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Adorno/Horkheimer e a dialética do esclarecimento – Rodrigo Duarte

Em se tratando de filosofia, a atualidade nem sempre pode ser considerada um critério de relevância: há muitos exemplos de filósofos que, sob certo aspecto, não podem ser considerados nem um pouco “atuais”, já que produziram em contextos geográficos e históricos muito distanciados do nosso. Não obstante, ninguém lhes negará o valor filosófico e eles são considerados “clássicos” do pensamento. Tal é o caso de gregos antigos como Platão e Aristóteles, de medievais como Agostinho ou Tomás de Aquino e de modernos como Descartes, Rousseau, Kant ou Hegel (eu incluiria ainda Marx e Nietzsche nessa lista, mas adianto que não seria consensual). Em se tratando da filosofia contemporânea — considerando-se aquela surgida a partir de inícios do século XX —, na falta de maior distanciamento histórico não existem clássicos consagrados, mas tão-somente filósofos “candidatos” ao título, como Wittgenstein, Husserl ou Heidegger. Caso se levasse em consideração não apenas autores, mas também obras do século XX, certamente seria o caso de se incluir a Dialética do Esclarecimento, de Theodor Adorno e Max Horkheimer, no rol das obras clássicas da filosofia contemporânea. Aos critérios normalmente considerados para a inclusão de autores e/ou obras na lista de clássicos — como, por exemplo, a profundidade do enfoque filosófico e a centralidade da discussão em termos da história da filosofia (importância dos autores que influenciaram o pensamento aliada à proficuidade das discussões que ele gerou) —, a Dialética do Esclarecimento soma ainda uma enorme atualidade dos temas por ela abordados, o que a torna uma obra verdadeiramente ímpar, não apenas no cenário da filosofia contemporânea, mas também em todo o pensamento ocidental. O livro, editado originalmente em 1947 pela Querido Verlag, de Amsterdã, trata — pela primeira vez em um compêndio filosófico — de temas de enorme atualidade, como a devastação da natureza pelo homem, a opressão das mulheres, o racismo e a estultificação das pessoas pelos meios de comunicação massiva. Sua idéia nucleadora, como se verá adiante, é a de que o processo civilizatório, no qual o homemaprendeu progressivamente a controlar a natureza em seu próprio benefício, acaba revertendose no seu contrário — na mais crassa barbárie —, em virtude da unilateralidade com que foi conduzido desde a idade da pedra até nossos dias. Já no texto inicial, “Conceito de Esclarecimento”, os autores exploram essa idéia, assinalando que a mitologia mais remota de nossa civilização já contém certo elemento “esclarecedor”: pretende organizar o mundo com os instrumentos que possui à sua disposição, cuja precariedade material é compensada com aspectos ideológicos associados à crença e ao culto. Segundo eles, de modo análogo, a super-desenvolvida ciência de nossa época, ao invés de extirpar de vez a crendice e a superstição, acaba engendrando uma nova mitologia. A planejada manutenção do povo em um estado de ignorância é apontada no capítulo “Indústria cultural. Esclarecimento como mistificação das massas”. Aqui os autores denunciam que, a despeito de sua postura aparentemente democrática e liberal, a cultura massificada realiza impiedosamente os ditames de um sistema de dominação econômica que necessita, entretanto, de uma concordância — pelo menos tácita — das pessoas para a legitimação de sua existência. O outro texto principal da Dialética do Esclarecimento, “Os elementos do antisemitismo”, introduz também uma problemática de grande atualidade: o racismo. Embora os autores se concentrem na discussão do fenômeno que estava na ordem do dia nos anos 1940, o anti-semitismo nazista, eles o investigam de um modo tal que o importante passa a ser a compleição psíquica daquele que discrimina e persegue, sua estrutura de caráter. Se do ponto de vista do embasamento filosófico a Dialética do Esclarecimento pode ser considerada uma obra clássica da filosofia contemporânea, em razão da amplitude de sua temática e do profícuo diálogo estabelecido com a tradição filosófica, sua relevância reside também no fato de que temas do nosso cotidiano aparecem desenvoltamente em suas páginas, tornando-a, como já se disse, um exemplo ímpar de conciliação entre rigor filosófico e atualidade temática. Não há nenhum episódio marcante da vida moderna que não seja uma exemplificação das teses principais da Dialética do Esclarecimento, das duas guerras mundiais (com suas conseqüências, como os regimes totalitários) à guerra fria, da queda do muro de Berlim aos atentados terroristas nos Estados Unidos, em setembro de 2001. Essa é uma das razões pelas quais, após mais de cinqüenta anos de sua publicação — e para além da sua profundidade propriamente filosófica —, a Dialética do Esclarecimento pode ser considerada um poderoso instrumento para a compreensão de importantes fenômenos da atualidade, por mais desconcertantes que eles possam parecer à primeira vista. Introdução à obra Contexto de surgimento. No início da década de 1920, a esquerda na Alemanha não tinha perspectivas políticas muito animadoras: ou apoiava a centro-esquerda social-democrata, no poder desde 1919, ou fazia, dentro do Partido comunista alemão, sob a liderança de Moscou, oposição à social democracia, denunciando seu governo como uma estratégia das potências mais industrializadas para manter o país no atraso e na humilhação que a derrota na I Guerra Mundial havia imposto. Mas havia ainda uma outra possibilidade — mais adequada aos intelectuais de esquerda —, que seria se voltar para uma investigação mais teórica com o objetivo de ampliar os horizontes do marxismo e, a médio prazo, possibilitar a correção dos rumos da política realizada até então, abrindo novas perspectivas para o futuro. Essa opção mais teórica se concretizou a partir da iniciativa de um recém-doutorado emciência política pela universidade de Tübingen, Felix Weil, que organizou no verão de 1922, emIlmenau, a Primeira Semana Marxista de Trabalho (Erste marxistische Arbeitswoche), com a participação de intelectuais que se tornaram posteriormente conhecidos como fundadores do marxismo ocidental: Georg Lukács, Karl Korsch, Friedrich Pollock e Karl Wittfogel, dentre outros. O encontro teve tanto sucesso que se começou a pensar na possibilidade de tornar constantes as discussões teóricas no âmbito do pensamento de esquerda através da criação de um instituto de pesquisa. O próprio Felix, cujo pai enriquecera imensamente exportando cereais a partir da Argentina, ofereceu os recursos materiais para isso, e no período que se seguiu vários interessados trabalharam na elaboração do projeto de um instituto que seria sediado junto à liberal Universidade de Frankfurt, mas com um estatuto próprio que garantisse sua independência com relação à administração central da universidade. Isso era de vital importância, pois os criadores do planejado Instituto para o Marxismo (Institut für Marxismus), que depois teve o nome definitivo — mais neutro — de Instituto para a Pesquisa Social (Institut für Sozialforschung), queriam a todo custo defender a liberdade de abordar temas ainda considerados tabu no ambiente acadêmico.


O instituto iniciou suas atividades em 1924 e, após um período em que predominara ummarxismo acadêmico ainda um pouco ortodoxo, o filósofo Max Horkheimer assumiu a diretoria, em 1931, propondo uma espécie de síntese entre a filosofia clássica e as ciências humanas, entre o marxismo e certa vanguarda do pensamento burguês, corporificadas, à época, principalmente pela sociologia weberiana e pela psicanálise freudiana. Nesse início da década de 1930, como se sabe, a situação política na Alemanha deteriorara-se visivelmente em virtude da crise econômica e da incapacidade de os socialdemocratas realizarem alianças que os sustentassem no governo. Em 1933 Adolf Hitler chegou ao poder, desmantelando todos os potenciais focos de resistência democrática e socialista à tirania nazista, e o Institut foi um dos primeiros alvos da Gestapo (em 13 de março de 1933 foi invadido e posteriormente fechado pela polícia). Horkheimer, já anteriormente inseguro pelos acontecimentos que culminaram com o estabelecimento do nazismo, desde o início de sua gestão providenciava em Genebra um escritório do instituto que poderia servir como sede alternativa no caso de um revés político. Nesse momento começou um período de exílio do instituto, embora nem todos os seus membros estivessem ainda convencidos da necessidade de deixar a Alemanha. Apesar de o instituto ter aberto, além de em Genebra, escritórios em Paris e Londres, nos anos seguintes à ascensão do nazismo, ia se tornando claro para Horkheimer que a Europa em breve poderia não ser mais segura para um empreendimento acadêmico com a natureza do instituto, e ele acabou aceitando uma oferta da Columbia University para seu estabelecimento em Nova Iorque. Em1934 emigrou para os EUA, seguido posteriormente por seus colaboradores mais próximos, quase todos judeus e marxistas — correndo, portanto, duplo perigo de perseguição pelos nazistas na Alemanha. Theodor Adorno, até sua chegada em Nova Iorque em 1938, não esteve entre os colaboradores mais próximos de Horkheimer. De 1933 até essa época, após ter tido sua recémobtida autorização para lecionar em cursos superiores cassada pelos nazistas, ele tentou — semmuito sucesso — viver como crítico de música em Berlim e obteve posteriormente uma bolsa de estudos para a Inglaterra, onde residiu, alternadamente com períodos na Alemanha, por cerca de três anos. Adorno chega aos EUA sem saber exatamente o que seria o projeto de pesquisa em rádio para o qual, através de Horkheimer, recebera um convite de Paul Lazarsfeld. Sob o impacto do novo e radicalmente diferente ambiente de trabalho, Adorno escreve o artigo “Sobre o caráter de fetichismo e a regressão da audição” e termina seu ensaio, começado em Oxford, sobre Richard Wagner, além de escrever vários textos em inglês, com conexão mais direta com o “projeto”. Esses trabalhos, segundo o próprio Adorno, constituíram o fundamento de sua Filosofia da nova música, escrita nos anos 40. Nessa fase de seu trabalho teórico, dividindo o tempo entre o Institute for Social Research sediado junto à Columbia University e o laboratório de Newark (Nova Jersey), comandado por Lazarsfeld, Adorno se aprofundou no conhecimento factual dos principais mecanismos de funcionamento da indústria radiofônica, tornando-se para ele cada vez mais evidente o caráter essencialmente manipulatório e opressor dos mesmos, ainda quando ela declarava os fins eminentemente culturais de seus produtos. Em 1941 termina a participação de Adorno no projeto e ele se muda para os arredores de Los Angeles, próximo ao local onde Horkheimer já residia há algum tempo. Esse período é fundamental para o surgimento da Dialética do Esclarecimento, pois a colaboração teórica comHorkheimer estreita-se e eles encaram juntos um antigo projeto de escrever um livro sobre a dialética. A partir daí, discutem o assunto e ditam o resultado das discussões para Gretel, mulher de Adorno. Este tem também a oportunidade de acompanhar de perto o funcionamento da já imensa maquinaria da indústria cinematográfica, já que os filósofos residem não muito longe de Hollywood. Segundo consta, Adorno até freqüentou os bastidores da sétima arte, e é dessa sua familiarização com a cultura de massas e da cooperação intelectual com Horkheimer que surge em 1944 a primeira versão da Dialética do Esclarecimento. Principais influências filosóficas dos autores. No que diz respeito às influências teóricas sobre os autores da Dialética do Esclarecimento, é importante distinguir os filósofos que influenciaram individualmente cada um deles — como por exemplo Schopenhauer em relação a Horkheimer e Kierkegaard em relação a Adorno — daquelas influências que constituíram uma espécie de estofo filosófico comum a ambos. Embora pudessem ser mencionados outros autores e suas obras, parece-me que os principais são Immanuel Kant, Georg W.F. Hegel, Karl Marx, Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud. Quanto a Kant, Horkheimer, assim como Adorno — oito anos mais novo —, foi aluno de um neokantiano que lecionava em Frankfurt chamado Hans Cornelius. Tanto a tese de doutorado de Horkheimer quanto sua Habilitation (o segundo trabalho teórico normalmente exigido na Alemanha para aqueles que desejam seguir carreira acadêmica) tratavam de temas kantianos.

A tese, “Sobre a antinomia da faculdade teleológica de juízo”, orientada por Cornelius e redigida e defendida em 1922, referia-se diretamente à segunda parte da Terceira crítica, de Kant; a tese de habilitação “Sobre a Crítica da faculdade de juízo de Kant como elemento de ligação entre a filosofia teórica e a prática”, Horkheimer escreveu já na qualidade de assistente de Cornelius. Algo semelhante ocorre com Adorno em relação a Kant, pois, segundo relatam seus biógrafos, já aos 14 anos o filósofo iniciou pela primeira vez a leitura da Crítica da razão pura, na companhia de Sigfried Kracauer, um amigo da família alguns anos mais velho que Adorno que se notabilizou posteriormente como um importante teórico do cinema. Apesar de o tema de sua tese de doutorado ter sido Edmund Husserl, Adorno também escreveu em 1927 uma proposta de tese de habilitação — igualmente sob a orientação de Cornelius — sobre um tema que tangenciava a filosofia transcendental de Kant, ainda que introduzisse um elemento novo, a saber, a psicanálise freudiana. O escrito, intitulado “O conceito do inconsciente na doutrina transcendental da alma”, foi recusado como tese de habilitação, tendo Adorno redigido então seu trabalho sobre Kierkegaard, que foi aceito sem problemas. De qualquer modo, a exemplo do que ocorrera com Horkheimer, a filosofia de Kant foi um marco referencial importante para a formação do pensamento de Adorno.

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