| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

Adonai – Jorge E. Adoum

OCerta manhã, meu pai, entregando-me alguns cadernos manuscritos, disse: Jorge, tens que copiar isto à máquina.” Devo confessar que, nessa ocasião só pensei na renda que me poderia advir do meu trabalho. Para mim era uma ocupação como outra qualquer e não pensei sequer no valor que poderia ter a obra, mas tão somente na oportunidade que se apresentava para preencher minhas horas vagas e no proveito que traria a minha bolsa de estudante, quase sempre vazia. Pus-me logo a trabalhar. Porém, dia a dia, enquanto meus dedos executavam sobre o teclado da máquina a monótona sinfonia dos tipos, fui compreendendo que este era um trabalho diferente. A medida que prosseguia, fui encontrando páginas luminosas que muito me interessavam. Via em cada linha e no fundo da própria obra, características que nem sempre havia encontrado nos livros escritos por autores, cujos nomes brilham como estrelas de primeira grandeza no firmamento da literatura universal. A primeira parte nos apresenta um tema que se desenvolve num plano quase que inteiramente romântico. Foi então que comecei a tomar interesse pelo que escrevia. Várias paixões, que se desencadeavam no seio dos personagens, me atraíam; as palavras e as linhas formavam o fundo de um quadro de larga superfície, que apresentam páginas vivas da vida social. Comecei, assim a perceber o que até então só tinha visto pela metade: – a tragédia de um povo, em que o dinheiro, como em todas as outras partes do mundo, era a máxima autoridade; a desdita dos deserdados; o delito de ser pobre; o poderio da aristocracia e o servilismo dos representantes da religião. Cheio de entusiasmo, acerquei-me, então, de meu pai e lhe disse: – Há em tua obra uma frase melhor que tudo o que escreveste, uma frase pela qual trocaria o resto da tua novela: “O proprietário ata as mãos dos trabalhadores, enquanto o sacerdote lhes esvazia bolsos”!’ Prosseguindo, chego à descrição dos costumes do Oriente, em que se misturam a grandiosidade e a pompa das “Mil e Uma Noites”. A dor e a dureza férrea dos costumes, sem atenuação possível; a vontade paterna como lei universal; os matrimônios de conveniência, em que o monstruoso e vil metal pisa os corações e sufoca os sentimentos. As uniões impostas; a mancha e a culpa da honra perdida, em um meio em que uma velha e descabida ética social e sexual levava o agravo até o túmulo. E assim, sem sentir, quando menos esperava, cheguei à segunda parte. Aqui se mesclam, pela primeira vez ha obra, o romance e a filosofia. Em caravanas, lenta e suavemente, desfilam povos, raças, costumes, filosofias, mitologias e ritos… Devo assinalar aqui, para edificação de muitos, que sempre tive sérias discussões com meu pai sobre nossas crenças religiosas. Porém, sem falar de escolas, há em “Adonai” uma mistura de religiões e ideias místicas: mações, católicos, judeus, drusos, maronitas, ortodoxos, etc., desfilam, deixando cada um os traços da sua passagem, como as pegadas deixadas pelos passos de qualquer caminheiro. Não se descobre na obra o desejo de cimentar uma doutrina, nem o esforço de ganhar adeptos para a mesma, não se sabendo, portanto, que escola o autor defende. Ele nos apresenta rituais e deuses, porém não insinua qual deles está mais próximo da verdade. (Esqueci-me de perguntar isto a meu pai, porém recordo-me de ter escrito esta frase: “Não há religiões absolutamente falsas nemabsolutamente verdadeiras.” Todas são ramos de um mesmo tronco, porém usam uma roupagem diferente, conforme o tempo e as raças. Procurar ganhar adeptos para uma doutrina religiosa é o mesmo que pretender que as células hepáticas funcionem como células nervosas. Por este motivo, julguei inútil fazer perguntas.


) Juntamente com este quadro das religiões do Oriente, com matizes mais ou menos claros, a história e a geografia aparecem como fundamentos da obra. Devo advertir, de antemão, que sou bastante Racionalista; creio nos profundos mistérios às vezes ocasionalmente. Não obstante, ao ler e escrever as palavras de Aristóteles, o Hierofante, ao olvidar o mundo exterior e viver, os suplícios e temores da iniciação, no Colégio dos Magos, senti a mesma sensação que em outras ocasiões, quando sentia pesadelos em sonho. Estou certo de que, se for outra a impressão causada nos leitores por tais passagens, pelo menos a descrição, em si mesma, não poderá passar despercebida. Exerce um místico atrativo a vida misteriosa e quase fantástica do Mestre; uma vida que contém ummistério desconhecido. Uma vida que, ao ser contemplada juntamente com a de Adonai, deixa em nós uma melancolia cheia de mistério, sem sabermos a razão, tal como a impressão produzida em nós pelas noites de luar, que nos enchem a alma de poesia e tristeza sem podermos explicar o motivo. Nesta obra, essencialmente humana, o amor vai se desenvolvendo no correr dos dias, com a tragédia de um amor que alia o trágico ao sublime, e reconhece com tristeza sua impossibilidade. (Eu não disse isto ao autor, porém vária noite esteve pensando nas manobras caprichosas do Destino, inexplicáveis para a grande maioria dos homens.) Chego, afinal, à terceira parte, em que a política se insinua nos interstícios da obra; a hecatombe de 1914 se reproduz, não mais na velha Europa, mas sim no Oriente. A diplomacia move os homens como bonecos nos teatros da Ásia e da África. Os erros dos que não são maquiavélicos, a desilusão geral, fazem supor que o mundo nada mais é que uma esfera de podridão e lodo, e a vida, em parte alguma, merece ser vivida. Além de tudo, para completar o quadro sombrio da situação reinante, paira sobre todos os espíritos a máxima ascética de que todos devem ser crucificados. Ao ler “Adonai”, recordei-me, sem querer, de “Os Irmãos Karamazov”, de Dostoievsky. Digo isto com sinceridade, sem louvor nem parcialidade filia. Julgo acertada a comparação pela profundeza psicológica, pela austeridade dos personagens, a variedade das cenas e, principalmente, por esse manto sombrio e triste que envolve todas as linhas, comunicando lhes um caráter doloroso e profundamente melancólico. “Adonai” é uma obra essencialmente trágica, embora salpicadas de algumas ‘gotas de humorismo; porém, esse humorismo é quase ridículo e contraditório, podendo ser comparado a anedotas contadas numa câmara mortuária, para dissipar a dor dos presentes. “Adonai”, é trágica; porque é profundamente humana, tal qual a obra do grande escritor russo. Esta obra encerra cenas , reais da vida diária, cujo desenrolar nos permite contemplar o mundo. Ummundo limitado, é verdade, pela região e o tempo, porém novo para nós, pois não o conhecíamos de perto… Iludidas, prostitutas, mulheres que despertam para o amor, bem como as que envelheceram nele, curas, homens que fazem da religião um comércio, semisselvagens, guerreiros, políticos, aristocratas, reis, pobres, ricos, ascetas mas, apaixonados, diplomatas; sociedades secretas que influenciam a política e a vida social dos povos; massas e turbas enlouquecidas e fanáticas; homens que impõem sua vontade e outros que se submetem… Sobre todos domina a profunda dor, com todo o cortejo das misérias humanas da vida. Tais são os personagens de “Adonai” Que há mais, no mundo, além disto? Haverá qualquer coisa ainda que não esteja incluída neste quadro? Até a bondade e a nobreza, tão raras na terra, encontramos também aqui, embora, em poucos homens. Em todos os tempos, as lutas sociais, religiosas, políticas e econômicas foram as características do mundo. Comparando-a com diversos livros que tenho lido, acho que esta obra não tem feição de novela, pois descreve um ciclo da vida humana. São fragmentos que vieram à luz, das profundezas da mente; são recordações reunidas numa desvão da memória. Nietzsche, filósofo alemão, dizia: “Nunca lerei as obras de escritores cujo intento tenha sido escrever um livro; mas sim as daqueles cujos pensamentos, por si mesmos, tenham formado umlivro.” Tal é “Adonai”: um grupo de memórias e pensamentos lançados, às vezes ao acaso, outras vezes em ordem, para formarem um todo.

Creio que a obra tenha outro valor além do literário, pois contém algo novo, seja a descrição de rincões que não conhecemos ou as narrativas históricas, q a história esqueceu, talvez porque constituem enredos políticos de países que não são potências… E se o leitor nada disso encontrar, ao menos não deixará de apreciar as deduções que decorrem da obra; esse evangelho de paz e moral, de bem e justiça, de cosmopolitismo e união, que se desprende de suas páginas, como colunas de fumaça dos destroços e escombros de um incêndio. Para mim, “Adonai” nada mais é, em síntese, que uma voz que luta para se fazer ouvir, no meio da guerra das almas, não como um sermão religioso, mas sim como um cáustico para os profanadores da religião e como um carinhoso apelo para os que creem sinceramente. Afirmando que não “há religião mais elevada que a Verdade”, o autor se coloca acima das controvérsias, demonstrando, assim um espirito maduro, dotado de aguda penetração. Falei-lhe sobre a obra e ele não quis que outro escrevesse o prólogo. Eu o escrevi e me alegro com isso, porque, não tendo compromissos a respeitar, posso ser imparcial. Muito poderia dizer que de “Adonai”, porém limito-me unicamente a declarar que há neste livro alguma coisa para cada um dos leitores que souber ler, e com isso creio ter dito tudo. Mais uma vez declaro que o meu entusiasmo pela obra não é por se tratar de meu pai, mas simporque minha consciência me obriga a ser sincero, quer se trate dele ou de um estranho. Além disso, estou convencido de que a obra de arte é sempre subconsciente, cabendo, portanto, ao autor ummérito bem pequeno. Por isso, não o felicito, porém me alegro por terem acontecido os fatos que ele relata, porque deixariam no fundo do seu espírito a dolorosa impressão que agora vem à luz, sob a forma de uma no ela. E muito mais n1c nlegra1n se do inundo desaparecerem as cores das bandeiras, ficando somente a cor branca da paz e da justiça… PAZ JUSTIÇA e ELEVAÇÃO é a trilogia que nos ensina “Adonai”. É possível que a minha apreciação seja errônea , porém de qualquer forma, recomendo a leitura desta obra, a fim de que cada um possa formular o seu juízo. Como obra humana que é, “Adonai” contém erros, porém encerra também verdades, virtudes e belezas. O erro sempre acompanha a humanidade e eu prefiro a obra e meu pai, humana, e, portanto, falha, a um trabalho austero e sério porque está mais de acordo com a nossa natureza humana. JORGE E. ADOUUM (h.) PRIMEIRA PARTE CAPÍTULO I LÍBANO Que é o Líbano? Seguramente, querido leitor, me responderás que é um país montanhoso da Ásia Menor, famoso por seus cedros, e limitado a Oeste pelo Mediterrâneo, ao Sul pela Palestina, ao Norte pelo território dos Alanitos, a Leste pela Síria. Tem uma superfície de 10.860 quilômetros quadrados, ocupada por 1.000.000 de habitantes, cuja capital é Beirute porém , o magnífico e eterno Líbano não se define com um critério gráfico; não são suficientes dados sobre situação e território, quando se trata de definir o lugar mais formoso do mundo, tão celebrado pela sagrada Escritura. O Líbano não desapareceu, como crêem alguns, com os profetas Davi e Salomão, nem é somente o nome de uma montanha e um país. É uma palavra poética que encerra, em suas letras, um suave murmúrio. Líbano é um sentimento na alma, um desejo no coração e um pensamento na mente. Seu céu é límpido e o borbulhar das suas águas cristalinas são urna alusão à eternidade e uma fonte de amor, beleza inspiração. Seus vetustos e nodosos picos nos inclinam ao respeito; campinas verdes nos falam de mocidade, alegria e prazer .

O cedro – emblema da eternidade – é uma decoração, um corno colocado pela Natureza no seio do Líbano, cuja majestade do poder dissolvente dos séculos não ousou atacar. No inverno chora suas lágrimas são transformadas em perfumadas pérolas, com que ataviam e ornam os campos do Líbano. A Primavera, essa deusa invisível, como a pintou o maravilhoso árabe Gibran Kalil Gibran, percorre o mundo com a velocidade de caminheiro, mas ao chegar ao Líbano se detém, para descansar e se entreter com os deuses que perambulam por aquela magnífica região. Esquece, então, sua viagem e permanece ali quase até o fim do verão; porém quando sente a carícia do vento úmido do outono, desperta do doce e pacífico devaneio que lhe inspirou o Líbano e recomeça sua interrompida viagem. Ao afastar-se, cada vez mais, olha de quando em vez para trás, como uma namorada que deixou o seu amado. O verão no Líbano sacia os corpos famintos com seus frutos —únicos restos da terra prometida — e o outono embriaga as almas com o vinho do amor. Em suas noites, as brisas reproduzem os cânticos de Salomão e os acordes da cítara de Davi, aos ouvidos dos namorados e poetas, pois o Líbano é a pátria do amor e da poesia . Raia o dia, que dissipa do coração a melancólica poesia da noite, restituindo à vida sua vivacidade e alegria, como o sorriso da mulher amada . O Líbano e o mar são dois namorados que vêem passar os séculos, brincando e se acariciando, despreocupados e felizes. O mar impele do horizonte as ondas para mesclar a prata da sua espuma com o ouro das areias do Líbano, cobrindo assim, com seu manto prateado, a cabe leira áurea de seu namorado, num amoroso amplexo. Suas ondas, em seu fluxo, o abraçam e no refluxo – dolorosa ausência para os que se amam – estreita seus pés como última carícia e final protesto. O Líbano é a inspiração de poetas, músicos e pintores, é o paraíso perdido, no mundo. CAPÍTULO II COSTUMES LIBANESES Neste capítulo, não censuro nem aprovo. Cabe ao leitor, depois de ler esta narrativa, escrita por um historiador imparcial, julgar e dar parecer. Não importa a mim qualquer juízo a meu respeito, pois, ao escrever esta obra, não o fiz com o propósito de alcançar glória literária, mas tão somente para satisfazer o desejo de relatar uma história de que fui testemunha. Portanto, este capítulo é um segundo prólogo, em que se projeta a sombra dos fatos que virão depois. A vida dos libaneses é uma cópia da existência dos patriarcas que desfilam pela Bíblia. A palavra do pai é uma lei e a vontade do primogênito é sempre respeitada. Com a notícia do nascimento de umvarão alegra-se o libanês; porém, quando se trata de uma mulher, toda a família é presa de profunda tristeza. Talvez seja esse fato o reflexo de uma recordação, uma herança, gravada no subconsciente, oriunda dos antigos árabes, que enterravam vivas suas filhas, tão logo seus olhos inocentes se abriamà luz da existência, para evitar que a família e a tribo se manchassem com sua desonra. Contudo, apesar do seu desejo que o ser que se forma no ventre da esposa seja varão, sabe amá-lo também quando é mulher, em virtude do milenário costume de amar esse ser sublime que nos abre as portas da vida. O libanês é inteligente e perspicaz e sua língua o torna apto para aprender outros idiomas, comfacilidade e em pouco tempo. Ama a mulher e a considera, senão como sua igual, pelo menos como um ser frágil, que requer sua estima e proteção. Ambos executam os mesmos trabalhos e ambos são generosos. Excetuando as cidades marítimas, que são frequentadas por maior número de viajantes e estrangeiros, no Líbano não há hotéis.

Cada casa um lar para quem não o possui, e esse generoso sentimento de auxílio mútuo encerra o de privação, pois a mãe e seus filhos se privam de qualquer manjar caro, para poderem oferecê-lo a seus hóspedes, que permanecem, assim, vários dias sob o amparo da hospitalidade, sem cuidados ou preocupações pela sua subsistência. No Líbano também não existe a mendicância, tendo desaparecido completamente do cenário da vida social esses atores da miséria. Nas ruas das diversas cidades do país, não se contemplam rostos famintos e corpos cobertos de farrapos. A fome e o frio não perturbam a felicidade do país, e se vier um mendigo de fora, um homem de outras regiões, que viva da caridade e, será tão bem recebido como qualquer pessoa libanesa. Certa vez perguntaram a Restom Baja, ex-comissário no Líbano: “Que tal é o Líbano?”. Ele respondeu: “Se afastássemos as cabras e o clero seria um paraíso.” Apesar de o libanês adorar sua liberdade, notamos sempre entre o povo a eterna escravidão: o pobre é escravo do rico; o poderoso está sujeito ao governante e este obedece cegamente ao sacerdote, que se diz o servidor de Deus na terra. Que tédio deveria sentir Deus com tais servidores e escravos, se a Mente Divina pudesse abrigar umtal sentimento! O libanês ordena ou proíbe o matrimônio de seus filhos; o pai escolhe aquela que será a esposa de seu filho e a filha se casa com o eleito da família. Entretanto, apesar de haver muitos casamentos infelizes, é raro que o marido seja infiel à esposa, e muito mais raro ainda é a infidelidade da mulher. Se esta perder sua honra, os castigos que cairão sobre ela poderão culminar com a morte. Se o habitante do Líbano for ofendido, ou mesmo esbofeteado, pode olvidar a ofensa e perdoar a bofetada; porém, quando se trata de seu nome e sua honra, nem mesmo o rei escapará à sua ira. Sua religião é a vingança; porém, se chegar a perdoar, perdoa e esquece, sem guardar ressentimento. O libanês possui forte espírito de imitação e se amolda com facilidade às características do mais forte. Cada um se sente capaz de tudo, embora não seja capaz de nada. Por esse convencimento do seu valor, nunca está de acordo com seus semelhantes; sempre estão em luta seus ideais e caracteres, o que fez dizer um escritor: “Os libaneses combinaram estar, sempre em desacordo.” Todo libanês tem algo de poeta, pois a poesia do panorama e do seu gênero de vida se projetam sobre o seu espírito. Com razão dizia o Dr. Filip Hatti: “Diante das cataratas do Niagara, o libanês pensaria como cantá-las em versos, enquanto o americano pensaria como, explorá-las.” Estas são as características dos habitantes deste país, às quais se amoldam os sírios em geral.

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |