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Adeus, minha adorada – Raymond Chandler

Era um dos quarteirões multirraciais da Central Avenue, quarteirões que ainda não tinham sido totalmente ocupados pelos negros. Eu havia acabado de sair de uma barbearia de três cadeiras onde uma agência achava que um barbeiro aposentado chamado Dimitrios Ateidis po-deria estar trabalhando. Era um caso sem importância. Sua mulher disse que estava disposta a gastar um pouco de dinheiro para fazê-lo voltar para casa. Nunca o encontrei, mas a Sra. Aleidis nunca pagou qualquer dinheiro também. Era um dia quente, quase no fim de março, e fiquei parado do lado de fora da barbearia olhando para o anúncio luminoso de um restaurante, com jogo de dados, no segundo andar, chamado Florian’s. Um homem estava olhando também para o luminoso. Estava olhando para as janelas empoeiradas com uma expressão de êxtase, como um imigrante estrangeiro vendo pela primeira vez a Estátua da Liberdade. Era um homem grande, mas não tinha mais de um metro e noventa e seis de altura e não era mais largo que um caminhão de cerveja. Eu estava a três metros dele. Seus braços pendiam moles ao longo do corpo e um charuto esquecido fumegava atrás dos seus dedos enormes. Negros magros e silenciosos passavam para baixo e para cima na rua e olhavam para ele comolhares de lado, penetrantes. Valia a pena se olhar para ele. Usava um chapéu borsalino felpudo, paletó esporte, cinza-áspero, com bolas de golfe em lugar de botões, camisa marrom, gravata amarela, calças de flanela cinza pregueadas e sapatos de crocodilo com biqueiras brancas nas pontas. Do seu bolso de fora do peito cascateava um lenço espetacular do mesmo amarelo brilhante da gravata. Havia um par de penas coloridas enfiadas numa faixa de seu chapéu, mas ele realmente não precisava delas. Mesmo na Central Avenue, a rua vestida da forma menos conservadora do mundo, ele chamava tanta atenção como uma tarântula sobre um doce de merengue. Tinha a pele pálida e precisava fazer a barba. Precisaria sempre fazer a barba. Tinha cabelos pretos encaracolados e sobrancelhas espessas que quase se encontravam sobre o nariz grosso. Suas orelhas eram pequenas e bem feitas para um homem daquele tamanho e seus olhos tinham um brilho tão próximo das lágrimas como todos os olhos cinzentos parecem ter. Estava parado como uma estátua e, após um longo tempo, sorriu. Atravessou devagar a calçada até as portas duplas de vaivém que davam para a escada do segundo andar. Empurrou-as, lançou um olhar frio, inexpressivo, para os lados da rua e entrou.


Se ele fosse um homem menor e vestido sem tanto espalhafato, eu poderia pensar que ia praticar um assalto. Mas não com aquelas roupas e não com aquele chapéu e aquela constituição. As portas voltaram para fora e quase pararam. Antes de pararem completamente de se mover, abriram-se outra vez, com violência, para fora. Alguma coisa voou através da calçada e aterrou na sarjeta entre dois carros estacionados. Aterrou sobre as mãos e os joelhos e produziu um ruído agudo como um rato encurralado. A coisa ergueu-se devagar, apanhou o chapéu e subiu de novo na calçada. Era um jovem magro, de ombros estreitos, mulato, com um terno de cor lilás e um cravo. Tinha cabelos pretos lustrosos. Ficou de boca aberta e gemeu por um momento. As pessoas olhavam para ele de forma vaga. Depois ajeitou rápido o chapéu, aproximou-se furtivamente da parede e caminhou em silêncio com os pés chatos ao longo do quarteirão. Silêncio. O tráfego recomeçou. Caminhei até as portas duplas e fiquei parado em frente delas. Estavam imóveis agora. Aquilo não era absolutamente da minha conta. Portanto empurrei-as para se abrirem e olhei para dentro. Uma mão da qual podia ter-me esquivado saiu da escuridão, segurou meu ombro e esmagou-o reduzindo-o a uma polpa. Depois a mão moveu-me através das portas e levantou-me casualmente umdegrau. O rosto grande olhou para mim. Uma voz macia profunda me disse calmamente: – Está se escondendo de alguém? Conte-me isso, amigo. – Ali estava tudo escuro. Silencioso. De cima vinham sons vagos de humanidade, mas estávamos sós na escada.

O homem grande olhou para mimsolenemente e continuou destruindo meu ombro com a mão. – Um negro – disse ele. – Atirei-o simplesmente para fora. Você me viu atirá-lo para fora? Ele soltou meu ombro. O osso não parecia estar quebrado, mas o braço estava dormente. – É esse tipo de lugar – disse eu, esfregando o ombro. – O que é que você esperava? – Não diga isso, amigo – ronronou o homem grande maciamente como quatro tigres após o jantar. – Velma costumava trabalhar aqui. A pequena Velma. Estendeu a mão para meu ombro outra vez. Tentei evitá-lo, mas ele era tão rápido como um gato. Começou a mastigar meus músculos um pouco mais com seus dedos de ferro. – É – disse ele. – A pequena Velma. Não a vejo há oito anos. Você diz que isto aqui é uma espelunca de negros? Eu grasnei que era. Ele levantou-me mais dois degraus. Soltei-me com um puxão e tentei ganhar um pouco de espaço. Eu não estava armado. Procurar Dimitrios Aleidis não parecia exigir isso. Duvidei que isso me fizesse algum bem. O homem grande provavelmente me tomaria a arma e a comeria. – Suba e veja por si mesmo – disse eu, tentando afastar o medo de minha voz. Ele soltou-me outra vez. Olhou para mim com uma espécie de tristeza em seus olhos cinzentos.

– Estou me sentindo bem – disse ele. – Não quero que ninguém se meta comigo. Vamos para cima beber alguma coisa. – Eles não vão servir você. Já lhe disse que é uma espelunca de negros. – Há oito anos que não vejo Velma – disse ele, em sua voz triste e profunda. – Oito longos anos desde que eu disse adeus. Ela não me escreve há seis. Mas deve ter um motivo. Ela costumava trabalhar aqui. Era bonitinha. Vamos subir nós dois, hein? – Está bem – gritei. – Vou subir com você. Apenas pare de carregar-me. Deixe-me andar. Estou ótimo. Estou completamente crescido. Sei ir ao banheiro sozinho e tudo o mais. Apenas não me carregue. – A pequena Velma costumava trabalhar aqui – disse ele baixinho. Não estava me ouvindo. Subimos as escadas. Ele me deixou andar. Meu ombro doía. Minha nuca estava molhada.

2 Mais duas portas de vaivém fechavam o alto das escadas do que quer que fosse que estivesse atrás. O homem grande abriu-as levemente com os polegares e entramos na sala. Era uma sala longa e estreita, não muito limpa, não muito clara, não muito alegre. Num canto um grupo de negros cantava e conversava no cone de luz sobre uma mesa ordinária. Havia um bar encostado à parede do lado direito. O resto da sala tinha em grande parte pequenas mesas redondas. Havia alguns fregueses, homens e mulheres, todos negros. O canto na mesa ordinária parou de repente, e a luz sobre ela apagou-se. Houve um silêncio súbito tão pesado como um barco cheio d’água. Olhos olharam para nós, olhos de cor castanha, enfiados em rostos que variavam do cinzento ao negro retinto. Cabeças viraram-se devagar e os olhos nelas brilharam e se fixaram no estranho silêncio profundo de outra raça. Um negro grande de pescoço grosso estava encostado na extremidade do bar com ligas cor-derosa nas mangas da camisa e suspensórios cor-de-rosa e brancos cruzados nas suas costas largas. Tinha toda a pinta de leão-de-chácara. Colocou no chão, devagar, seu pé erguido, virou-se vagarosamente e olhou para nós, separando os pés suavemente e lambendo os lábios com uma língua larga. Tinha o rosto castigado que parecia ter sido atingido por tudo exceto a caçamba de uma draga. Era cheio de cicatrizes, amassado, engrossado, axadrezado e chicoteado. Era um rosto que nada tinha a temer. Tinha sofrido tudo que alguém pudesse pensar. O cabelo curto encarapinhado tinha um toque grisalho. Uma das orelhas havia perdido o lóbulo. O negro era pesado e largo. Tinha pernas grandes e grossas que pareciam um pouco arqueadas, o que era fora do comum num negro. Passou a língua um pouco mais pelos lábios, sorriu e mexeu o corpo.Veio em nossa direção numa atitude curvada de lutador. O homem grande esperou por ele em silêncio.

O negro com as ligas cor-de-rosa nos braços colocou uma mão marrom maciça no peito do homem grande. Grande como era, a mão parecia um casco. O homem grande não se mexeu. O leãode-chácara sorriu gentilmente. – Nada de branco, irmão. Só para pessoas de cor. Lamento. O homem grande moveu seus pequenos olhos cinzentos e olhou em volta da sala. Suas faces coraram um pouco. – Bar de negros – disse ele, com raiva, entre dentes. Ergueu a voz. – Onde está Velma? – perguntou ele ao leão-de-chácara. O leão-de-chácara nem chegou a rir. Estudou as roupas do homem grande, sua camisa marrom e gravata amarela, seu paletó cinza-áspero e as bolas de golfe brancas nele. Girou sua grande cabeça delicadamente e estudou tudo isso de vários ângulos. Olhou para os sapatos de crocodilo embaixo. Sorriu ligeiramente. Parecia divertido. Senti um pouco de pena dele. Falou maciamente outra vez. – Velma, diz você? Nenhuma Velma aqui, irmão. Nada de aguardente, nada de pequenas, nada de nada. Apenas dê o fora, rapaz branco, apenas dê o fora. – Velma costumava trabalhar aqui – disse o homem grande. Falou quase sonhadoramente, como se estivesse sozinho, fora, nos bosques, catando violentas.

Tirei meu lenço e enxuguei minha nuca outra vez. O leão-de-chácara riu de repente. – Claro – disse ele, lançando um olhar rápido para trás por cima do ombro, para seu público. – Velma costumava trabalhar aqui. Mas Velma não trabalha mais aqui. Ela se aposentou. Hum. Hum. – Tire suas malditas luvas de cima de minha camisa – disse o homem grande. O leão-de-chácara franziu o cenho. Não estava acostumado a que falassem assim com ele. Tirou a mão da camisa e dobrou-a num punho mais ou menos do tamanho e cor de uma berinjela grande. Ele tinha seu trabalho, sua reputação de dureza, sua estima pública a considerar. Considerou-as por um segundo e cometeu um engano. Deu um forte e curto soco com um movimento rápido de cotovelo e acertou o lado esquerdo do queixo do homem grande. Ouviu-se um suspiro macio em volta da sala. Foi um bom soco. O ombro baixou e o corpo girou atrás dele. Havia um bocado de peso naquele soco e o homem que o dera tinha um bocado de prática. O homem grande não moveu sua cabeça mais do que dois centímetros. Nem tentou se defender do soco. Levou-o, sacudiu-se ligeiramente, produziu um ruído baixo na garganta e segurou o leão-de-chácara pela garganta. O leão de chácara tentou dar-lhe uma joelhada na virilha. O homem grande virou-o no ar e afastou seus sapatos espalhafatosos sobre o linóleo esfolado que cobria o soalho. Dobrou o leão de chácara para trás e levou sua mão direita para o cinto dele.

O cinto partiu-se como uma enfiada de linguiças. O homem grande pôs sua enorme mão chata contra a espinha do leãode-chácara e ergueu-o. Lançou-o do outro lado da sala, girando, tropeçando e agitando os braços. Três homens saíram do caminho de um salto. O leão de chácara caiu junto com uma mesa e esborrachou-se no rodapé com um barulho que deve ter sido ouvido em Denver. Suas pernas estremeceram. Depois ficou imóvel. – Alguns caras – disse o homem grande – têm ideias erradas sobre quando bancar os valentões. – Virou-se para mim. – Pois é, vamos beber alguma coisa. Fomos até o bar. Os fregueses, isoladamente, aos pares e de três em três, transformaram-se em sombras silenciosas que desusavam sem ruído pelo soalho, sem ruído através das portas no alto da escada. Silenciosas como sombras sobre o capim. Não deixavam nem as portas oscilarem. Encostamo-nos no bar. – Uísque sour – disse o homem grande. – Peça o seu. – Uísque sour – disse eu. Recebemos uísque sour. O homem grande bebeu seu uísque sour impassivelmente pela borda de seu copo atarracado. Ficou olhando solenemente para o garçom, um negro magro, de aspecto preocupado, com um avental branco e que andava como se os pés lhe doessem. – Você sabe onde está Velma? – Velma, você diz? – gemeu o garçom. – Não a tenho visto por aqui ultimamente. Não ultimamente, não senhor. – Há quanto tempo você está aqui? – Vamos ver – o garçom largou sua toalha, franziu a testa e começou a contar nos dedos.

– Cerca de dez meses, acho eu. Mais ou menos um ano. Cerca de. – Resolva – disse o homem grande. O garçom arregalou os olhos e seu gogó rodou como um pinto sem cabeça. – Há quanto tempo este galinheiro virou uma espelunca de negros? – perguntou o homem grande, de mau humor. – Disse o quê? O homem grande fechou o punho dentro do qual seu copo de uísque sour fundiu-se, quase desaparecendo. – Cinco anos pelo menos – disse eu. – Este camarada não pode saber nada sobre uma moça branca chamada Velma. Ninguém aqui pode. O homem grande olhou-me como se eu tivesse acabado de sair da casca. O uísque sour não parecia ter melhorado seu humor. – Quem, diabo, pediu a você para se meter nisso? – perguntou ele. Eu sorri. Dei um grande sorriso quente e amistoso. – Sou o camarada que entrou com você. Lembra-se? Aí ele respondeu com um sorriso, um sorriso chato, branco, sem sentido. – Uísque sour – disse ele ao garçom. – Espanta as pulgas para fora das calças da gente. Serviço. O garçom começou a trabalhar afobado, rolando o branco dos olhos. Dei as costas ao balcão do bar e olhei para a sala. Estava vazia agora, com exceção do garçom, o homem grande e eu, e o leão de chácara amarrotado contra a parede. O leão de chácara estava se mexendo. Mexia-se devagar, com esforço e como se sentisse fortes dores.

Estava engatinhando de mansinho ao longo do rodapé como uma mosca com uma asa só. Movia-se por detrás das mesas, cansadamente, um homemsubitamente velho, subitamente desiludido. Observei-o mover-se. O garçom colocou sobre o balcão mais dois uísques sour. Virei-me de frente para o bar. O homem grande olhou casualmente de relance para o leão de chácara que engatinhava e depois não lhe deu mais atenção. – Não resta nada da espelunca – queixou-se ele. – Havia um pequeno palco, uma banda e bonitos quartinhos onde um cara podia se divertir. Velma cantarolava um pouco. Tinha cabelos vermelhos. Bonita como calcinhas de renda. Íamos nos casar quando me incriminaram falsamente. Tomei meu segundo uísque sour. Estava começando a me encher com a aventura. – Que incriminação falsa? – perguntei. – Onde pensa que estive esses oito anos? – Caçando borboletas. Ele cutucou o peito com umindicador que parecia uma banana. – Na prisão. Malloy é o nome. Chamam-me de Moose 2 Malloy, por eu ser grande. O serviço no Banco Great Bend. Quarenta mil. Fiz sozinho. Isso não é alguma coisa? – Você vai gastá-los agora? Ele dirigiu-me um olhar agudo. Houve um ruído atrás de nós.

O leão-de-chácara estava de pé outra vez, cambaleando um pouco. Estava com a mão na maçaneta de uma porta escura atrás da mesa ordinária. Abriu a porta e como que caiu do outro lado. A porta bateu. Ouviu-se um clique na fechadura. – Aonde vai dar isso? – perguntou Moose Malloy. Os olhos do garçom flutuaram em sua cabeça, focalizaram-se com dificuldade sobre a porta através da qual o leão de chácara havia tropeçado. – Is. isso é o escritório do Sr. Montgomery. Ele é o dono. O escritório dele fica ali atrás. – Ele deve saber – disse o homem grande. Bebeu seu drinque de um gole. – É melhor ele não se meter a engraçadinho também. Mais dois do mesmo. Atravessou a sala devagar, pisando de leve, sem se preocupar a mínima. Suas costas enormes esconderam a porta. Estava trancada. Ele sacudiu-a, e um pedaço do painel saiu voando para o lado. Passou e trancou a porta atrás de si. Fez-se silêncio. Olhei para o garçom. O garçom olhou para mim. Seus olhos ficaram pensativos.

Esfregou o balcão, suspirou e abaixou o braço direito. Estendi o braço até o outro lado do balcão e segurei o braço dele. Era fino, frágil. Segurei-o e sorri para ele. – O que é que você tem aí embaixo, homem? Ele lambeu os lábios. Apoiou-se no meu braço e não disse nada. Seu rosto brilhante ficou cinzento. – Este cara é duro – disse eu. – E é capaz de ficar pior. A bebida faz isso com ele. Ele está procurando uma moça que conhecia. Este lugar era um estabelecimento branco. Percebeu a ideia? O garçom lambeu os lábios. – Ele esteve fora muito tempo – disse eu. – Oito anos. Não parece perceber quanto tempo é isso, apesar de eu esperar que ele pensasse ser uma vida inteira. Ele acha que as pessoas aqui devemsaber onde está a garota dele. Percebeu a ideia? O garçom disse devagar: – Pensei que você estivesse com ele. – Não pude evitar. Ele me fez uma pergunta lá embaixo e depois arrastou-me para cima. Nunca o vi antes. Mas não tenho vontade de ser atirado por cima de casa nenhuma. O que é que você tem aí? – Uma espingarda com o cano serrado – disse o garçom. – Pss. Isso é ilegal – cochichei eu.

– Ouça, você e eu estamos juntos. Tem mais alguma coisa? – Um revólver – disse o garçom. – Numa caixa de charutos. Solte meu braço. – Isso é ótimo – disse eu. – Agora chegue para lá um pouco. Devagar agora. Para o lado. Isso não é hora de puxar a artilharia. – Isso é o que você diz – zombou o garçom, transferindo seu peso cansado para meu braço. – Diz. Parou. Revirou seus olhos. Sacudiu a cabeça. Ouviu-se um ruído seco, choco, nos fundos da sala atrás da porta fechada além da mesa ordinária. Podia ter sido uma porta batendo. Eu achei que não era. O garçom também. O garçom gelou. Sua boca babou. Eu fiquei ouvindo. Nenhum outro barulho. Dirigi-me rapidamente para a extremidade do balcão. Tinha ouvido tempo demais. A porta do fundo abriu-se com estrondo e Moose Malloy saiu por ela com um salto pesado e macio e parou imóvel com os pés plantados e um largo sorriso pálido no rosto.

A Colt 45 do Exército em sua mão parecia uma pistola de brinquedo. – Não quero ninguém bancando o engraçadinho – disse ele acolhedoramente. – Imobilizem as luvas sobre o bar. O garçom e eu pusemos nossas mãos sobre o bar. Moose Malloy examinou a sala com um olhar penetrante. Seu sorriso era tenso, estereotipado. Deslocou os pés e moveu-se em silêncio até o outro lado da sala. Parecia poder tomar um banco sozinho – mesmo com aquelas roupas. Veio até o bar. – Levante as mãos, negro – disse ele baixinho. O garçom levantou as mãos para o alto. O homem grande colocou-se atrás de mim e revistou-me cuidadosamente com a mão esquerda. Sua respiração estava quente na minha nuca. Depois afastou-se. – O Senhor Montgomery não sabia também onde estava Velma – disse ele. – Tentou me dizer – com isto. – Sua mão dura bateu no revólver. Virei-me devagar e olhei para ele. – Pois é – disse ele. – Vocês vão me conhecer. Você não vai se esquecer de mim, amigo. Diga apenas aos tiras para não se descuidarem, é tudo. – Brandiu o revólver. – Bem, adeus, trouxas. Tenho que pegar um bonde.

Partiu em direção à escada. – Você não pagou as bebidas – disse eu. Ele parou e olhou para mim cuidadosamente. – Talvez você tenha razão – disse ele —, mas eu não insistiria muito. Seguiu em frente, passou pelas portas duplas e seus passos soaram remotamente a descer a escada. O garçom abaixou-se. Saltei para trás do balcão e empurrei-o para o lado. Uma espingarda de cano serrado jazia sob uma toalha numa prateleira embaixo do bar. Ao lado dela estava uma caixa de charutos. Dentro da caixa de charutos havia uma 38 automática. Apanhei ambas. O garçom pressionou o corpo contra uma fileira de copos atrás do bar. Contornei a extremidade do balcão e atravessei a sala até a porta escancarada atrás da mesa ordinária. Havia um corredor atrás dela, em forma de L, quase sem luz. O leão-de-chácara jazia inconsciente esparramado no chão, com uma faca na mão. Abaixei-me, soltei a faca e atirei-a para baixo por uma escada dos fundos. O leão-de-chácara respirava estertorosamente e sua mão estava mole. Passei por cima dele e abri uma porta marcada “Escritório” em tinta preta escamada. Havia uma pequena secretária cheia de manchas perto de uma janela parcialmente tapada comtábuas. O tronco de um homem estava preso na cadeira. A cadeira tinha um espaldar alto que chegava exatamente até a nuca do homem. Sua cabeça estava curvada para trás por cima do espaldar da cadeira, de forma que seu nariz apontava para a janela entaipada. Apenas dobrada, como um lenço ou uma dobradiça. Uma gaveta da secretária estava aberta à direita do homem. Dentro dela havia um jornal com uma mancha de óleo no meio.

A pistola devia ter vindo dali. Provavelmente tinha parecido uma boa ideia na ocasião, mas a posição da cabeça do Sr. Montgomery provava que a ideia fora equivocada. Havia um telefone sobre a secretária. Larguei a espingarda de cano serrado e fui trancar a porta antes de chamar a polícia. Sentia-me mais seguro assim e o Sr. Montgomery pareceu não se importar. Quando os rapazes da radiopatrulha subiram a escada batendo os pés, o leão-de-chácara e o garçom haviam desaparecido e eu estava sozinho ali. 3 Um homem chamado Nulty recebeu o caso, um cara enfezado de queixo saliente com longas mãos amarelas que conservou fechadas durante a maior parte do tempo em que conversou comigo. Era tenente-detetive e adido à Divisão da Rua 77 e conversamos numa sala vazia com duas pequenas secretárias encostadas a paredes opostas e um espaço para se mover entre elas, isso se duas pessoas não tentassem passar ao mesmo tempo. Um linóleo sujo, de cor marrom, cobria o chão e o cheiro de pontas velhas de charuto pairava no ar. A camisa de Nulty estava puída e as mangas do paletó estavam viradas para dentro dos punhos. Parecia pobre bastante para ser honesto, mas não parecia ser o homem que pudesse lidar com Moose Malloy. Acendeu a metade de um charuto e atirou o fósforo no chão, onde uma porção de companheiros estavam à espera dele. Sua voz disse amargamente: – Negros. Outro assassinato de negro. É isso que eu valho após dezoito anos neste departamento de polícia. Nenhuma fotografia, nenhum espaço, nemmesmo quatro linhas na seção de anúncios classificados. Eu não disse nada. Ele apanhou meu cartão, leu-o outra vez e largou-o. – Philip Marlowe, Investigador Particular. Um desses caras, hein? Jesus, você parece duro bastante. O que é que você ficou fazendo aquele tempo todo? – Que tempo todo? – O tempo todo emque este Malloy estava torcendo o pescoço deste negro. – Oh, isso aconteceu em outra sala – disse eu. – Malloy não havia me prometido que ia partir o pescoço de ninguém.

– Zombe de mim – disse Nulty, com amargura. – Está bem, vá em frente e zombe de mim. Todo mundo faz isso. O que importa mais um? Pobre Nulty. Vamos continuar e fazer algumas brincadeiras com ele. Sempre bom para se rir dele, o Nulty. – Não estou tentando zombar de ninguém – disse eu. – Foi assim que aconteceu – em outra sala. – Oh, naturalmente – disse Nulty através de uma baforada fétida da fumaça do charuto. – Eu estava lá e vi, não vi? Você não tinha nenhuma arma? – Não nesse tipo de serviço. – Que tipo de serviço? – Eu estava procurando um barbeiro que fugira da mulher. Ela achava que ele podia ser convencido a voltar para casa. – Você quer dizer um negro? – Não, um grego. – Está bem – disse Nulty e cuspiu dentro de sua cesta de papéis. – Está bem. Como conheceu o cara grande? – Já lhe contei. Eu estava ali por acaso. Ele jogou um negro pela porta do Florian’s a fora e eu tolamente enfiei minha cabeça para dentro para ver o que estava acontecendo. Aí ele me levou para cima. – Você quer dizer que ele o forçou com uma arma? – Não, ele não estava com a arma então. Pelo menos não mostrou. Tirou a arma de Montgomery,provavelmente. Ele simplesmente me carregou. Às vezes eu sou engraçadinho. – Não sei – disse Nulty.

– Você parece muito fácil de carregar. – Está bem – disse eu. – Para que discutir? Eu vi o cara e você não. Ele podia usar você ou eu como relógio de talismã. Eu não sabia que ele tinha assassinado alguém senão depois que ele saiu. Ouvi um tiro, mas pensei que alguém tivesse ficado assustado e atirado em Malloy, e depois Malloy tomara a arma de quem quer que tenha feito aquilo. – E por que você pensou uma coisa dessas? – perguntou Nulty, quase com suavidade. – Ele usou uma arma para tomar aquele banco, não usou? – Considere o tipo de roupas que ele estava usando. Ele não foi lá para matar ninguém; não vestido daquela maneira. Ele foi lá procurar uma pequena chamada Velma que havia sido sua namorada antes de ele ser preso pela segurança do banco. Ela trabalhava no Florian’s ou qualquer que fosse o nome do lugar, quando aquilo ainda era uma espelunca de brancos. Ele foi preso lá. Você o pegará, sem dúvida. – Claro – disse Nulty. – Com aquele tamanho e aquelas roupas. Fácil. – Ele pode ter outro terno – disse eu. – E um carro, esconderijo, dinheiro e amigos. Mas você o pegará. Nulty cuspiu na cesta de papéis outra vez. – Vou pegá-lo – disse ele —, mais ou menos quando nascer minha terceira dentição. Quantos caras destacaram para isso? Um. Ouça, sabe por quê? Falta de espaço. Certa vez havia cinco negros que esculpiram Crepúsculos do Harlem uns nos outros na Oitenta e Quatro, Leste. Um deles já estava morto.

Havia sangue sobre os móveis, sangue nas paredes, sangue até no teto. Desço e quando chego fora da casa um cara que trabalha no Chronicle, um bom repórter, estava saindo da varanda e entrando em seu carro. Ele faz uma careta para nós e diz, “Ah, que diabo, negros”, entra em seu carro e vai embora. Nem entrou na casa. – Talvez ele fosse um transgressor da liberdade condicional – disse eu. – Você pode conseguir alguma cooperação nisso. Mas trate-o bem ou ele derrubará os tiras que você pediu como reforço. Aí você terá espaço. – E também não terei mais o caso – zombou Nulty. O telefone tocou sobre sua secretaria. Ele ouviu e sorriu magoado. Desligou, rabiscou algo numbloco, e havia um leve brilho em seus olhos, uma luz muito distante num corredor empoeirado. – Que diabo, eles o pegaram. Isso veio do arquivo. Conseguiram suas impressões digitais, fotografia e tudo. Jesus, já é alguma coisinha. – Leu no bloco. —; Jesus, este é o homem. Um metro e noventa e seis, cento e trinta e dois quilos, sem a gravata. Jesus, que garoto. Bem, para o diabo comele. Estão pondo-o no ar agora. Provavelmente no fim de uma lista de carros quentes. Não há nada a fazer senão esperar. – Atirou o charuto na escarradeira.

– Tente procurar a garota – disse eu. – Velma. Malloy vai procurá-la. Foi isso que começou a coisa toda. Tente Velma. – Procure-a você – disse Nulty. – Não entro numa casa de prazer há vinte anos. Levantei-me. – Está bem – disse eu, e dirigi-me para a porta. – Hei, espere um minuto – disse Nulty. – Eu só estava brincando. Você não está muito ocupado, está? Enrolei um cigarro com os dedos, olhei para ele e esperei junto à porta. – Quero dizer, você tem tempo para olhar um pouco por aí à procura desta dama. Você teve uma boa ideia. Pode ser que descubra alguma coisa. Você pode trabalhar sem despertar atenção. – E o que há nisso para mim? Ele abriu as mãos amarelas tristemente. Seu sorriso era tão manhoso como uma ratoeira quebrada. – Você já teve problemas com os nossos rapazes. Não negue. Ouvi a versão deles. Da próxima vez não lhe fará mal algum ter um amigo.

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