ele entregou a ela a gaze ensanguentada, e ela fez o que ele pedira. “Onde fica o telefone?”, perguntou o médico. Acenando com a cabeça, Flavia indicou a sala de visitas. O médico desapareceu pela porta, e Flavia pôde ouvi-lo discando e depois falando com alguém no hospital, requisitando uma maca. Por que ela não tinha pensado nisso? A casa ficava tão perto do hospital que eles nem precisariam de uma ambulância. Luca hesitou um pouco, olhando a mulher ferida, até que finalmente se abaixou e puxou as cobertas para aquecê-la. O médico voltou e agachou-se ao lado de Flavia. “Eles vão chegar num instante.” Ele olhou para Brett. “Não posso lhe dar nada para a dor até eles tirarem os raios X. Está doendo muito?” Para Brett, não havia nada além de dor. O médico percebeu que ela estava tremendo e perguntou: “Não há mais cobertas?”. Ouvindo isso, Luca foi até o quarto de dormir e voltou com um edredom que ele e o médico estenderam sobre ela, embora isso não parecesse ter ajudado em nada. O mundo ficara frio, e tudo que ela sentia era frio e uma dor crescente. O médico se ergueu e virou para Flavia: “O que aconteceu?”. “Não sei. Eu estava na cozinha. Eu saí, e ela estava no chão, desse jeito, e havia dois homens.” “Quem eram?”, perguntou Luca. “Não sei.

Tinha um alto e um baixo.” “O que aconteceu?” “Fui para cima deles.” Os homens trocaram um olhar. “Como?”, perguntou Luca. “Eu tinha uma faca. Estava cozinhando. Quando saí da cozinha, ainda estava com a faca, e quando os vi não pensei. Simplesmente fui para cima deles. Eles dispararam pela escada.” Ela balançou a cabeça, desinteressada daquilo tudo. “Como ela está? O que eles fizeram?” Antes de responder, o médico se afastou alguns passos de Brett, embora ela estivesse longe demais para ouvir ou compreender as suas palavras. “Ela tem umas costelas quebradas e alguns cortes feios. E acho que seu maxilar pode estar quebrado.” “Oh, Gesù”, disse Flavia, batendo a mão na boca. “Mas não há sinais de concussão. Ela reage à luz e compreende o que lhe digo. No entanto, precisamos fazer os raios X.” Enquanto ele falava, eles ouviram vozes vindas de baixo. Flavia ajoelhou-se ao lado de Brett. “Eles estão vindo agora, cara. Vai ficar tudo bem.” Tudo que ela pôde pensar em fazer foi colocar a mão sobre as cobertas em cima do ombro de Brett, e deixá-la ali, esperando que seu calor passasse para a mulher abaixo. “Vai ficar tudo bem.” Dois homens de jaleco branco apareceram na porta, e Luca acenou para eles entrarem no apartamento. Eles tinham deixado a maca quatro lances de escada abaixo, perto da porta de entrada, como era quase sempre necessário em Veneza, e em vez dela tinham trazido a cadeira de vime que usavam para transportar doentes pelas escadas estreitas e sinuosas da cidade.

Ao entrar, olharam para o rosto coberto de sangue da mulher que jazia no chão como se estivessem acostumados a ver coisas assim todo dia, e provavelmente estavam. Luca retirou-se para a sala de visitas, e o médico recomendou que fossem cuidadosos ao pegá-la. Enquanto isso, tudo o que Brett sentia era o abraço forte da dor. Ela lhe chegava de todo o corpo, do peito que enrijecera e fazia de cada respiração uma agonia, dos próprios ossos que constituíamseu rosto, e das costas, que queimavam. Às vezes ela podia sentir partes estanques de dor, mas então elas se fundiam e fluíam por ela, misturando-se e obscurecendo tudo que não fosse dor. Depois, ela se lembraria de apenas três coisas: a mão dos médicos sobre ela, um toque que se transformou numclarão branco em seu cérebro; a mão de Flavia sobre o seu ombro, único calor naquele mar de frio; e o momento em que os homens a levantaram do chão, quando ela gritou e desmaiou. Horas depois, quando acordou, a dor ainda estava lá, mas Brett podia sentir que algo a mitigara. Ela sabia que qualquer movimento, mesmo que apenas milimétrico, faria com que ela voltasse e ficasse ainda pior, por isso ficou deitada absolutamente imóvel, tentando sentir cada parte do corpo para ver onde o pior da dor despontava, mas antes de poder ordenar que sua mente começasse, foi tomada pelo sono. Mais tarde, já acordada, tornou a ordenar que a mente explorasse várias partes do seu corpo, dessa vez com mais cautela. A dor ainda estava controlada, e já não parecia que um movimento seria tão perigoso. Ela se concentrou nos olhos e tentou determinar o que havia além deles, luz ou escuridão. Não conseguiu saber, e deixou a mente vagar, descendo pelo rosto, onde a dor espreitava, depois para as costas, que latejavam, e então para as mãos. Uma estava fria, a outra, quente. Ela ficou imóvel durante o que lhe pareceram horas e pensou o seguinte: como uma mão podia estar fria e a outra quente? Ficou deitada em silêncio por uma eternidade analisando o enigma. Uma quente e uma fria. Ela decidiu que as moveria para ver se isso faria diferença, e, uma eternidade depois, começou. Tentou fechar os punhos e conseguiu movê-las apenas de leve. Mas isso bastou — a que estava quente se viu envolvida num calor maior e por uma leve pressão de cima e de baixo. Ela ouviu uma voz, uma voz que sabia que era familiar, mas não conseguia reconhecer. Por que essa voz estava falando em italiano? Ou seria chinês? Ela compreendia o que a voz dizia, mas não conseguia se lembrar de que língua era. Ela mexeu a mão novamente. Como fora agradável aquela resposta cálida. Tentou de novo, e ouviu a voz respondendo, sentiu o calor. Oh, como aquilo era mágico. Havia falas que ela compreendia, havia calor, uma parte de seu corpo estava sem dor.

Reconfortada por isso, tornou a adormecer. Ela finalmente recuperou a consciência e percebeu por que uma mão estava quente e uma fria. “Flavia”, ela disse, mal conseguindo emitir um som. A pressão na sua mão aumentou. E o calor. “Estou aqui”, disse Flavia, a voz muito próxima dela. Sem saber como, Brett tinha consciência de que não poderia virar a cabeça para falar ou olhar para a amiga. Ela tentou sorrir, tentou dizer alguma coisa, mas uma força conservava sua boca fechada e a impedia de abri-la. Ela tentou gritar por ajuda, mas a força invisível mantinha sua boca fechada e não a deixava emitir nenhum som. “Não tente falar, Brett”, disse Flavia, aumentando a pressão em sua mão. “Não mexa a boca. Ela está amarrada com arame. Um dos ossos do seu maxilar está trincado. Por favor, não tente falar. Está tudo bem. Você vai ficar boa.” Era muito difícil compreender todas aquelas palavras. Mas o peso da mão de Flavia bastava, o som de sua voz foi suficiente para acalmá-la. Quando despertou, estava totalmente consciente. Ainda era necessário algum esforço para abrir os olhos, mas ela podia fazê-lo, pelo menos um deles. Ela suspirou de alívio por não precisar mais de astúcia para enganar seu corpo. Olhou em volta e avistou Flavia adormecida, curvada na cadeira, a boca entreaberta e a cabeça inclinada para trás. Seus braços pendiam dos dois lados da cadeira, deixando-a em completo abandono para dormir. Enquanto observava Flavia, Brett inspecionou mais uma vez o próprio corpo. Ela podia mover os braços e as pernas, mas era doloroso, de uma maneira generalizada, não específica.

Ela parecia estar deitada de lado, e suas costas doíam, uma dor forte, constante. Por fim, sabendo que isso era o pior, tentou abrir a boca e sentiu a terrível pressão interna sobre seus dentes. Estava amarrada com arame, mas podia mover os lábios. O pior era que a língua estava presa na boca. Ao tomar consciência disso, ela sentiu um verdadeiro pânico. E se ela tossisse? Sufocasse? Ela afastou violentamente esse pensamento. Se ela estava tão lúcida, então estava bem. Ela não via tubos saindo de sua cama, sabia que tudo funcionava naturalmente. Então a coisa não era tão ruim quanto poderia ser, e no fim das contas era suportável. Sim, até que era suportável. De repente, com um sobressalto, ela teve consciência da sede. Sua boca queimava, a garganta doía. “Flavia”, ela disse, a voz baixa, apenas audível, quase para si mesma. Os olhos de Flavia se abriram e ela olhou em volta quase em pânico, da maneira como fazia sempre que acordava abruptamente. Um instante depois, ela se inclinou para a frente na cadeira e trouxe seu rosto para perto do de Brett. “Flavia, estou com sede”, sussurrou. “Bom dia para você também”, Flavia respondeu, soltando uma risada de alívio, e Brett soube então que ia ficar boa. Virando-se, Flavia pegou um copo d’água na mesa atrás dela. Curvou o canudo de plástico e o inseriu com cuidado por entre os lábios de Brett para posicioná-lo no lado esquerdo, longe do corte inchado que repuxava sua boca para baixo. “Eu até mandei encherem de gelo do jeito que você gosta”, ela disse, segurando firme o canudo no copo enquanto Brett tentava sugar por ele. Seus lábios secos estavam selados, mas ela finalmente conseguiu abrir um canto, e a abençoada, bendita água gelada escorreu por seus dentes e sua garganta. Depois de alguns goles apenas, Flavia afastou o copo, dizendo: “Vai devagar. Espere um pouco, e depois você terá mais”. “Me sinto dopada”, disse Brett. “Você está, cara.

Uma enfermeira vem de tempos em tempos e lhe aplica uma injeção.” “Que horas são?” Flavia consultou seu relógio. “Quinze para as oito.” O número não significou absolutamente nada. “Manhã ou noite?” “Manhã.” “Que dia?” Flavia sorriu e respondeu: “Terça-feira”. “De manhã?” “É.” “Por que você está aqui?” “Onde esperava que estivesse?” “Milão. Você tem que cantar esta noite.” “É para isso que existem as substitutas, Brett”, disse Flavia, tranquilizadora. “Para cantar quando as cantoras principais adoecem.” “Mas você não está doente”, disse Brett, entorpecida pela dor e as drogas. “Não deixe que o diretor-geral do Scala te ouça dizer isso, senão você terá de pagar a multa por mim.” Era difícil para Flavia manter a voz leve, mas ela tentou. “Mas você nunca cancela.” “Bem, cancelei, e isso é tudo. Vocês anglo-saxões levam o trabalho muito a sério”, disse Flavia, com a voz artificialmente tranquila. “Quer um pouco mais de água?” Brett assentiu com a cabeça e imediatamente lamentou o movimento. Ela ficou parada por alguns instantes e fechou os olhos, esperando a onda de náusea e tontura passar. Quando abriu os olhos, viu Flavia inclinada sobre ela com o copo. De novo, provou o abençoado frescor, fechou os olhos, e devaneou por um momento. De repente, perguntou: “O que aconteceu?”. Preocupada, Flavia disse: “Não se lembra?”. Brett fechou os olhos por um instante. “Sim, me lembro.

Tive medo que eles a matassem.” Sua cabeça retiniu com a surda ressonância criada pelos dentes amarrados. Isso fez Flavia rir, consistente em sua bravata. “Sem chance. Acho que foram todas aquelas Toscas que eu cantei. Eu simplesmente parti para cima deles com a faca, e acertei o braço de um deles.” Ela agitou o braço no ar na sua frente, repetindo o gesto e sorrindo com a lembrança — Brett estava certa — da faca cortando o sujeito. “Queria ter matado ele”, disse Flavia com um tom de voz absolutamente normal, e Brett acreditou nela. “E depois?” “Eles correram. Aí eu desci pela escada e chamei o Luca, e ele saiu atrás do médico, e nós trouxemos você para cá.” Enquanto Flavia olhava, os olhos de Brett foram se fechando, e ela dormitou por alguns minutos, os lábios entreabertos, os arames de aço grotescamente visíveis. De repente, seu olho abriu num estalo e ela correu o olhar pelo quarto como que surpresa de se encontrar ali. Ela viu Flavia e se acalmou. “Por que eles fizeram isso?”, Flavia perguntou, exprimindo a pergunta que havia dois dias a perseguia. Um longo tempo transcorreu antes da resposta de Brett. “Semenzato.” “Do museu?” “É.” “Mesmo? O que foi que eles disseram?” “Não entendo.” Se pudesse balançar a cabeça sem dor, Brett o teria feito. “Não faz sentido.” Sua voz estava deformada pela pesada bugiganga que mantinha seus dentes cerrados. Ela pronunciou o nome Semenzato de novo e fechou os olhos demoradamente. Quando os abriu, perguntou: “O que temde errado comigo?”. Flavia estava preparada para essa pergunta e a respondeu sucintamente. “Duas costelas quebradas.

E seu maxilar está trincado.” “O que mais?” “Isso é o pior. Suas costas estão muito arranhadas.” Ela percebeu a confusão de Brett e explicou: “Você caiu de encontro à parede e raspou as costas contra os tijolos enquanto caía. E seu rosto está muito, muito roxo”, concluiu Flavia, tentando fazer graça. “O contraste faz os seus olhos ressaltarem, mas acho que não gosto do efeito geral.” “Está ruim assim?”, perguntou Brett, sem captar o tom de brincadeira. “Oh, não tão ruim”, disse Flavia, obviamente mentindo. Brett lançou-lhe um olhar demorado que obrigou Flavia a corrigir as coisas. “Você terá que ficar com as costelas enfaixadas, e também imobilizada durante uma semana, mais ou menos. Ele disse que não haverá danos permanentes.” Por ser essa a única boa notícia que tinha, ela completou o relatório dos médicos. “Eles tirarão os fios daqui a alguns dias. É uma fissura muito fina. E seus dentes estão bem.” Quando notou que isso não havia animado muito Brett, acrescentou: “E o seu nariz…”. Ainda nenhum sorriso. “Não ficarão cicatrizes no seu rosto quando ele desinchar, você vai ficar ótima.” Flavia não disse nada sobre as cicatrizes que permaneceriam nas costas de Brett, nem disse nada sobre quanto tempo demoraria para desaparecer o inchaço e as escoriações de seu rosto. De repente, Brett percebeu o quanto essa breve conversa a havia esgotado, e sentiu novas ondas de sono tomarem seu corpo. “Vá para casa um pouco, Flavia. Vou dormir e aí…” Sua voz foi emudecendo e, antes mesmo de terminar a frase, adormeceu. Flavia recostou-se na cadeira e estudou o rosto maltratado na cama à sua frente. As escoriações que se espalhavam pela testa e pelas bochechas tinham quase enegrecido no último dia e meio, e um olho continuava fechado pelo inchaço. O lábio inferior de Brett estava inchado acima e em torno do corte vertical, o que o deixava bem aberto.

Flavia fora impedida de permanecer na sala de emergência enquanto os médicos trabalhavam emBrett, limpando suas costas e enfaixando suas costelas. Tampouco lhe permitiram vê-los passar os finos arames entre os dentes para ligar os maxilares. Ela havia ficado perambulando pelos longos corredores do hospital, juntando seu medo aos dos outros visitantes e pacientes que caminhavam, se amontoavam no bar, captando a pouca luz que escorria para o pátio aberto. Andou de um lado para o outro por uma hora, e filou cigarros de três pessoas diferentes, os primeiros que fumava em mais de dez anos. Desde o entardecer de domingo, havia permanecido ao lado da cama de Brett, esperando que ela acordasse, e só havia voltado ao apartamento uma vez, no dia anterior, apenas para tomar uma ducha e dar alguns telefonemas, inventando uma falsa doença que a impediria de cantar no Scala naquela noite. Seus nervos estavam tensos pela falta de sono, o excesso de café, a vontade renovada de umcigarro e a película oleosa de medo que gruda na pele de todos que passam tempo demais dentro de um hospital. Ela olhou para sua amada e mais uma vez desejou ter matado o homem que fizera aquilo. Flavia Petrelli não entendia muito de remorso, mas havia muito pouco que não soubesse sobre vingança.

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