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Adeus, Janette – Harold Robbins

Ele estava nervoso. Ela podia dizê-lo pela maneira como ele andava de um lado para outro, indo até a janela de vez em quando e entreabrindo a cortina, para observar a rua de Genebra. Virou-se para fitá-la e disse, em seu alemão com o sotaque áspero da Baviera: – O francês ainda não apareceu. Ela não levantou os olhos do tricô, limitando-se a murmurar: – Ele virá. O homem voltou ao aparador e serviu-se de um schnapps, tomando-o de um só gole. – Não era assim em Paris. Naquele tempo, ele vinha correndo sempre que eu estalava os dedos. – Isso aconteceu há três anos – disse ela calmamente. – Os alemães estavam vencendo. – Nunca estivemos vencendo. Apenas pensávamos que estávamos. E a partir do momento em que a América entrou na guerra, todos sabíamos, no fundo de nossos corações, que estávamos perdidos. O débil som da campainha da porta veio lá de baixo e o homem acrescentou: – Agora é ele. A mulher levantou, deixando o tricô na mesinha ao lado da cadeira. – Vou buscá-lo. Ela desceu até o vestíbulo. O visitante já entrara na casa e a criada ajudava-o a tirar o casaco. Ele virou-se ao ouvir os passos, os dentes pequenos e brancos aparecendo num sorriso ao vê-la. Avançou na direção dela, pegando-lhe a mão e levando-a aos lábios. Ela sentiu o bigode fazer-lhe cócegas nos dedos. – Bon soir, Anna. Está linda como sempre. Ela retribuiu o sorriso e respondeu na mesma língua: – E você continua galante como sempre, Maurice. Ele riu. – E como está a menina? – Janette está com quatro anos.


E está tão grande que não mais poderia reconhecê-la. – E linda como a mãe. – Ela terá uma beleza toda sua. – Isso é ótimo. Como não posso tê-la, ficarei esperando por ela. Foi a vez de Anna rir. – Terá de esperar muito tempo. Ele fitou-a de maneira estranha. – Até lá terei de contentar-me com o que estiver disponível. – Wolfgang está esperando na biblioteca. Vamos subir. Maurice deixou que ela subisse alguns degraus antes de segui-la. E até o topo da escada, ele ficou contemplando os movimentos sensuais do corpo dela, delineados pelo vestido de seda, que aderia à pele. Os dois homens apertaram-se as mãos, Wolfgang batendo os calcanhares e acenando com a cabeça, Maurice muito francês, fazendo uma pequena mesura. Falaram em inglês, uma língua neutra, que cada um julgava falar melhor do que o outro. Nenhum queria conceder ao outro a vantagem de falar em sua própria língua. – Como está Paris? – perguntou Wolfgang. – Muito americana – respondeu Maurice. – Barras de chocolate, cigarros, goma de mascar. Não é mais a mesma cidade. Wolfgang ficou em silêncio por um momento. – Mas pelo menos os russos não estão lá. A Alemanha está liquidada. Maurice acenou com a cabeça num gesto de simpatia, sem fazer qualquer comentário. Anna, que estava observando os dois, encaminhou-se para a porta.

– Vou buscar um café. Eles esperaram até que a porta fosse fechada. Wolfgang foi ao aparador. – Schnapps? Conhaque? – Conhaque. Wolfgang serviu courvoisier no copo apropriado e entregou-o, servindo-se em seguida de schnapps. Gesticulou para uma cadeira e os dois sentaram, de frente um para o outro, com a mesinha de café no meio. – Trouxe os papéis? Maurice assentiu. Abriu a pequena pasta de couro. – Estão todos aqui. – ele ajeitou os documentos em papel azul, com o carimbo oficial do notaire, em três pilhas, na mesinha. – Creio que vai encontrar tudo em ordem. Todas as companhias foram colocadas no nome de Anna, como pediu. Wolfgang pegou um dos documentos e examinou-o. Era a algaravia legal habitual, que raramente fazia sentido, qualquer que fosse a língua em que se escrevesse. Maurice fitou-o atentamente. – Ainda tem certeza de que é isso mesmo o que quer? Podemos queimar os documentos e será como se nunca tivesse acontecido. Wolfgang respirou fundo. – Não tenho alternativa. Não há a menor possibilidade dos franceses deixarem-me ficar com as companhias, muito embora eu as tenha adquirido legalmente, durante a ocupação. Os judeus voltarão, bradando que os obriguei a vender. Maurice acenou com a cabeça em concordância. – Uns malditos ingratos. Teria sido melhor se você não fosse tão honesto. Houve outros que não apenas se apropriaram das companhias, mas ainda por cima os despacharam para os campos de concentração. Pelo menos você deixou-os escapar vivos.

Eles ficaram em silêncio por algum tempo, finalmente rompido por Maurice: – Quais são os seus planos agora? – Vou para a América do Sul. Minha mulher e meus filhos já estão lá. Não posso continuar aqui por muito mais tempo. É apenas uma questão de tempo antes que meu nome apareça. E vão então querer levar-me de volta para um julgamento na Alemanha. E os suíços vão considerar-me subitamente persona non grata. – Anna já sabe? – Contei a ela. Anna compreende. Além disso, é-me grata por ter-lhe salvado a vida e a da menina. Quando a encontrei na Polônia, ela já estava a caminho do campo de concentração. O marido, o jovem conde, morrera no campo de batalha e o resto da família desaparecera na blitz. Wolfgang fez uma pausa, recordando o primeiro dia em que vira Anna, quase cinco anos antes. *** Era uma casa pequena, num elegante bairro residencial, nos subúrbios de Varsóvia. Era pequena em comparação com as casas que a maioria dos outros oficiais alemães de alta patente preferia ocupar durante sua estada. Mas Wolfgang era diferente. Não tinha motivos para ostentar ou querer reafirmar sua importância, já que provinha de uma antiga família de industriais, impecavelmente aristocrática. Sua preocupação básica não era militar nem política. Tinha como missão providenciar para que a indústria local fosse absorvida pela indústria bélica do Reich. O objetivo principal de sua presença em Varsóvia era efetuar uma operação de limpeza, pois os estudos e trabalhos preliminares já haviam sido realizados. Competia-lhe agora tomar uma decisão final sobre a disposição e integração das diversas companhias e indústrias. Ele calculava que precisaria de um mês a seis semanas para concluir o serviço, voltando emseguida a Berlim, a fim de aguardar uma nova missão. Com apenas 34 anos, ele já recebera o posto temporário de general-de-divisão, o que lhe permitia tratar com seus equivalentes da Wehrmacht emtermos de igualdade. Seu secretário pessoal, Johann Schwebel, fora designado sargento, a fim de poder acompanhá-lo. Foi Schwebel quem a viu primeiro. Ele estava parado na porta da casa quando o caminhão estacionou na frente e as mulheres começaram a desembarcar.

Ficou admirado com a eficiência da S.S. Fora apenas no dia anterior que haviam pedido ajuda para localizar uma governanta que falasse alemão além de polonês, a fim de que não houvesse qualquer dificuldade de comunicação. Agora, seis mulheres estavam desembarcando do caminhão, para que ele escolhesse. Elas ficaram paradas no pátio, muito nervosas, enquanto o guarda com a metralhadora a tiracolo subia os degraus até a porta. O guarda parou diante de Schwebel. – Trouxe as mulheres para que possa escolher. – Está com os documentos delas? O guarda assentiu, tirando-os de uma bolsa. – Aqui estão. Ele percebeu que Schwebel olhava por cima de seu ombro e virou-se. Uma sétima mulher estava saindo do caminhão. Havia alguma coisa diferente nela. Não eram as roupas, é claro. Todas usavam o mesmo vestido cinzento da prisão. Mas era algo que ela fazia com o vestido. Talvez fosse o seu porte. Empertigado. Com um ar de indiferença, de orgulho. Os cabelos, compridos e castanhos, impecavelmente escovados, caíam um pouco abaixo dos ombros, sem que houvesse uma única mecha fora do lugar. Ela olhou ao redor, desdenhosamente, ficou parada ao lado do caminhão, esperando. Não fez qualquer menção de juntar-se às outras mulheres, que haviamcomeçado a conversar nervosamente entre si. – Aquela é a princesa – disse o guarda. – A princesa? – É como a chamam na prisão. Chegou há dez dias e acho que durante todo esse tempo não disse uma só palavra a qualquer das outras mulheres. Ela se mantém afastada.

Você sabe como as polonesas adoram trepar. No momento em que se tira o pau para fora, elas começam a gozar. E quando a gente mete, elas ficam loucas. Mas essa aí é diferente. Acho que uns 15 homens já treparam com ela e aconteceu a mesma coisa com todos. Ela ficava deitada sem fazer qualquer movimento, até tudo terminar. E depois era como se nada tivesse acontecido. Ela limpava a cona sem dizer uma só palavra e voltava a cuidar de sua vida. – Qual é a ficha dela? – perguntou Schwebel. – Eu gostaria de verificá-la em primeiro lugar. – É a que está coma faixa vermelha no canto e o A num círculo. Ela deverá ser despachada para Auschwitz na próxima semana. Não precisamos de mulheres desse tipo por aqui. – O guarda soltou uma gargalhada. – Meu conselho é não se meter com ela. Essa mulher mija água gelada. Schwebel sentou à mesa pequena que havia no vestíbulo e que lhe servia como escrivaninha. Estudou a ficha com a faixa vermelha. Tanya Anna Pojarska, n. Kosciusko, a 7 de novembro de 1918, em Varsóvia. Viúva. Marido Conde Peter Pojarska, capitão do exército polonês, morto em janeiro de 1940. Uma filha, Janette Marie, nascida em Paris, França, a 10 de setembro de 1939. Religião: católica. O pai era professor de Línguas Modernas na Universidade de Varsóvia.

Está morto. Todos os membros conhecidos da família estão mortos. Formou-se em 37 em Línguas Modernas pela Universidade de Varsóvia, com o curso de pós-graduação em Línguas Modernas da Sorbonne, Paris, em 39. Fala fluentemente polonês, francês, inglês, alemão, russo, italiano e espanhol. Todos os bens e propriedades da família foram confiscados pelo Estado, a 12 de outubro de 39. Culpada de traição e subversão. Ficha da Gestapo Varsóvia 72.943/029. Condenada ao campo de trabalhos forçados n° 12. Concedida permissão para que a filha a acompanhasse. Schwebel ainda consultou as outras fichas, mas já chegara à conclusão de que ela era a única que atendia às exigências para o serviço. As outras eram vulgares. Apesar de terem algum conhecimento de alemão, não tinham muito o que oferecer em termos de educação. Quando ele levantou os olhos, a mulher estava parada diante da mesa. – Sente, Frau Pojarska – disse Schwebel, em alemão. – Dankeschon. Ela sentou e Schwebel acrescentou em alemão: – Seus deveres consistirão em dirigir a casa, manter tudo em ordem. Será também pedida a sua ajuda na tradução e redação de determinados documentos. Acha que será capaz? – Acho que sim. – Trabalhará aqui durante seis semanas. – Nos tempos atuais, seis semanas podem ser uma vida inteira. – Ela respirou fundo. – Terei permissão para trazer minha filha? Schwebel hesitou. – Ela não causará problemas. É muito quieta.

– Não posso tomar essa decisão. Compete ao general. Os olhos dela se encontraram com os de Schwebel, através da mesa. E ela disse, calmamente: – Não posso deixar minha filha na prisão. Ele permaneceu calado e a mulher apressou-se em acrescentar: – Ainda há meios pelos quais posso demonstrar minha gratidão. Ele limpou a garganta. – Farei o que for possível. Mas tudo dependerá da decisão do general – Schwebel levantou. – Fique esperando aqui. Ela observou-o subir a escada, para falar com o general. Um momento depois, Schwebel apareceu no patamar. – Suba. Ele abriu a porta e ela entrou na sua frente. O general, que estava parado junto à janela, examinando a ficha dela, virou-se para fitá-la. A primeira reação de Anna foi de surpresa. Ele era muito jovem. Talvez 35 anos. Não devia ser muito mais velho do que Peter. A voz de Schwebel soou atrás dela: – General Von Brenner, Frau Pojarska. Wolfgang contemplou-a, sentindo uma contração nas entranhas. Podia sentir a mulher que existia por baixo daquele vestido ordinário da prisão. Sua voz tornou-se subitamente rouca: – Schwebel acha que você pode realizar o trabalho, mas há uma complicação. A voz dela soou bem clara: – Não precisa haver. Wolfgang continuou a fitá-la em silêncio. – Prometo.

– A voz dela estava agora mais firme. – Não posso deixá-la lá para morrer. Ele pensou em seus dois filhos, indo à escola na Baviera, longe da guerra, sem serem afetados. Virou-se, a fim de que a mulher não pudesse perceber a expressão em seus olhos. O que fora mesmo que Schwebel lhe informara que a mulher dissera? Ah, sim… seis semanas podem ser uma vida inteira. Seriam apenas seis semanas. Não havia motivo para que ela não pudesse tê-las. Wolfgang virou-se novamente. – Tem a minha permissão para trazer a criança. Ele percebeu a súbita névoa nos olhos dela, mas a voz que lhe respondeu era controlada e firme: – Dankeschon, Herr General. – Tem alguma outra roupa? Ela sacudiu a cabeça. – Tiraram tudo quando vim para a prisão. – Pois então teremos de providenciar-lhe algumas roupas. Terá de receber os convidados e providenciar-lhes o que desejarem. E precisamos de mais duas mulheres, uma cozinheira e outra criada para limpar a casa e lavar a roupa. Deverá escolhê-las. – Jawohl, Herr General. – Mandarei Schwebel aprontar uma ordem por escrito aprovando a vinda da criança e das duas criadas. E depois sairá com ele para fazer compras. Deverá comprar roupas para você e uniformes para as outras. Terá de aprontar tudo para o jantar desta noite, que será servido às oito horas. Deixarei o cardápio ao seu critério. Wolfgang ficou observando a porta ser fechada depois que ela saiu, em seguida voltou a sentar atrás da escrivaninha: O que fora mesmo que Schwebel lhe contara? Quinze homens. Ele não podia acreditar. Nada transparecia no rosto dela.

Não havia raiva, ressentimento ou subserviência. Era como se nada pudesse afetá-la, desde que não quisesse sentir. *** O jantar surpreendeu-o. Vichysoisse. Gedampftes kalbfleisch, com um molho suave de raiz-forte, batatas cozidas, vagens. Salada com queijo. E, finalmente, café e conhaque. Ao final da refeição, ela entrou na sala de jantar. – O jantar estava satisfatório, Herr General? – Estava ótimo. Ela permitiu-se um sorriso reservado. – Fico contente que tenha gostado. Obrigada. Deseja mais alguma coisa? – Isso é tudo, obrigado. Boa noite. – Boa noite, Herr General. Era quase meia-noite e ele ainda estava se remexendo insone na cama. Finalmente levantou, vestiu o chambre e saiu para o corredor. A luz ainda brilhava por baixo da porta do quarto de Schwebel. Wolfgang abriu-a. Schwebel levantou da cama de um pulo, com o livro que estava lendo ainda na mão. – Herr Von Brenner! – balbuciou ele. – Isto é, Herr General… – Onde é o quarto dela? – O primeiro depois da escada, no andar superior. Wolfgang fechou a porta e subiu o lance de escada. Não havia qualquer luz sob a porta do quarto dela. Ele hesitou por um instante, depois abriu a porta e entrou.

À débil claridade do luar que entrava pela janela, viu-a sentar abruptamente na cama. Ummomento depois, um pequeno abajur na mesinha-de-cabeceira acendeu-se. Os cabelos dela eramcompridos e escuros, caindo muito abaixo dos ombros, os olhos estavam arregalados. Ela não disse nada. Wolfgang viu o berço improvisado ao lado da cama, aproximou-se e olhou. A menina estava dormindo serenamente, com o polegar na boca. Ele inclinou-se sobre o berço e gentilmente retirou o polegar da boca da menina. – É péssimo para os dentes – murmurou, enquanto se empertigava. Ela continuou calada. – Qual é o nome da menina? – Janette. – Um nome bonito. – Ele tornou a contemplar a menina. – E ela é também muito bonita. – Obrigada, Herr General. – Anna fitou-o. – Tem filhos? – Dois. – Deve ser difícil ficar longe deles. – Tem razão. – E sua mulher? – Também. – Wolfgang sentiu-se subitamente embaraçado. Encaminhou-se para a porta. – Boa noite. Ele estava de volta à sua cama há cerca de dez minutos quando ela entrou no quarto. Sentou na cama. – O que quer ? – Acenda a luz .

Quero que me veja. Wolfgang acendeu o abajur na mesinha-de-cabeceira. Ela usava uma camisola branca que descia até os pés, os cabelos caindo em torno dos ombros. – Olhe para mim – disse ela, suavemente, começando a baixar a camisola por um dos ombros. Ele ficou com a respiração presa na garganta quando um seio apareceu, firme e cheio, o mamilo como um morango projetando-se da auréola entre púrpura e vermelha. O outro seio libertou-se ummomento depois, quando a camisola desceu até a cintura. Os olhos de Wolfgang acompanhavam as mãos dela, descendo lentamente pela caixa torácica, passando pela barriga lisa e suavemente musculosa, empurrando a camisola pelos quadris largos. A camisola finalmente caiu no chão, os cabelos crespos e escuros do púbis apontando como uma flecha para baixo, entre as pernas. Ela aproximou-se da cama e puxou o lençol que lhe cobria as pernas. Puxou o cordão da calça do pijama e o falo emergiu, ereto. Ajoelhou-se ao lado da cama, fitando-o nos olhos por um momento, depois olhando para o falo ereto. Gentilmente, puxou o prepúcio para baixo da glande vermelha a pulsar. A língua contornou-o, como uma serpente a se enroscar. Subitamente, a mão dela segurou o falo, apertando-o firmemente. Ela levantou os olhos para fitá-lo, a voz soando autoritária: – Não goze ainda. Wolfgang não podia falar. Só foi capaz de acenar com a cabeça. Ela tornou a virar o rosto e acrescentou, um instante antes de voltar a engoli-lo: – Só goze quando eu disser… *** Seis semanas depois, quando Wolfgang embarcou num trem a caminho de Paris, Anna e a menina acompanhavam-no. Em silêncio, Wolfgang terminou de assinar os documentos. Olhou para Maurice e disse: – Creio que isso resolve tudo. – Tecnicamente, sim. Mas há outros problemas. Wolfgang observou-o com uma expressão inquisitiva, sem dizer nada, aguardando uma explicação. – A permissão para a residência dela na França foi emitida pelo governo de Pétain. Pode não ser aceita pelo atual regime.

– Por que não? Foi uma permissão permanente, reconhecendo a situação dela como uma pessoa deslocada pela guerra. Ela até obteve um diploma da Sorbonne, antes da guerra. Além disso, a filha nasceu na França, antes da ocupação. – Tem havido muitos casos em que as permissões foram canceladas, porque os beneficiários foram considerados colaboracionistas. E há muitas pessoas em Paris que estão a par do relacionamento dela com você. Wolfgang pensou por um momento. – O que podemos fazer para resolver esse problema? – Tenho pensado bastante a respeito, mas ainda não encontrei uma solução prática. Eu só poderia dar um jeito definitivo se ela tivesse uma cidadania francesa válida. – Mas que merda! – Wolfgang levantou. – O que vamos fazer agora? Ele foi até o aparador e serviu-se de outra dose de schnapps. Maurice virou-se e olhou para Anna, que ficara sentada em silêncio, enquanto Wolfgang assinava os documentos, a bandeja de café na mesinha à sua frente. Ela levantou a cabeça das agulhas nas mãos e fitou-o nos olhos. Ficaram se fitando assim por um longo momento, até que Maurice finalmente desviou os olhos e ela voltou a se concentrar no tricô. Wolfgang tomou o schnapps, tornou a encher o copo, voltou ao sofá e sentou. – Talvez não valha a pena o esforço. Talvez seja melhor vender as companhias, nos livrarmos delas de uma vez por todas. – Não conseguiria nada por elas neste momento – comentou Maurice. – Os franceses estão falidos. Daqui a cinco anos, quando as coisas voltarem ao normal, as companhias valerão muito dinheiro. – Cinco anos… – repetiu Wolfgang. – Quem neste mundo pode saber onde estaremos dentro de cinco anos? – Se estivermos mortos, não fará a menor diferença – disse Maurice. – Mas se estivermos vivos, terá a maior importância. – Se cancelarem o visto de permanência de Anna, perdemos tudo de qualquer maneira. Eles confiscarão as companhias. – É um risco que temos de correr – afirmou Maurice.

Anna falou suavemente, sem levantar os olhos do tricô: – Se eu fosse casada com um francês, teria automaticamente a cidadania. Wolfgang fitou-a aturdido por um momento, depois virou-se para Maurice. – Isso é verdade? Maurice assentiu. – Então encontre um homem em quem possamos confiar e Anna casará com ele. Maurice gesticulou para os documentos. – Não conheço ninguém a quem possa confiar essas coisas. Você conhece? Wolfgang olhou para os papéis, depois levantou a cabeça lentamente e fitou-o: – Você não é casado. Maurice fez que não com a cabeça. – Seria perigoso demais. Ainda há muitos gaullistas que desconfiam de mim. Afinal, só pulei para o outro lado do Canal no último momento possível. – Mas eles aceitaram sua história. E também as informações que lhes forneceu, além da explicação de que permaneceu na França a fim de ajudá-los. – Tem razão. Mas isso aconteceu quando os combates ainda estavam sendo travados. Agora, no entanto, estão começando a fazer muitas perguntas. – Tenho certeza de que seu tio pode cuidar disso. – Meu tio morreu há quatro meses. – Então quem é agora o Marquês de la Beauville? – Não existe nenhum. Ele morreu sem deixar sucessores. – E o que acontece com as propriedades dele? – Reverterão ao Estado… a não ser que alguém se apresente para pagar os impostos de herança. Tem de ser alguém da família, é claro. – Acha que alguém tomará essa iniciativa? Maurice sacudiu a cabeça. – Sou o único que resta. Se meu pai, irmão dele, estivesse vivo, herdaria o título.

Mas agora tudo vai se perder… o título, as propriedades… Wolfgang insistiu: – Se você pagasse os impostos, poderia reivindicar o título? Maurice pensou por um momento. – Se o governo aceitasse meu pagamento, acho que poderia. – E a quanto montam esses impostos? – Muito dinheiro. Talvez cinco milhões de francos. Ninguém sabe direito. Os registros do governo estão praticamente perdidos. Wolfgang levantou. Estava bastante excitado. – Deixe-me pensar por um momento. Eles ficaram observando-o andar de um lado para outro da sala, até finalmente parar diante de Maurice. – Se as companhias estivessem no espólio, a propriedade dela seria válida? – Claro. Ninguém se atreveria a contestar a integridade e lealdade de meu tio. Afinal, ele foi um dos poucos franceses que teve a coragem de permanecer na França, continuando a desafiar a autoridade de Pétain. E mesmo eles não se atreveram a fazer-lhe qualquer coisa, embora ele ficasse virtualmente prisioneiro em sua casa de campo. Wolfgang sorriu de satisfação. – Então todos os nossos problemas estão resolvidos. Você e Anna casarão, providenciarei o dinheiro para que pague os impostos e reivindique o título. As companhias serão transferidas para o espólio e tudo estará em ordem. Ele pegou o copo e tomou o resto de schnapps. E acrescentou, batendo de leve nos ombros de Maurice: – Eu vos concedo o título de Marquês de la Beauvil e. Maurice olhou para Anna. Teve a impressão de perceber um tênue sorriso a se insinuar nos lábios dela. Mas Anna continuou a olhar fixamente para as agulhas de tricô que pareciam voar em suas mãos. Era o mesmo sorriso enigmático que ele vira na primeira vez em que se haviamencontrado, em Paris, no outono de 1940. *** Ele subiu os degraus da rua para a porta da casa pequena, espremida e quase perdida entre os imensos prédios de apartamentos, na avenue d’léna.

Apertou a campainha. Uma empregada de uniforme abriu a porta e fitou-o. – Pois não, Monsieur? Maurice tirou um cartão do bolso e entregou à criada. – Tenho um encontro marcado com o General Von Brenner. Ela olhou o cartão. – Entrez, Monsieur. Ele seguiu-a para o vestíbulo e ficou esperando, enquanto a criada desaparecia em outro cômodo da casa. Maurice correu os olhos pelas paredes. Estavam vazias, mas ainda se podia divisar as manchas mais claras dos lugares em que outrora estavam pendurados quadros. Ele ficou imaginando como teria sido a infeliz família francesa que fora sumariamente expulsa de sua casa para dar lugar aos conquistadores prussianos. E os quadros que outrora adornavam as paredes… será que os franceses haviam conseguido levá-los ou estariam agora na casa do general, em algum lugar na Alemanha? Passos de um homem soaram atrás dele. Maurice virou-se. O homem usando um uniforme de sargento da Wehrmacht levantou a mão em saudação. – Heil Hitler. Maurice também levantou a mão. – Heil Hitler. – O general irá recebê-lo dentro de alguns minutos. – Schwebel abriu uma porta. – Quer ter a gentileza de esperar na sala de estar? – Avec plaisir. Maurice entrou na sala e a porta foi fechada. Os móveis ali pareciam estar intactos, assim como os quadros nas paredes. Um pequeno fogo ardia na lareira. Ele aproximou-se do fogo e estendeu as mãos em sua direção, para esquentá-las. Mesmo agora, no início do outono, quando Paris normalmente ainda estava quente, parecia haver sempre um frio intenso que vinha do norte no ar úmido. Os franceses estavam convencidos de que eram os alemães que o haviam trazido.

Maurice ouviu a porta se abrir e virou-se, pensando que fosse o general. Em vez disso, deparou com uma mulher alta e jovem, os cabelos castanhos compridos escovados cuidadosamente e presos atrás da cabeça num coque, acentuando os malares salientes e os olhos grandes e escuros. Usava umelegante vestido escuro, que lhe ressaltava o corpo cheio, ao mesmo tempo que o encobria recatadamente. – Monsieur de la Beauvil e? Ela falava com um sotaque parisiense. Maurice assentiu. Ela se adiantou. – Sou Madame Pojarska. O general pediu-me que viesse atendê-lo. Ele pode demorar por mais tempo do que imaginava. Gostaria de tomar um café ou um drinque? – Um café seria ótimo. – Poderia oferecer-lhe mais alguma coisa. Nosso pâtissier é um dos melhores de Paris. Maurice sorriu. – Descobriu minha fraqueza, Madame. Era verdade. Desde que os alemães haviam chegado a Paris que não se conseguia mais encontrar um doce de massa decente em parte alguma. Poucos momentos depois, ele estava sentado no sofá, uma xícara de café autêntico à sua frente, o garfo espetando um millefeuille impecável. – Está delicioso, Madame. Um tênue sorriso contraiu os cantos da boca da jovem. – Algumas coisas na França jamais mudarão. Ele fitou-a com surpresa. Não era o tipo de comentário que se esperava ouvir na casa de umgeneral alemão. – Já tinha vivido na França antes, Madame? – Estudei aqui. Na Sorbonne. – Ela pôs outro millefeuille no prato de Maurice.

– Minha filha nasceu aqui. Pouco depois de começar a guerra. – Então sua filha é francesa. – Polonesa. Meu falecido marido e eu somos poloneses. – Pelas leis francesas, sua filha tem direito à cidadania francesa, a menos que os pais tenhamnotificado às autoridades em contrário. Ela pensou por um momento. – Então ela é francesa, porque meu falecido marido voltou à Polônia no dia em que a guerra começou e nunca providenciamos quaisquer documentos. Maurice alteou as sobrancelhas, numa expressão inquisitiva. – Seu falecido marido? A mulher acenou com a cabeça afirmativamente. – Ele morreu defendendo seu país. – Sinto muito. Ela ficou novamente pensativa por um momento. – Era o destino. Não sou a única viúva que esta guerra produziu e não serei a última. A Polônia não foi o único país a cair diante dos alemães e a França não será o último. Maurice ficou calado. – Mas as pessoas sobrevivem… mesmo que isso implique aprenderem a viver com uma nova ordem. Ele assentiu. – Tem razão. Os círculos de poder estão muito além de nós. Devemos aprender a conviver com eles e não o contrário.

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