| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

After: Livro 03 – Depois do Desencontro – Anna Todd

“Pai?” Esse homem diante de mim não pode ser meu pai, apesar dos olhos castanhos tão familiares me encarando. “Tessie?” Sua voz é mais áspera do que eu me recordava de minhas lembranças distantes. Hardin se vira para mim, com os olhos faiscando, e depois para o meu pai. Meu pai. Aqui neste lugar barra-pesada, vestindo roupas imundas. “Tessie? É você mesmo?”, ele pergunta. Estou paralisada. Não tenho nada para dizer a esse bêbado usando a cara do meu pai. Hardin põe a mão no meu ombro em uma tentativa de despertar uma reação. “Tessa…” Dou um passo na direção do estranho, que sorri. Sua barba castanha tem fios grisalhos, e seu sorriso não é branco e limpo como eu me lembrava… como ele foi ficar assim? Toda a esperança de que meu pai tivesse mudado de vida como Ken se esvai, e a confirmação de que esse homem é mesmo meu pai me deixa mais abalada do que deveria. “É, sou eu”, alguém diz, e depois de um momento percebo que sou eu quem está falando. Ele se aproxima de mim e me dá um abraço. “Não acredito! Você está aqui! Tenho tentado…” Ele é interrompido por Hardin, que me puxa para me afastar. Dou um passo atrás, sem saber como agir. O estranho — meu pai — olha para Hardin, depois para mim, assustado e perplexo. Mas logo assume uma postura mais relaxada e mantém a distância, o que para mim é melhor. “Estou tentando encontrar você faz meses”, ele diz, passando a mão na testa e deixando uma mancha de sujeira na pele. Hardin fica na minha frente, pronto para atacar. “Eu estou morando aqui”, respondo baixinho, olhando por cima do ombro de Hardin. Fico feliz por ele estar me protegendo, e nesse momento me dou conta de que ele deve estar absolutamente perplexo. Meu pai se vira para ele, e o olha de cima a baixo por um tempo. “Uau. O Noah mudou umbocado.” “Não, esse é o Hardin”, eu explico.


Meu pai se aproxima um pouco mais de mim, e percebo que Hardin fica tenso. Assim de perto, consigo sentir o cheiro dele. Não sei se é por causa do álcool em seu hálito ou dos anos de bebedeira que ele confundiu os dois. Hardin e Noah são extremos opostos, e eu nunca comparei um com o outro. Meu pai passa umdos braços em volta de mim, e Hardin me lança um olhar, mas balanço a cabeça de leve para tranquilizá-lo. “Quem é ele?” Meu pai mantém o braço em torno de mim por um tempo desconfortavelmente longo enquanto Hardin parece prestes a explodir — não necessariamente de raiva, percebo; ele só não faz ideia de como agir, ou do que dizer. Na verdade somos dois. “Ele é meu… O Hardin é meu…” “Namorado. Sou o namorado dela”, ele complementa por mim. O homem arregala os olhos castanhos quando por fim examina melhor a aparência de Hardin. “Prazer, Hardin. Eu sou o Richard.” Ele estende a mão suja para cumprimentar Hardin. “Hã… Prazer.” Hardin está claramente bastante… inquieto. “O que vocês dois estão fazendo aqui?” Aproveito a oportunidade para me afastar do meu pai e ficar ao lado de Hardin, que enfim se recompõe e me puxa para junto dele. “O Hardin veio fazer uma tatuagem”, respondo de forma automática. Minha mente é incapaz de processar o que está acontecendo. “Ah… Legal. Eu também já fui a esse lugar.” Imagens do meu pai bebendo café antes de sair para o trabalho inundam a minha mente. Ele não era assim, nunca falou assim antes, e com certeza não tinha nenhuma tatuagem quando eu o conhecia. Quando eu era uma garotinha. “Pois é, meu amigo Tom é tatuador.” Ele levanta a manga da camisa e mostra algo que lembra um crânio tatuado no antebraço.

Aquilo não combina com ele, mas, olhando com mais atenção, talvez combine, sim. “Ah…”, é tudo o que consigo dizer. É uma situação estranha demais. Esse homem é meu pai, o homem que abandonou minha mãe e eu. E está aqui diante de mim… bêbado. E eu não sei o que pensar. Uma parte de mim está empolgada — uma parte pequena, que me recuso a reconhecer no momento. Venho torcendo secretamente para encontrá-lo desde que minha mãe contou que ele estava de volta à região. Sei que é bobagem — uma idiotice, na verdade —, mas de alguma forma ele parece melhor do que antes. É um alcoólatra e provavelmente um sem-teto, mas sinto mais a sua falta do que gostaria de admitir, e talvez ele esteja só passando por uma fase difícil. Quem sou eu para julgar esse homem, sem saber nada sobre ele? Quando dou uma olhada nele e no movimento da rua ao nosso redor, é bizarro constatar que o mundo continua a ser o mesmo de sempre. Eu podia jurar que o tempo tinha parado quando meu pai apareceu cambaleando na nossa frente. “Onde você está morando?”, pergunto. O olhar defensivo de Hardin está grudado no meu pai, observando-o como se fosse um predador perigoso. “Estou sem endereço fixo no momento.” Ele limpa a testa com a manga da camisa. “Ah.” “Estava trabalhando na Raymark, mas fui demitido”, ele me conta. Eu me lembro vagamente de ter ouvido o nome Raymark antes. Acho que é alguma fábrica. Ele virou operário? “E você, o que anda fazendo? Já faz o quê… Uns cinco anos?” Sinto que Hardin fica tenso quando respondo: “Não, faz nove anos”. “Nove anos? Desculpa, Tessie.” Suas palavras saem um pouco enroladas. Ouvir o apelido que ele usava para mim é de cortar o coração; ele só me chamava assim nos melhores momentos, quando me punha nos ombros e corria pelo quintal, antes de ir embora. Não sei o que fazer.

Sinto vontade de chorar por revê-lo depois de tanto tempo, de rir da ironia de encontrálo nessa situação, e também de gritar com ele por ter me abandonado. É atordoante vê-lo dessa maneira. Lembro dele como um bêbado, mas um bêbado agressivo, não um bêbado sorridente que mostra suas tatuagens e cumprimenta meu namorado. Talvez ele tenha se tornado um homem mais gentil… “Acho melhor a gente ir”, diz Hardin, olhando para o meu pai. “Me desculpa, sério mesmo. Não foi tudo culpa minha. A sua mãe… você sabe como ela é.” Ele tenta se defender, agitando as mãos diante do corpo. “Por favor, Theresa, me dá uma chance”, o homem implora. “Tessa…”, Hardin me chama. “Só um segundo”, digo ao meu pai. Seguro Hardin pelo braço e o puxo para um pouco mais longe. “O que diabos você está fazendo? Não está pensando em…”, ele começa. “Ele é meu pai, Hardin.” “Ele é um bêbado sem-teto, porra”, ele retruca, irritado. Meus olhos se enchem de lágrimas ao ouvir suas palavras duras mas verdadeiras. “A gente não se vê faz nove anos.” “Exatamente… porque ele abandonou você. Isso é uma perda de tempo, Tessa.” Ele olha por cima de mim para o meu pai. “Eu não ligo. Quero ouvir o lado dele.” “Tudo bem, beleza. Pensei que você fosse convidar o cara para ir até o apartamento ou coisa do tipo.” Ele balança a cabeça.

“Se me der vontade eu convido. Se ele quiser ir, pode ir. A casa é minha também”, retruco. Olho para o meu pai, com suas roupas sujas e em mau estado, olhando para o chão de cimento diante dele. Quando foi a última vez que dormiu em uma cama? Ou fez uma boa refeição? Pensar nisso me dá umaperto no coração. “Você não pode estar pensando em levar esse cara para nossa casa”, Hardin diz, passando os dedos pelos cabelos em seu gesto habitual de frustração. “Não para morar com a gente nem nada… só por uma noite. Nós podemos fazer um jantar”, sugiro. Meu pai ergue a cabeça e me olha nos olhos. Eu desvio o olhar quando ele sorri. “Um jantar? Tessa, ele é um bêbado maldito que sumiu por quase dez anos… e você quer fazer umjantar para ele?” Com vergonha do descontrole de Hardin, eu o puxo pela gola da camiseta mais para perto e falo baixinho: “Ele é meu pai, Hardin, e eu já cortei relações com a minha mãe”. “Isso não significa que tenha que voltar a falar com esse cara. Isso não vai terminar bem, Tess. Você é boazinha demais, mesmo com pessoas que não merecem.” “É importante para mim”, respondo, e o olhar dele se suaviza um pouco antes mesmo de eu apontar as contradições de suas objeções. Ele solta um suspiro e mexe nos cabelos, frustrado. “Merda, Tessa, isso não vai terminar bem.” “Você não tem como saber, Hardin”, sussurro e olho para o meu pai, que está alisando a barba. Sei que Hardin pode ter razão, mas devo a mim mesma uma tentativa de conhecer melhor esse homem, ou pelo menos ouvir o que ele tem a dizer. Volto para falar com o meu pai, e uma apreensão instintiva faz minha voz vacilar um pouco. “Quer ir jantar lá em casa?” “Sério?”, ele pergunta, com o rosto iluminado de esperança. “Sério.” “Tudo bem! É, tudo bem!” Ele sorri, e por um breve momento o homem das minhas lembranças aparece — o homem que ele era antes de ser dominado pela bebida. Hardin não diz uma palavra enquanto caminhamos até o carro. Sei que ele está irritado, e entendo por quê.

Mas também sei que o pai dele mudou para melhor — é quem administra nossa universidade, caramba. Será que sou muito ingênua por esperar uma mudança similar no meu pai? Quando chegamos mais perto do carro, meu pai pergunta: “Uau… esse é o seu carro? É um Capri, certo? Modelo do anos setenta?” “É.” Hardin se acomoda no banco do motorista. Meu pai não questiona a resposta seca de Hardin, e fico contente por isso. O rádio está baixo e, assim que Hardin liga o motor, nós dois estendemos a mão para aumentar o volume, na esperança de que a música preencha o silêncio constrangedor. Durante todo o caminho até o apartamento, fico me perguntando o que a minha mãe ia achar disso tudo. Só de pensar nisso sinto um calafrio, e tento desviar o foco para minha mudança para Seattle. Não, é quase pior. Não sei como falar sobre esse assunto com Hardin. Fecho os olhos e encosto a cabeça na janela. A mão quente de Hardin cobre a minha, e meus nervos começam a se acalmar. “Uau, é aqui que vocês moram?” Meu pai fica boquiaberto no banco traseiro quando paramos na garagem do prédio. Hardin me olha como quem diz “vai começar”, e eu respondo: “É, mudamos para cá tem uns meses”. No elevador, fico vermelha ao notar o olhar protetor de Hardin, e abro um meio sorriso em uma tentativa de acalmá-lo. Parece funcionar, mas estar em casa na companhia de um quase desconhecido é esquisito demais, e começo a me arrepender de tê-lo convidado. Só que é tarde demais. Hardin abre a porta e entra sem olhar para trás, indo direto para o quarto sem dizer nada. “Já volto”, digo para o meu pai e viro as costas, deixando-o sozinho na entrada do apartamento. “Será que posso usar o banheiro?”, ele pede atrás de mim. “Claro. Fica ali no corredor”, respondo, apontando para a porta do banheiro sem olhar. No nosso quarto, Hardin está sentado na cama, tirando as botas. Ele olha para a porta e faz umgesto para que eu a feche. “Eu sei que você está bravo comigo”, comento baixinho enquanto vou até ele. “Estou mesmo.

” Seguro o rosto dele entre as mãos, acariciando suas bochechas com meus polegares. “Não é para ficar.” Ele fecha os olhos ao sentir meu toque, e sinto seus braços enlaçando minha cintura. “Ele vai magoar você. Só estou tentando impedir que isso aconteça.” “Ele não tem como me magoar… o que pode fazer comigo? Já estamos afastados um do outro há tanto tempo…” “Ele deve estar lá fora enfiando nossas coisas no bolso agora mesmo”, Hardin responde bufando, e eu não consigo segurar o riso. “Não tem graça nenhuma, Tessa.” Solto um suspiro e puxo o queixo dele para cima, forçando-o a olhar para mim. “Que tal você ser menos negativo e se animar um pouco? As coisas já estão bem confusas sem você fazendo cara feia e me pressionando ainda mais.” “Não estou fazendo cara feia. Só estou tentando proteger você.” “Não precisa fazer isso… ele é meu pai.” “Ele não é seu pai…” “Por favor?” Passo meu polegar por seus lábios, e a expressão dele se atenua. Soltando outro suspiro, ele finalmente responde: “Tudo bem, vamos jantar com o cara, então. Vai saber qual foi a última coisa que ele comeu sem pegar em uma lata de lixo qualquer.” Meu sorriso desaparece e meus lábios começam a tremer involuntariamente. Ele percebe. “Desculpa. Não chora.” Ele suspira. Hardin não parou de suspirar desde que encontramos meu pai do lado de fora do estúdio de tatuagem. Ver Hardin preocupado — mesmo que, como todos os seus outros sentimentos, a preocupação se misture com a raiva — só torna a situação ainda mais surreal. “Não volto atrás em nada do que disse, mas vou tentar não agir como um babaca.” Ele fica de pé e me dá um beijo no canto da boca. Quando saímos do quarto, ele murmura: “Vamos lá alimentar o mendigo”, o que não ajuda muito a melhorar meu humor.

O homem na sala de estar não poderia estar mais deslocado, olhando ao redor, observando os livros nas prateleiras. “Vou fazer o jantar. Quer ficar vendo tevê?”, sugiro. “Posso ajudar?”, ele se oferece. “Hã, tudo bem.” Abro um meio sorriso, e ele me segue até a cozinha. Hardin fica na sala, preferindo manter distância, como eu imaginava. “Não acredito que você já está adulta, morando sozinha”, meu pai comenta. Pego um tomate na geladeira enquanto tento reorganizar meus pensamentos. “Estou fazendo faculdade na WCU. O Hardin também”, respondo, omitindo deliberadamente o fato de que ele está prestes a ser expulso. “Sério? Na WCU? Uau.” Ele se senta à mesa, e percebo que suas mãos estão limpas. A mancha de sujeira no rosto não está mais lá, e uma marca molhada no ombro da camisa me revela que ele estava tentando deixá-la mais limpa. Ele está nervoso também, e perceber isso faz com que eu me sinta melhor. Quase conto sobre Seattle e sobre o novo e empolgante rumo que minha vida está tomando, mas ainda preciso conversar com Hardin. O reaparecimento do meu pai representa mais um desvio de rota no meu plano inicial. Não sei com quantos problemas vou ser capaz de lidar ao mesmo tempo antes que tudo acabe desabando em cima de mim. “Eu queria ter estado por perto para ver tudo isso acontecer. Sempre soube que você ia ser alguma coisa na vida.” “Mas você não estava por perto”, respondo secamente. Sinto uma pontada de culpa assim que digo essas palavras, mas não me arrependo. “Eu sei, mas agora estou, e quero compensar isso.” Essa resposta, apesar de simples, é também um pouco cruel, porque me dá esperanças de que ele talvez não seja tão ruim no fim das contas, de que só esteja precisando de ajuda para parar de beber. “Você está… Você ainda bebe?” “Bebo.

” Ele olha para baixo. “Não tanto quanto antes. Sei que não é o que parece, mas os últimos meses foram difíceis, só isso.” Hardin aparece na porta da cozinha, e sei que está se esforçando para ficar em silêncio. Espero que consiga. “Eu vi a sua mãe algumas vezes.” “Ah, é?” “É. Ela não quis contar onde você estava, mas parece muito bem”, ele comenta. É muito estranho ouvi-lo falar da minha mãe. Ouço a voz dela na minha cabeça, me dizendo que esse homem abandonou a gente. Que é por causa dele que ela é assim. “O que aconteceu… entre vocês?” Coloco peitos de frango na panela, e ouço o óleo estalar e espirrar enquanto espero pela resposta. Não queria me virar e olhar para a cara dele depois de fazer uma pergunta tão direta e abrupta, mas também não consegui não perguntar. “A gente não se entendia. Ela sempre quis mais do que eu poderia oferecer, e você sabe bem como é sua mãe.” Eu sei muito bem, mas não gosto da maneira como ele fala dela, com um tom depreciativo. Transferindo a culpa da minha mãe de volta para ele, eu me viro rapidamente e pergunto: “Por que você não me ligou?”. “Eu liguei… sempre ligava. E mandei presentes no seu aniversário todos os anos. Ela nunca contou para você, né?” “Não.” “Bom, é verdade… eu fiz tudo isso. Senti muita saudade nesse tempo todo. Nem acredito que estou aqui com você agora.” Os olhos dele se enchem de lágrimas e sua voz parece vacilar. Ele se levanta e se aproxima de mim; não sei como reagir.

Eu não conheço mais esse homem, acho que nunca conheci. Hardin entra na cozinha para criar uma barreira entre nós, e mais uma vez fico contente por ele interferir. Não sei o que pensar de tudo isso. Preciso manter alguma distância física entre esse homem e eu. “Sei que você nunca vai me perdoar.” Ele quase chora, e eu sinto um frio na barriga. “Não é isso. Só preciso de um tempo antes de deixar você entrar na minha vida de novo. A gente nem se conhece”, eu respondo, e ele balança a cabeça. “Eu sei, eu sei.” Ele senta de novo à mesa, e me deixa terminar de preparar o jantar. 2 HARDIN O merda do doador de esperma da Tessa limpa dois pratos de comida sem nem parar para respirar direito. Aposto que estava morrendo de fome, morando na rua e tudo mais. Não é que eu não me sinta mal pelas pessoas que não têm muita sorte na vida e passam por situações difíceis — meu problema é com esse cara, que é um bêbado e abandonou a filha, então não sinto nem um pouco de pena dele. Depois de engolir um copo d’água, ele sorri para a minha menina. “Você é uma ótima cozinheira, Tessie.” Acho que vou dar um berro se ele chamá-la assim de novo. “Obrigada.” Tessa sorri, porque ela é uma pessoa boa. Dá para ver a encenação dele fazendo efeito, tentando curar as feridas que provocou quando a abandonou ainda criança. “É sério. Você precisa me ensinar essa receita algum dia.” Para preparar onde? Na sua cozinha imaginária? “Claro”, ela responde, e fica de pé para tirar o prato, pegando o meu também. “Acho melhor eu ir andando. Adorei o jantar”, diz Richard — ou Dick, o cretino —, ficando de pé.

“Não, você pode… Pode passar a noite aqui se quiser. A gente leva você de volta… para casa de manhã”, ela diz, sem saber se escolheu as palavras certas para descrever a situação. Eu só sei de uma coisa: não estou gostando nada dessa merda toda. “Seria ótimo”, responde Dick, esfregando os braços. Deve estar se coçando por uma bebida, esse cretino de merda. Tessa abre um sorriso. “Legal. Vou pegar um travesseiro e um lençol lá no quarto.” Olhando para o pai e depois para mim, ela deve ter percebido o que estou achando de tudo isso, porque me pergunta: “Vocês vão ficar bem aqui sozinhos por dois minutos, né?”. O pai dela dá risada. “Claro, preciso mesmo conhecer melhor o Hardin.” Ah, não, não precisa me conhecer coisa nenhuma. Ela franze a testa ao olhar para mim e nos deixa sozinhos na cozinha. “Então, Hardin, onde foi que você conheceu a minha Tessa?”, ele pergunta. Escuto quando ela fecha a porta, e espero mais um pouco para me certificar de que não está ouvindo. “Hardin?”, ele repete. “Vamos deixar uma coisa bem clara”, eu começo, e me inclino sobre a mesa na direção dele, que fica tenso. “Ela não é a sua Tessa… é minha. E sei muito bem o que você está armando, então não pense nem por um segundo que eu vou cair nessa.” Ele ergue as mãos, todo manso. “Não estou armando nada. Eu só…” “O que você quer, dinheiro?” “Quê? Claro que não. Eu não quero dinheiro. Só quero voltar a ter uma relação com a minha filha.” “Você teve nove anos pra fazer isso, mas só está aqui porque vocês se encontraram por acaso em uma porra de um estacionamento.

É bem diferente de procurar por ela”, rosno, já imaginando minhas mãos apertando o pescoço dele. “Eu sei.” Ele sacode a cabeça, olhando para baixo. “Sei que fiz um monte de besteira, mas vou compensar tudo isso.” “Você está bêbado… agora mesmo, sentado na minha cozinha, você está bêbado, caralho. Eu sei reconhecer. E não tenho nenhuma pena de um homem que abandona a família e nove anos depois ainda não conseguiu dar um jeito na própria vida.” “Eu sei que as suas intenções são boas, e é bom ver que você quer proteger a minha filha, mas não vou estragar tudo desta vez. Só quero uma chance de me entender com ela… e com você.” Fico em silêncio, tentando acalmar meus pensamentos furiosos. “Você é muito mais agradável quando ela está por perto”, ele comenta baixinho. “A sua encenação é muito mais malfeita quando ela não está por perto”, eu retruco. “Você tem todo o direito de não confiar em mim, mas só estou pedindo uma chance. Por ela.” “Se ela se magoar por sua causa, acabo com você.” Talvez eu devesse me sentir mal por ameaçar o pai de Tessa desse jeito, mas só o que sinto por esse bêbado patético é raiva e desconfiança. Meus instintos me dizem para protegê-la, e não para ficar com dó de um bêbado desconhecido. “Isso não vai acontecer”, ele promete. Eu reviro os olhos e tomo um gole da minha água. Pensando que me convenceu, ele tenta ser engraçado: “Essa conversa… nossos papéis estão invertidos, sabia?”. Eu ignoro e vou para o quarto. É o melhor a fazer, antes que Tessa volte para a cozinha e me encontre estrangulando o pai dela. 3 TESSA Quando Hardin entra pisando duro no quarto, estou com um travesseiro, um lençol e uma toalha nas mãos. “Tudo bem, o que foi que aconteceu?”, pergunto, esperando ele explodir e reclamar por eu ter convidado meu pai para dormir aqui sem falar com ele antes. Hardin vai até a cama e deita, depois olha para mim.

“Nada. A gente só conversou. Depois achei que já tinha passado tempo demais fazendo sala para o nosso hóspede e decidi vir pra cá.” “Por favor, me diz que você não pegou pesado com ele.” Eu mal conheço o meu pai. A última coisa que quero é que as coisas fiquem ainda mais tensas. “Eu nem encostei nele”, Hardin responde e fecha os olhos. “Acho que vou levar a roupa de cama para ele e me desculpar pelo seu comportamento, como sempre”, digo, irritada. Na sala, encontro meu pai sentado no chão, mexendo nos buracos da calça jeans. Ele ergue a cabeça quando me ouve chegar. “Você pode sentar no sofá”, eu digo e deixo as coisas no braço do móvel. “Eu… bem, não queria sujar o seu sofá.” A expressão dele é de puro constrangimento, e sinto um aperto no coração. “Não se preocupe com isso… você pode tomar um banho, e o Hardin com certeza tem umas roupas que pode emprestar para você esta noite.” Ele não olha para mim, mas esboça uma recusa: “Eu não quero abusar da sua boa vontade”. “Não tem problema, sério. Vou pegar umas roupas. Pode ir tomar banho. A toalha está aqui.” Ele abre um sorrisinho desanimado. “Obrigado. Estou muito feliz por ver você de novo. Estava morrendo de saudade… e agora estou aqui com você.” “Desculpa se o Hardin tratou você mal. Ele é bem…” “Protetor?”, ele conclui por mim.

“É, acho que sim. Ele pode ser bem grosso às vezes.” “Tudo bem. Sou homem. Sei lidar com essas coisas. Ele só está querendo cuidar de você, e eu entendo. Ele não me conhece. Nem você, para falar a verdade. Ele me lembra alguém que eu conheci…” Meu pai se interrompe e abre um sorriso. “Quem?” “Eu mesmo… Eu era igual a ele. Só respeitava quem merecia o meu respeito, e passava por cima de todo mundo que cruzava o meu caminho. Eu tinha essa mesma atitude, a única diferença é que ele tem muito mais tatuagens.” Ele ri, e o som traz de volta lembranças esquecidas fazia tempo. É uma sensação boa, e eu sorrio para ele, que fica de pé e pega a toalha. “Vou tomar aquele banho então.” Eu aviso que vou pegar uma muda de roupa e deixar do lado de fora do banheiro. No nosso quarto, Hardin ainda está deitado na cama, de olhos fechados e com os joelhos dobrados. “Ele está tomando banho. Eu disse que ele podia usar umas roupas suas.” Ele senta na cama. “Como assim?” “Ele não tem nenhuma roupa limpa.” Vou andando até a cama, com os braços estendidos para acalmá-lo. “Ótimo, Tessa, pode dar todas as minhas roupas para ele”, Hardin responde, irritado. “Quer oferecer o meu lado da cama também?” “Você precisa parar com isso agora. Ele é meu pai, e quero saber onde isso vai dar.

Só porque você não consegue perdoar o seu pai, isso não significa que pode sabotar a minha tentativa de me entender com o meu”, eu respondo, igualmente irritada. Hardin me encara. Seus olhos verdes se estreitam, e ele sem dúvida está se segurando para não dizer em voz alta as coisas horríveis que está pensando. “Não é nada disso. Você é ingênua demais. Quantas vezes vou ter que repetir? Nem todo mundo merece a sua bondade, Tessa.” Nesse momento, eu perco a cabeça. “Só você, né? Você é o único que eu tenho que perdoar, o único que sempre merece mais uma chance? Isso é ridículo, você está sendo muito egoísta.” Abro a gaveta de baixo para pegar uma calça de moletom. “E quer saber? Eu prefiro ser ingênua e ver o lado bom das pessoas a ser uma cretina que pensa que todo mundo quer se aproveitar de mim.” Pego uma camiseta e um par de meias e saio. Enquanto deixo as roupas do lado de fora do banheiro, ouço a voz do meu pai cantando baixinho no chuveiro. Encosto a orelha na porta e não consigo conter um sorriso. Lembro da minha mãe falando sobre a cantoria do meu pai, que ela achava irritante, mas eu adoro. Ligo a tevê na sala e deixo o controle remoto sobre a mesinha para encorajá-lo a assistir o que quiser. Será que ele assiste televisão? Arrumo a cozinha e deixo as sobras sobre a bancada, para o caso de ele sentir fome. Quando foi a última vez que ele fez uma refeição decente?, eu me pergunto outra vez. A água ainda está correndo no banheiro. Ele deve estar gostando do chuveiro quente, o que significa que provavelmente não tomava banho fazia tempo. Quando finalmente volto para o quarto, Hardin está sentado com o fichário novo de couro que comprei para ele no colo. Passo por ele sem fazer contato visual, mas então sinto seus dedos segurando meu braço. “Será que a gente pode conversar?”, ele pergunta, me puxando para ficar de pé entre suas pernas. Suas mãos rapidamente afastam o fichário. “Pode falar.” “Me desculpa por ter sido um babaca, tá bom? Eu só não sei o que pensar sobre tudo isso.

” “Tudo isso o quê? Nada mudou.” “Claro que mudou. Um homem que nem eu nem você conhecemos está na minha casa, e quer se aproximar de você de novo depois de todos esses anos. Isso não faz sentido, e o meu primeiro instinto é ficar na defensiva. Você sabe disso.” “Eu entendo, mas você não tem o direito de falar essas coisas, de se referir a ele como ummendigo. Isso me magoou muito.” Ele abre minhas mãos, entrelaçando os dedos nos meus, e me puxa mais para perto. “Desculpa, linda, de verdade.” Ele leva nossas mãos até a boca e beija devagar cada um dos meus dedos, e minha raiva se dissolve com o toque de seus lábios. Eu levanto uma sobrancelha. “Você vai parar com os comentários maldosos?” “Vou.” Ele vira uma das minhas mãos, passando o dedo pelas linhas da minha palma. “Obrigada.” Observo os dedos compridos dele passearem dos meus pulsos até a ponta dos meus dedos. “Só toma cuidado, tá? Porque eu não vou pensar duas vezes se precisar…” “Ele parece bem, não parece? Quer dizer, ele é legal”, digo baixinho, interrompendo sua promessa de violência. Os dedos de Hardin param de se mover. “Sei lá. É, ele parece ser legal.” “Ele não era nada legal quando eu era criança.” Hardin me olha com os olhos inflamados, apesar das palavras gentis. “Não fala essas coisas quando eu estiver perto dele, por favor. Estou me segurando aqui, então é melhor não forçar a barra.” Eu subo no colo dele, que deita, puxando meu corpo para junto de si. “Amanhã é o grande dia.

” Ele suspira. “É”, eu murmuro contra seu braço, absorvendo seu calor. A audiência sobre a expulsão de Hardin por ter dado uma surra em Zed está marcada para amanhã. Não vai ser exatamente um ponto alto da nossa vida. De repente sinto uma pontada de pânico ao lembrar da mensagem que Zed me mandou. Quase tinha me esquecido disso depois de encontrar meu pai em frente ao estúdio de tatuagem. Meu telefone vibrou no bolso enquanto a gente esperava Steph e Tristan, e Hardin ficou me olhando em silêncio enquanto eu lia. Felizmente, ele não perguntou o que era. Podemos conversar, só nós dois, amanhã de manhã, por favor? Foi a mensagem de Zed. Não sei o que pensar. Não sei se devo falar com ele, especialmente depois que ele contou para Tristan que vai prestar queixa contra Hardin. Espero que ele tenha falado isso só para manter sua reputação. Não sei o que vou fazer se Hardin se der mal — mal de verdade. Sei que preciso responder à mensagem, mas não é uma boa ideia conversar com Zed sozinha. Hardin já está encrencado demais, e eu não quero piorar a situação. “Está me ouvindo?” Hardin me cutuca, e eu olho para ele enquanto nos abraçamos. “Não, desculpa.” “Está pensando em quê?” “Em tudo: em amanhã, na audiência, na expulsão, na Inglaterra, em Seattle, no meu pai…” Solto um suspiro. “Em tudo.” “Mas você vai comigo, né? Na audiência sobre a expulsão?” A voz dele não está alterada, mas dá para ver que ele está nervoso. “Se você quiser eu vou”, respondo. “Eu preciso de você lá.” “Então eu vou.” Preciso mudar de assunto, então digo: “Ainda não acredito que você fez essa tatuagem. Deixa eu ver de novo”.

Ele me tira de cima dele para poder virar de costas. “Levanta a minha camisa.” Levanto a barra da camiseta preta até expor suas costas inteiras, e em seguida tiro a bandagembranca que cobre as palavras recém-tatuadas. “Tem um pouco de sangue no curativo”, eu aviso. “É normal”, ele responde, se divertindo com a minha ignorância. Eu passo o dedo pela pele avermelhada, contornando aquelas palavras perfeitas. A tatuagem que ele fez para mim é minha favorita. As palavras são perfeitas — significam muito para mim, e pelo jeito para ele também. Mas sobre elas paira o peso da minha escolha de me mudar para Seattle. Vou contar tudo amanhã, assim que sair a decisão sobre a expulsão. Prometi a mim mesma mil vezes que vou contar. Quanto mais eu esperar, mais irritado ele vai ficar. “Essa prova de comprometimento basta para você, Tessie?”

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |