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Advogado do Diabo – Jonathan Maberry

Eu quero acreditar — disse Dana Scully. Melissa Scully olhou para a irmã. Dana estava sentada perto dela, com o cabelo ruivo emaranhado pelo vento e os olhos azuis fixos no céu que escurecia. Acima da folhagem da copa, as primeiras estrelas de um abril novinho em folha se acendiam. A lua crescente, cada vez mais brilhante, estava baixa e abria caminho até o campanário da igreja vazia do outro lado da rua. Na grama alta, um grilo solitário trinava, chamando por outros que ainda não haviam nascido. — Acreditar no quê? — perguntou Melissa, enroscando um cacho do próprio cabelo ruivo no dedo. — Em tudo — respondeu Dana. Ela estava sentada com os joelhos erguidos, abraçando as canelas, com a bochecha apoiada em um joelho. — Nas coisas que você não para de falar. Nas coisas que a vovó sempre fala. — Dana deu de ombros. — Em tudo isso. — Então acredite — disse Melissa, também dando de ombros. — O que te impede? Dana não falou nada por muito tempo, e o grilo era o único som no ar. Os últimos fogos do crepúsculo estavam se apagando, e as faixas de vermelhos, dourados e lavanda pintadas no céu se misturavam, transformando-se na cor uniforme de uma ameixa podre. Escura, roxa e feia. Um maremoto de nuvens tempestuosas vinha rolando do sudeste, e a brisa tinha cheiro de maresia e ozônio. Embora o calor estivesse fora de época para o início de primavera, a tempestade trazia o ar frio e úmido com ela. Quando Dana finalmente falou, a voz saiu baixa, distante, mais como se estivesse falando consigo mesma do que com Melissa. — Porque eu não sei se são realmente visões ou apenas sonhos. — Talvez sejam a mesma coisa. Dana disparou um olhar para a irmã. — Sério? Porque, na semana passada, eu sonhei que o Bo, de Os Gatões, me pegava na escola e a gente dava um passeio naquele carro idiota dele e depois ficava loucamente no estacionamento da igreja. — Você nunca ficou com ninguém.


— Essa é a questão. E quando ficar… se ficar… você jura que vai me dizer sério que vai ser comum adulto qualquer de uma série de TV? Ele é velho. Tem uns vinte anos ou algo assim, então também seria ilegal. Você não pode dizer que estou vendo meu próprio futuro. Melissa riu. — Ok, talvez nem todos os sonhos sejam profecias, mas alguns são. E às vezes esses sonhos são realmente importantes. — Como você sabe disso? — perguntou Dana. — Todo mundo sabe disso. Sonhos… ok, alguns sonhos… são nossos olhos internos se abrindo para as possibilidades do infinito. Dana suspirou. — Você sempre diz coisas assim. Elas ficaram sentadas e viram o céu cor de hematoma ficar preto. Bem longe, ao sul, um clarão de relâmpago formou veias no interior das nuvens tempestuosas que se aproximavam. O trovão resmungou em um ponto distante. As primeiras brisas saíram rodopiando pela noite, açoitaram as folhas e levantaram as pontas do cobertor das irmãs. Melissa fechou os olhos e se inclinou na direção do vento, sorrindo quando ele fez carinho em seu rosto. O vento sumiu aos poucos e tudo ficou quieto novamente, a não ser pelo grilo solitário, que começava a parecer desesperado. — Talvez, se você me contasse sobre o que era o sonho — disse Melissa, ao se voltar para encarar a irmã —, eu poderia te ajudar a entender se foi um sonho ou uma visão. Dana fez que não com a cabeça. — Ora, vamos… Você está de mau humor o dia inteiro. Isso obviamente está te chateando, então por que não me conta? Lá no alto, em algum ponto no escuro e invisível do céu, elas ouviram uma súbita batida de asas e o grito solitário e melancólico de um corvo. Dana sentiu um calafrio. Melissa estendeu a mão e tocou no braço da irmã. A pele de Dana estava toda arrepiada.

— Cruzes, você quer entrar e pegar um agasalho? — Não estou com frio — disse Dana. Melissa franziu a testa. Dana disse, finalmente: — Eu sonhei… Eu vi… uma coisa ruim. A voz estava baixinha. Mais jovem do que seus quinze anos. Melissa se aproximou e passou o braço pelos ombros de Dana. — O que você viu? — perguntou ela. Dana se voltou para a irmã, e o luar revelou duas linhas pálidas em suas bochechas. Rastros prateados de lágrimas que desciam sinuosos, correndo dos olhos para o queixo. — Eu sonhei que vi o diabo. CAPÍTULO 2 Lado de fora da residência dos Scully 22h07 O carro estava parado discretamente no meio-fio, com as luzes e o motor apagados. Havia duas silhuetas sentadas nos bancos da frente. O ar estava frio, e os dois homens estavamcom as golas levantadas e chapéus bem baixos na cabeça. A rua estava em silêncio e uma chuva fina batia no capô do carro, pingava nas poças e pesava na grama. O asfalto molhado parecia um rio de óleo que serpenteava e envolvia as casas às escuras. As duas silhuetas observavam o lar da família Scully, primeiro na escuridão, depois iluminada por um último clarão de um relâmpago distante. — Ela serve — disse o passageiro, rompendo o silêncio. — Tem certeza? — perguntou o motorista. — O tempo dirá. Ouviram um som do banco de trás, e ambos se voltaram para ver outra silhueta ali, corpulenta e ensopada pela chuva. A terceira figura, um grandalhão em um uniforme azul-escuro, estava curvado, com o rosto nas mãos trêmulas, soluçando baixinho. — Por favor — sussurrou ele. — Por favor, não… Os dois homens na frente se entreolharam e viraram o rosto. Um raio lampejou mais uma vez e contornou o desenho da casa com um brilho branco-azulado. O homem ao volante sorriu com dentes tão brilhantes quanto o relâmpago.

— Ela serve. CAPÍTULO 3 Residência dos Scully 22h09 Dana rezou para que não tivesse o sonho outra vez naquela noite. Rezou fervorosamente, de joelhos, mãos e dedos entrelaçados, tentando se concentrar na prece, apesar da música que vinha do quarto ao lado. O quarto de Melissa ficava do outro lado de uma parede fina. Ela estava num daqueles estados de espírito em que tocava o mesmo álbum sem parar. Hoje era a vez do disco do Fleetwood Mac lançado quatro anos antes, quando Melissa tinha treze anos. Às vezes a irmã punha álbuns inteiros para tocar, sem parar, a não ser para virar o disco; e aí havia longos períodos em que ela tocava e repetia a mesma canção. Ultimamente era “Rhiannon”. Melissa estava relendo Triad: A New Novel of the Supernatural, de Mary Leader, o livro que inspirou a canção. A irmã acreditava que ela, como a personagem da música, era a reencarnação de uma bruxa galesa. Aquela era Melissa. Dana respirou fundo, fechou os olhos com força, levou a mão à pequena cruz que usava em uma corrente dourada — igualzinha à de Melissa — e tentou novamente recitar a prece à Virgem. — Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na nossa hora de nossa morte. Amém. Dana não era tão zelosa quanto queria ser. A fé, como a crença em qualquer coisa que fizesse parte do mundo espiritual, exigia esforço da parte dela, mas ao mesmo tempo a interessava. Dana gostava do método e da estrutura de rituais e preces; eram como fórmulas para ela. Dana ia à igreja, mas não tanto quanto a mãe queria. Ela sabia que havia respostas ali, mas talvez não para suas perguntas. Ou talvez fosse o instinto que dizia para Dana que a igreja não responderia a todas as questões. Ela não tinha certeza. Dana terminou a prece, levantou, sentou na beirada da cama e abriu a Bíblia, onde colocou uma pena como marcador de livro. Era uma pena de corvo que havia encontrado no último degrau da varanda. Usou a ponta macia e reluzente para afagar as palavras enquanto lia a passagem. Segunda epístola de Coríntios, capítulo onze, versículo catorze.

— “Isto não é de admirar, pois o próprio Satanás se disfarça de anjo de luz.” Essas palavras atormentavam Dana. Desde que se mudara para a cidade de Craiger, Maryland, há alguns meses, Dana começou a ter sonhos mais frequentes e realistas. Lá em San Diego, os sonhos ocasionais eram estranhos, mas meio divertidos. Ela sonhava com o fim de um filme antes de a família assisti-lo. Sabia o nome de alguémantes de ser apresentada. Os sonhos eram como uma espécie bizarra de déjà vu, porque ela geralmente só se lembrava deles quando a essência dos sonhos se tornava a realidade do momento. Não que Dana tivesse muitos sonhos assim. Eram poucos, que vinham dispersos em alguns meses. Eles só ficaram estranhos e sombrios ali em Craiger. E ela estava tendo aqueles sonhos com uma frequência muito maior. Talvez fosse a cidade. Talvez fosse porque Dana se sentia excluída ali. Ela ainda não tinha amigos. Não de verdade. Melissa, que era dois anos mais velha e veterana do ensino médio, conseguia fazer amigos em qualquer lugar. Ela era esse tipo de garota. Dana, não. Ela sabia que era uma pessoa difícil de se gostar porque passava muito tempo dentro da própria cabeça. Ter deixado nove anos de colégio católico para começar o primeiro ano do ensino médio em uma escola pública não ajudava. Dana estava nervosa com a falta de estrutura ali — ela estava acostumada a uniformes e regras. Estava se esforçando para se adaptar à escola, enquanto Melissa agia como se tivesse se libertado da prisão. Dana colocou a Bíblia de lado e, como se levantou sentindo-se tensa e dolorida, desenrolou o tapete de ioga. Isto era uma novidade para testar. Melissa se viciou em ioga lá em San Diego e jurava que era o caminho para a iluminação.

Dana se contentava em ter algo para desfazer os nós dos músculos. A postura da montanha era um ponto fácil para começar. Ela se empertigou com os joelhos juntos, ombros relaxados, peso distribuído igualmente nos pés, braços nas laterais do corpo. Depois, respirou fundo e ergueu as mãos acima da cabeça, com as palmas voltadas uma para a outra, de braços esticados. E manteve as mãos ali, se concentrando na respiração e em deixar que os músculos relaxassem. Ioga provavelmente era outra coisa que as garotas no colégio achariam esquisita. Havia uma hostilidade clara e distinta na escola que todo mundo aceitava como normal. Era como uma linha divisória invisível entre filhos de militares, como elas, e os locais. Dana vira essa hostilidade em San Diego e com certeza estava presente ali em Craiger — embora nunca parecesse afetar Melissa. A irmã sempre foi capaz de transitar entre os dois grupos, e as pessoas pareciam simplesmente aceitá-la. E gostar dela. Nunca era tão fácil assim para Dana. Se alguém ali no colégio soubesse o que Dana vinha sonhando ultimamente, eles realmente se afastariam. Não a tratariam apenas como uma estranha… Teriam certeza de que ela era uma aberração. Era por isso que Dana não falava dos sonhos para ninguém. Afinal de contas, como ela conseguiria explicar que viu o diabo? Dana também não contou toda a verdade para Melissa, naquela noite. Não contou que vinha tendo aqueles sonhos desde que eles se mudaram para lá — não apenas uma vez, mas quase todas as noites. Havia algo naquela cidade. Não era normal, de uma forma que Dana simplesmente não conseguia descrever. Ou compreender. Ela se cansou da postura da montanha e se deitou com o rosto virado para o tapete para fazer a postura da cobra. Espalmou as mãos com os polegares diretamente embaixo dos ombros e estendeu as pernas com as pontas dos pés no tapete. Depois, contraiu a região pélvica — um gesto que sempre causava estranheza e vergonha —, baixou os quadris e retesou os glúteos. Então, muito lentamente e de forma constante, Dana empurrou o piso para erguer a cabeça, os ombros e a parte superior do tronco, enquanto mantinha a barriga e pernas no lugar. No ponto máximo de elevação, ela tentou apontar o peito para a parede do outro lado.

A ideia era realizar o movimento, relaxar e repetir, mas Dana manteve a postura e sentiu os músculos da lombar se desatarem. Houve dois pequenos estalos quando alguma coisa na coluna se encaixou. Aquele movimento esvaziou uma bola de tensão que esteve em cima de sua lombar o dia inteiro. Ok, talvez aquele lance de ioga tivesse algo de especial, afinal de contas. Ela relaxou e repetiu o movimento, novamente mantendo a postura. Do outro lado da parede, Melissa cantava junto com o vocalista de voz estridente. Ela cantava sobre ser levada pelo vento. Sobre ter recebido a promessa do céu. Aquilo provocou outro vislumbre dos sonhos que Dana vinha tendo. Eles eram diferentes e vinham em fragmentos, como se ela estivesse tentando ajeitar uma antena de TV um pouco fora de sintonia. Havia trechos de imagens, pedaços de palavras, mas nenhuma história de verdade em qualquer um deles. Uma coisa, porém, era constante, e fez Dana se sentir estranha, confusa e até um pouco culpada: nos sonhos, o diabo sempre se parecia com um anjo. Tão puro e lindo. Dana sabia que Lúcifer fora o Anjo da Luz. Era uma coisa confusa, porque no colégio católico ela sempre imaginou o diabo como medonho e feio. E se ele não fosse assim? E se fosse lindo? Talvez, pensou Dana, isso explicasse por que era tão fácil algumas pessoas serem seduzidas por ele. O anjo com que ela sonhava tinha olhos bondosos, mãos delicadas e um sorriso meio triste. Ele se sentava na beirada da cama e sussurrava segredos para Dana, segredos que ela não conseguia lembrar quando acordava. Mas Dana sabia que era importante para o diabo que ela acreditasse nele. Que acreditasse que ele não era mau. Que era incompreendido. Que o diabo era, na verdade, bom. No fundo, Dana se perguntava se a maldade realmente existia. Afinal de contas, se Deus criou o universo e tudo contido nele, então Ele também criou a maldade e o diabo. E por que teria feito isso? Não fazia mais sentido que o diabo estivesse ajudando Deus ao perseguir as pessoas confusas e leválas na direção da fé e da salvação? Dana tinha certeza de que as freiras no velho colégio ficariam furiosas com ela por causa desse tipo de raciocínio.

Ela se deu conta de que tinha ficado na postura por tempo demais e agora a tensão liberada nas costas tinha voltado. Dana baixou o corpo até o chão, depois rolou de costas e encarou o teto. Do lado de fora, veio um estrondo de trovão que pareceu com uma risada. Não uma risada ruidosa de uma festa ou a própria gargalhada rouca do pai quando estava em um dos seus raros momentos de bom humor. Não, aquilo foi diferente. Mais sombrio. Era uma risadinha cruel. Como se a noite estivesse rindo de um segredo que não queria contar. O vento sibilou pelas árvores como uma cobra. No quarto ao lado, a canção recomeçou, a irmã cantou e o tique-taque do relógio avançou noite adentro.

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