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Adeus as Armas – Ernest Hemingway

Adeus às armas foi lançado em 1929, e foi o primeiro romance escrito por Hemingway depois de deixar Paris, onde havia se estabelecido desde 1921. Foram muitas as reviravoltas na vida do escritor, nos três anos anteriores, desde que publicara O sol também se levanta (1926). Nesse período, ele saiu do anonimato para tornar-se, segundo muitos críticos, o mais importante escritor americano, entre seus contemporâneos, e um dos maiores da literatura mundial. Em 1927, Hemingway divorcia-se de sua primeira mulher, Hardley Richardson, e casa-se com Pauline Pfiffer, uma repórter free-lance que colaborava com as revistas de moda Vanity Fair e Vogue. O casal foi morar em Key West, Flórida, em 1928, e naquele mesmo ano nasceria o seu primeiro filho, Patrick. No entanto, ainda naquele ano, o estado de saúde do pai de Hemingway, Clarence, que vinha sofrendo de diabetes, dolorosas crises de angina e dores de cabeça insuportáveis, se agrava bastante. Médico, Clarence conclui que seu quadro é irreversível e progressivo, e põe fim à vida, com um tiro na cabeça. Por infeliz coincidência, em 2 de julho 1961, Hemingway também se suicidaria, utilizando uma arma de fogo. É sempre impossível aferir o quanto a vida pessoal de um ficcionista influi em sua obra. No caso de Hemingway, no entanto, torna-se mais do que tentador traçar paralelos entre sua biografia e alguns romances que deixou. O protagonista de Adeus às armas, Frederic Henry, alistara-se no exército italiano, como motorista de ambulâncias. Gravemente ferido no campo de batalha, vai tratar-se numhospital em Milão. Hemingway tomou parte na I Guerra, e como motorista de ambulâncias da Cruz Vermelha. Ferido em combate, em Fossalta, em 8 de julho de 1918, é internado num hospital em Milão, onde conhece a enfermeira Agnes von Kurowsky, por quem se apaixona. Agnes não aceita casar-se com ele — talvez a maior desilusão amorosa sofrida pelo escritor. Já em Adeus às armas, a paixão de Frederic Henry pela enfermeira Catherine Barkley é plenamente correspondida, alcançando uma devoção mútua que nos proporciona algumas das páginas mais românticas e comoventes da literatura ocidental. Não é à toa que Marcos Rey considerou, emsua autobiografia — O caso do filho do encadernador —, Adeus às armas, juntamente com Por quem os sinos dobram, como uma aula de diálogos para todo escritor. É justamente nos diálogos entre Catherine e Frederic que o amor dos dois ganha tanta ternura e limpidez, que nos faz, o tempo todo, querer protegê-los, resguardá-los… Como se, em nosso envolvimento crescente com a história, fôssemos ganhando a consciência de que, quanto mais intenso o amor, maior sua fragilidade em confronto com o mundo. Porque, com efeito, trata-se aqui de um drama sobre o qual paira a indiferença do mundo. Frederic Henry e Catherine, em dado momento, acreditaram poder se isolar em seu amor, simplesmente se afastando da guerra, da matança disseminada. No entanto — e é ao que se chega, no final da leitura —, não há paraíso que se contraponha de fato ao inferno da guerra. A carnificina da guerra, que explicita a aleatoriedade da morte, é, aqui, apenas uma expressão mais drástica de uma brutalidade inerente à vida. Se em outros de seus romances Hemingway compôs personagens nos quais prevaleceu o sentido humanizador sobre a existência, não é o que se encontra em Adeus às armas. O título em si é quase a declaração de uma impossibilidade; não há como dizer adeus ao inimigo, não se pode voltar-lhe as costas, já que, reproduzindo uma passagem antológica deste livro, “aos que trazem coragem a este mundo, o mundo precisa quebrá-los, para conseguir eliminá-los, e é o que faz. O mundo os quebra, a todos; no entanto, muitos deles tornam-se mais fortes, justamente no ponto onde foram quebrados.


Então, aos que não se deixam quebrar, o mundo os mata”. Quando veio a público, Adeus às armas foi saudado pela crítica como o melhor livro produzido sobre a I Guerra, e houve quem dissesse que se tratava do melhor romance já escrito por um autor americano, em todos os tempos. Hemingway só reencontraria tal receptividade ao publicar, em 1940, Por quem os sinos dobram. Além do teor dramático da trama, ressaltou-se na época, mais uma vez, como em O sol também se levanta, a inovadora composição narrativa de Adeus às armas, em que Hemingway se prova capaz de conferir a uma novela — com seu característico foco concentrado emum único personagem, sem histórias paralelas — uma poderosa dinâmica, aqui, mais difícil ainda de se produzir, por ser um romance narrado em primeira pessoa. Claro que a crueza da descrição das cenas — sem abandonar o estilo econômico e direto de Hemingway — e a movimentação percorrendo diferentes ambientações — o front, Milão e Suíça — são alguns dos elementos responsáveis por esse efeito sobre a leitura. Mas de maneira alguma o impacto deste livro se deve apenas a artifícios técnicos, mesmo executados com tanta perícia… O que o leitor vai encontrar em Adeus às armas é uma história que invade os nossos sonhos… assim como as nossas angústias e temores. Uma obra, como poucas, em que a literatura nos defronta com a necessidade constante de rever posturas e prioridades diante da vida. Luiz Antonio Aguiar LIVRO UM 1 No final do verão daquele ano, ocupávamos uma casa, numa aldeia, de onde, além do rio e da planície, víamos as montanhas. O leito do rio era coberto de cascalho e de pedras, que ao sol pareciam secos e esbranquiçados. A água era muito límpida, ligeira e bastante azul nos pontos mais fundos. As tropas passavam pela casa, seguindo estrada abaixo, e a poeira que erguiam salpicava as folhas das árvores. Também os troncos das árvores estavam empoeirados. As folhas caíram cedo naquele ano. Víamos as tropas em marcha pela estrada, a poeira se levantando e as folhas caindo ao sopro do vento, e, depois que os soldados passavam, a estrada ficava branca e nua, exceto pelas folhas. A planície abundava de plantações; muitos pomares com árvores frutíferas e, para além da planície, as montanhas pardas e calvas. Havia luta nas montanhas, e, à noite, podíamos enxergar os clarões da artilharia. Na escuridão, pareciam os relâmpagos do verão, mas as noites eram frias e não havia aquela sensação de uma tempestade chegando. Às vezes, na escuridão, ouvíamos o rumor de tropas em marcha logo abaixo da janela, com os canhões puxados por tratores. Havia muito tráfego à noite e muitas mulas nas estradas com caixas de munição em ambos os flancos de suas selas, e caminhões cinzentos, cheios de homens, alguns com a carga coberta de lona, desfilando lentamente. Havia ainda grandes canhões, que passavam de dia, puxados por tratores, os longos canos camuflados de arbustos e galhos cobertos de folhas, além de videiras sobre os tratores. Olhando para o norte, víamos, além da planície, uma floresta de castanheiros; depois, a montanha, daquele lado do rio. Também houve muita luta pela posse daqueles morros, mas sem resultado; e no outono, com a chuva, caíram todas as folhas dos castanheiros. Os galhos estavam despidos e os troncos enegrecidos pela chuva. Os vinhedos tornaram-se tambémvaras finas e desnudas, e por toda a região pairava a tristeza da chuva e da morte, algo típico do outono. Havia névoa sobre o rio e nuvens na montanha distante.

Os caminhões chapinhavam e espirravam lama, e os soldados passavam sujos de barro e molhados, em seus capotes; os rifles estavam encharcados, e, por debaixo dos capotes, as duas patronas de couro cinzento na frente do cinturão, bastante pesadas, com os cartuchos de 6.5 mm, alongados e finos, estufavam tanto suas silhuetas, que faziam os homens em marcha parecerem grávidos de seis meses. Pequenos automóveis cinzentos passavam ligeiros. Na maioria das vezes, havia um oficial no assento do lado do motorista e outros no assento traseiro. Os automóveis espirravam mais lama do que os caminhões; e se um dos oficiais do banco traseiro fosse muito baixo e viesse entre dois generais, mesmo sendo tão pequeno que não conseguíssemos ver seu rosto, mas apenas o quepe e suas costas estreitas, e se esse carro, ainda, estivesse correndo mais do que os outros, provavelmente este oficial seria o rei. Ele fixara-se em Udine e passava por ali quase todo dia para checar pessoalmente como andavam as coisas. E as coisas iam mal. No início do inverno, vieram as chuvas ininterruptas, e com as chuvas chegou o cólera. Felizmente a epidemia foi combatida a tempo, e apenas sete mil soldados morreram vítimas dela. 2 No ano seguinte houve muitas vitórias. As montanhas para além do vale e a encosta onde cresciam os castanheiros foram capturadas, e também houve vitórias além da planície, no platô ao sul. Em agosto, cruzamos o rio e nos instalamos numa casa em Gorizia, com jardim murado bemsombreado, uma fonte e videiras de glicínias roxas num dos lados da residência. A luta estava agora nos morros a pouco mais de um quilômetro e meio dali. A cidade era bonita, e nossa casa muito confortável. O rio passava pelos fundos, e a cidade fora capturada com facilidade, mas não foi possível tomarem os morros, e fiquei satisfeito com a impressão dada pelos austríacos de que desejavam voltar à cidade depois da guerra, se é que a guerra terminaria algum dia, porque não a bombardearam a ponto de destruí-la, mas só o necessário aos fins militares. Havia gente morando lá, e hospitais, cafés e artilharia em vários pontos, e ainda dois bordéis, um para os oficiais, outro para os soldados. Com o fim do verão, vieram as noites frias, a luta nas montanhas próximas, o bombardeio da ponte da estrada de ferro e a destruição do túnel perto do rio onde houve luta. E tudo — as árvores ao redor da praça e a longa avenida arborizada que dava nela, além das moças da cidade e o rei passando em seu automóvel, às vezes agora dando para enxergar seu rosto e seu corpo pequeno, mas com pescoço comprido, e sua barba grisalha como uma barbicha de bode, e mais os súbitos relances dos interiores das casas que haviam perdido algumas das paredes com os bombardeios, com reboco e entulho às vezes espalhados pelos jardins e pelas ruas, e com a coisa indo bem no Carso — acabou fazendo aquele outono muito diferente do anterior, que eu também passara na região. A guerra também havia mudado. A floresta de carvalhos, nas montanhas para além da cidade, já não existia. Era uma floresta verde, no verão, quando chegamos, mas estava agora reduzida a tocos de árvore, a troncos caídos, a chão revolto. E num dia do fim do outono, quando eu estava andando pelo lugar que fora uma floresta, vi uma nuvem vindo sobre a montanha. Avançava depressa, e o sol ficou amarelo-pálido. Tudo se tornou cinzento, o céu se encobriu, e a nuvem desceu sobre a montanha. Subitamente, estávamos dentro dela, e era neve.

Vinha arrastada pelo vento e logo forrou o chão, com os tocos de árvore sobressaindo. Havia neve até sobre os canhões, e trilhas de neve amassada, indo até as latrinas, atrás das trincheiras. Mais tarde, na cidade, fiquei vendo a neve cair, da janela de um dos bordéis — o bordel dos oficiais —, onde me sentara com um amigo e dois copos, mais uma garrafa de vinho Asti. Olhando toda aquela neve, caindo lenta e pesadamente, tivemos a certeza de que se passara um ano inteiro. Rio acima, as montanhas não haviam sido tomadas; nenhuma delas. Isso fora deixado para o ano seguinte. Meu amigo viu o padre do nosso regimento passando pela rua, caminhando cauteloso sobre a neve lisa, e bateu na vidraça para atrair sua atenção. O padre levantou os olhos. Ele nos avistou e sorriu. Meu amigo fez-lhe sinal para que entrasse. O padre balançou a cabeça recusando o convite e seguiu seu caminho. Nessa noite, no rancho, o capitão começou a implicar com o padre; isso, depois do espaguete, que todos comiam com muita rapidez, e sérios, erguendo os fios no ar com o garfo, até que estivessem totalmente soltos, e baixando-os para dentro da boca, ou sugando-os e engolindo-os sem cortar, e servindo-nos do vinho daqueles garrafões recobertos de palha trançada. O garrafão estava pendurado em um balanço de metal, e tudo que se precisava fazer era baixar a parte superior da garrafa com o dedo indicador para que o vinho vermelho e límpido, tânico e delicioso, enchesse o copo, que a mesma mão segurava. Era um padre jovem, que corava com facilidade e usava o mesmo uniforme que nós, mas com uma cruz de veludo vermelho sobre o bolso de cima da túnica cinza. Por duvidosa cortesia, o capitão falava um italianês, para que eu pudesse entender tudo o que era dito. — Padre hoje com garotas — disse o capitão, olhando para mim e para o padre, que sorriu e corou, sacudindo negativamente a cabeça. Este capitão vivia implicando com ele. — Não verdade? Vi hoje padre com garotas — insistiu ele. — Não! — protestou o padre, enquanto os outros oficiais à mesa riam da brincadeira. — Padre não com garotas — continuou o capitão. — Padre nunca garotas — disse, voltando-se para mim. Tomou meu copo e o encheu, olhando-me nos olhos o tempo todo, mas sem perder de vista o padre. — Padre toda noite cinco contra um, compreende? — continuou, e toda a mesa riu. —Compreende? Padre toda noite cinco contra um — disse, fazendo com a mão um gesto muito expressivo. O padre não se ofendeu com a piada.

— O Papa quer que os austríacos ganhem a guerra — interveio o major. — Ele gosta do Francisco José, porque é de onde vem o dinheiro. Eu sou ateu. — Já leu Black Pig? — perguntou-me o tenente. — Posso lhe arranjar um exemplar. Foi o que escangalhou a minha fé. — É um livro infame e imundo — protestou o padre. — Não acredito que goste dele. — É ótimo! Conta tudo a respeito desses padres. Você vai gostar — replicou o tenente para mim. Comecei a rir, e, do outro lado da mesa, o padre fez o mesmo. — Não leia essa droga — aconselhou-me. — Vou arranjar um exemplar para você — insistiu o tenente. — Todos os homens que usam os cérebros são ateus — tornou o major. — Mas não acredito nos maçons. — Pois eu acredito — declarou o tenente. — A maçonaria é uma instituição de valor. Alguém entrou na sala, e pela porta entreaberta pude enxergar a neve caindo. — Com a neve já começando a cair, não teremos mais ofensivas este ano — opinei. — Claro que não — confirmou o major. — Você pode tirar uma licença e ir a Roma, Nápoles… Sicília… — Devia visitar Amalfi — aparteou o tenente. — Minha família mora lá e posso mandar uma carta para eles recomendando você. Vão recebê-lo como a um filho. — Melhor é ir a Palermo. — Ou a Capri.

— Eu gostaria que você fosse aos Abruzzos e visitasse minha gente em Capracotta — sugeriu o padre. — Abruzzos, que ideia! Lá tem mais neve do que aqui. O tenente não quer ver camponeses. Deixeo ir aonde tenha cultura e civilização. — Do que ele precisa é encontrar umas belas garotas. Tenho ótimos endereços em Nápoles. Lindas pequenas, das que andam acompanhadas pelas mães. Rá! Rá! Rá! — disse o capitão, gargalhando, e espalmou a mão no ar, com o polegar para cima e os dedos bem separados, como quando se quer projetar sombras na parede. A sombra de sua mão ficou na parede. Ele voltou a falar em seu italianês: — Você vai assim — e indicou o polegar — e volta assim — e indicou o mindinho. Todos riram muito. — Olhe — disse o capitão, e de novo abriu bem os dedos, e de novo a luz da vela projetou sombras na parede. Ele começou pelo polegar levantado, nomeando todos os dedos… — Este é o soto-tenente (o polegar); este, o tenente (o indicador); este, o capitano (o maior de todos); este, o maggiore (o seu vizinho); e este, o tenente-coronelo (o mindinho). Você vai soto-tenente e volta soto-coronelo! — Todos riram; o capitão fazia sucesso com suas piadas sobre dedos. Ele encarou o padre e repetiu: — Todas as noites, cinco contra um. Novas risadas. — Precisa tirar a sua licença o quanto antes — disse o major. — Gostaria de ir com você para lhe mostrar as coisas — advertiu o tenente. — Quando voltar, traga um fonógrafo. — E discos de ópera. — Mas não o Caruso. Ele berra. — E você não gostaria de berrar feito ele? — Ele berra. É o que eu digo. Ele berra! — Eu gostaria que você fosse para os Abruzzos — repetiu o padre.

Os outros continuavam gritando. — Há boa caça por lá. Gente ótima. É muito frio, mas um frio seco e saudável. Ia poder ficar com a minha família. Meu pai é um famoso caçador. — Bom, vamos — avisou o capitão. — Temos de chegar no bordel antes que feche. — Boa-noite — disse eu para o padre. — Boa-noite — respondeu ele. 3 Quando voltei para o front ainda ocupávamos aquela cidade. Havia muito mais canhões na área, e já estávamos na primavera. Os campos estavam reverdecidos, e pequenos brotos verdes nasciamnas vinhas. As árvores ao longo da estrada estavam recobertas de folhas tenras e uma brisa chegava do mar. Vi a cidade com o monte e o castelo acima dela, acomodada numa bacia, entre os montes e as montanhas mais além — montanhas pardacentas com algum verde nas encostas. Na cidade, mais canhões, alguns hospitais novos, ingleses pelas ruas e, às vezes, mulheres; e havia mais casas destruídas pelas bombas. Estava mais quente, bem primaveril, e desci a alameda arborizada, sentindo o calor do sol refletido nas paredes. Descobri que ainda estávamos morando na mesma casa e que tudo parecia igual, bem como eu deixara. A porta estava aberta, e havia um soldado sentado no banco, do lado de fora, tomando sol; uma ambulância estava estacionada perto da porta lateral, e, quando entrei, senti o cheiro de chão de mármore e de hospital. Estava tudo igual a antes, só que agora estávamos na primavera. Pela porta do salão, avistei o major sentado à secretária, perto da janela por onde entrava o sol. Ele não me viu, e fiquei sem saber se entrava para lhe falar ou se subia, antes, para me lavar. Resolvi subir. O quarto que eu dividia com o tenente Rinaldi dava para o pátio. A janela estava aberta, minha cama arrumada, com cobertores, e minhas coisas penduradas na parede, a máscara contra gás na sua latinha oblonga, o capacete de aço no mesmo prego.

Junto ao pé da cama, a minha canastra achatada, com as minhas botas de inverno, com o couro bem-engraxado e brilhante sobre ela. A espingarda de caça austríaca, de cano octogonal e linda coronha de nogueira com encaixe para a face, modelo de competição, estava pendurada entre as duas camas. O telescópio da mira que encaixava na espingarda, lembrei, estava dentro da canastra fechada. O tenente Rinaldi estava em sua cama. Ele acordou quando me ouviu entrar e sentou-se. — Ciao! Como foi por lá? — Ótimo. Apertamos as mãos, Rinaldi pôs os braços em volta do meu pescoço e me beijou. — Argh! — Você está imundo! Precisa de um banho — disse ele. — Por onde andou e o que esteve fazendo? Conte tudo, vamos! — Estive em muitos lugares… Milão, Florença, Roma, Nápoles, Villa San Giovanni, Messina, Taormina… — Do jeito que fala, parece uma tabela de estações de trem. E as garotas? — Ah, sim. — Onde? — Em Milão, Florença, Nápoles, Roma… — Chega! Conte apenas qual foi a melhor delas. — Bem, foi em Milão. — Só porque foi a primeira. Onde a encontrou? Na Cova? E para onde foram? O que você achou dela? Ficaram juntos a noite inteira? — Ficamos. — Grande coisa! Agora temos lindas garotas por aqui. Garotas que nunca estiveram no front. — Ótimo. — Não está acreditando? Vamos até lá esta tarde, e você vai ver. E na cidade temos belas moças inglesas. Ando de amores com uma tal senhorita Barkley. Quero que a conheça. Acho que vamos acabar nos casando. — Bom, tenho de tomar banho e me apresentar ao major. Ninguém trabalha mais por aqui? — Desde que você saiu de licença, nada, a não ser frieiras, icterícias, congelamentos, gonorreias, ferimentos voluntários, pneumonia, cancros moles e cancros duros. Toda semana aparece um ferido por fragmento de pedra, mas há alguns feridos de verdade.

Na próxima semana, a luta vai recomeçar. Quer dizer, é o que dizem. Acha que devo mesmo me casar com a senhorita Barkley… depois da guerra, claro. — Sem a menor dúvida! — exclamei, enchendo de água a bacia. — Esta noite você vai me contar tudo — continuou Rinaldi. — Agora tenho de voltar à soneca para me apresentar belo e bem-disposto à senhorita Barkley. Despi a túnica, a camisa e me lavei na água gelada da bacia. Enquanto me esfregava com a toalha, corri os olhos pelo quarto, pelo que se via da janela e pelo tenente já de olhos fechados. Era umrapaz de boa aparência, tinha minha idade e vinha de Amalfi. Queria tornar-se cirurgião, e éramos grandes amigos. Eu o estava observando quando ele abriu os olhos. — Tem algum dinheiro? — perguntou-me. — Tenho. — Pode me emprestar cinquenta liras? Enxuguei as mãos e tirei a carteira do bolso da túnica pendurada na parede. Rinaldi pegou a cédula, dobrou-a sem erguer-se da cama e meteu-a no bolso da calça. Ele sorriu: — Tenho de dar à senhorita Barkley a impressão de ser um homem de posses. Você é meu grande amigo e protetor financeiro. — Vá para o inferno.

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