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Aeroporto – Arthur Hailey

À SEIS e meia de uma tarde de sexta-feira em janeiro, o Aeroporto Internacional Lincoln, em Chicago, estava funcionando, embora com dificuldade. Como todo o centro-oeste dos Estados Unidos, sofria as conseqüências da tempestade de inverno mais violenta e devastadora dos últimos seis anos. O temporal já durava três dias. E agora, como pústulas num organismo esgotado e anêmico, irrompiam problemas por todos os cantos. Um caminhão de transporte de alimentos, pertencente à United Airlines, carregado com duzentas refeições, extraviou-se, atolando-se com certeza na região perimetral do aeroporto. Uma busca para encontrá-lo — em meio à escuridão e à neve que caía. — ainda não conseguira localizar nem o veículo perdido nem o motorista. O vôo 111 da mesma linha aérea — um DC-8 com destino a Los Angeles, sem escalas, e ao qual se destinavam as refeições — já estava com algumas horas de atraso. A confusão com as provisões de bordo ia adiar ainda mais a partida. Dissabores semelhantes, provocados pelos motivos mais variados, prejudicavam a decolagem de um mínimo de cem aviões, programados pelas vinte empresas diferentes que utilizavam o Lincoln. No campo de pouso, a pista número trinta encontrava-se paralisada por um jato da Aéreo-Mexicana — um Boeing 707 — cujas rodas ficaram profundamente atoladas nas poças d’água, cobertas de neve, perto da sua extremidade. Duas horas de esforços intensivos não conseguiram remover a imensa aeronave. A companhia, depois de esgotar os próprios recursos, resolveu pedir auxílio à TWA. O controle de trânsito aéreo, tolhido pela perda dessa pista, limitava o volume de chegadas procedentes de centros vizinhos, como Mineápolis, Cleveland, Kansas City, Índianópolis e Denver. Apesar disso, vinte aviões descreviam círculos sucessivos nos céus do aeroporto, alguns com o combustível praticamente no fim. E um número duas vezes maior preparava-se para levantar vôo. Mas o controle prescreveu novos adiamentos no trânsito de partida até que se pudesse reduzir o acúmulo dos que aguardavam sinal para aterrar. Enquanto isso, os pontos de início de decolagem, as vias de acesso e os lugares de espera cada vez se congestionavam mais, e as tripulações impacientes chegavam a manter os motores ligados. Os depósitos de carga de todas as companhias, atulhados de encomendas até os tetos, tinham a sua rapidez costumeira de expedição impedida pela borrasca. Os principais encarregados, tomados de nervosismo, procediam à fiscalização dos artigos sujeitos à deterioração: flores de estufa de Wyoming, destinadas à Nova Inglaterra; uma tonelada de queijo da Pensilvânia que devia seguir para Anchorage, no Alasca; ervilhas congeladas, para a Islândia; lagostas vivas, provenientes da costa leste, aguardando uma rota polar com destino à Europa. No dia seguinte figurariam nos cardápios de Edimburgo e Paris, onde seriam apregoadas como “iguarias marítimas, frescas e locais”, e consumidas pelos incautos turistas norte-americanos. Com ou sem tempestade, os contratos previamque as encomendas deterioráveis chegassem em condições perfeitas e com a maior rapidez ao local de destino. Motivo de inquietação especial no armazém da American Airlines era uma partida de vários milhares de filhotes de peru, colocados em incubadoras com poucas horas de antecedência. Um plano minucioso para a incubação e embarque — semelhante a uma complexa ordem de batalha — tinha sido organizado semanas atrás, antes de os ovos serem chocados. Determinava um prazo máximo de quarenta e oito horas para a chegada das aves vivas à costa do Pacífico, tempo limite que poderiamviver os minúsculos bichinhos sem receber o primeiro alimento ou água.


Em condições normais plano previa a sobrevivência da quase totalidade. Detalhe importante: se os filhotes fossemalimentados durante o vôo, provocaria mau-cheiro, empestando o avião transportador dias a fio. A essa altura o horário previsto já se encontrava atrasado de várias horas. Um avião de passageiros, porém, foi convertido em cargueiro, e nessa noite os peruzinhos iam receber prioridade sobre qualquer outra espécie de viajantes, inclusive as personalidades mais ilustres. Nos principais portões de embarque reinava a maior confusão. Os postos de espera estavam repletos de milhares de passageiros de vôos adiados ou cancelados. Pilhas de bagagem se espalhavam por todos os cantos. O vasto saguão central parecia uma combinação de tumulto futebolístico e véspera de Natal na Macy’s. No alto do edifício principal, a divisa orgulhosa: Aeroporto Internacional Lincoln — A Encruzilhada Aérea do Mundo, estava totalmente encoberta pela neve acumulada. O fantástico, refletiu Mel Bakersfeld, é que funcionasse alguma coisa em semelhantes condições. Mel, administrador geral do aeroporto — alto, esguio e um dinâmico de energia disciplinada —encontrava-se no centro de repressão à neve, no penúltimo pavimento da torre de observação. Perscrutou a escuridão. Normalmente, desta sala envidraçada avistava-se todo o conjunto do aeroporto: pistas de vôo, faixas de acesso, pontos de espera, o tráfego em terra e no ar, como blocos e modelos de construção bem dispostos. Mesmo à noite as formas e os movimentos ficavamperfeitamente definidos pelas luzes. Só existia um local mais elevado — o controle de trânsito aéreo, que ocupava pavimento superior. Nessa noite, porém, só o tênue clarão das luzes mais próximas rasgava a cortina quase opaca da neve soprada pelo vento. Mel desconfiou que esse inverno ia fornecer assunto para as convenções meteorológicas durante os anos vindouros. A tempestade atual começara longe, há cinco dias, ao abrigo das montanhas do Colorado. No início constituía apenas uma minúscula zona de pressão baixa, cuja extensão não ultrapassava uma fazenda ao sopé de uma montanha. Passou despercebida ou então foi totalmente ignorada pela maior parte dos previsores de tempo nos gráficos meteorológicos das rotas aéreas. Como por vingança, o sintoma degenerou logo em gigantesca virulência e, aumentando cada vez mais, tomou primeiro o rumo sudeste, desviando depois para o norte. Atravessou o Kansas e Oklahoma, deteve-se um pouco no Arkansas, colhendo um sortimento de maldades. No dia seguinte, nédio e monstruoso, rolou com os seus trovões pelo vale do Mississippi. Finalmente, decidiu-se por Illinois, descarregando a tormenta e paralisando praticamente o estado inteiro com nevascas e temperaturas glaciais. Em vinte e quatro horas, a nevada possuía quase três metros de altura.

No aeroporto, antes de atingir essa espessura, a neve tinha caído constantemente, embora leve. Agora recomeçava chicoteada por ventos inclementes, e que acumulavam novos montes — ao mesmo tempo que eram removidos os anteriores. As equipes encarregadas desse serviço já estavam à beira da exaustão. Durante as últimas horas diversos homens foram enviados para casa, por excesso de cansaço, apesar de utilizarem intermitentemente as camas instaladas no aeroporto para esse tipo de emergência. No centro de repressão, ao lado de Mel, Danny Farrow — em outras oportunidades assistente da administração, agora improvisado em supervisor da limpeza da neve — chamava a manutenção pelo rádio. — Estamos perdendo os postos de estacionamento. Preciso de mais seis escavadoras e um grupo de “guitarristas” no Y setenta e quatro. Danny ocupava a mesa de controle, que não chegava a ser propriamente uma mesa, constituída por um consolo amplo, de três posições. À sua frente, e de seus dois assistentes — um de cada lado —havia uma bateria de telefones, telantogramas e rádios. Estavam cercados por mapas, gráficos e quadros de boletins, com um registro completo das condições e posição de cada entidade de equipamento motorizado utilizada no combate à neve, bem como de todos os funcionários e supervisores. Existia um quadro especial para os “guitarristas” — grupos errantes, munidos de pás individuais. O centro de repressão só funcionava nessas ocasiões. Em outras épocas do ano, permanecia vazio e silencioso. Gotas de suor porejavam na calva de Danny, enquanto rabiscava anotações num gigantesco mapa do aeroporto. Repetiu a mensagem à manutenção, procurando emprestar um tom desesperado e pessoal ao apelo, coisa que não estava longe da verdade. Ali em cima ficava o posto de comando, encarregado de desinterditar o campo. Quem o dirigisse, precisava levar em consideração o conjunto, burlando as exigências e desdobrando os recursos para atender o maior número possível de problemas. Havia contudo um dilema — sem dúvida a causa do suor de Danny: os que trabalhavamlá embaixo, não poupando esforços para o prosseguimento das operações, dificilmente compartilhavam das opiniões a respeito da prioridade. — Mas certamente! Outras seis, é? — A voz irritada, de alguém da manutenção, que ficava no lado oposto do campo, arranhou o alto-falante. — Vamos pedir pra Papai Noel. Ele deve andar por estes lados. — Uma pausa e depois, mais agressiva: — Não tem outro pedido idiota desse gênero? Olhando para Danny, Mel sacudiu a cabeça. Reconhecera a voz. Era um chefe de turma veterano, provavelmente trabalhando sem descanso desde o início do temporal. Nessas ocasiões os ânimos se exaltavam e com razão.

Em geral, após um inverno rigoroso, de combate incessante à neve, a diretoria do aeroporto reunia os participantes da repressão numa festa noturna, exclusivamente masculina, chamada “a noite da reconciliação”. Este ano, na certa, ia haver uma. — Mandamos quatro escavadoras atrás daquele caminhão de víveres da United. A esta hora já deveriam estar de volta. A justificativa era razoável. — E estariam… se conseguíssemos localizar aquele maldito caminhão. — Ainda não localizaram? O que é que vocês estão fazendo? Brincando de roda? Mas Danny, precavido, estendeu a mão rapidamente e reduziu o volume do alto-falante, aplacando a ferocidade da resposta. — Olhem aqui, seus corujas empoleirados aí nessa cobertura miserável! Será que fazem idéia de como estão as coisas aqui embaixo? Talvez seja pedir demais que encostem o nariz, de vez em quando, nas vidraças. Se a gente estivesse congelando no maldito pólo norte nem notaria a diferença. — Experimente soprar as mãos, Ernie — recomendou Danny. — Talvez se aqueça e ocupe a boca em vez de ficar dizendo besteira. Mel Bakersfeld fez, mentalmente, uma triagem do diálogo. Sabia que as referências às condições exteriores eram a pura verdade. Percorrera o campo uma hora antes num carro. Usou as estradas de serviço, porém, mesmo familiarizado com os mínimos detalhes topográficos do aeroporto, encontrou dificuldade para se orientar e, por várias vezes, esteve a ponto de se perder. Havia ido inspecionar o centro de manutenção e então, como agora, a atividade era intensa. Ao passo que a repressão na torre ocupava um posto de comando, lá constituía o quartel-general da linha de combate. Ali chegavam e partiam as turmas e os supervisores, todos exaustos, ora transpirando, ora mortos de frio, as categorias de trabalhadores regulares recebendo reforços de auxiliares: carpinteiros, eletricistas, bombeiros, escriturados, polícias. Deslocados de suas funções habituais no aeroporto, recebiam pagamento além do dobro até o final da emergência provocada pela neve. Contudo, sabiam o que os esperava após as manobras, como soldados de serviço nos fins-de-semana, no verão e no outono, nas pistas de decolagem e vias de acesso. Os intrusos às vezes se divertiam a presenciar os grupos de remoção de neve, praticando com as escavadoras e os sopradores a todo vapor, num dia quente e ensolarado. Mas, caso alguém manifestasse surpresa com o vulto dos preparativos, Mel Bakersfeld se prontificava a lembrar que uma limpeza de neve na zona de operações do aeroporto equivalia a fazer o mesmo numa estrada de mais de mil quilômetros. A exemplo do gabinete na torre de observação, a repressão só funcionava durante o período do inverno. Consistia de uma sala enorme e cavernosa, em cima de uma garagem de caminhões do aeroporto e, quando em uso, era controlada por um despachante. A julgar pela voz que ocupara o microfone, Mel deduziu que o plantão fora substituído, temporariamente, para talvez recuperar algumas horas de sono no “apartamento de luxo”, como a reserva chamava, ironicamente, o galpão que servia de dormitório às equipes encarregadas da neve.

A voz do chefe de turma ressoou de novo no alto-falante. — Também estamos inquietos com aquele caminhão, Danny. O infeliz do motorista é bem capaz de morrer de frio por aquelas bandas. Mas se souber usar a cabeça, de fome não morre. O caminhão da United tinha partido da cozinha da empresa rumo ao edifício principal, há quase duas horas. O seu trajeto ficava dentro da faixa perimetral, e demorava, em geral, quinze minutos. Não chegou, entretanto, ao destino. O motorista, evidentemente, tinha se extraviado e estava atolado numlugar ermo do aeroporto. A princípio a própria United mandou uma patrulha para efetuar a busca, sem êxito. A diretoria do aeroporto assumira, agora, o encargo. — Aquele avião da United finalmente decolou sem a comida? — perguntou Mel. Danny Farrow respondeu sem levantar os olhos. — Pelo que sei, o comandante deixou a critério dos passageiros. Disse que ia levar ainda uma hora para conseguir outro caminhão, e que tinham o filme e a bebida a bordo, e o sol brilhava na Califórnia. Todo mundo só quis saber de dar o fora desse inferno. Eu faria o mesmo. Mel concordou, resistindo à tentação de assumir o comando pessoal da equipe que procurava o caminhão e motorista desaparecidos. Qualquer ação serviria de terapêutica. O frio de vários dias e a umidade reavivavam um velho ferimento de guerra — recordação permanente da Coréia que já começava a sentir. Curvou-se e apoiou o corpo sobre a outra perna. O alívio foi apenas passageiro. Na nova posição a dor recomeçou, quase imediatamente. Um minuto depois, sentiu-se satisfeito por não ter interferido. Danny agia com acerto: intensificando a busca do caminho, deslocando escavadoras e homens do perímetro de embarque para os locais mais afastados. Os parques de estacionamento precisavam ser esquecidos provisoriamente, a despeito de toda a celeuma que a medida provocaria mais tarde.

Antes, o que importava era salvar o motorista desaparecido. Num intervalo de transmissões, Danny preveniu Mel. — Prepare-se para ouvir mais reclamações. Essa busca vai engarrafar o caminho perimetral. Vamos ter de reter todos os outros caminhões de víveres até localizar o camarada. Mel demonstrou que entendera. Reclamações constituíam o prato de cada dia do cargo de administrador geral. No caso presente, conforme Danny previa, ia haver um dilúvio de protestos quando as outras companhias percebessem que os seus transportes de gêneros não conseguiampassagem, fosse qual fosse o motivo. Parece incrível que um homem pudesse correr perigo de vida, vítima das intempéries, num centro civilizado como um aeroporto. Mas era justamente o que estava acontecendo. As zonas mais desertas do campo não eram locais para perambular sem bússola numa noite semelhante. E se o motorista inventasse de permanecer dentro do caminhão, com o motor ligado para se aquecer, seria logo coberto pela neve, acumulando por baixo o monóxido de carbônio letal. Danny usava uma mão para atender um telefone vermelho. Com a outra, folheava as instruções de emergência — estabelecidas por Mel, com o máximo de cautela, para ocasiões como essa. O telefone vermelho comunicava com o chefe dos bombeiros do aeroporto. Danny resumiu a situação. — E quando localizarem o caminhão, enviem logo uma ambulância ao local. Vão precisar de oxigênio ou de uma bomba de aquecimento, talvez ambas as coisas. Mas é melhor esperar até saber com exatidão onde está. Senão vamos ter de sair cavando atrás de vocês também. O suor, em quantidade cada vez maior, reluzia no crânio calvo de Danny. Mel sabia que Danny detestava supervisar o controle da neve, vivendo feliz no seu próprio departamento de planejamentos aeronáuticos, a analisar os cálculos aritméticos e as hipóteses previstas para o futuro da aviação. Esses assuntos eram projetados dentro do maior conforto, com muita antecedência e tempo para pensar, em vez dos desconcertantes problemas imediatos dessa noite. Assim como há gente que vive às custas do passado — refletiu Mel — para um sujeito como Danny Farrow, o futuro constitui um refúgio. No entanto, satisfeito ou não, e a despeito da transpiração, Danny se comportava à altura da situação.

Estendendo o braço por cima do seu ombro, Mel levantou um telefone de linha direta para o controle de trânsito aéreo. O chefe de observação da torre atendeu. — Alguma novidade com o 707 da Aéreo-Mexicana? — Continua no mesmo, Mr. Bakersfeld. Estão lutando há duas horas para tirá-lo de lá. E por enquanto nada. Aquele problema especial começara logo após o anoitecer, quando um comandante da AéreoMexicana, tomando uma via de acesso à pista de decolagem, dobrou, por engano, à direita, em vez de à esquerda, de uma luz azul. Infelizmente, o terreno à direita — normalmente coberto de grama —apresentava um problema de escoamento, que só seria corrigido no fim do inverno. Nesse meio tempo, apesar da forte nevada, formou-se um pântano de lama por baixo da superfície. Poucos segundos depois do equívoco, o avião de cento e vinte toneladas atolava fundo. Quando se tornou óbvio que não poderia sair dali, carregado como estava, e pelos próprios motores, os passageiros desembarcaram em meio ao descontentamento geral, sendo auxiliados a passar por cima do lodo e entrar nos ônibus que haviam sido convocados com urgência. Agora, passadas duas horas, o imenso jato continuava preso, com a fuselagem e a cauda a interditar a número trinta. — A pista e a via de acesso — perguntou Mel •— já podem ser usadas? — Negativo — replicou o chefe da torre. — Estamos retendo nos portões todo o trânsito de partida, para mandá-los pelo caminho mais longo na direção das outras pistas. — Muito lento? — Com uns cinqüenta por cento de redução. Agora mesmo estamos com dez vôos à espera de levantamento da interdição das vias de acesso, e uns outros doze prontos para ligar os motores. Era uma demonstração, refletiu Mel, da urgência de pistas e vias de acesso extras para atender às necessidades do aeroporto. Há três anos que vinha insistindo para a construção imediata de uma nova, paralela à número trinta, além de inúmeras melhorias para as operações. A Junta de Diretoria do Aeroporto, sob a pressão política do governo, recusou a aprovação. Tudo porque os vereadores, por razões que somente eles poderiam explicar, queriam evitar a questão de uma nova verba necessária para obter o financiamento. — Outra coisa — advertiu o chefe da torre. — Com a trinta fora de combate, estamos encaminhando as decolagens por cima de Meadowood. E as reclamações já começaram. Mel soltou um suspiro. A comunidade de Meadowood, que vizinhava com os limites sudestes do campo, representava um espinho constante para ele e um estorvo às operações de vôo.

Apesar do aeroporto ter sido estabelecido muito antes do bairro, os moradores queixaram-se desde o início comveemência por causa do barulho provocado pelos aviões. Depois foi a imprensa. Atraiu um número ainda maior de denúncias, cada vez mais ásperas, contra a administração. Finalmente, depois de intermináveis negociações que envolveram políticos, provocaram mais publicidade e — de acordo com a opinião de Mel Bakersfeld — divulgaram informações totalmente errôneas, o aeroporto e a Administração Federal de Aviação concordaram que as decolagens e aterragens dos jatos, diretamente por cima de Meadowood, só seriam efetuadas quando se tornassem imprescindíveis e emcircunstâncias especiais. Como o aeroporto já contava com um número limitado de pistas disponíveis, o decréscimo de eficiência resultou considerável. Além disso, concordaram também que os aviões que decolassem naquela direção ficariam obrigados — quase imediatamente após ganharem altura — a obedecer a uma redução de ruído. O que, por sua vez, produziu protestos dos pilotos, que consideraram a medida perigosa. As companhias aéreas, no entanto — temendo a agitação pública e suas respectivas representações corporativas — cumpriam o acordo. Não foi suficiente para contentar os moradores do bairro. Os porta-vozes continuavam a protestar, organizando-se e — segundo os últimos boatos — planejando aborrecimentos legais para o aeroporto. — Quantos chamados — perguntou Mel ao chefe da torre de observação — já receberam? Antes de receber a resposta, percebeu, mal-humorado, que ia perder mais horas de trabalho comdelegações, uso de persuasão e as mesmas discussões inúteis de sempre. — Uns trinta, no mínimo, foram atendidos. Mas houve outros. Os telefones começam a tocar logo após cada decolagem — até os números que não constam do catálogo. Não sei o que não daria para descobrir onde ficam sabendo deles. — Espero que você tenha explicado que atravessamos uma situação toda especial — a tempestade, a pista interditada. — Explicamos. Mas ninguém quer saber. Só pedem que os aviões não passem mais por lá. Alguns chegam a dizer que, com problemas ou sem problemas, os pilotos estão obrigados a utilizar os redutores de ruído. E que hoje à noite não obedecem ao regulamento. — Santo Deus! Se eu fosse piloto tampouco obedeceria. Como era possível que alguém, dotado de inteligência mediana, refletia Mel, podia esperar que um piloto, no meio daquele clima violento, fosse desligar o motor logo depois de ganhar altura, e em seguida fazer uma curva amparado só nos instrumentos — a condição requerida para a redução do barulho. — Eu também não — concordou o chefe da torre. — Embora ache que isso depende do ponto de vista.

Se eu morasse naquele bairro, talvez raciocinasse como eles. — Você não moraria lá. Teria escutado as advertências que fizemos, anos atrás, para que não construíssem casas em Meadowood. — É provável. Por falar nisso, um dos rapazes me contou que vão realizar uma nova reunião dos moradores ainda hoje, — Com esse tempo? — Parece que sim, e ao que me consta, estão preparando um novo plano de ataque. — Seja qual for — predisse Mel — não tardaremos a saber. De qualquer forma, refletiu, se ia haver mesmo uma reunião pública em Meadowood, era uma lástima fornecer munição nova e tão conveniente às reclamações. Tinha quase certeza de que a imprensa e os políticos locais compareceriam, e os vôos diretos, por mais necessários que fossem na ocasião, forneceriam assunto extra para artigos e comentários. Por isso, quanto mais cedo ficasse desinterditada a pista número trinta, tanto melhor para as partes interessadas. — Daqui a pouco — comunicou ao chefe da torre, — irei pessoalmente ao campo para verificar o que está se passando. Depois lhe informo. — Combinado. Mudando de assunto, Mel indagou: — O meu irmão está de serviço hoje? — Positivo. Keith controla o radar — chegadas do oeste. Aquele posto de observações — as chegadas procedentes do oeste — constituía um dos mais exaustivos e tensos da torre. Mel sabia disso. Abrangia a supervisão de todos os vôos que chegassem do quadrante ocidental. Hesitou um pouco, mas logo lembrou-se que conhecia o chefe da torre de controle há muito tempo. — Ele está bem? Não anda nervoso? Houve uma ligeira pausa antes da resposta. — Anda, sim. Na minha opinião, mais do que de costume. Ambos estavam cientes de que o irmão mais moço de Mel era ultimamente um motivo de inquietação, tanto em casa como no serviço. — Para falar com franqueza — prosseguiu o chefe da torre — gostaria de lhe tornar as coisas mais fáceis. Mas não posso. Estamos com falta de pessoal e todo mundo anda com os nervos tensos.

— E acrescentou: — Inclusive eu. — Sei disso, e fico reconhecido pela atenção que você lhe vem dispensando. — Ora, nesse trabalho quase todos nós temos de lutar contra o cansaço, de vez em quando. — Mel podia sentir como ele escolhia as palavras com cuidado. — Tem horas que se manifesta no cérebro, e outras que se reflete no estômago. De qualquer forma, quando acontece, a gente procura ajudar-se mutuamente, na medida do possível. — Obrigado. — A conversa não logrou atenuar a ansiedade de Mel. — Sou capaz de passar aí mais tarde. — Combinado, chefe. — E desligou. O “chefe” não passava de cortesia. Mel não possuía nenhuma autoridade sobre o controle de trânsito aéreo, subordinado diretamente à Administração Federal de Aviação, cuja sede é em Washington. Mas as relações entre os inspetores e a administração do aeroporto eram boas, e Mel fazia tudo para que continuassem dessa maneira. Todo aeroporto constitui um estranho complexo de autoridades justapostas. Nenhum indivíduo detém pessoalmente o comando supremo, e no entanto não existe um segmento dotado de completa independência. Na qualidade de administrador-geral, Mel aproximava-se ao máximo de uma atribuição global, mas conhecia seções onde sabia que era melhor não se intrometer. Uma delas era o controle de trânsito aéreo, e outra a organização interna das companhias. Podia intervir — e chegava mesmo a fazê-lo — em questões que afetassem de modo geral o aeroporto ou o bem-estar das pessoas que o utilizassem. Ordenava, peremptoriamente, uma empresa para remover o aviso afixado a uma porta que estivesse sujeito a interpretações errôneas ou deixasse de apresentar uniformidade com os padrões estabelecidos. Mas o que ocorresse por detrás das portas era, dentro dos limites razoáveis, do interesse exclusivo das linhas aéreas. Por essa razão um diretor de aeroporto precisa ser, ao mesmo tempo, um diplomata e um administrador dotado de versatilidade. Mel tornou a colocar o telefone da mesa de controle no lugar. Numa outra linha, Danny Farrow discutia com o encarregado do parque de estacionamento, um indivíduo atrapalhado que há várias horas tentava contornar as reclamações indignadas dos proprietários de carros paralisados. Só queriam saber: será que o camarada responsável pelo aeroporto não tinha percebido que estava nevando? E nesse caso, porque não providenciava a remoção daquela droga para que um homempudesse conduzir o seu carro para onde e quando bem entendesse, da maneira prescrita pela constituição democrática do país? — Diga-lhes que instituímos uma ditadura.

Os estacionamentos descobertos, insistiu Danny, precisavam aguardar o desafogo de prioridades. Mandaria homens com equipamento assim que pudesse. Foi interrompido por um chamado do chefe da torre de controle. Um novo boletim meteorológico previa uma mudança no vento para a próxima hora. Isso implicava numa troca de pistas, e será que podiam acelerar a limpeza do número dezessete, à esquerda? Danny prometeu que faria o possível. Ia verificar com o supervisor da Fila da Conga e depois chamaria de novo. Era o tipo de pressão ininterrupta que vinha ocorrendo há três dias e três noites, desde o início da atual nevasca. O fato de terem reagido à altura da situação tornava ainda mais irritante um recado entregue a Mel por um mensageiro quinze minutos atrás. O texto era o seguinte: achei que devia prevenir vc: comissão cias. (instigada por vern demerest… pq o seu cunhado antipatiza c. vc?) redigindo relatórios críticas pq limpeza pistas vias acesso (sg v.d.) péssima ineficiente… rclat. culpa aerpto (i.e. vc) maior parte vôos atrasados… (tb pretende 707 atolado culpa demora limpeza via acesso mal feita… agora cias. sofrendo esquências, etc, etc, neve vai cair em vc… onde anda —recebendo? (neve, quero dizer) caia fora & vem me pg café logo. bicocas t O “t” era a abreviatura de Tânia — Tânia Livingston, relações públicas da Trans-América, e muito amiga de Mel. Releu o bilhete, como sempre fazia com as mensagens de Tânia, que ficavam mais claras na segunda leitura. O seu trabalho consistia numa combinação de apaziguar os ânimos e mostrar-se simpática. Detestava as letras maiúsculas (“Mel, você não acha justo? Se a gente as suprimisse, acabava com uma porção de dor de cabeça. Pense só nos jornais”). Chegou ao cúmulo de convencer um mecânico da Trans-América a raspar todas as maiúsculas das teclas da sua máquina de escrever. Alguém importante na companhia fez um barulho danado por causa dessa história — Mel ouviu dizer — invocando o regulamento rigoroso acerca de prejuízos deliberados sofridos pela empresa. Tânia, no entanto e como sempre, encontrou um jeito de conseguir o seu intento.

O Vern Demerest do bilhete era o Comandante Vernon Demerest, também da Trans-América. Além de ser um dos mais antigos da companhia também funcionava como militante veterano da Associação dos Pilotos Comerciais e este ano se convertera em membro da Comissão de Repressão à Neve no Aeroporto Internacional Lincoln que fiscalizava as pistas de decolagem e as vias de acesso durante os períodos de nevasca, decidindo se podiam ou não serem usadas pelos aviões. E sempre incluíamum comandante em exercício ativo. Acontece que Vernon Demerest também era cunhado de Mel, casado com a irmã mais velha, Sarah. O clã dos Bakersfeld, por tradição e casamento, possuía raízes e ramificações na aviação, assim como as famílias antigas eram, outrora, associadas com a navegação marítima. Havia, contudo, pouca cordialidade entre Mel e o cunhado, que considerava pretensioso e arrogante. E sabia que não se tratava de opinião puramente pessoal. Recentemente, tinham trocado palavras ásperas, numa reunião da Junta de Diretoria do Aeroporto, onde Demerest se apresentou como representante da associação de pilotos. Mel desconfiou que o relatório com críticas à repressão da nevasca — aparentemente por iniciativa do próprio cunhado — não passava de uma represália. Não ficou muito preocupado com o relatório. Por piores deficiências que o aeroporto podia apresentar em outros setores, estava certo de que tinham enfrentado a borrasca tão bem como qualquer outra organização. Mesmo assim, seria sempre um aborrecimento. Todas as companhias iamreceber uma cópia, e no dia seguinte se sucederiam os telefonemas e memorandos, exigindo uma explicação. Achou melhor ficar de sobreaviso, munido de um máximo de informações. Resolveu efetuar uma inspeção na situação atual da limpeza da neve quando fosse verificar, ao mesmo tempo, a pista interditada e o jato atolado da Aéreo Mexicana. Na mesa de controle, Danny Farrow falava de novo com o serviço de manutenção. A uma pausa momentânea, Mel aparteou: — Vou até o portão de embarque, e depois ao campo. Lembrou-se do que Tânia escrevera a respeito de tomarem café juntos. Ia passar primeiro no seu gabinete, e a caminho do portão, ia-se deter um instante na Trans-América para falar com ela. Essa idéia o deixou animado. 2 MEL UTILIZOU o elevador particular, que só funcionava com uma chave-mestra, para descer da torre para a sobreloja da administração. Embora o seu gabinete estivesse silencioso, com as mesas das estenógrafas arrumadas e as máquinas de escrever cobertas, as luzes tinham ficado acesas. Entrou e retirou de um armário, perto da ampla escrivaninha de mogno que usava no expediente, umsobretudo grosso e botas forradas de lã. Nessa noite Mel não possuía nenhuma tarefa específica no aeroporto. E assim devia ser.

O motivo de ter ficado durante a quase totalidade dos três dias de tormenta, era por querer estar disponível emcaso de emergência. Do contrário, refletiu, enquanto enfiava e amarrava as botas, a essas horas estaria em casa, com Cindy e as crianças. Estaria mesmo? Por mais objetiva que uma pessoa procurasse ser, raciocinou Mel, é sempre difícil verificar os seus verdadeiros motivos. Provavelmente, se não houvesse a tempestade, ocorreria qualquer outra coisa para justificar a sua permanência no aeroporto. De fato, deixar de ir para casa, ultimamente, parecia ter-se tornado um hábito em sua vida. Claro, uma das causas era a sua função: proporcionava inúmeras razões para ficar fazendo serão. Nesses últimos tempos tivera de enfrentar grandes problemas, sem mencionar a confusão de hoje. Porém — caso quisesse ser sincero consigo mesmo — o aeroporto também fornecia uma desculpa para o desentendimento incessante entre ele e Cindy, que parecia ser a regra atualmente, toda a vez que passavam algum tempo juntos. — Oh, diabo! A exclamação ressoou no silêncio do escritório. Caminhou com dificuldade dentro das botas na direção da sua escrivaninha. Um lembrete datilografado pela secretária confirmou o que acabava de se lembrar. Hoje à noite iria haver mais uma das tediosas festas de caridade organizadas pela esposa. Uma semana atrás, com relutância, Mel tinha prometido comparecer. Tratava-se de um coquetel, seguido de jantar (pelo menos era o que dizia o bilhete datilografado), no centro da cidade, no aparatoso Hotel Lago Michigan. Para quem se destinava a caridade, a nota não mencionava, e se por acaso alguém lhe tivesse explicado, esquecera. No entanto, não fazia diferença. Cindy Bakersfeld se envolvia sempre em causas deprimentemente idênticas. O critério do mérito — segundo o seu ponto de vista — era representado pela eminência social dos participantes da comissão. Felizmente, em prol da paz que desejava manter com Cindy, ia começar tarde — dentro de quase duas horas. E, por culpa do mau tempo, era capaz de começar muito depois. Assim, podia ainda chegar a tempo, mesmo indo inspecionar o campo. Dava para voltar, barbear-se e trocar de roupa no escritório, e chegar ao centro com um pequeno atraso. Contudo, seria conveniente prevenir Cindy. Usando uma linha externa direta, discou o número de sua casa. Roberta, a filha mais velha, atendeu.

— Ôi — fez Mel. — Aqui é o velho. A voz veio fria do outro extremo da linha. — Sim, já sei. — Como foi de escola hoje? — Quer fazer o favor de ser específico, pai? Houve várias aulas. A qual o senhor se refere? Mel soltou um suspiro. Havia dias em que lhe parecia que a vida no lar desmoronava de uma hora para outra. Percebeu que Roberta estava num dos seus momentos de impertinência, como dizia Cindy. Será que todos os pais perdem repentinamente a comunicação com as filhas que completam treze anos? Há menos de um ano, os dois viviam tão agarrados quanto é possível a um pai e filha. Mel adorava as duas meninas — Roberta e a irmã menor, Libby. Havia ocasiões em que compreendia que constituíam as únicas razões de sobrevivência do seu casamento. Roberta, ao entrar na adolescência, ia adquirir interesses dos quais não poderia compartilhar, nem muito menos entender. Estava preparado para isso. Só que não esperava ser excluído de maneira tão radical, tratado com um misto de indiferença e condescendência. Embora, se quisesse ser objetivo, a tensão crescente entre Cindy e ele pouco ajudasse a situação. As crianças observam tudo. — Não tem importância — desconversou. — Sua mãe está em casa? — Ela saiu. Disse que, se o senhor telefonasse, era para lhe dizer que ia encontrá-la no centro, e que procurasse não chegar atrasado pelo menos uma vez. Mel dominou a irritação. Roberta, sem dúvida alguma, repetia as palavras textuais de Cindy. Quase podia ouvir a voz da esposa a pronunciá-las. — Se sua mãe telefonar, diga-lhe que talvez me atrase um pouco e não posso fazer nada. — Houve um silêncio, e perguntou: — Você me ouviu? — Ouvi — disse Roberta. — Mais alguma coisa, pai? Tenho deveres a fazer.

— Tem, sim — retorquiu imediatamente. — Veja se muda esse tom de voz e mostre um pouco mais de respeito. Além disso, pretendo continuar com essa conversa na primeira oportunidade. — Como queira, pai. — E pare de me chamar de “pai”! — Está bem, pai. Sentiu vontade de rir, mas logo viu que não devia. — Tudo em ordem aí em casa? — Sim. Libby quer falar com o senhor. — Daqui a pouco. Eu só queria dizer a você — com o temporal, talvez não durma hoje em casa. Há uma porção de coisas acontecendo no aeroporto. Provavelmente voltarei para cá e passarei a noite aqui. Houve outra pausa, como se Roberta estivesse ponderando se devia correr o risco de um comentário safado: grande novidade. Aparentemente decidiu o contrário. — Quer falar com Libby agora? — Quero, sim. Boa-noite, Robbie. — Boa-noite. Ouviu um barulho impaciente enquanto o telefone trocava de mãos, e logo surgia a vozinha sôfrega de Libby. — Papai, papai! Adivinhe o quê! Libby vivia sempre esbaforida, como se, aos sete anos de idade, tudo acontecesse de maneira empolgante e em grande velocidade e precisasse correr para não perder nada. — Deixe eu ver — disse Mel. — Já sei — você hoje brincou na neve. — Foi, sim. Mas não é isso. — Então desisto. Você vai ter de contar.

— Olhe, na escola, Miss Curzon disse que o nosso dever seria escrever todas as coisas boas que a gente acha que vai acontecer no mês que vem. Pensou com carinho: compreendo o entusiasmo de Libby. Para ela, quase tudo era bom e motivo de contentamento, e as poucas exceções se viam logo descartadas e rapidamente esquecidas. Ficou pensando quanto tempo ia durar ainda aquela alegre inocência. — Que bom — comentou. — Gostei da idéia. — Papai, papai! O senhor me ajuda? — Se eu puder. — Quero um mapa de fevereiro. Mel sorriu. Libby usava uma linguagem taquigráfica toda própria, às vezes mais expressiva do que palavras convencionais. Ocorreu-lhe que também podia fazer bom uso de um mapa de fevereiro. — Tem um calendário na escrivaninha do meu escritório. Mel explicou onde se encontrava e escutou os seus pezinhos a correr para fora da sala, esquecida do telefone. Deduziu que fora Roberta quem, silenciosamente, o desligou. Saindo do gabinete, Mel encaminhou-se para a parte executiva da sobreloja que percorria toda a extensão do prédio principal. Levava junto o sobretudo grosso.

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