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Adeus ao Mestre – Harry Bates

Do alto da escada, acima do chão do museu, Cliff Sutherland estudava cuidadosamente cada linha e sombra do grande robô, então se virou para os visitantes saidos do salão do Sistema Solar para ver Gnut e o viajante, com seus próprios olhos, e ouvir mais uma vez sobre a fantástica e trágica história deles. Ele mesmo sentia um interesse particular na exibição e com alguma razão. Ele havia sido o único repórter fotográfico independente na Capital quando os visitantes vindos do desconhecido chegaram, e havia conseguido as primeiras fotos profissionais da nave. Tinha testemunhado de perto cada evento naqueles dias loucos que se seguiriam. Depois disso havia fotografado muitas vezes o robô de seis metros, a nave e o belo embaixador assassinado, Klaatu, emseu imponente túmulo no Memorial, que se transformara no centro de atenção mundial para bilhões de pessoas, e agora mais uma vez, ele estava ali buscando mais fotos, e se possível de um novo ângulo. Desta vez estava atrás de uma foto na qual Gnut parecesse ameaçador. Aquelas que havia tirado no dia anterior não haviam tido o efeito esperado e esperava consegui-las ainda hoje, mas a luz ainda não estava apropriada e ele esperava a chegada da tarde. A última turma admitida estava exaltada diante das curvas esverdeadas do misterioso viajante do espaço-tempo, esquecidos completamente da nave, diante da visão espantosa do gigante Gnut. Apesar de sua aparência quase humana ser familiar, nada na Terra tinha olhos como aqueles. Gnut possuía quase que exatamente a forma de um homem – um gigante – mas um homem – feito de metal esverdeado ao invés de pele, e músculos metálicos. Exceto por um pano ao redor da cintura, semelhante a um saiote egípcio, ele estava nu. De pé, como um poderoso Deus das máquinas saído de uma civilização cientifica nunca imaginada, sua face parecia trazer uma expressão pensativa e solene. Aqueles que o observavam, não emitiam comentários ou faziam gestos, e aqueles mais próximos sequer falavam. Aqueles estranhos olhos vermelhos iluminados internamente davam a impressão a qualquer um, que estavam a observá-lo também, e transmitia uma sensação de que poderia a qualquer momento, dar um passo a frente em fúria e realizar algo inimaginável. Um som desagradável veio dos auto-falantes escondidos no teto acima e fez com que todos prestassem atenção. A apresentação gravada estava prestes a começar. Cliff suspirou resignado; sabia cada fala de cor e estivera presente quando fora gravada, e conhecera o dono daquela voz, um camarada chamado Stillwell. ‘Senhoras e senhores’ iniciava a voz clara e bem modulada, mas Cliff não estava mais prestando atenção. As sombras da face de Gnut começavam a ficar maiores e estava quase na hora de fazer as fotos. Escolheu algumas provas que havia feito no dia anterior e as analisou criticamente comparando com o objeto real. Enquanto olhava sua testa se enrugou. Não havia notado antes, mas agora percebeu que em comparação ao dia anterior, algo havia mudado em Gnut. A pose que tinha diante de si era quase idêntica aquela das fotografias, cada detalhe parecia igual, mas assim mesmo, aquela sensação de estranhamento perdurava. Pegou seu visor de vidro e mais cuidadosamente comparou o objeto com as fotografias, linha por linha. E então ele viu o que estava diferente.


Subitamente excitado, Cliff escolheu duas fotografias de diferentes exposições. Ele sabia que devia ter esperado um pouco e ter tirado outras, mas parecia tão decidido a desvendar aquele mistério que tinha que sair dali. Guardou seu equipamento e desceu a escada deixando o lugar. Vinte minutos depois consumido pela curiosidade já processava as novas fotos em seu quarto de hotel. O que Cliff viu, comparando os negativos tirados no dia anterior com os de hoje, causaram-lhe grande comoção. Havia realmente uma inclinação diferente. E aparentemente ninguém a não ser ele havia percebido! Ainda assim, o que havia descoberto, apesar de lhe render a capa de todos os jornais do sistema solar, era afinal apenas uma pista. A história, do que realmente ocorrera, ele sabia melhor do que ninguém, seria seu trabalho descobrir. O que significava dizer que precisaria entrar no prédio e permanecer lá durante a noite secretamente. Aquela noite mesmo; havia tempo para chegar lá antes de fechar. Levaria consigo uma pequena câmera infravermelha capaz de ver no escuro e então conseguiria a foto e a história. Arrumou-se e correu de volta ao museu. O lugar estava cheio com outro grupo em fila e a apresentação estava ao fim. Ele agradeceu a Deus que seu acordo com o museu permitia-lhe entrar e sai à vontade. Já se havia decidido quanto ao que iria fazer. Primeiro dirigiu-se ao guarda da ronda e fez-lhe uma simples pergunta já antecipando a resposta que ouviria. A segunda foi encontrar um local que lhe garantiria ficar fora das vistas do homem responsável por fechar o salão a noite. Só havia uma possibilidade, o laboratório que ficava atrás da nave. Corajosamente ele mostrou suas credenciais ao segundo guarda parado na entrada do laboratório, justificando que viera entrevistar os cientistas e logo já estava no laboratório. Já havia estado ali diversas vezes e conhecia o lugar. Era uma área espaçosa, que servia aos cientistas no seu trabalho de conseguir uma entrada na nave, repleta de máquinas e instrumentos pesados, apetrechos de química, coberturas de asbestos, compressores, escadas, microscópios, e todo tipo de equipamento encontrado em laboratórios de metalurgia. Três homes de branco estavam absorvidos em um experimento num lado distante dali. Cliff aguardou um bom momento e escorregou para debaixo de uma mesa repleta de suprimentos de trabalho. Sentiu-se razoavelmente seguro ali. Logo, logo, seria noite e os cientistas iriam para casa.

Além da nave pode ouvir uma outro grupo esperando para entrar – talvez, esperava, o último do dia. Sentou-se tão confortável quanto podia. Logo outra apresentação se iniciava de novo. Teve que sorrir ao pensar em algo que seria dito na gravação. A voz treinada e clara de Stillwell começou a ser ouvida. Os passos e aclamações da multidão desapareceram e Cliff pode ouvir cada palavra, apesar do volume da grande nave que se colocava no caminho. ‘Senhoras e senhores. O instituto Smithsonian os saúda nesta nova ala interplanetária e as maravilhas que no momento presenciam. Todos vocês devem saber sobre o que ocorreu aqui, três meses atrás, se é que não viram pela televisão. Os fatos são estes. Um pouco após as dezessete horas do dia 16 de Setembro, vários turistas visitando Washington, passaram por estas portas, perdidos em seus pensamentos. O dia era quente e agradável. Um grupo de visitantes deixava a entrada principal do museu, exatamente na direção para a qual estão voltados agora. Claro que não havia esta ala ainda. Todos estavam saudosos de casa, cansados sem dúvida pelas horas de pé, assistindo as exibições do museu e visitando as várias alas, quando então aconteceu. Na área logo a sua direita, assim como está hoje, apareceram os viajantes do tempo. Num piscar de olhos. Não veio dos céus, dezenas de testemunhas podiam jurar, eles simplesmente apareceram. Um momento não estava lá e no momento seguinte estava. Apareceu neste mesmo ponto que os senhores estão vendo. As pessoas mais próximas da nave foram tomadas pelo pânico e correram aos gritos. Uma onda de excitação varreu Washington. Radio, televisão e os jornalistas correram para cá. A policia formou um cordão de isolamento ao redor da nave e unidades do exército apareceram com atiradores. Desde o inicio ficou claro que não se tratava de uma espaçonave vinda de alguma parte do sistema solar.

Toda criança sabe que apenas duas espaçonaves foram feitas na Terra, e uma fora destruída ao ir contra o sol, a outra foi reportado ter chegado intacta em Marte. Além disso, tinham escudos de alumínio, e essa que vêem, é feita de um estranho metal esverdeado. A nave simplesmente apareceu. Ninguém saiu de dentro e não havia sinal de que contivesse qualquer vida interior de qualquer tipo. Isto fez com que a excitação chegasse a um clímax. Quem ou o que estava lá dentro? Os visitantes eram pacíficos ou hostis? De onde havia vindo? Como havia chegado ali sem cair do céu? Por dois dias a nave permaneceu ali, como vocês vêem, sem sinal de conter vida. Os cientistas já haviam explicado que não se tratava de uma espaçonave, mas de um viajante tempo-espacial, pois só um aparato assim deste gênero poderia se materializar daquele jeito. Explicaram que este viajante, teoricamente estaria longe do nosso atual estágio de conhecimento, e que a nave ativada pelos princípios da relatividade, poderia ter vindo do canto mais distante do universo, de uma distância que a luz iria precisar de milhões de anos para atravessar. Quando esta opinião foi disseminada, a tensão pública só fez crescer, até se tornar quase intolerável. De onde haviam vindo? Quem eram seus ocupantes? Por que a Terra? E acima de tudo, por que não se mostravam? Poderiam estar talvez preparando alguma terrível arma de destruição? E onde ficava a porta da nave? Aqueles que se atreveram a procurar de perto não conseguiram achar uma. Nem sequer uma fissura na superfície perfeita e ovóide. Uma delegação de altos oficiais que a haviam visitado, não puderam, convencer seus ocupantes a sair ou mesmo não sabiam se foram ouvidos. Ao final, após dois dias, diante da vista de dezenas de centenas de pessoas presentes e sobre a proteção das armas dos militares, uma abertura surgiu na parede da nave e uma rampa deslizou para fora e abaixo e de dentro saiu um homem, como um deus em aparência humana, seguido de perto de um gigantesco robô. Assim que alcançaram o chão, a rampa recuou e a porta fechou-se como antes. Ficou imediatamente claro para a platéia que o estranho era amigável. A primeira coisa que fez foi erguer seu braço direito num gesto universal de paz, mas não foi isso que impressionou aqueles mais próximos, mas a expressão em sua face, irradiando generosidade, conhecimento, a mais pura nobreza. Em sua túnica roxa e delicada, ele parecia um benevolente deus. Um grande comitê formado por altos membros do governo e oficiais das forças armadas, que aguardavam pela sua aparição, avançou para cumprimentar o visitante. Com graciosidade e dignidade o homem apontou para si e depois para o robô companheiro e disse em perfeito inglês, com um peculiar sotaque. ‘Sou Klaatu’, ou algo assim, ‘e este é Gnut’. Os nomes não foram bem entendidos no instante mas depois, revendo as gravações de áudio e vídeo, ficaram claros para todos. Foi quanto ocorreu aquilo que seria conhecido para sempre como uma das maiores vergonhas para a raça humana. Do alto de uma árvore, uma centena de metros dali, veio uma luz violeta e Klaatu caiu. A multidão ficou perplexa por um instante, sem compreender o que ocorrera. Gnut, pouco atrás e ao lado de seu mestre, lentamente virou seu corpo em direção a ele, moveu duas vezes a sua cabeça e parou, nesta exata posição que vocês vêem agora.

Um pandemônio seguiu-se. A polícia arrancou o assassino de Klaatu das árvores. Um sujeito mentalmente incapaz que gritava que o diabo viera matar a todos nós na Terra. Ele foi detido e Klaatu, morto, foi levado a um hospital mais próximo, na tentativa de que algo pudesse ser feito para reavivê-lo. Confusas e assustadas, as pessoas se dispersaram pela Capital, permanecendo vagando pela tarde e por quase toda noite. A nave permaneceu silenciosa e quieta como antes e Gnut também, nunca se moveu da posição em que ficou. Gnut nunca se moveria de novo. Permaneceu exatamente como vêem por aquela noite e todos os dias depois. Quando o mausoléu foi construído, a cerimônia de enterro de Klaatu teve vez neste mesmo lugar onde estão, presenciado pelas maiores autoridades do mundo. Não foi apenas a coisa mais apropriada a se fazer como também a mais segura, pois se existissemcriaturas vivas dentro da nave, elas poderiam perceber a sincera manifestação de pesar dos homens da Terra e pelo que havia acontecido. Se Gnut estivesse vivo, ou se ainda, melhor dizendo, continuasse operacional, não havia sinal algum. Permaneceu como vêem por toda a cerimônia. Mesmo quando seu mestre foi levado para dentro do mausoléu e encerrado pelos séculos. E ficou ali parado, dia após dia, noite após noite, no sol ou na chuva, sem se mover ou demonstrar o menor sinal de que tinha noção do que ocorreu. Após o ocorrido, esta nova ala foi construída ao redor do robô e da nave e anexada ao museu, a fimde cobrir e protegê-los. Nada mais poderia ser feito, pois como se descobriu, ambos Gnut e a nave, são pesados demais para serem movidos com segurança por qualquer meio que conhecemos. Vocês devem ter ouvido dos esforços dos nossos metalúrgicos desde então na tentativa de penetrar no interior da nave e que resultou em total fracasso. Atrás da nave hoje, como podem ver, uma sala foi acrescentada para este trabalho em especial e tentativas ainda estão sendo feitas. Apesar das tentativas, este maravilhoso metal esverdeado tem se provado inviolável. Não somente não conseguimos entrar, mas sequer descobrimos o ponto exato pelo qual Klaatu e Gnut emergiram. Muitas pessoas temem que Gnut só esteja temporariamente danificado e que ao retornar ao funcionamento poderá ser perigoso, porêm todos os cientistas desmentiram esta possibilidade. O metal esverdeado do qual é feito, o mesmo da nave, não pode ser danificado, eles pensam, nem encontraram um jeito de penetrar em seu interior. Atualmente eles estão experimentando aplicar correntes elétricas de alta voltagem e amperagem através deles. Já tentaram com o calor extremo. Os deixaram imersos por dias em gases e ácidos e soluções corrosivas, e já os bombardearam com todo tipo de raios conhecidos.

Não precisam ter medo dele agora. Ele possivelmente não possui mais a habilidade de funcionar de qualquer jeito. Mas, uma palavra de atenção. As autoridades sabem que os visitantes não irão mostrar qualquer desrespeito dentro deste prédio. Pode ser que a impensável e poderosa civilização da qual vieramKlaatu e Gnut, possa enviar outros emissários para ver o que aconteceu com eles. Caso façam ou não, nenhum de nós deve mostrar-se inamistoso com nossa atitude. Nenhum de nós é capaz de antecipar o que aconteceria, todos nos sentimos pesarosos, mas ainda temos reconhecimento da nossa responsabilidade e devemos fazer o que for preciso para evitar qualquer possível retaliação. Vocês poderão permanecer por mais cinco minutos e então soará um gongo e pedimos que todos por favor, deixem o local prontamente. Os atendentes ao longo da parede responderão as dúvidas que tiverem. Olhem bem, diante de vocês estão os símbolos absolutos da realização, do mistério e da fragilidade da raça humana.’ A gravação cessou. Cliff cuidadosamente moveu com cuidado seus membros doloridos e sorriu. Se eles soubessem o que eu sei! Suas fotografias contavam uma história um pouco diferente da apresentação. Uma das linhas do chão, ontem estava visível, próxima ao pé do robô, e hoje estava coberta. Gnut havia se movido! Ou sido movido, pensou sem achar ser provável. Onde estaria a outra evidência de seu deslocamento? Não podia ter sido feito em uma noite apenas e todos os sinais apagados. E por que o fariam? Ainda assim, para ter certeza, ele perguntara ao guarda. E ainda se lembrava de sua resposta: ‘Não. Gnut nunca se moveu ou foi movido desde a morte de seu mestre. Tiveram o cuidado de mantêlo como estava, na posição que assumiu quando da morte de Klaatu. O chão foi construído debaixo dele e os cientistas levantaram seus aparatos ao redor dele. Não precisa ter medo.’ Cliff sorriu de novo. Ele não tinha medo. Não ainda.

Parte 2 No momento seguinte o grande gongo sobre a entrada, soou a hora de fechamento do museu e imediatamente seguiu-se uma voz vinda dos alto-falantes: ‘Cinco horas, senhoras e senhores. É hora de fechar, senhoras e senhores.’ Os três cientistas, surpresos por ser já tão tarde, correram para lavar as mãos, trocar as roupas e desapareceram por uma porta do corredor, sem ver o jovem debaixo da mesa. O som dos pés no andar da exibição rapidamente desapareceu até se resumir aos passos dos dois guardas caminhando de uma ponta para outra, verificando que tudo estava certo. Apenas muito rapidamente um deles parou na porta do laboratório e se foi. As portas de metal foram fechadas e então houve silêncio total. Cliff aguardou alguns minutos, então cuidadosamente saiu debaixo da mesa. Assim que ficou de pé, um som de algo se quebrando soou perto do seu pé. Encontrou os restos de uma pipeta de vidro, que ele provavelmente tinha derrubado ao sair do esconderijo. Aquilo fez com que pensasse em algo que até então não lhe ocorrera. Um Gnut que podia se mover era um Gnut que poderia ver e ouvir; e realmente poderia ser perigoso. Teria que ter mais cuidado. A sala era margeada por duas partições de fibra que acompanhavam a curva abaixo da nave. Um dos lados da sala era a nave por si e a outra, ao sul, a parede daquela ala. E quatro janelas altas. A única entrada era a passagem. Sem se mover, apenas com seu conhecimento do prédio, bolou seu plano. A ala era conectada a oeste com o fim do museu por uma entrada nunca usada, e a sua extensão leste conduzia ao monumento de Washington. A nave ficava perto da parede sul e Gnut ficava em frente dela, não muito longe do canto norte e o final oposto da sala, próximo da entrada do prédio e do corredor que dava no laboratório. Tomando bastante cuidado, poderia sair no lado mais distante do robô e havia uma pequena plataforma baixa, com o painel do som. Esta mesa era o único lugar que oferecia um esconderijo no qual poderia observar o que acontecia. Os outros únicos objetos na sala eram os seis atendentes emformato do robô em estações fixas ao chão ao longo da parede norte, posicionados para atender as perguntas dos visitantes. Então, tinha que chegar até aquela mesa. Na ponta dos pés, deixou o laboratório e seguiu o corredor. Estava bem escuro lá fora, pois a luz de entrada da exibição havia sido apagada.

Conseguiu chegar ao final da sala sem fazer som algum. De lado espiou a nave e Gnut. E teve um momentâneo choque. Os olhos do robô estavam fixos nele – ou pareciam estar. Seria somente um efeito ou, pensou, que ele já fora descoberto? A posição da cabeça de Gnut não parecia ter sido alterada. Provavelmente estava tudo bem, mas ele desejava não precisar cruzar a sala com aquela sensação dos olhos do robô a lhe seguir. Recuou, sentou-se e esperou. Teria que estar totalmente escuro antes dele se arriscar chegar até a mesa. Aguardou por uma hora até que a luz fraca das lâmpadas do lado de fora começou a tornar a sala mais clara, então se levantou e olhou para a nave mais uma vez. Os olhos do robô pareciam atravessá-lo. Era algo aterrador. Será que Gnut sabia que ele estava ali? Quais seriam seus pensamentos? O que poderia pensar uma máquina tão incrível quanto Gnut? Chegara a hora de atravessar a sala; Cliff passou a alça da câmera pelas costas, ficando de quatro, e lentamente seguiu em direção a entrada do hall. Ali, de cócoras, encostado à parede o máximo possível, seguiu centímetro por centímetro sem parar, sem arriscar olhar para os enervantes olhos de Gnut. Levou quase dez minutos para atravessar o espaço de cem metros e estava suado quando seus dedos alcançaram a plataforma onde ficava a mesa. Ainda devagar, silenciosamente, encontrou abrigo atrás da proteção da mesa de comandos. Finalmente conseguira. Relaxou então por um momento, ansioso para saber se havia sido visto, e olhou cuidadosamente pelo lado da mesa. Os olhos de Gnut estavam sobre ele mais uma vez. Ou pareciam estar. Contra a escuridão geral, o robô assim mesmo emitia uma sombra misteriosa que fazia com que parecesse ter cinqüenta metros, dominando com sua sombra todo salão. Não conseguia saber se sua posição se alterara ou não. Mas se Gnut estivesse olhando para ele, ele ao menos não fizera nada além disso. A não ser por aquele movimento que Cliff descobrira, não parecia ter feito mais nada. Sua posição era a mesma que mantivera nos últimos três meses, na escuridão, na chuva e nas últimas três semanas no museu. Cliff não queria permitir-se ter medo, e agora tinha consciência de seu corpo.

Aquela curta viagem havia lhe custado – seus joelhos e ombros doíam e as calças pareciam estragadas. Mas isso não tinha importância se aquilo que ele esperava ver acontecesse. Se Gnut se movesse ele poderia pegá-lo com sua câmera infravermelho e, com o dinheiro da venda daquela história, poderia comprar cinqüenta calças iguais às que estava usando. E, se além disso, pudesse desvendar o propósito do movimento de Gnut, provando que existia um propósito, então ele teria uma história que faria o mundo ouvi-lo. Sentou-se por um momento para esperar: não havia nenhuma dica de quando ele se moveria, se ele se movesse naquela noite. Os olhos de Cliff já estavam acostumados à escuridão e de tempos em tempos ele observava intensamente o robô, por bastante tempo até ser obrigado a piscar e descansar seus olhos para não dar vez à sua imaginação. Mais um minuto, com o ponteiro do relógio percorrendo mais uma volta completa. A inatividade fazia Cliff menos cuidadoso e por um longo tempo permaneceu com a cabeça atrás da proteção da mesa de controle. Assim que quando Gnut se moveu ele quase desmaiou de susto. Estava um pouco aborrecido quando deu conta que o robô estava a meio caminho de seu esconderijo. E isso não era o mais assustador. Mas sim quando percebeu que não conseguia vê-lo se mover. Ele havia parado como um gato em meio do movimento para agarrar o rato. Seus olhos agora mais brilhantes, sem dúvida estavamvirados na sua direção. Ele olhava para Cliff! Sem quase respirar, e meio hipnotizado, Cliff olhou de novo. Seus pensamentos estavam confusos. Qual era a intenção do robô? Por que tinha parado? Estaria cercando-o? Como conseguia mover-se tão silenciosamente?

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