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ADEUS, PRINCESA – Clara Pinto Correia

Ficou tudo às escuras na escada quando a porta se fechou atrás deles, e então Mitó atreveu-se a tomar a iniciativa de lhe procurar devagarinho a ponta dos dedos. Não era seu costume. Estava a tactear as paredes à procura do primeiro lance de degraus, sem sequer se lembrar do interruptor cor de laranja, colocado a meia distância entre as duas entradas, que devia lançar sobre a descida a sua luz doentia, como um sonho vago, de contornos amarelos. Ou, mesmo que lhe tenha chegado a ocorrer semelhante hipótese, foi para a rejeitar logo de seguida. Era bom mergulhar de mão dada com ele num tempo muito breve assim desprovido de formas, um mar cego, pensou. Estou navegando. Que grande pedrada. — Anda, Helmut. Estamos quase no patamar. Foi dessa vez, na escada às escuras, entre o segundo andar e o primeiro, que o estrangeiro lhe disse aquela frase. Passou-lhe uma mão brusca pela cintura, e o assomo que lhe comandara o gesto revelava-se de qualquer sentimento estranhamente próximo do carinho. Não te vejo, Helmut. Mas olha lá, não te vejo e sinto o teu coração. Abria os olhos e nada mudava, só posso sentir o teu coração. Sinto-o batendo, batendo como se fosse o meu, ouviste? Que pedra. Ele tinha-a encostado à parede no silêncio todo negro do prédio, e nenhum dos dois podia falar. Ao primeiro ruído havia de se abrir uma porta estremunhada num dos andares, pelo menos num. Alguém apareceria de chinelas e voz pastosa para espiar um despropósito tão inadmissível, e ao fazê-lo traria consigo a indignação plena dos que no seu comportamento nada têm que possa ser digno de reparo. Não faças barulho, Helmut. Ele esmagava-a contra o estuque frio, toda a noite era clandestina. Ele rodeava-a e não tinha olhos, não tinha cara, era só a voz que então, de repente. De repente ele disse-lhe aquilo ao ouvido. — Nunca pensei que fosse tão bom estar contigo. Ela nem teve tempo para acreditar que Helmut tinha mesmo falado. O desdém de sempre voltara-lhe à superfície antes ainda de terminada a frase, e já a estava a puxar pelo braço, vamos embora, rapariga.


Desceram aos encontrões os degraus que faltavam até a luz da rua lhes facilitar o caminho. A porta de alumínio rangeu suavemente ao libertar o trinco, e o primeiro candeeiro, no passeio em frente, revelou no rosto do alemão as pálpebras inchadas sobre o vermelho que lhe raiava a córnea. Eu também devo estar com a cara assim. Foi levá-la a Baleizão sem nem mais uma palavra, sentiu-a a ousar encostar-lhe a cabeça no ombro mas continuou a guiar de olhos semicerrados. Deixou-a ao fundo do empedrado, como sempre fazia, e limitou-se a um aceno rápido ao despedi-la. Adeus, princesa. Auf wiedersehen, Prinzessin, não esperes tu que eu te diga mais alguma coisa. Nem mesmo te garanto que tenha realmente dito o que julgaste ouvir-me dizer-te na escada. Talvez não tenha acontecido nada, esta noite, em Beja. — Uma vez, em Beja. A gente vinha saindo de uma festa. Vínhamos saindo, e ele disse que era bom estar comigo. Foi por causa dessa frase, largada sem aviso na escada às escuras e nunca mais repetida, que o mecânico Helmut Schneider, de vinte e cinco anos, em serviço na Base Aérea da NATO, veio a morrer sete meses e onze dias mais tarde. Eram quatro horas da madrugada, na estrada que vem de Ferreira. E é verdade que se calhar a realidade não foi esta. Mas era assim, de qualquer forma, que Maria Vitória Joaquim Formosinho Rosado queria que tudo se tivesse passado. MOTE Eu vi a sombra da morte Olhar para a gente a sorrir Creio que foi a nossa sorte Estar o diabo a dormir VOLTA Na estrada de sentinela Atacou-nos com violência Mas a divina previdência Foi-se pôr à frente dela Deixa-os viver que a vida é bela E alguém nos veio acudir Tivemos forças para resistir A Deus temos que agradecer Já não a quero tomar a ver Olhar para a gente a sorrir (décimas de José Fachadas Godinho, natural de Moura, de 64 anos de idade, reformado) 1 Contactos Ela foi a primeira a tratá-lo por tu. Nessa altura, Joaquim Peixoto tinha já perfeitamente interiorizada a sua condição triste de eterno vencido, e como tal nunca ousaria tentar nem o mais inocente dos avanços. Bárbara Emília Frutuoso, muito comprimida dentro do despudor estreitíssimo das calças de algodão, estimulou logo ao primeiro olhar a sensibilidade macilenta do mocinho de Lisboa, mas para ele estava fora de causa o comando de qualquer iniciativa de aproximação. Apertou-lhe a mão com dedos frouxos, sentiu o relevo frio do anel largo com uma pedra redonda, verde, sem brilho, que a rapariga ostentava no indicador direito, e foi-se logo sentar num dos maples de napa encarnada, muito atrapalhado com os braços e as pernas. Fingia nem notar as cotoveladas insistentes de Sebastião Curto, esse sim, já pronto a dar seguimento à sua infalível fórmula de ataque. — Muito boa tarde, minha senhora. Sebastião Curto, para todos os efeitos um seu criado, e já agora não me arranja uma cerveja? O meu prezado colega anda a ver se dá cabo de mim. Trabalhar faz cancro, não sabia? É como a virgindade. Ah ah ah.

Aqui dentro de sua casa está muito agradável, madame, está fresquinho, assim às escuras. Conhece aquela do alentejano que diz para a mulher Maria acende a luz, então porquê homem, não sei se a mula deu um coice em mim se foi na parede? Ah? Por que é que não se ri, se está cheia de vontade de rir? A menina tem um sorriso lindo, já lhe digo. A minha máquina adora-o. Caía uma chuva morna sobre o Alentejo, Agosto viera despedir-se ensopando o pó das ruas. O calor escorria húmido pela pele, pelas paredes das casas. A morena alta fechou a porta e já estava a dizer Sebastião, acendeu o candeeiro cor-de-rosa. Havia um quadro com três ceifeiros partilhando um cântaro, e entre os maples estendia-se um tapete com tigres muito pintalgados sobre o fundo verde a sugerir a selva em fibra acrílica. Ela vinha lá de dentro trazendo o copo com riscas azuis a toda a volta do vidro e a espuma da cerveja a escorrer por fora. Dizia-lhe que não a tratasse por minha senhora, chamo-me Bárbara, e nem perguntou a Joaquim Peixoto se também queria beber qualquer coisa. Dizia ai moços, Está um tempo tão parvo, não é? Depois sorria, devoradora, para os flashes de Sebastião Curto. Conformado, o estagiário da revista Actualidades acendeu um cigarro, sem sequer lhe ocorrer a conveniência de pedir licença para fumar, e deixou-se ficar à espera da sua vez. A sala fora pintada a tinta de areia, e retocada depois num tom muito claro de violeta, em contraste com a cercadura creme dos rebordos e das portas. Só havia uma janela, encaixilhada emalumínio, entreaberta para o som compassado dos pingos de água sobre a Rua da Restauração. Bárbara Emília Frutuoso desapertara uma quantidade razoável dos botões de massa da camisa cor de laranja, e bamboleava as suas idas e vindas, por causa da sede e da objectiva de Sebastião Curto, sobre os saltos despropositados das sandálias beges, vagamente brilhantes, com muitas tiras. Usava nas unhas um verniz castanho indescritível, era nisso que ele estava a pensar quando o fotógrafo deu por terminada a sua obra e ela transferiu para o maple vermelho do estagiário aquele olhar muito bem delimitado a lápis preto, perguntando finalmente em que é que lhes poderia ser útil. — Se calhar não te posso ajudar muito. Olha lá que é a primeira vez que estou falando comjornalistas. Sebastião Curto já sumira as máquinas dentro da caixa preta que passeava sempre a tiracolo. Recostara-se no maple para apreciar bem o espectáculo da inépcia do pobre colega, ainda tão cru, desgraçado. Joaquim Peixoto não sabia que fazer com o fumo do cigarro, com as traições inoportunas das cordas vocais. Chamou-lhe duas vezes minha senhora, três vezes Bárbara, baralhou lamentavelmente os tus e os vocês, até conseguir acabar a penosa frase em que explicava estarem ali por recomendação de Teófilo Sampaio, que a indicara como melhor amiga de Maria Vitória Joaquim Formosinho Rosado. — Deve ser verdade. Digo que deve ser porque a gente nunca sabe ao certo o que estão pensando de nós as nossas melhores amigas, não é? Mas à Mitó nunca lhe esquecia do caminho aqui para a Cuba de cada vez que precisava de uma ajuda, de um conselho, ou só de alguém que a ouvisse, que é aquilo de que ela mais precisa. Eu sempre disse isso à Fatinha. Sabes quem é a Fatinha, não sabes? A mãe dela, pois.

É minha meia-irmã, mais velha, claro. O pai dela morreu na mina em Aljustrel. Depois é que a nossa mãe veio para a Cuba, ainda cá tinha um ramo de família. Eu sou meia-tia da Mitó, mas é mais como se fosse irmã. Estava sempre pronta a ouvi-la. Gosto muito de ouvir as pessoas, compreendes? Falava devagar, fazia pausas e tudo, como se julgasse que estava a proceder a um ditado para a esferográfica atenta dele. Que parva, pensava Joaquim Peixoto, e não sabia se devia achar todo aquele discurso, a meio caminho entre o álbum de família e a psicologia barata, muito interessante ou completamente tonto. Não diz coisa com coisa mas é boa como o milho, imaginou ele que Sebastião Curto havia de suspirar quando já estivessem de novo dentro da carrinha, a caminho de Beja por entre a chuva morna. E se não o dissesse? E se, contra todas as expectativas, aquilo que ela para ali contava fosse importante? Ou antes, e se Alberto Contreiras achasse que era importante? Alberto Contreiras considerava tudo uma enorme maçada. Mas não lhe iria depois gritar que afinal estivera nas palavras da dactilógrafa a única perspectiva com interesse em toda a história de assassínios nocturnos que o mandara vir investigar ao Alentejo? E logo no fim de Agosto, maldito azar. Logo agora, quando Ana Mafalda estava por fim disposta a conceder-lhe algumas tardes de entediada companhia nas imediações da Quinta da Balaia. Não sou eu que te mando, dissera-lhe ele na véspera esfregando demoradamente as mãos, e pressionando com as costas o espaldar da cadeira contra a parede. A chefia é que resolveu mandar-te, o que é que queres. Se pensas seguir esta vida, é melhor que saibas desde já que não é para viveres palpitantes aventuras. Nem sequer para te divertires. Ou julgas que estás nalgum filme? Fez estalar uma a uma as articulações dos dedos. — Vais ser um funcionário, como nós todos, desconsiderado pelo público, alvo privilegiado das agressividades que andam por aí à solta, pau mandado de uns políticos para lá de medíocres que nem sequer conseguiram concluir os seus cursos superiores. É bom que te habitues desde já à ideia. Hás-de andar sempre manipulado pelos interesses ou pelas taras dos chefes que apanhares no caminho, subestimado, e ainda por cima mal pago. Vivemos assim. E morremos cedo. Quanto às viagens fabulosas, isso é para os patrões, não diz respeito aos assalariados. Portanto vai mas é ao Alentejo, e despacha-me esta história em quatro dias. Alberto Contreiras ainda acrescentou e não te esqueças de trazer as facturas. Senão, não te pagam nenhuma despesa.

Depois recomeçara a preencher a folha branca, marginada, com o nome da revista impresso no canto superior esquerdo. A sua caligrafia miudinha, tão lisa que era quase um traço, enchia-a naquele momento já até ao meio. Olha que tens que entregar tudo na quarta-feira ao fim da tarde, resmungara em tom conclusivo antes de passar a ignorar por completo a presença do estagiário. Ana Mafalda tinha abandonado Lisboa no princípio do mês. Está um calor nesta cidade que nem se consegue respirar, dissera ela ao chefe com o sorriso maroto que já sabia infalível. Por favor não me obrigue a definhar numa câmara de gás à beira do Tejo, já viu que desperdício? O chefe comia duas laranjas que lhe povoavam o gabinete com o rasto do seu cheiro pegajoso, o que te vale é que tenho um fraquinho por meninas atrevidas. A nova estagiária encostava-se-lhe à secretária, familiar, eu deixo-lhe o meu cão de penhor. Assim tem a certeza de que volto. Ana Mafalda foi para o Algarve passear o fato de banho azul-petróleo com um papagaio verde, fazer charme a Topes e Guilhermes d’Oreys entre a saída do Bananas de Vale do Lobo e a ponte de um qualquer dois mastros abandonando docemente a Marina. Deixou o cão em Lisboa, para lhe fazer o trabalho e lhe assegurar o regresso. Ele, Joaquim Peixoto. Que adora o chão que ela pisa, coitado, murmurava toda a gente. E tinham pena do seu permanente estatuto de humilhado, mas é horrível viver com a pena dos outros. — Adeus, Quinho, vou para casa da Bebé antes que morra aqui sufocada. Hei-de comer muitos bolinhos de amêndoa a pensar em ti. Tem juízo enquanto a mãe está fora. No primeiro semestre de Direito já o aluno pálido lhe passava folhas inteiras durante as frequências. Fornecia-lhe inteiramente pronto o texto de cada resposta, redigido até com o cuidado de não ser igual ao seu, de forma a que a menina querida dos assistentes não tivesse que fazer mais que copiar. Es o meu melhor amigo, Quinho, dizia-lhe ela, mas quando se zangava atirava-lhe com o Peixoto, para o arrasar completamente. Gostava de lhe chamar poço sem fundo e de lhe contar tudo, as aventuras e os segredos, esmiuçava-lhe o roteiro completo das tropelias com os olhos a brilhar. E devia saber muito bem quanto ele sofria. Devia estar perfeitamente certa da paixão sem esperança que o colega lhe dedicava desde o primeiro encontro, na bicha para as inscrições em pleno desassossego da Reitoria. Ó miúdo, entrega-me aí os papéis ao homenzinho. Media-lhe de certeza toda a extensão do sofrimento em que há dois anos o arrastava atrás de si. E adorava, era evidente.

Que horríveis que são as mulheres, pensava ele. Depois ouvia-lhe tudo, tratava-lhe de tudo, ao menos que ela o considerasse uma espécie de cavaleiro andante, coisa desusada e no entanto a seu modo de grande nobreza. Mas nem isso. E o meu cão, dizia Ana Mafalda. — Quinho, vamos concorrer a esta coisa para fazer um negócio de jornalismo na Actualidades. Ouve lá, dá umas massas. E dá montes de nome, percebes? Um advogado que queira ser famoso tem que começar por ser jornalista. Não queres ir ser jornalista comigo, Quinho? Vá lá, vai entregar os nossos currículos, o que for preciso, trata disso, Quinho. Era muito giro. Não achas que era giro? E o meu cão, explicou ela depois aos fotógrafos, aos redactores, à telefonista, às secretárias, ela disse a toda a gente que eu sou o cão. E toda a gente se deliciava. Em Agosto, Ana Mafalda convenceu o chefe a deixá-la ir para o Algarve. Quase três semanas depois da sua partida, Margarida entrou de manhã na sala, disse bom-dia com a simpatia eficiente do costume, e deixou uma pilha de recortes em cima da mesa do estagiário Joaquim Peixoto, com o nome dele marcado em cada um a caneta verde de ponta de feltro. — São todos para a secção em cima da hora. Vê lá se não entregas só quando a página já estiver fechada, como da outra vez. Trazia sempre no pulso duas pulseiras largas de marfim, memória da sua adolescência angolana que por vezes ainda lhe embargava a voz de nostalgias românticas, o sol, o Mussulo, vocês sabem lá. Uma fita branca disciplinava-lhe o cabelo ondulado. — Essa da miúda de Baleizão que matou o namorado a ! meio da noite acho que é para desenvolveres. Fala com o Contreiras, quando ele chegar. No resto da pilha havia septuagenários esfacelando a mulher à machadada no desespero terminal da longa vida numa aldeia quase inexistente, firmas despedindo vinte trabalhadores, a decisão de remodelar uma rede de esgotos, declarações de secretários de Estado, a esposa do presidente da República num novíssimo e ambicioso jardim de infância. E a inauguração de outra fábrica de pasta de papel, algures junto à bacia magnífica de um rio agora condenado. Joaquim Peixoto até era contra os eucaliptos, mas já tinha tudo pronto, em estritas dez linhas como costumava ser ali exigência nos dias de fecho, quando Alberto Contreiras abriu a porta, muito direito e seco no seu casaco verde. Trazia uma camisa de riscas ténues aberta no colarinho. Antes de se interessar por ele pousou cuidadosamente a pasta aos pés da secretária, e foi; a resmungar colocar no devido sítio a tomada do candeeiro, que se estava sempre a desprender da ficha. Acendeu a luz, acariciou num gesto distraído as pilhas de revistas, livros, papéis soltos, que se encavalitavam sobre o tampo, e Joaquim Peixoto espiava-lhe todos os movimentos pelas indicações auditivas que ia recebendo, já a ensaiar o tom desprendido, tão natural e seguro quanto possível, com que iria tentar abordá-lo logo a seguir.

— Alberto, o que é que faço sobre esta história da miúda de Baleizão que matou o namorado? Começara num tom roufenho, uma vez mais traído por aquelas malditas disfunções da laringe. Mas Alberto Contreiras pareceu receptivo. Os assassínios deviam ser das poucas coisas, juntamente com o esoterismo e a ideia da mátria, que não se lhe afiguravam uma confrangedora maçada. — É uma história muito interessante. A rádio não falou noutra coisa toda a manhã. De que horas é o telex? Joaquim Peixoto ainda não aprendera a orientar-se no código complicado de introdução às linhas impressas em maiúsculas todas iguais. Hesitou. Alberto Contreiras tirou-lhe da mão a tira de papel. — Mandaram-no às oito e meia. Caramba! Deve ter sido uma agitação enorme lá na terra. A criança ainda vai ficar mais famosa que a Catarina Eufémia, se bem que eu duvide de que lhe venhama construir algum busto. Os tempos mudam, mas não tanto. Em frases curtas e desordenadas, o correspondente em Beja da agência noticiosa inteirava o país dos trágicos acontecimentos dessa noite, a meio da estrada que vem de Ferreira. O mecânico alemão Helmut Schneider, de vinte e cinco anos, em serviço na Base Aérea da NATO, fora encontrado sem vida atravessado no caminho, com a cabeça enfiada sob o tubo de escape de umautomóvel que cedo se apurou pertencer-lhe. Tudo indicava tratar-se de homicídio, porquanto um espesso blusão militar envolvia cuidadosamente a cabeça do jovem e a extremidade da panela, aconchegando-os no abraço fatal do monóxido de carbono. E o motor trabalhava ainda, indiferente ao mórbido efeito da própria combustão. Assim dera com ele um homem de São Brissos que se dirigia para Cuba às seis da manhã e quase tropeçara no corpo, embalado pela motocicleta contra a luz difusa do nascer do dia. — Deve ser bonito morrer desta maneira. Muito devagar, sem dor, só um entorpecimento que sobe dos pulmões ao cérebro e vai aos poucos adormecendo o corpo. Um corpo novo, para o cúmulo. Morrer quando a velhice não iniciou ainda o horror do seu trabalho. Morrer na plenitude de ser jovem. E bonito. Chegaram aí há bocado umas fotos do morto. Depois pede à Margarida que tas entregue.

Pode ser que te proporcionem qualquer inspiração. Joaquim Peixoto não sabia se aquilo era uma insinuação de gosto duvidoso, ou um gracejo de colegas a pedir resposta maliciosa e pronta. Se calhar não era nada. Achou melhor continuar calado, à espera que o orientador do seu estágio prosseguisse a leitura. Devia estar agora a tomar conhecimento de que, conforme rezava o parágrafo seguinte do telex, pouco tempo depois de dado o alarme e removido o corpo tinham comparecido na esquadra de Beja dois indivíduos que se apresentavam como sendo de Canhestros, ainda longe dali. Vinham de uma botte qualquer às quatro da manhã e tinham recolhido, um pouco à frente daquele ponto da estrada, uma miúda de dezoito anos que estava manifestamente fora do seu juízo. Chorava, tremia, e afirmava ter morto o namorado, quando este tentava violá-la. Andaram com ela às voltas dentro do carro, para cá e para lá nos caminhos que ligam entre si a distância esparsa dos montes, sem saber que fazer, atordoados pela necessidade de pensar depressa, encontrar uma ideia, até que se decidiram a entregá-la à autoridade. À hora a que o correspondente matraqueava no aparelho cinzento, espavorindo o silêncio ainda adormecido da delegação, a identidade da adolescente era já inequívoca: tratava-se de Maria Vitória Joaquim Formosinho Rosado, filha de Bernardo Formosinho Rosado, dirigente do Centro de Trabalho do Partido! Comunista Português de Baleizão, onde a família residia. Ela era estudante do ensino secundário, frequentava o antigo liceu amarelo de Beja, e, de facto, era frequentemente vista nas discotecas e bares de toda a região em companhia do mecânico. De momento, permanecia detida, enquanto se alertavam os pais e se abria o devido inquérito. Por parte da Base, esperavam-se ainda as reacções; mas estas deviam limitar-se a uma curta e seca nota de pesar. Tratava-se apenas de um modesto funcionário, envolvido numa banalíssima história de amores em desespero. Alberto Contreiras repuxou os cantos da boca no esforço muscular máximo que concedia aos sorrisos. — É uma história bonita. Faz para aí uns quatro papéis. Também não vale a pena alargares-te muito que quando nós sairmos já os outros hão-de ter revolvido o cadáver de alto a baixo, e mais a namorada do cadáver. É pena, por acaso. Tem assim um certo ar de vingança feminina, o braço dos oprimidos erguendo-se do fundo dos séculos, estás a ver? Duplamente válido, por ser uma mulher que mata um homem, e uma portuguesa que mata um alemão… mais ainda, é um civil que mata ummilitar. E tudo por obra de um desencontro amoroso. Muito interessante. Se houvesse espaço, podíamos pedir um depoimento à Catalina Madeira, que ainda a semana passada fez uma intervenção fabulosa sobre a violência no feminino, no colóquio do Femina Sapiens. Falava para si próprio mas o estagiário esforçava-se por lhe acompanhar o fio do raciocínio, entendendo naquela exposição, tão ao gosto do orientador, o único ângulo de análise que finalmente o poderia tirar do anonimato, gritando ao público a sua existência. Já toda a gente conhecia a rapariguinha atrevida que assinava Ana Mafalda Guerra. Ele, Joaquim Peixoto, poderia agora juntarse ao feliz olimpo desses eleitos, com nomes que as recepcionistas dos consultórios médicos reconhecem, se soubesse repetir aquilo que estava a ouvir da voz sempre sussurrante de Alberto Contreiras.

A vingança feminina. O braço que vem do fundo dos séculos, fixar, tudo reter sem erro cada preciosa palavra. Se os leitores querem prosas de panascas com psiquiatras a dizer que a culpa é da mãe, vamos dar-lhas todas as semanas, que remédio, dizia o chefe comendo laranjas. E temos que pôr sexo nas nossas páginas, meus senhores. Os leitores estão muito receptivos a estes temas. Ouviste, Quim? Ele não decidira ainda se era pior ser Quim ou ser Peixoto. Peixoto, vais todo roto, gritava-lhe Sebastião Curto da porta da câmara escura, e o estagiário sentia o sorriso irreprimível de Margarida, curvada sobre o telex num entrechocar de pulseiras. Agora tudo estava em conseguir arrancar do teclado perro, que lhe fora desenterrado entre as sobras da empresa, a reprodução daqueles delicados conceitos que Alberto Contreiras alinhava com tão displicente facilidade. Os leitores iriam, enfim, reter o seu nome. Viste aquela coisa do Joaquim Peixoto sobre a miúda de Baleizão que matou o namorado? O braço que vem do fundo os séculos. Dariam, finalmente, pela sua existência. Mas como é que se resume tudo a quatro papéis, mesmo desrespeitando sistematicamente a margem, e até o limite de linhas? — Bem. Fala para a polícia de Beja, a ver se já se sabe mais alguma coisa. Confirma todos estes dados. A miúda, entretanto, pode ter descido à terra e começado a dizer que não foi ela. Diz aí que o pai é dirigente do Centro de Trabalho do Partido, em Baleizão? Baleizão, é curioso, a terra de Catarina… Muito interessante, toda esta história. Parece que no campo só há vacas, e afinal dorme uma perversidade enorme debaixo daqueles malmequeres. Bem, mas o campo é uma maçada, de qualquer forma. Se quiseres, tenta ligar para o pai dela, mas não sei se vale a pena, por quatro papéis. E o homem, a esta hora, já contou a versão que tem para contar um milhar de vezes, se não me engano. Ouve, podes falar para o Voz da Planície, e pedes que te chamem o Teófilo Sampaio. Trabalhei com ele na rádio, em Moçambique. É um chato, mas está sempre informadíssimo sobre tudo o que se passa lá na terra. Isso, fala com o Teófilo. Puxa-me bem pela história.

A perversidade sob os malmequeres, repetia mentalmente! Joaquim Peixoto. No campo não há só vacas. O público estai muito receptivo a estes ternas, meus senhores. Sexo. Ele não estava a tentar violá-la? Ó filho, elas depois dizem sempre que nós estávamos a tentar violá-las, diria Francisco Garção se ali aparecesse. Já lhe ouvira logo de manhã a voz tonitroante pelos corredores, vocês souberam da gaja que abafou lá o alemão? Francisco Garção gozava da fama de ainda saberia mais de técnicas para lidar com mulheres do que Sebastião! Curto. Acabas deputado por Penacova, meu filho, e serás a glória da tua terra, diziam-lhe os outros. Ele parecia não achar a ideia totalmente desinteressante. Àquela hora já devia estar na Assembleia. Caramba, um gajo tem que ter cada vez mais cuidado a escolher as namoradas, dissera junto à máquina do café, arregaçando numa descontracção bem arrumada as mangas finas, em cinzento muito suave, da camisa de colarinho branco aberta até meio do peito. Toda a redacção parecia sugestionada pelo caso. Nem um só deixaria de ler o que ele, Joaquim Peixoto, escrevesse. — Maria Antónia? Bom-dia. Por favor, ligue-me para a polícia de Beja. — Ai, que chato. Só me sabe pedir coisas dessas nos dias de fecho, já viu? Tome lá uma linha e desenrasque-se. Ana Mafalda tratava sempre a telefonista por minha querida, e nunca se pudera queixar de uma chamada deixada por fazer ou chegada fora de horas à sua extensão. É preciso saber domesticálas, Quinho. A menina domestica tudo quanto é vivo, rosnava lá de trás Francisco Garção, insuflando o peito. Hoje almoça comigo, não seja cruel. Ana Mafalda sacudia o cabelo louro. Maria Antónia piscava-lhe o olho à entrada, com o colar de jade bem acomodado contra a pele fina do pescoço. Mudava todos os meses a tonalidade da madeixa ondulada em diagonal ao longo da testa, cobrindo e descobrindo a sobrancelha direita. O telefone com os olhos verdes mais lindos de Lisboa, diziam os homens que de manhã lhe vinham descarregar sobre a secretária encomendas, rolos de jornais, maços de revistas, envelopes enormes timbrados pela Embaixada da Líbia. Ela passava cuidadosamente pelas unhas pedacinhos de algodão amarelo embebido em acetona.

Pintava-as num verniz róseo muito delicado, e lançava olhares reprovadores à saia cor de salmão de Margarida, que tinha uma fivela a fazê-la subir com arrojo de um dos lados. Quando é que cá volta a tua filha, Maria Antónia? Está calado, infeliz, a miudinha não é para o teu dente. Abençoada filha que tal mãe tem, minha senhora. A filha nunca se apresentava na recepção com a mesma mini-saia. Fizera dezassete anos em Março, fitava o mundo por baixo dos caracóis, e elegera de imediato Ana Mafalda para confidente. Todos se rendiam aos encantos da nova estagiária. Maria Antónia usava duas minúsculas argolas de ouro dos lóbulos das orelhas pequeninas. O pechisbeque fazia-lhe alergias. Positivamente, não suportava nem a presença nem a voz de Joaquim Peixoto. — Desculpe, é da esquadra de Beja? Queria falar com qualquer pessoa que me pudesse dar informações sobre aquele caso de assassínio na estrada de Ferreira, esta noite. Repetiu quatro vezes os seus propósitos, de extensão em extensão. Estou sim, fala JoaquimPeixoto. Tinham-lhe ensinado a dizer sempre o nome, não fossem do outro lado pensar que o contacto se estabelecera através do pessoal da secretaria. Da revista Actualidades, sim, de Lisboa. Não desligue, então, que lhe vou passar o senhor comandante. O comandante fez-se esperar uns bons minutos. Está lá? Mariano Larguinho, faça o favor. — Estou-lhe a falar de Lisboa, da Actualidades. Era para saber se se confirma esta notícia que nos chegou à redacção, de um assassínio na… — Ó amigo, lá confirmar confirma, mas sempre lhe vou dizendo que desde manhã que não faço senão atender colegas seus procurando pelo mesmo. Estamos tão longe de Lisboa que ninguémse interessa pelos nossos problemas, e só quando lhes dá o cheiro do escândalo é que se lembram de que a gente existe. É ou não é?

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