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Adeus, Mr. Chips – James Hilton

Quando vamos avançando em idade (mas de boa saúde, é claro) ficamos às vezes emestado de grande sonolência, e as horas parecem passar como um lerdo rebanho a se mover através da paisagem. Era o que acontecia com Chips, à medida que o trimestre de outono progredia e se encurtavam de tal modo os dias, que antes da chamada geral estava tão escuro que se podia acender o gás. Porque Chips, como esses velhos lobos do mar, media ainda o tempo pelos sinais do passado; e bem podia fazer isso, pois morava na casa da senhora Wickett, na frente da escola. Achava-se ali havia mais de uma década, desde que deixara definitivamente o magistério. Tanto ele como a senhoria observavam mais a hora de Brookfield que a de Greenwich. — Senhora Wickett — cantarolava Chips, com sua voz espasmódica e aguda, que ainda conservava boa dose de vivacidade — podia me trazer uma chícara de chá antes da hora do estudo, sim? Quando vamos avançando em idade é agradável ficar sentado ao pé do fogo, tomando uma taça de chá e escutando o sino da escola a dar os sinais: jantar, chamada geral, estudo, apagar as luzes… Chips sempre dava corda ao relógio após o último toque; punha a seguir o anteparo de tela diante do fogo, apagava o gás e levava para a cama uma novela policial. Raramente lia mais de uma página antes de adormecer: o sono chegava lépido e apaziguador e era mais uma intensificação mística da percepção do que qualquer entrada, rica de mudanças, num outro mundo. Porque os dias e as noites do professor estavam igualmente povoados de sonhos. Chips ia avançando em idade (mas de boa saúde, é claro); com efeito, como afirmava o doutor Merivale, ele se achava em perfeita forma. — Companheiro velho, você está em melhores condições que eu — dizia Merivale, bebericando o seu xerez, por ocasião das visitas quinzenais. — Você já passou da idade em que as pessoas adquirem essas doenças horríveis; é dos poucos felizardos que vão morrer verdadeiramente de morte natural. E isto se chegar mesmo a morrer, já se vê… Meu velho, com um tipo tão extraordinário como você, a gente nunca sabe… Mas quando Chips apanhava um resfriado ou quando os ventos de leste uivavam por sobre os pantanais, Merivale às vezes chamava confidencialmente a senhora Wickett para o vestíbulo e lhe cochichava: — Cuide do velho. O peito dele… está forçando muito o coração. Não que ele tenha mesmo alguma coisa de anormal… São os anno domini, só isso. Mas, no fim de contas, de todas as doenças essa é a mais fatal. Anno domini… Céus! Mas, sim… O homem nascera em 1848 e fora à Grande Exposição nos seus passinhos incertos de bebê. Poucas eram as pessoas vivas que se podiam vangloriar de ter feito o mesmo. Além do mais, Chips lembrava-se até de Brookfield nos tempos de Wetherby. Um fenômeno, isso. Naquela época — 1870 — Wetherby já estava velho; era fácil a gente lembrar-se dele por causa da guerra franco-prussiana. Chips candidatara-se a um lugar emBrookfield, depois de passar um ano em Melbury, onde, muito azucrinado, não se dera bem. Mas de Brookfield ele gostara quase desde o princípio. Lembrava-se de sua entrevista preliminar — num dia de julho, claro de sol, cheio o ar do perfume das flores e do plic-ploc que vinha do campo de cricket. Brookfield jogava com Barnhurst e um dos rapazes de Barnhurst, um sujeitinho rechonchudo, fizera uma brilhante arremetida de cem jardas. Era estranho que uma coisa como essa lhe ficasse tão claramente na memória.


O próprio Wetherby se mostrara muito paternal e cortês, devia estar doente naquela época, pobre homem, pois morrera durante as férias de verão, antes de Chips começar o primeiro período letivo. Mas, fosse como fosse, ambos se haviam visto e falado. Sentado ao pé do fogo, na casa da senhora Wickett, Chips muita vez pensava: Sou provavelmente o único homem no mundo que tem uma lembrança bem viva do velho Wetherby… Viva, sim; era um quadro freqüente em seu espírito, aquele dia de verão com a luz do sol a se filtrar através da poeira, no gabinete de Wetherby. — O senhor é moço, Mr. Chipping, e Brookfield é uma velha instituição. Mocidade e velhice por vezes se casam bem. Dê o seu entusiasmo a Brookfield e Brookfield em troca lhe há de dar alguma coisa. E não permita que ninguém lhe pregue peças. Eu… aaa… estou informado de que a disciplina não era o seu forte em Melbury, hein? — É, sim, senhor. Talvez não fosse. — Não importa. O senhor está em plena juventude. Isso em grande parte é questão de experiência. Aqui terá uma nova oportunidade. Assumir desde o princípio uma atitude firme, eis o segredo. Talvez fosse mesmo. Chips lembrava-se da tremenda provação que lhe fora o tomar conta dos alunos na hora de estudo. Mais de meio século atrás, num anoitecer de setembro. O Salão Geral apinhado daqueles bárbaros cheios de exuberância, prontos a aferrar-lhe as garras, como numa presa legítima. De cútis fresca, colarinho alto e suíças (esquisitas, as modas daquele tempo), sua mocidade ali ficou à mercê de quinhentos brutamontes sem princípios, para quem o atormentar os professores novatos era uma bela-arte, um esporte excitante e uma espécie de tradição. Como indivíduos, os marotos eram tipos decentes, mas em multidão tornavam-se simplesmente cruéis e implacáveis. O súbito silêncio que se fez quando tomou o seu lugar à mesa, em cima do estrado; o ar carrancudo que assumiu para esconder o nervosismo interior; o tique-taque do relógio alto atrás dele, o cheiro de tinta de escrever e de verniz; os últimos raios de sol, dum vermelho de sangue, entrando em fitas oblíquas através das janelas de vidrocorado… Alguém deixou tombar a tampa da carteira… Rápido! Ele precisava apanhar todos de surpresa: tinha de mostrar que não era nenhum tolo. — Você aí na quinta fila… O de cabelo ruivo. Como é o seu nome? — Colley, professor. — Muito bem, Colley, escreva cem linhas.

Depois disso, nenhum distúrbio mais. Chips tinha vencido o primeiro round. E, anos mais tarde, já vereador da Cidade de Londres, baronete e várias outras coisas, Colley mandaria o filho (também ruivo) para Brookfield e Chips lhe diria: — Colley, seu pai foi o primeiro aluno que puni quando aqui cheguei há vinte e cinco anos. Foi um castigo merecido como o que lhe vou infligir agora. Como todos riram; e como Sir Richard riu, quando o filho lhe contou a história na carta que escreveu para casa no domingo seguinte! E da outra vez, anos, muitos anos depois disso, a pilhéria foi ainda melhor. Porque acabava de chegar um outro Colley — filho do Colley que era filho do primeiro Colley. E, pontilhando as suas observações com os pequenos “am” que se lhe tinham tornado um hábito, Chips disse: — Colley, você — am — é um esplêndido exemplo de — am — tradições herdadas. Lembro-me de que seu avô — am — nunca pôde compreender o ablativo absoluto. Um tipo obtuso, seu avô. E seu pai — am —…. também me lembro dele, costumava sentar-se lá no fundo naquela carteira junto da parede — seu pai não era muito melhor. Mas eu acredito, meu caro Colley, que você — am — é o mais tolo de todos!. Risos estrepitosos. Boa pilhéria, essa de envelhecer, mas uma pilhéria triste também, sob certos aspectos. E, sentado junto de seu fogo, enquanto os ventos do outono faziam tremer as vidraças, Chips sentia-se arrebatado muitas vezes por essas ondas de recordações alegres e tristes, que acabavam por lhe provocar lágrimas. Assim, ao entrar com a chícara de chá, a senhora Wickett não ficava sabendo se o velho estivera a rir ou a chorar. Nem o próprio Chips o saberia dizer. * * * II Do outro lado da rua, por trás dum baluarte formado de olmos antigos, ficava Brookfield, dum pardo avermelhado sob o seu manto outonal de trepadeiras. Um grupo de edifícios do século dezoito, no centro dum quadrilátero; para além dele se estendiam os campos de jogos; vinha depois a pequena povoação dependente da escola e por fim o campo aberto, de pantanais. Brookfield, como dissera Wetherby, era uma velha instituição. Estabelecida no reinado de Elisabeth como uma escola secundária, ter-lhe-ia sido possível, com melhor sorte, tornar-se tão famosa quanto Harrow. Sua fortuna, entretanto, não fora tão boa assim; a escola tivera altos e baixos, numa ocasião chegara quase a um estado de não-existência, aproximando-se doutra feita da notoriedade. Foi durante um destes últimos períodos, no reinado do primeiro George, que se reconstruiu a estrutura principal e que se fizeram grandes aumentos. Mais tarde, depois das guerras napoleônicas e até meados da era vitoriana, a escola tornou a declinar, tanto em matrícula como em reputação. Wetherby, que ali chegara em 1840, restaurou-lhe de certo modo a fazenda; mas a história subseqüente da casa nunca a elevou a uma posição de primeira fila.

Era, não obstante, uma boa escola de segunda categoria. Mantida por várias famílias notáveis, forneceu razoáveis espécimes de homens que fizeram época no século — juízes, membros do Parlamento, administradores coloniais, alguns pares e bispos. Emmaior cópia, entretanto, dava ela comerciantes, industrialistas, homens de profissão liberal e uma boa dose de morgados e sacerdotes. Era dessas espécies de escolas que, quando mencionadas empalestra, fazem às vezes que as pessoas confessem: “Creio que esse nome não me é estranho…” Mas, se Brookfield não fosse um estabelecimento dessa categoria, provavelmente não teria contratado Chips. Porque Chips, em qualquer sentido social ou acadêmico, era tão respeitável quanto a própria Brookfield, conquanto não mais brilhante que esta. No princípio levara algum tempo para perceber isso. Não porque fosse jactancioso e presumido, mas acontecia que, quando na casa dos vinte, alimentara as ambições da maioria dos outros moços dessa idade. Sonhava conseguir um eventual cargo de diretor ou pelo menos uma cadeira em alguma escola realmente de primeira classe. Foi só aos poucos, depois de repetidas tentativas e fracassos, que ele compreendeu a insuficiência de suas habilitações. Suas credenciais, por exemplo, não eram particularmente boas, e sua disciplina, conquanto bastante apreciável, e emvia de aperfeiçoamento, não era, dum modo absoluto, digna de confiança sob todas as condições. Chips não tinha bens particulares e nem ligações de família de qualquer importância. Por voltas de 1880, depois duma estadia de dez anos em Brookfield, começou a reconhecer que as probabilidades de melhorar de vida se se mudasse para outro lugar eram absolutamente nulas. Mas também por esse tempo a possibilidade de permanecer onde estava começou a ocupar-lhe um confortável lugar no espírito. Aos quarenta, achava-se ele enraizado, estabelecido e completamente feliz. Aos cinqüenta, era decano do corpo docente. Aos sessenta, sob as ordens dum novo e jovem Diretor, ele era Brookfield; o convidado de honra dos jantares dos velhos Brookfieldianos, a corte de apelação emtodos os assuntos referentes à história e à tradição de Brookfield. E em 1913, ao completar sessenta e cinco anos, aposentou-se. Ganhou de presente um cheque, uma escrivaninha e um relógio, e atravessou a rua para ir morar na casa da senhora Wickett. Uma carreira decente, decentemente encerrada; três vivas para o velho Chips, gritaram todos naquele ruidoso jantar de fim de ano letivo. Com efeito, três vivas; mas outros mais viriam, um epílogo insuspeitado, um bis dedicado a um auditório trágico. * * * III O quarto que a senhora Wickett lhe alugou era pequeno, porém mui confortável e claro. A casa mesma era feia e pretensiosa; mas isso não importava; era conveniente, aí estava o principal. Porque, se era doce o tempo, Chips gostava de ir à tarde aos campos de esporte, em repousado passeio, a olhar os jogos. Achava prazer em sorrir e trocar umas poucas palavras com os rapazes que o cumprimentavam, tocando nos gorros. Punha especial empenho em travar conhecimento com os alunos novos e em levá-los a tomar chá em sua residência, durante o primeiro período.

Pedia sempre à confeitaria Reddaway da povoação, um bolo de nozes com açúcar cristalizado cor-de-rosa; durante o período de inverno tinha também torradas numa pequena pilha diante do fogo, tão embebidas de manteiga que a bem debaixo ficava num raso lago miniatural. Os convidados de Chips divertiam-se vendo o velho fazer chá — misturando cuidadosas colheradas que tirava de diferentes latas. Perguntava aos alunos novos onde moravam e se tinham parentes em Brookfield. Mantinha-se vigilante para que nunca o prato dos rapazes ficasse vazio e, às cinco em ponto, depois de a reunião se ter prolongado por uma hora, lançava rápido olhar para o relógio e dizia: — Bom — am — foi muito agradável esta — am — reunião, sinto muito — am — mas vocês não podem ficar… Sorria, apertava-lhes as mãos no alpendre, deixando depois que atravessassem a rua a correr rumo da escola, com os seus comentários. — Bom sujeito, esse Chips. Dá-nos um excelente chá e a verdade é que sempre se sabe quando ele quer que a gente dê o fora. Chips também ficava a fazer seus comentários para a senhora Wickett, quando ela entrava no quarto para tirar da mesa os restos da festa. — Uma reunião — am — muito interessante, senhora Wickett. O jovem Branksome me contou — am — que é sobrinho do Major Collingwood, o Collingwood que tivemos aqui na escola emnovecentos e dois, se não me falha a memória. Valha-me Deus!, lembro-me muito bem de Collingwood. Uma vez dei-lhe umas palmadas — am — por ele ter subido ao telhado da sala de ginástica para tirar uma bola da goteira. Podia ter — am — quebrado o pescoço, o maluquinho. Lembra-se dele, senhora Wickett? Deve ter sido de seu tempo. Antes de ter feito economias, a senhora Wickett tomava conta da rouparia da escola. — Sim, esse eu conheci, professor. Por sinal era quase sempre muito maroto p’ra mim. Mas nunca tivemos nenhum bate-boca. Só maroteiras. Ele não fazia por maldade. Meninos assim nunca fazem, professor. Não foi ele que ganhou uma medalha? — Sim, recebeu uma condecoração da “Distinguished Service Order”. — O senhor vai querer mais alguma coisa? — Agora, nada mais, — am — até a hora do culto. O major foi morto… no Egito, creio… sim — am — a senhora pode me trazer uma sopa um pouco antes de eu sair para a capela. — Sim, senhor.

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