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Adeus a Humanidade – Marcia Rubim

A vida é mesmo uma coisa muito estranha… Até bem pouco tempo, acharia graça se alguém me dissesse que eu moraria em São Paulo numa pensão humilde, contando moedinhas para inteirar as contas do mês e juntando as sobras de comida do dia anterior para fazer um sanduíche com um aspecto esdrúxulo. Isso seria uma verdadeira piada, e de mau gosto. Sou carioca e sempre morei bem perto da praia. O mar era uma paisagem constante em minha vida. Gostava de passar por ele todos os dias, nem que fosse somente para contemplar o seu poderio. Era imenso, misterioso, uma verdadeira força da natureza. Aquela brisa salgada sempre trazia uma esperança a mais, um acalanto, um sopro de vida. Não me considerava uma patricinha, embora tivesse uma condição de vida bastante confortável. Também nunca fui rica. Eu tinha uma casa normal num bairro tranquilo, um quarto com suíte, um computador atual e algumas coisas supérfluas. Já cheguei ao cúmulo do luxo de possuir revistas periódicas, cujos lacres de correspondência, frequentemente, nem me lembrava de abrir. Na verdade, não sentia falta de nada material, isso não me completava. Porém existia, sim, umvazio em mim, algum tipo de buraco, uma lacuna que não conseguia preencher. Nessa época, eu beirava os vinte anos. Já tinha prestado vestibular para Nutrição e cheguei a pensar em outras profissões, entretanto, havia sempre uma dúvida. Nunca era aquilo o que eu queria, perdia literalmente o estímulo no instante em que conseguia passar pela primeira etapa. Vivia, então, perdida entre cursinhos, aulas de inglês, espanhol e um curso de fotografia, que era, até o presente momento, o único hobby que me dava algum prazer. Não tinha, dessa forma, necessidade de trabalhar, mas passava praticamente o dia todo fora de casa a ponto de, por vezes, sequer perceber que não falava com a minha mãe ou com o meu irmãozinho mais novo havia dias. À noite, quando chegava, acabava me trancando no quarto, ora para revelar as fotografias numambiente que preparei exclusivamente para isso, ora para falar com a minha melhor amiga Anne por horas seguidas, pelas redes sociais. Anne era a única amiga que eu considerava, aquela com quem sabia que podia me abrir e que inegavelmente me conhecia. Quer dizer, talvez jamais conseguisse desnudar a minha alma de uma forma tão explícita ou direta para alguém, mas, ainda assim, ela captava os meus sinais como se estivéssemos sintonizadas numa mesma frequência de ondas. Ondas de longo alcance. Às vezes, eu parecia um peixe fora d’água. Sentia falta de ter um objetivo, de fazer planos para o futuro. Não fazia parte de lugar algum neste mundo.


A vida não passava de uma mera rotina, sem graça, aguada. Era como beber uma cerveja choca. Tudo acontecia criteriosamente da mesma maneira, e todo o santo dia. Nada mudava, inclusive eu. No início, a relação com a minha mãe foi um tanto difícil. Não porque ela fizesse algo de concreto para que eu me sentisse assim. Não porque ela tivesse trocado o meu pai por outro homem com uma situação financeira pouco sólida. Na verdade, isso não me afetava muito, pois papai acabava enviando proventos suficientes para arcar com os meus cursos, coisas banais, e ainda sobrava para que eu a ajudasse nas despesas de casa quando havia necessidade. Talvez a culpa estivesse emaranhada em mim mesma. Talvez eu quisesse ter nascido diferente, um pouco mais parecida com ela. Não pelo lado emocional ou sentimental — nisso até que me julgava uma pessoa estável —, mas pelo aspecto físico mesmo. Eu não era feia, apenas… comum. Sabia que podia atrair muitos rapazes. Bem, digamos que não os mais bonitos. Entretanto, tambémnão era isso o que me interessava, embora não soubesse especificamente o que buscava neles, ou se realmente queria buscar algo. Mas cá entre nós… Bem que gostaria de ter herdado aquele cabelo louro-acinzentado e encaracolado que mais parecia vir de um comercial de xampu, ao invés dessa lisura que mal segurava algum grampo… Também poderia ter nascido com aquela pele sedosa. Isso me teria evitado tantos constrangimentos no início da adolescência, bem como todas as idas à dermatologista. E só Deus sabe que, por mais que ingerisse uma tonelada de comida, não conseguiria ter um corpo violão como o dela. Minha mãe era uma diva, parecia que já havia nascido perfeita. Não foi à toa que por um longo tempo trabalhou como modelo fotográfico, dessas em quem ficamos babando quando vemos as novidades no mundo da moda ou em anúncios de maquiagem. Os seus olhos castanho-dourados eramo que mais chamavam atenção no seu rosto. Jamais senti inveja dela, pelo contrário, tinha até muito orgulho. Só que havia horas em que ouvir certas comparações costumava ser bem difícil, principalmente quando a idade ainda não permite deletar aquilo que nos incomoda sem deixar de causar algum dano no subconsciente. Ainda me lembro de um ano em que, quando voltava da escola — eu devia ter por volta de treze anos —, acabei ouvindo um comentário nada discreto entre duas conhecidas da minha mãe: — Olhe só, Vera. Reconhece aquela menina que acabou de atravessar a rua agora? — disse uma delas em tom de reprovação, esquecendo-se de que os adolescentes em geral possuem boa audição.

— Não. Quem é? — A outra disfarçou, observando-me pelo canto dos olhos. — Realmente, sem uma dica fica difícil mesmo. Ela não se parece em nada com a mãe. Às vezes, fico me perguntando se não é adotada, só que nunca tive coragem de conversar com a Rachel sobre esse assunto. — Espere aí… Aquela é a Stephanie — mamãe sempre adorou essa coisa tosca de estrangeirismos nos nomes, inclusive o dela e o do meu pai —, a filha mais velha da Rachel? — perguntou, demonstrando evidente incredulidade. — Sabia que você iria se espantar. E não é para menos… — É, analisando bem, acho que você pode ter razão. É até engraçadinha, mas… — Torceu o nariz. — Você conhece o pai? Um pequeno adendo: engraçadinha é o termo que as pessoas usam para tentar definir alguém que não tem muitos atrativos físicos, mas que pode suprir a falta deles com simpatia ou educação. Ou seja, o meu caso. — Conheço. Ele aparecia sempre no início das férias escolares e levava a filha para viajar com a família. Ultimamente, não o tenho visto — emendou, pensativa. Não quis nem esperar para ouvir o restante da conversa. Eu não sou de ferro. Certos comentários serviam de prato cheio para que eu cada vez mais me fechasse. Mamãe, coitada, não tinha culpa disso, só que inevitavelmente me sentia melhor quando passava os dias como meu pai. E esses pequenos momentos se restringiam a apenas alguns dias das minhas férias, já que morávamos em países opostos e o trabalho dele era bastante importante dentro da medicina. Meu pai é hematologista. Não um nome qualquer dentre milhares por este mundo afora, mas o famoso Dr. Allan Wernyeck, um dos melhores médicos e pesquisadores dentro de sua área, um profissional brilhante. Passava seus dias enfurnado entre laboratórios e hospitais, empenhado em descobrir a cura de diversas doenças de ordem sanguínea; com frequência, era requisitado por especialistas de outros países para dar cursos e palestras sobre a sua especialidade. Era muito comum que eu ficasse semanas ou até meses sem falar com ele, já que as viagens aconteciam constantemente. No entanto, sempre quando estávamos juntos, parecia que todo aquele intervalo havia sido anulado, tamanha a nossa afinidade.

De tempos em tempos, pensava em ir morar com ele, embora não residisse logo ali, por assimdizer. Também nunca foi fácil encarar o olhar inquisidor de sua atual companheira. Parecia que ela tinha medo que eu o roubasse ou algo do gênero, uma coisa irracional. Janet tinha tanto ciúme dele que às vezes eu ficava a me perguntar se o problema todo estava no modo carinhoso que ele ostentava ao tratar as pessoas, na sua simpatia irradiante ou simplesmente porque a insegurança ou imaturidade dela não a deixavam raciocinar. A meu ver, isso não tinha razão de ser. Ela aparentava ser bem mais nova, bonita, e, ainda por cima, trabalhava como assistente em um Centro de Hemoterapia onde meu pai também tinha sociedade. Resumindo: tinha a faca e o queijo na mão. Bem, fora isso, julgava intimamente que o meu problema maior em residir no exterior fosse o fato de não conseguir ficar muito tempo longe do meu irmãozinho. Juninho era dessas crianças que nasceram fadadas à felicidade. Embora tivesse um pequeno defeito congênito nos pés que fazia com que constantemente mudasse de botas e necessitasse de tratamento fisioterápico, o guri era muito inteligente, carinhoso e sabia conquistar qualquer pessoa com um simples sorrisinho. Era, na verdade, meu meio-irmão, filho de minha mãe com o fotógrafo por quem se apaixonou há alguns anos, durante uma dessas ridículas sessões de fotos, comchapeuzinho rosa na cabeça e mãozinha debaixo do queixo, pelas quais as mães cismam em nos fazer passar. Também não a culpava por isso. Meu pai, embora atencioso e amável, foi uma pessoa muito ausente, e ela, particularmente carente. A presença de Otávio a revigorou. Não havia como não deixar de comparar a minha mãe de antes — triste, descuidada, desanimada — com aquela que passou a ser depois — radiante, ativa e feliz. Eu a amava muito, não aguentava mais vê-la daquele jeito. Quanto ao Otávio, creio até que deveria agradecê-lo pelo bem que fazia a ela. E não só por isso, mas também por ter me transferido, meio que por osmose, essa pequena aptidão para fotografar. Suponho que realmente seja boa no ramo, ou imagino que não teria vencido três concursos por clicar pessoas em momentos imprevisíveis associados a elementos da natureza, e sem fazer muito esforço. Acho que somente nessas ocasiões conseguia me distrair ou me sentir feliz, se é que isso é o que chamam felicidade. Eu seria capaz de ficar horas e horas analisando o melhor ângulo, a direção da luz, o foco… E sempre voltava para casa com uma novidade, alguma coisa que me ajudasse a sair daquele marasmo que cercava a minha vida. Dois Nunca me esqueci do dia em que cheguei a minha casa com um jornal nas mãos que falava sobre um concurso de fotografia; nele o vencedor ganharia como prêmio uma passagem de avião para a Flórida. Foi a primeira vez em que decididamente resolvi me empenhar em conquistar algo. Acredito que fiquei até um pouco obcecada. Quis me convencer de que parecia ser uma chance única de mostrar algum tipo de habilidade ou talento, mas acho que, no fundo, o que verdadeiramente me motivava era o fato de ter uma razão concreta ou uma desculpa para visitar o meu pai.

É claro que se eu pedisse, ele jamais me negaria uma passagem Rio-Miami-Rio. Aliás, nunca negou. Porém, dessa vez eu não queria isso. Queria poder conquistar essa passagem, sentir-me capaz de ir fundo em alguma coisa e agarrá-la com as próprias mãos. Então, naquele dia, decidi que aquele prêmio seria meu. Tratei de pesquisar com minúcia o tema: algo como encontrar a beleza e a felicidade dentro da mais miserável pobreza. Esquisito. Não parecia muito fácil compreender o assunto. Afinal, como achar a felicidade dentro da penúria, da fome, do descaso? Eu possuía tudo e, mesmo assim, nunca encontrei algo em minha vida que desse algum sentido a essa palavra. Talvez isso não tivesse a ver com a condição social das pessoas, e sim com o seu espírito ou estado da alma… Eu bem que tive sorte ao escolher uma favela do Rio para fotografar em meio àquele caos desordenado. Analisei diversos ângulos, diferentes pessoas, e acabei achando um barraco cujas roupas puídas penduradas no varal balançavam ao vento num entardecer rosado, ladeado por uma amendoeira. Ao fundo, havia uma velha senhora com o rosto enrugado, sentada em um caixote de madeira, fumando um cigarrinho de palha e ao mesmo tempo sorrindo… um sorriso sem dentes. O que fazia aquela pessoa sorrir? Do modo como a vi, não tive dúvidas de que essa seria a pose que eu esperava. Essa seria a foto que me levaria ao encontro de meu pai, só que por meu mérito. E não deu outra. Bastou sair o resultado no jornal e eu já estava correndo toda esbaforida para casa, mais especificamente em direção ao telefone do meu quarto. Queria muito falar com ele. Queria que de alguma forma ele se orgulhasse de mim. Fiquei tão ansiosa que mal conseguia discar o número do seu telefone correta-mente. Aliás, na ânsia de fazê-lo, acabei errando por duas vezes. — Alô, pai! — esgoelei, praticamente sem fôlego. — Stephanie, é você? O que houve? — perguntou ele, preocupado. — Sim, pai, sou eu — falei novamente, quase engasgando, como se não tivesse tempo suficiente para isso. — Tenho uma ótima notícia para lhe dar! — Diga, meu amor, sou todo ouvidos. — Sua voz soava bem mais aliviada.

— Eu não tinha comentado antes para não criar expectativas, mas entrei num concurso de fotografias e acabei levando o primeiro prêmio! — Nossa! Parabéns! Você tem talento mesmo! — elogiou. — E adivinha qual é o prêmio? — indaguei. — Não faço a mínima ideia, mas deve ser algo muito bom para deixar a minha filhota tão contente. — E é mesmo. Ganhei uma passagem de ida e volta para Miami! Agora vou poder visitá-lo! — expressei minha alegria. — Que maravilha! Mal posso esperar para lhe dar um abraço! — retribuiu. — Quando você vem? — Ainda não sei direito, pai, apenas ouvi dizer que será em junho. Talvez consiga marcar a passagem para depois do feriado de Corpus Christi. — Avise-me assim que souber para que eu possa reservar uns dias para levá-la até Fort Lauderdale. Descobri uma loja de materiais fotográficos que vai deixar você de queixo caído. Só uma seção que vi de objetivas e lentes especiais é do tamanho de uma loja inteira aí no Brasil! E ainda tem aquele restaurante japonês que você tanto adora… — falou, deixando-me com água na boca. — Ai… Depois dessas promessas, acho que nem vou conseguir dormir até lá. — Falei demais, não é? Devia ter ficado com a boca fechada, assim a surpresa seria maior. — Esboçou um tom de arrependimento. — Não, pai. Não preciso de nada disso para ficar contente. Apenas ter um tempinho com o meu paizão preferido já é mais do que suficiente. — E por acaso você tem outro pai? Foi uma indireta. Sabia a quem ele se referia. — Lógico que não! Você é insubstituível! Sabe que eu te amo… — Claro, claro. Também a amo, querida. Eu… — Fez uma leve pausa e pude ouvir o som do seu celular tocando. — Desculpa, amor, preciso desligar agora. Parece que houve alguma emergência no hospital. Ligo para você mais tarde, ok? Dê lembranças à sua mãe… — despediu-se.

— Ok! Um beijo! — finalizei. Após desligar o telefone, lembrei, constrangida pela mancada, que não havia falado ainda com a mamãe. E pelo volume da minha voz, calculei que ela já estivesse sabendo. Desci as escadas devagar, buscando manter a calma e a compostura, e, antes de chegar lá embaixo, avistei a figura dela parada, com um olhar perdido diante da janela da sala. Tentando me antecipar à sua reação, já fui logo disparando: — Mãe, você não vai acreditar, eu… — Eu já sei — cortou ela a minha fala rispidamente, sem alterar a posição de costas para me encarar. — E não vai nem me dar os parabéns? — murmurei, já meio que me encolhendo. — Parabéns — respondeu em timbre de voz amargurado, virando-se de frente. Pude perceber que tentava secar uma lágrima que escorria pelo canto direito do olho. — Mas… por quê? Não entendi. Você não gostou? O que eu fiz de errado? — Pergunta incorreta — disse ela, áspera. — A pergunta certa é: o que eu fiz de errado? — Mãe, do que você está falando? Podia compreender que ela estivesse chateada por não ter sido a primeira a saber, ainda mais porque morávamos juntas, só não achava que o drama era para tanto. — Não sabe mesmo? Pois vou tentar refrescar a sua memória… A senhorita aí parece que não possui mais família, pelo menos não uma mãe. Não a vejo em hora alguma do dia. Não recebo bomdia, boa-tarde ou ao menos um beijo de boa-noite. Sei que tenho que respeitar a sua privacidade, mas, do jeito que as coisas andam, estamos nos tornando completas estranhas! Dói saber pelos outros que a minha filha ganhou prêmios, mudou de curso, recusou namoros… Ela disparou a falar feito uma metralhadora. — Agora, por exemplo — continuou —, sabia que quase me derrubou quando abriu a porta e correu para o seu quarto? Subi as escadas tentando entender o que teria acontecido para que você chegasse daquele jeito e descobri, pela conversa que teve com seu pai, que ganhou aquele prêmio do jornal. Não quero dar uma de ciumenta e também não gosto de ouvir atrás das portas, mas, de uns tempos para cá, não há outra maneira de saber algo sobre você. O que foi que eu fiz? Fala! Ou foi alguma coisa com o Otávio que eu não estou sabendo? Se for, eu… — Não, mãe, não foi nada com ninguém, juro! — interrompi. — Na verdade, nem sei dizer o que acontece comigo. Mas não é culpa sua. É… minha — admiti. — Desculpa, não tenho sido muito atenciosa ultimamente, não é? Talvez tenha algo a ver com hormônios. Talvez… — Stephanie, já tive a sua idade. Sei que existem coisas difíceis de serem compartilhadas com a própria mãe. Sei também que já é adulta.

Não estou pedindo satisfação de cada suspiro que dê durante o dia, apenas que me ofereça o direito de ser sua mãe. Quero o direito de poder abraçá-la a cada conquista sua, de me preocupar quando você estiver magoada e até mesmo de dar algumconselho, mesmo que você não siga. Quero só fazer parte da sua vida. Não é pedir muito, é? Droga, filha! Eu te amo! — declarou de uma forma tão dolorosa que comecei a me sentir um verdadeiro monstro. Mamãe não merecia aquilo. Não mesmo. Não fazia a mínima ideia de que ela se sentia assim, entretanto, naquele momento algo mudou. As lágrimas dela me comoveram profundamente. Fizeram-me pensar no quanto fui omissa, uma espécie de fantasma que habita o mesmo ambiente, só que numa dimensão paralela, lugar onde só eu cabia. O fato é que sempre foi bem mais fácil lidar com os meus defeitos estando isolada do mundo, não havia como negar. Mas o silêncio também afastava as coisas boas, podia camuflar e tirar a percepção daquilo que realmente importava. Eu sentia falta dela, muito mais até do que supunha. Apenas não tinha me dado conta disso, do tempo que havia perdido sob um regime de quarentena afetiva imposto a mim mesma. E por essa razão, abracei-a de maneira quase que involuntária, como se as pernas obedecessempor antecipação o que o cérebro ainda não comandou. Foi um alívio imenso quando consegui chorar. Parecia que um pequeno nó finalmente acabara de desatar. Havia tempos já me indagava se tinha me tornado insensível, e felizmente me enganei. O coração continuava ali. Um tanto oculto, admito, mas ainda batendo. — Mãe?! Faninha?! Por que vocês tão chorando? — Dava dó ver os olhinhos inocentes do meu irmãozinho com uma ruguinha de preocupação no meio da testa. — Por nada, Juninho! Ou melhor, sua irmã ganhou um prêmio por ser a melhor fotógrafa do mundo, sabia? — disse então a minha mãe, expressando o orgulho que sentia, enfim permitido. — Do muuundo? Caramba! — Mãe, não exagera! Assim ele vai acreditar. — Mas você é a melhor! Você é a melhor irmã do muuuundo inteiro… Quer brincar de boneco comigo? — propôs ele com aquela cara de cachorrinho pidão. Isso era uma chantagem das brabas, contudo, quem resistiria aos seus apelos enquanto pedia comaquela meiguice toda? — Ok. Pode ir subindo e separando os nossos exércitos.

Só que hoje não vai ter moleza, não! —adverti. — Ah, e o exército branco é meu. — Tá bom, tá bom, tá bom! — Saiu balançando a cabeça e reclamando como se eu tivesse descoberto o seu ponto fraco. Parecia uma miniatura masculina da mamãe, com exceção dos seus olhos verdes, que possivelmente seriam uma herança do pai, ainda que também pudessem ser umlegado da minha avó. Nem bem tinha acabado de me recompor e a campainha tocou. Era Otávio, que havia se esquecido de levar as chaves e adentrou apressado com o jornal debaixo do braço. Estava com a barba por fazer e os seus arrepiados cabelos negros respingados pela fina chuva que iniciara lá fora. — E aí, hein! Levou o primeiro prêmio! Parabéns, garota! Acho que vou exigir participação nessa brincadeira… — falou ele com uma voz meio convencida, e ao mesmo tempo deixando claro que realmente ficara contente. Abaixei a cabeça em agradecimento e dei um sorriso largo para a minha mãe. Ela retribuiu da mesma forma, porém, indicando com a cabeça para que eu não esquecesse de alguém que me esperava com ansiedade no andar de cima da casa. Otávio demonstrava não entender nada quando nos viu com os olhos marejados, mas também não fez menção alguma de perguntar o que quer que fosse na minha frente. Disso eu não podia reclamar. Ele nunca interferiu na nossa relação mãe e filha. Jamais tive motivos para ter qualquer tipo de aversão a ele, pois sempre me tratou muito bem. De certa maneira, mamãe tinha sorte: sempre foi amada intensamente por alguém que retribuiu o seu amor. Após uma tarde de “intensas emoções” com os soldados guerrilheiros da fronteira do norte e de jogar Combate — também um jogo de guerra — com o Juninho, levei-o apagado para a cama e corri para o meu quarto, ligando imediatamente o computador. Enquanto a máquina fazia a inicialização, achei um bilhete na mesinha de cabeceira. “Bruno ligou e pediu que você retornasse”, dizia ele, com a letra da minha mãe. — Ugh! Esse cara não vai largar do meu pé nunca? — reclamei sozinha, revirando os olhos, praticamente clamando aos céus por esse milagre. Amassei o papel e o joguei na lixeira displicentemente, retornando à tela principal. É claro que haveria zilhões de recados me esperando nos meus e-mails, principalmente da Anne, cuja paciência nunca fora uma de suas virtudes. Abri a página do Messenger e imediatamente apareceu a sua mensagem: — Até que enfim! Caramba, por onde você andou? — Nas últimas horas? Digamos que eu estivesse no meio de um… confronto — digitei. — Travando uma batalha com o César do Pré-II? Ela se referia a um gatinho do cursinho que eu dizia paquerar ultimamente, embora, para falar a verdade, não estivesse realmente interessada. Aliás, eu nunca estava. — Não, baby! A batalha era com o Juninho mesmo.

Fiquei jogando Combate com ele — expliquei. — Combate? Isso é um jogo? — É um jogo de estratégia militar, por quê? — Fala sério! Mas e o cara? Ele não ficou dando mole para você a semana inteira? — Parece que você anda precisando de óculos. Isso é que dá confiar numa amiga míope… — Qual foi o babado?

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