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Adeus, aposentadoria – Gustavo Cerbasi

Esqueça tudo o que você já ouviu falar sobre aposentadoria. Aliás, esqueça a ideia de se aposentar. Aposentadoria, no sentido que o senso comum dá a essa palavra, é um conceito ultrapassado se consideramos o estilo de vida que todos queremos e buscamos ter. Vem sendo cada vez mais debatida a ideia de que o atual modelo de aposentadoria não se sustenta. Há três ou quatro décadas, todos planejavam trabalhar por 30 ou 35 anos, e então se aposentar e viver tranquilamente, sem preocupações, pelos 5 ou 10 anos que lhes restassem de vida. Ao se aposentar, não sofriam e não davam trabalho a ninguém, pois viviam da previdência pública e dos complementos gerados pelo saque do fundo de garantia e pela venda de algum bem adquirido ao longo da vida. Naquele tempo, a aposentadoria representava a meta final em nosso projeto de vida. Hoje, ela marca o início de uma etapa que pode ser longa a ponto de não conseguirmos ter uma noção exata do que esperar dela. Não temos sequer referências, pois, mesmo que nossos pais tenhamtido vida longa, estavam em um contexto bastante diferente do atual. Estamos vivendo mais, com mais qualidade, custo de vida mais alto e maior nível educacional e cultural. Após desfrutar de tantas experiências de consumo e lazer, ninguém estará disposto a simplesmente aceitar um estilo de vida com escolhas limitadas pela falta de dinheiro. Se a redução na renda não matar de fome, vai matar de depressão muitos desprecavidos. Infelizmente, a maioria de nós ainda planeja trabalhar por 30 a 35 anos, mas sem grandes cuidados para garantir que de fato esteja bem a partir de então. Em geral, a aposentadoria formal ainda se dá por volta dos 60 aos 65 anos, ou meia década mais cedo para servidores públicos. Porém o sentimento a partir daí normalmente é de frustração, seja pela renda insuficiente, seja pela falta que faz a saudável e construtiva rotina de trabalho. Bancos, empresas de previdência, fundos de pensão e o Ministério da Previdência Social preconizam que as pessoas precisam poupar mais, para que as contas das previdências pública e privada fechem. Mas será que isso basta diante de modelos e serviços pouco eficientes para as ambições de uma população cada vez mais consciente de sua necessidade de bem-estar? Poupar mais resolve o problema, ou amanhã seremos levados a fazer ainda mais esforço? Essa solução simplista de poupar mais é, na prática, inviável. O Brasil vive hoje seu período de bônus demográfico, a fase histórica em que, dentro do processo de envelhecimento da população, a maior parte dos habitantes do país se encontra na fase produtiva, gerando renda e contribuindo para a previdência. Nessa fase, o país deveria estar investindo maciçamente em infraestrutura e melhorias na educação e na qualidade de vida da população, além de criando reservas extras para a previdência pública. Não está. Tanto o governo quanto as pessoas e as empresas estão torrando os ganhos extras dessa fase. A corrupção e o oportunismo, que drenam dos cofres públicos e privados os recursos que deveriam se transformar em investimentos, nunca estiveram tão evidentes. Nos próximos anos, gastaremos cada vez mais com saúde, segurança, educação privada e impostos. É impraticável, neste modelo, imaginar que as famílias possam aumentar consideravelmente seu esforço de poupança. A pressão por gastos cresce mais e mais, a inflação nunca esteve de fato sob controle, os rendimentos dos investimentos são decrescentes, a expectativa de consumo só aumenta e a capacidade de poupar está longe do ideal.


Calma lá! Não é o cenário que está contra nossos planos. O problema está na fórmula que adotamos para tentar enfrentar essa situação. Ela simplesmente não funciona mais. Sua vida mudou, a economia do país mudou, e sua relação com o dinheiro tambémdeve mudar. É preciso adotar um novo modelo para planejar o futuro, já que as soluções para sobreviver no contexto atual não são convincentes. É essa nova forma de lidar com o dinheiro ao longo da vida que proponho neste livro. Reuni pesquisas e reflexões sobre casos de fracasso e de sucesso para desenvolver conselhos atualizados sobre a melhor maneira de se educar, de investir, de gerenciar a carreira e de desfrutar aquilo que foi plantado. Ao longo de mais de uma década dedicando-me a estudar e trabalhar com educação financeira, escrevendo, fazendo palestras e orientando públicos de diversas idades e classes sociais, prepareime para apresentar aqui uma nova forma de lidar com a evolução da riqueza ao longo da vida. Acredito que você irá se supreender com alguns dos elementos-chave do que proponho. Ao contrário do que sugerem as infrutíferas soluções atuais, o caminho que recomendo envolve menos privações, maior qualidade de vida, investimentos conservadores e mais sonhos realizados no decorrer dos anos. Não acredita? Esse modelo tem sido testado há mais de 10 anos, inclusive entre pessoas que já chegaram à aposentadoria e que tiveram que lidar com os resultados limitados de um planejamento malsucedido. É uma proposta prática e acessível a qualquer um que esteja disposto a escrever a própria história. Peço seu voto de confiança sobretudo nas primeiras páginas desta leitura, para entender o que precisa ser mudado e como seus planos para o futuro podem melhorar de maneira definitiva. 1 Não dá para contestar os fatos Durante toda a minha vida, segui o que pareciam ser as regras do jogo. Procurei trabalhar em empresas sólidas, fui um profissional dedicado, cursei especialização e pós-graduação, criei uma rede de relacionamentos e pratiquei toda a política necessária para ser reconhecido pelos meus superiores. Tive parte de meus ganhos retidos no contracheque para contribuir com os fundos de pensão das companhias para as quais trabalhei. Acompanhei, de tempos em tempos, meu saldo no INSS para ter certeza de que as empresas não estavam deixando de fazer a sua parte na construção de meu futuro. Seguindo a recomendação de especialistas, ainda poupei uma parcela de meus ganhos líquidos, investindo de acordo com as orientações de meus gerentes de conta, que sempre demonstraram segurança no assunto. Diversifiquei investimentos, evitando deixar tudo no banco: também comprei e construí alguns pequenos imóveis. Pelo que fiz ao longo de minha vida profissional, pensei que chegaria a um ponto em que teria muito mais do que o suficiente para viver bem. Os fundos de pensão deveriam garantir uma renda equivalente à que eu tinha enquanto trabalhava. O INSS deveria me garantir proteção e um complemento significativo de renda para ampliar minhas escolhas. Meus investimentos deveriam ser desfeitos apenas se acontecesse algum imprevisto. Hoje estou aposentado, como previsto pelas regras que segui. Mas, ao contrário do retorno esperado em termos de renda e proteção, a única coisa que realmente tenho de sobra é um enorme sentimento de insegurança.

Os fundos de pensão me proporcionam uma renda até maior do que a que eu tinha pouco antes de me aposentar, mas meus gastos aumentaram demais. A renda do INSS é incrivelmente baixa comparada ao sacrifício incrivelmente alto que foi contribuir para ele ao longo de toda a minha carreira. E, ao avaliar o estado de minha moradia, percebi a necessidade de realizar melhorias. Ao fazer as contas, percebi que meus investimentos poderão ser consumidos em pouco tempo se eu não tomar bastante cuidado. Sinto medo, pois tive que me adequar a um padrão de vida que parece estar em um frágil equilíbrio. Temo que qualquer imprevisto possa me colocar na situação de insuficiência e desconforto que já experimentei nos meus primeiros anos de trabalho. O problema é que naquela época eu tinha algumas escolhas a fazer. Agora, como aposentado, não tenho. Preparei-me durante décadas para não precisar contar com outras opções de renda, e de que adiantou? Aposentado não é exatamente o termo com o qual me identifico. Na verdade, estou é apavorado! Essa é a história de José. E também de João, de Maria, de Fulano, de Beltrano e de Sicrano. A descrição acima foi criada com base em aspectos comuns a dezenas, talvez centenas de depoimentos que colhi durante consultas, consultorias, palestras, aulas e trocas de mensagens ao longo de meu trabalho de consultor e especialista em educação financeira. É a história da desilusão de quem seguiu um roteiro que prometia o Éden, mas que conduziu a uma melancólica situação de insegurança e impotência. Fiz questão de frisar que essa não é a situação de alguém que passou por algum imprevisto. O número de pessoas que me trouxeram esse tipo de reflexão após a aposentadoria é tão grande que me levou à conclusão de que estamos nos pautando por regras erradas, ou então não percebemos que esse não é um jogo em que se entra para vencer. O jogo é que está errado, e algo precisa ser feito para que essa realidade seja mudada. Se você passa por isso, conhece alguém que esteja nessa situação ou simplesmente está buscando conhecimento para evitar esse cenário, é fundamental entender que, se continuar fazendo o que pareceu ser o certo até hoje, irá chegar ao mesmo resultado decepcionante a que milhões de pessoas chegam todos os anos. Você precisa mudar a maneira de se educar e os motivos pelos quais adquire conhecimento. Acredite: no mundo atual, não devemos mais buscá-lo apenas para ter sucesso no trabalho. Seu cérebro quer o mesmo que você? Nos últimos anos, dediquei-me com afinco a encontrar motivos para as pessoas darem mais atenção à educação financeira. Afinal, todos sabemos que existem incontáveis armadilhas nas também incontáveis decisões que tomamos diariamente a respeito de nosso dinheiro. Se lidar bemcom compras, crédito, dívidas, investimentos e planos para o futuro requer cuidados, nada seria mais natural que buscar informações sobre esse assunto. Na prática, porém, todo ser humano tem certa resistência – alguns muito mais que outros – para dedicar tempo a aprender melhor como gerenciar seu dinheiro. Conto nos dedos as pessoas que já vi estudarem cuidadosamente um contrato de plano de telefonia celular ou de financiamento de umautomóvel – “é padrão, né?”, pergunta a maioria para os nada isentos vendedores. E quantos compram livros e não leem, ou leem e não colocam em prática? Ou recebem da empresa em que trabalham cartilhas com orientações importantes sobre a previdência e deixam para estudálas quando sobrar um tempinho? Quando eu ainda enfrentava filas de banco, sempre via várias pessoas com expressão impaciente, sem saber o que fazer.

Mas nunca vi ninguém aproveitar o tempo para estudar os contratos que costumam vir no verso das contas a pagar. Dá-se tão pouca importância a eles que é comum virem em letra miúda e em tom que se confunde com a cor do papel, para que as pessoas não leiam mesmo. Afinal, ninguém vai reclamar disso. Por outro lado, há quem estude cuidadosamente as dezenas mais sorteadas na loteria, ou que saiba na ponta da língua as probabilidades de ganho para cada dezena a mais apostada. Contas e mais contas são feitas por milhões de pessoas, todas as semanas, para aumentar de maneira irrisória a probabilidade mínima de seus números serem sorteados. E o que dizer daquelas que passam horas e horas garimpando um desconto em sites de compras coletivas, ou então que fazem planos complexos para encaixar no orçamento a compra do carro dos sonhos, mas dizem não ter tempo para estudar investimentos ou criar outra fonte de renda? As razões dessa aparente insanidade são muito bem discutidas e entendidas por um ramo da ciência chamado psicologia econômica. Basicamente, o que explica o que deixamos de fazer e o que fazemos sem obter grandes resultados é o fato de nosso cérebro dar mais atenção ao que nos dá prazer. Comprar é um ato de prazer, de recompensa imediata. Ao mesmo tempo, planejamento financeiro é algo tão associado à privação, ao sofrimento ou à lembrança do grande problema que teremos pela frente que nosso cérebro trata de nos isolar desse tema. É por esse motivo que: • Quem contrata planos de previdência o faz porque acredita que deve fazer, não porque fez os cálculos necessários e tomou uma decisão bem embasada. Sabe que, se o fizer, perceberá que estará contribuindo menos do que precisa para seu futuro. • Encontrar quem entenda o mecanismo da previdência pública (ou INSS) é mais difícil do que encontrar cabeça de bacalhau. As contas, os indicadores, os fatores de correção e as normas formam um emaranhado nebuloso de regras que, além de complicadas, estão sempre mudando no sentido de limitar mais os benefícios dos aposentados ou de aumentar os sacrifícios dos que contribuem. • Um terço dos ganhadores de loteria perde tudo ou mais do que ganha. Eles fazem planos para gastar o que ganharam, mas não para manter. No filme Até que a sorte nos separe, o casal Tino e Jane (inspirado em um caso real que atendi em 2006) ganha um prêmio de 100 milhões na loteria e, após 15 anos de consumo nababesco e muito ócio e desperdício, vê-se falido. Com tanto tempo livre, não tiveram a curiosidade de fazer a continha básica de “Quanto tempo isso vai durar?”. • A quase totalidade dos trabalhadores passa a vida dedicando-se com afinco ao trabalho, confiando que problemas acontecem somente com os outros, e, ao se aposentarem, percebemse diante de um abismo, mesmo contando com bens, fundo de pensão e renda da previdência pública. Dois em cada cinco casos que atendi de pessoas recém-aposentadas envolviam medo de sacar parte dos recursos investidos ou de se iniciar ativamente nos investimentos ou numa terapia para se adaptar ao vazio causado pela falta que o trabalho faz e ao estresse doméstico. Daí vem a conhecida frase: a aposentadoria do homem é o trabalho em tempo integral da mulher. • Aposentadoria, para muitas famílias, significa mudar-se para um imóvel menor, desfazer-se da casa de veraneio, diminuir o padrão do automóvel, contar com a boa vontade da família e comas políticas de isenção para idosos, e não esperar novas experiências da vida. O resultado disso é a doença silenciosa que acomete cada vez mais pessoas no mundo de hoje: depressão. Quem gosta de reduzir o padrão de consumo? E qual o sentido de planejar para tentar, com um pouco de sorte, apenas manter o padrão de vida, se vivemos tempos de esgotamento do modelo previdenciário? O mais impressionante é que todos ainda seguem o modelo esgotado, acreditando que alguém fará alguma coisa para melhorar isso. Essas são apenas algumas consequências de escolhas perigosas que estamos fazendo com nossa riqueza ao longo da vida: adotamos um modo de viver e de planejar que nos leva aonde NÃO queremos chegar. Está mais do que na hora de você parar de construir seu castelinho de areia onde a onda do mar chega de tempos em tempos e arruína seus planos.

Que tal mudar completamente a maneira de pensar nas suas finanças? Estatísticas nada animadoras Você já leu ou ouviu alguma notícia positiva ou otimista quando o assunto é o futuro da aposentadoria? Nem eu. Partimos de um cenário nebuloso para começar nossos trabalhos. É como se, em uma aula de educação artística, nos dessem uma tela suja e com restos de tinta para iniciarmos nossa obra de arte. Todos os estudos e todas as estatísticas atuais que se referem à aposentadoria se propõem a alardear um futuro de dificuldades e de colapso no sistema previdenciário. Confira estes números: • Em 2013, a expectativa de vida dos brasileiros chegou a 74,6 anos, com projeções feitas pelo IBGE 1 indicando que esse número vai chegar a 78,6 em 2030 e 81,2 em 2060. • As pessoas com mais de 65 anos correspondiam, em 2013, a 7,4% da população, e as estimativas (também do IBGE) indicam que em 2030 serão 11,7% e em 2060, 26,7%. O que é boa notícia para a medicina não se traduz em comemoração para a economia. A população vem envelhecendo na medida em que cai o número de filhos por família. Mais gente para desfrutar, menos para contribuir. São mais pessoas esperando depender de um sistema previdenciário que não funciona bem já para os aposentados de hoje. • Em 2013, havia no Brasil 46 dependentes (jovens e aposentados sem trabalhar) para cada 100 pessoas ativas. Essa relação é chamada de taxa de dependência, que no caso do Brasil está em 46%. Segundo estimativa do banco de investimentos JP Morgan, 2 essa taxa cairá para 43% até 2022, e então começará a se elevar até que, em 2041, o número de dependentes supere o de pessoas ativas, com a taxa de dependência passando de 50%. No mundo, a média da taxa de dependência de todos os países em 2013 era de 63,3%.

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