| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

Acucar Amargo – Luiz Puntel

Nem bem o sinal tocara, anunciando o término das aulas, os alunos da oitava A, do Colegião, em Catanduva, interior paulista, já estavam nas escadarias da escola. No meio do alarido de toda saída de alunos, alguém gritou o nome de uma garota. — Marta! Espere um pouco, Marta! A garota, cabelos curtinhos, pele morena, jeitinho bastante simpático, voltou-se. — O que foi, Carminha?— ela perguntou, em respostas — Não se esqueça da reunião de hoje à tarde. A turma vai se reunir pra pesquisa de história. Você vem, né? — Não vai dar pra voltar, Carminha… Você sabe que eu moro longe da cidade e… — Ih, é mesmo. Eu havia esquecido que você é fazendeira… — Fazendeira? Quem sou eu, Carminha! Meu pai toca fazenda à meia, arrendando um pedaço de terra… — Não precisa ficar chateada, né? — Mas eu não estou chateada, Carminha. Se fosse outra pessoa que me chamasse de fazendeira, talvez eu ficasse ofendida, mas você… — Então faz o seguinte, Marta! Eu não quero segurá-la mais, senão você perde seu ônibus… Você faz o resumo e eu e as meninas terminamos o resto. Combinado? — Combinado! — Então, está bem. Tchau, dona fazendeira… As duas riram, despedindo-se. Carminha afastou-se, enquanto Marta estendia o braço, dando sinal ao ônibus que se aproximava. Gesto inútil, na verdade. O motorista pararia de qualquer modo. Já estava acostumado comaquela passageira de todos os dias. — Oi, seu Tonho!— Marta foi cumprimentando. — Bom dia, menina, estudou muito? — É, já estamos na metade do ano. Agora as matérias começam a apertar. E oitava série, o senhor já viu, é difícil toda vida…— Marta sorriu, indo sentar-se em uma das poltronas. A rotina de Marta era aquela: bem cedinho, ela tomava o ônibus que vinha de Bebedouro, cidade próxima, com destino a Catanduva. A fazenda não ficava muito longe, o que facilitava seus estudos. Na frente do colégio, saltava. Quando as aulas terminavam, tomava o ônibus do meio-dia, retomando a casa. Naquele dia, Marta voltava despreocupada, pensando no que conversara com as amigas, na hora do recreio.


Mariana, uma delas, estava de paquera com um garoto da oitava B e o assunto era aquele: namorados. — Mas o Zé Geraldo é uma gracinha, não, gente? Mariana, entusiasmada, só falava nele. — Eu acho ele muito arrumadinho pro meu gosto…— Carminha opinou. — Como assim?— Mariana achou estranha aquela declaração. — O uniforme dele é o mais limpinho, o mais passadiço da escola. O sapato dele é o mais engraxadinho. Tudo nele tem que estar certinho, lustrosinho. Sei não… Luiz Puntel— Isso é inveja da grossa, não liga não— Eliana, outra amiga, veio em socorro. Mariana sorriu, levando na brincadeira, mas confessou: — Se meu pai fica sabendo, nem sei o que acontece. Ele já disse que, se me pegar de paquera com alguém, vai me levar pra casa puxando pelos cabelos. — Credo, Mariana! Idade da Pedra, agora!. — Lá em casa— Carminha comentou— , meu pai até que aprova. Só que tem que ser sob as vistas e a inspeção dele. — E você, Marta, não fala nada?— Mariana pediu a sua opinião. — Falar o quê? Meu pai já faz muito em me deixar estudar… — Pronto. Falou a caxias!— Eliana brincou. — A Marta só fala em estudo… — Se você tivesse o pai que eu tenho, Eliana. Ele vive reclamando que eu preciso aprender um ofício, que esse negócio de estudar é besteira… — Eu conheço o pai da Marta e dou razão a ela, gente — Carminha interferiu. — Ele é secão, bravão, sempre de cara fechada… — Vive reclamando que eu só ando grudada nos livros o dia todo, sem ajudar a mãe em nada… Se eu pensar em namoro, então… — Ele tem razão— Eliana voltou a considerar. — Você é muito caxias! — Caxias nada. Eu que não estude pra você ver. Vou ficar na beirada do fogão e do tanque a vida toda que nem a mãe. Meu pai é que é ranzinza e um casca-de-ferida mesmo. Assim Marta sempre definia o pai: ranzinza, um casca de ferida. E tinha motivos. Com ela, Pedro nunca fazia festa. Seus momentos de carinho, raros e espaçados, eram devotados ao filho mais velho, o Altair, o único que sobreviveu dos três homens que Zefa, a mãe, teve.

Embora Marta o definisse tão duramente, tinha que concordar que era ótimo lavrador, sabendo trabalhar a terra como ninguém. Na redondeza, ninguém obtinha do milho, do café e das outras culturas o que ele conseguia. Depois do Altair, o primogênito, Zefa teve mais dois filhos, que não vingaram. Finalmente, Marta foi a única que conseguiu sobreviver aos partos sempre difíceis de Zefa. Só que Marta, logicamente, era mulher. — Pois está na hora de você pensar em namorado, Marta – uma das meninas, a Eliana, falou. —Já está ficando com corpinho de moça… Marta ainda pensava, absorta, na conversa com as amigas, quando o cobrador lhe chamou a atenção: — Ei, mocinha! Já chegamos. Não vai descer? Marta deu um pulo da poltrona. — Minha nossa! Esqueci da vida… — Se eu não chamo, hein? Você ia descer lá em Bebedouro. Tomando os cadernos, Marta foi pedindo licença aos passageiros que lotavam o corredor do ônibus. — Desculpa pela demora, seu Tonho, eu estava distraída… — disse ao motorista. Da estrada, de dentro do ônibus, dava para avistar a casa de Marta, lá embaixo, do outro lado, no meio do cafezal. — Corre logo que tem visita na sua casa… — Tonho apressou-a. — É mesmo, seu Tonho. Está dando para ver. É o dono da fazenda— Marta reconheceu a camioneta estacionada na porta. Ao atravessar a rodovia, Marta sorriu satisfeita. Não apenas o fazendeiro estava lá, como também o Paulinho, seu filho. Andando pela estradinha de terra, Marta ia pensando na amizade de Paulinho. Sempre fora o seu amigo de todas as horas. Era com ele que gostava de brincar de casinha. — Faz assim, eu sou a mãe e você é o médico, tá? Faz de conta que a minha filhinha estava comfebre e você vinha consultar ela, lá? Tava. Tudo que Marta dizia, para Paulinho estava muito certo, tudo muito bom. Mas isso tinha sido há tempos, quando Marta era pequena. Ultimamente, pouco se viam, pouco se falavam.

Depois, Paulinho deixou as brincadeiras de lado, ficando diferente, mais distante. Mesmo assim, Marta andava com passas alegres, pois sabia que iria encontrá-lo. Mas, em uma das curvas do caminho, a camioneta passou por ela apressada, levantando poeira. Marta notou que o fazendeiro estava carrancudo, estranho. Nem a cumprimentou festivamente, como sempre fazia ao encontrá-la. E o pior é que Marta tinha certeza de que a vira. Ele e o Paulinho não poderiam ignorar a sua presença no caminho estreito da estradinha. 2 O TEMPO DE BRINCAR DE CASINHA PASSOU MESMO — Que será que aconteceu?— Marta perguntou, em voz alta, só obtendo a nuvem de poeira como resposta. Quando entrou em casa, o clima estava tenso. Sem fazer perguntas, porque o momento não era propício, Marta foi trocar de roupa. Ao se despir, Marta surpreendeu-se com o corpo de mulher, o seu, projetado no espelho do guarda-roupa. Mirou-se, admirando suas formas arredondadas. Realmente, já não era apenas uma menina sapeca. Não demorou muito em sua análise. Sua mãe chamava-a, dizendo que o almoço estava na mesa. A mesa, ninguém falava nada. Abriam a boca apenas para engolir a comida. Altair, Zefa e Pedro estavam de cabeça baixa, sem coragem de se entreolharem. Depois de segundos que pareceram longos minutos, Pedro — era a ele que cabia iniciar qualquer diálogo— foi taxativo: — Tem jeito, não, Zefa. É a gente ir se conformando com a desgraceira toda… — Conformar com o quê, pai?— Marta intrometesse onde não era chamada, querendo saber o que, afinal, estava acontecendo. — Vamos ter que dar o fora da fazenda— Altair respondeu no lugar do pai, sem rodeios. — Sair daqui? Mas como? — Mas como o que? Sair, sair… Pegar os trens todos e ganhar a estrada. Sair pelo mundo, menina!— Pedro respondeu, irritado. Já que não podia xingar o fazendeiro de todos os nomes feios que sabia, aproveitava a deixa de Marta — Mas eu é que tenho culpa?— Marta enfezou-se, enquanto servia-se de arroz e feijão. — Tem não, filha.

Mas seu pai lá nervoso. O doutor esteve aqui e disse que vai plantar cana… — Eu encontrei com ele na estrada. Estava com o Paulinho, né? Passou que nem boi bravo, levantando um poeirento. O Paulinho— Marta disse indignada — nem me abanou a mão. E pensar que a gente já brincou tanto de casinha… Marta deu uma garfada, pensou um pouco sobre o que a mãe acabara de dizer e perguntou: — Mas por causa da cana nós temos que ir embora? — Tá na escola, mas é burrinha… Mais burrinha que o jegue Torquato… — Altair reclamou, todo entendido. — Pois o tempo de brincar já acabou, menina. Eles vão alugar a fazenda para uma usina de cana. Derrubar toda a plantação e meter cana em cima… — Mas a gente pode ficar, não pode?— Marta voltou a insistir. — Pode não, menina. Vão plantar cana em tudo, até onde está a nossa casa, no curral velho lá embaixo, onde tem a horta. Em tudo… — Então, o que o professor falou hoje na classe não é tão bom assim? — E o que foi? — Pedro, que empurrara definitivamente o prato, sem fome, queria achar ummotivo para dizer que estudar era mesmo besteira. — Com o Proálcool, dentro em breve, não vamos precisar mais importar tanta gasolina. Da cana já estão tirando combustível pra abastecer boa parte da frota de veículos do país. —Marta repetiu tintim por tintim as palavras do professor. — Que mais?— Altair quis saber. — Ah, falou também que, assim, a gente vai pagar a dívida externa… — Vai sim. Vai pagar muito. Vai é arruinar todo lavrador, isso sim…— Altair desconversou. — O jeito, Zefa— Pedro retomou a conversa interrompida por Marta— , o jeito é a gente arrumar outra fazenda, ou então um sítio pra ir tocando… Não arrumaram. Outras fazendas também estavam plantando cana, muitos colonos sendo despedidos. 3 DE TUDO FICA UM-POUCO, COMO DIRIA O POETA DRUMMOND. MESMO QUE SEJA UM BEIJO ROUBADO — Tá tudo ai, Altair?— Pedro perguntou ao filho, que ajeitava a mudança em cima do caminhão. — Acho que tá, pai… — Então, vamos embora… Entrando na boléia do caminhão, onde Zefa e Marta já se achavam, Pedro ordenou ao motorista: — Pode tocar, seu Taíde. Quando o caminhão, carregando a diminuta mudança da família, começou a ganhar a estradinha, abandonando a fazenda, Zefa tentou voltar-se para olhar a casa, o cafezal, o curral lá embaixo, a horta tão carinhosamente cultivada. — Adianta não, Zefa.

Dá mais tristeza, mulher! O melhor é olhar pra frente, sempre. Olhar para frente. Marta sabia que o pai tinha razão. O que adiantava lembrar que ali ela nascera, ali crescera ali brincara de casinha com Paulinho, muito mais do que um amigo, umnamoradinho de infância? Marta fechou os olhos, procurando imaginar o passado. E, no passado, Paulinho era gentil, tratando com precisão científica as doencinhas de suas bonecas, curando febres, dores-de-barriga, gripes e resfriados. De outras vezes, Paulinho era o maridinho ideal, carinhoso, trocando as fraldas das bonecas, ajudando Marta nos estafantes afazeres domésticos. Marta jamais se esqueceria, por exemplo, do dia em que, brincando de casinha, Paulinho roubara-lhe um beijo, furtivo, apressado, apenas um roçar de lábios, mas um beijo de amor. Lembrando-se disso, Marta sorriu, levando a mão à boca, abrindo os olhos. E, olhando à frente, Marta viu não o rostinho bonito de Paulinho e a carinha de desculpas que ele fez, mas o caminho terminando na rodovia, levando-os para longe de Paulinho, do Colegião, das amigas, de Carminha, para longe de Catanduva, com destino a Bebedouro. O jeito era aquele mesmo: ir para Bebedouro. Já que em Catanduva estava difícil arrumar colocação, Pedro iria remediando, pelos lados de Bebedouro, cidade não muito distante, trabalhando na apanha da laranja, cuja safra estava no início. Com o tempo, encontraria novamente um sítio para trabalhar a terra. Enquanto isso não acontecia, a família de Marta foi morar na periferia da cidade; o pai e o irmão Altair trabalhando na colheita, como diaristas, os chamados bóias-frias. Saindo de madrugada para o trabalho, os dois tomavam um caminhão que ia sempre lotado, ficando ocupados o dia todo. Hoje estavam aqui, amanhã ali, sem destino certo. Passavam o dia inteiro assim, só retornando à tardinha, suados e cansados. — Vida mais besta essa!— Pedro sempre reclamava, ao sentar-se à mesa. — Hoje eu tô mais moído que bagaço de laranja chupada… — Altair completava. — Depois de velho, ter que largar a lavoura que eu mesmo plantei, pra virar bóia-fria, brigando por um lugar naquele quinhão lotado! — Caminhão? O senhor chama aquele mercedão caindo aos pedaços de caminhão, pai?— Altair comentava, em tom de troça. Para Marta, as coisas pioraram duplamente. Para quem estava acostumada a morar em fazenda, foi realmente difícil adaptar-se à nova situação. E isso mexeu com todos da família: seu pai ficara mais ranzinza, a precária saúde da mãe piorara, exigindo que Marta ficasse permanentemente comela, tudo isso contribuindo para que acabasse perdendo o ano escolar. 4 MAS, PORÉM, CONTUDO, ENTRETANTO, A VIDA ESTÁ MESMO CHEIA DE CONJUNÇOES ADVERSATIVAS No ano seguinte, Marta tanto insistiu com o pai que conseguiu voltar a estudar. É bem verdade que o estado da mãe, o maior empecilho, melhorara sensivelmente, o que possibilitou a volta aos estudos. Marta matriculou-se novamente na oitava série, na EEPG Professor Madeira.

E lá estava ela, no meio de novos alunos e professores, estranha realidade, mas entre matérias conhecidas. Tárcia, a professora de português, estava à lousa, dissecando um período composto por coordenação. — Olhem cá, meus pupilos… Os meninos olhavam e, entre eles, na terceira fileira, um par de olhinhos foi vigorosamente agitado por mãos que tentaram afugentar o sono. — Marta— a professora chamou a dona dos olhinhos sonolentos— , você pode me dizer que oração é esta?— e Tárcia apontou algo escrita na lousa. — Oração?— Marta assustou-se. Pega de surpresa, ela sentiu seu rosto queimar. Fosse de pelo clara como Tárcia, a classe toda saberia que estava enrubescida, sem jeito. Ainda bem que sua cor morena disfarçava bem o estado de insegurança. Aliás, depois que ficou mocinha, era sempre assim. Sempre que alguém chamava o seu nome empúblico, ela perdia o jeito, ficando sem graça, encabulando, o sangue subindo às faces. Ainda mais agora que, sonolenta e absorta, estava pensando na discussão que tivera com o pai. Na noite anterior, Marta se aprontava para dar uma chegadinha à casa de uma amiga, quando o pai ordenou: — Entra pra dentro, menina!— e, virando-se para a mulher, que assistia à novela das oito, completou: — Zefa, essa menina anda batendo muita perna na rua… Marta esperava que a mãe concordasse com o seu procedimento. Mesmo porque a casa da amiga era ali mesmo, bem pertinho. Mas Zefa foi a favor do pai, deixando Marta revoltadíssima. — Seu pai tem razão, Marta. Amanhã você vai ter que levantar de madrugada pra fazer a comida, que eu num tô boa. Minha coluna voltou a doer. Você precisa de dormir cedo… — A senhora sempre lá do lado do pai, né, mãe?— Marta entrou, resmungando. — Mas tá ficando respondona essa menina, Zefa! — Pedro comentou.— Até outro dia era comportada, educadinha, obediente. De uns tempos pra cá… — De uns tempos pra cá, o senhor também tem pegado muito no meu pé. Até parece berne em bezerro novo… — Marta retrucou, indo chorar no quintal. A casa onde moravam era pequena. Sempre que Marta brigava, ia para o quintal desabafar suas mágoas. A casa era tão pequena— dois quartos, um para os pais e outro para Altair— , que Marta tinha que dormir na sala.

E este era mais um motivo para muita discussão. — Eu não tenho nem onde ter minhas coisas nessa casa — Marta resmungava, pensando em ter seu quarto, sua cama, seu travesseiro para chorar sem testemunhas. À noite, quando todos foram dormir, Marta demorou a pegar no sono. Ficou rolando no sofá estreito, nervosa como toda adolescente que se desentende com os pais. Pela madrugada, mal conseguiu encontrar o sono perdido, acordou assustada, sendo chacoalhada por mãos fortes. — Marta! Acorda, menina! Ainda não levantou? Eu e o Altair já estamos atrasados… Bem que sua mãe avisou que você tinha que fazer a comida, não tinha? — Saco de vida! — Marta levantou-se, resmungando. Sonolenta, foi até a cozinha, sempre reclamando: — Por que o senhor não compra uma geladeira? Assim ninguém tem que ficar acordado na madrugada, que nem morcego, fazendo comida. — Tá sonhando acordada, menina? Geladeira é coisa de rico. Só deu mesmo pra salvar a televisão. E isso porque sua mãe não fica sem as novelas lá dela. O resto tive que vender tudo. — Tamos atrasados, pai?— Altair saiu de seu quarto, já vestido para o trabalho: calca surrada, camisa de manga comprida, chapelão na cabeça. — É essa menina que não tem responsabilidade… — Então não vai dar pra pegar a condução?— Altair perguntou, olhando o relógio-despertador, em cima da cristaleira. — Se a gente chegasse cedo no ponto, dava pra ir de kombi … — Eu sei, filho. O gato bem que tá sendo camarada. Mas atrasado do jeito que estamos… Gato ou turmeiro, é preciso que se explique, é o nome dado ao empreiteiro que contrata os bóias-frias. Quando a comida ficou pronta, os dois saíram resmungando, discutindo com Marta. Marta não conseguiu dormir mais. Ficou sentada no sofá, chateada por seu pai não a entender. Quando o sono veio, já estava na hora de ir para a escola. Agora, porém, ali estava Tárcia à sua frente. — E, então, Marta, que oração é essa? Marta continuava encabulada. Logicamente, sabia que a oração era uma coordenada adversativa; mas assim, de repente, não conseguiu lembrar. — Com licença, dona Tárcia— alguém apareceu à porta da classe, desviando a atenção da professora, para allviar Marta. — Pois não, seu Pires!— a professora foi atender quem acabava de interromper a aula.

Pires era o inspetor de alunos do Professor Madeira. Demonstrando um certo nervosismo, ele chamou a professora. Olhando disfarçadamente para Marta, Pires e Tárcia ficaram sussurrando frases entrecortadas. Marta, sem saber o que falavam, morria de vergonha. — Mas que desgraça, seu Pires! O senhor tem certeza? — Tárcia indagou, adquirindo o mesmo ar preocupado do inspetor, tão logo ele contou o motivo da interrupção da aula. Pires confirmou com a cabeça, num gesto afirmativo. — E quem vai dar a notícia a ela?— Tárcia titubeou, Procurando desfazer-se da espinhosa missão. — Acho melhor a senhora deixar que o diretor conte a ela. Ele até mandou chamar a aluna. — Está bem. Eu vou dispensá-la, então… — a professora segredou ao inspetor, enquanto virava-se para a classe. Retomando uma tranqüilidade que não existia mais em suas palavras, ela ordenou. — Marta! — É uma coordenada adversativa, professora! — Marta respondeu, desincumbindo-se da pergunta feita ainda há pouco. Tárcia, ouvindo a resposta, sorriu sem graça, sabendo que, diante do que Pires acabava de lhe contar, as coordenadas adversativas, para Marta, deixavam de ser matéria passada na lousa, para ser matéria incorporada, dolorosamente, à vida. Intimamente, Tárcia até agradecia a Deus por não ser ela quem iria explicar a tragédia que acabava de acontecer. — Por favor, Marta! Acompanhe seu Pires até a diretoria. Seu Lafaiete quer falar com você. — Mas o que eu fiz de errado, dona Tárcia?— Marta voltou a sentir o rosto quente, o coração batendo disparado. — Só porque eu não respondi na hora. — Não é por isso não, Marta.— Tárcia, querendo ser carinhosa, sorriu da simplicidade da aluna. — Não mesmo?

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |