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Agência de investigações holísticas Dirk Gently – Douglas Adams

Dessa vez, não haveria testemunhas. Dessa vez, era apenas a terra morta, o estrondo de um trovão e o começo daquela garoa incessante que parece acompanhar tantos dos acontecimentos mais solenes do mundo. As tempestades do dia anterior e do dia antes desse haviam passado, assim como as enchentes da outra semana. O céu continuava carregado, mas tudo o que de fato caía na penumbra de fim de tarde era um tipo deprimente de chuvisco. O vento soprava pela planície que escurecia, atravessando com dificuldade as colinas baixas e ganhando força ao cruzar um vale raso onde uma estrutura se erguia, uma espécie de torre, solitária e inclinada em um pesadelo feito de lama. Era uma construção atarracada e enegrecida. Brotava como uma erupção de magma de um dos fossos mais pestilentos do inferno e pendia em um ângulo estranho, como se oprimida por algo mais terrível do que seu considerável peso. Parecia uma coisa morta, e morta há muito tempo. O único movimento vinha do rio de lama que passava pela torre e se arrastava vagarosamente ao longo do fundo do vale. Cerca de 1,5 quilômetro mais à frente, o rio descia por uma ravina e sumia debaixo da terra. À medida que escurecia, porém, ficou óbvio que a torre não era sem vida. Uma luz vermelha e fraca oscilava nas suas profundezas. Ela era apenas ligeiramente visível – só que, é claro, não havia ninguém para vê-la, nenhuma testemunha, não dessa vez –, mas não deixava de ser uma luz. No intervalo de alguns minutos, ficava um pouco mais forte e brilhante, então esmaecia lentamente, até quase se apagar. Ao mesmo tempo, um ruído baixo e penetrante era propagado pelo vento, intensificando-se até uma espécie de clímax uivante, para depois se abrandar e sumir, resignado. O tempo passou e outra luz surgiu: uma menor, móvel. Ela apareceu ao nível do solo e descreveu um trajeto oscilante ao redor da torre, parando algumas vezes no meio do caminho. Por fim, voltou a se ocultar no interior da estrutura, assim como o vulto quase imperceptível que a carregava. Uma hora depois, a escuridão era total. O mundo parecia morto; a noite, absolutamente vazia. Em seguida, o brilho ressurgiu perto do topo da torre, ganhando força com mais determinação. Logo chegou ao grau de luminosidade que havia alcançado antes, depois continuou a se intensificar. O som penetrante que o acompanhava aumentou, ficando mais agudo e estridente, tornando-se umgrito de agonia. O berreiro prosseguiu até se transformar em um ruído ofuscante e a luz virou uma vermelhidão ensurdecedora. De repente, ambos cessaram.


Houve um milissegundo de escuridão silenciosa. Uma nova luz muito pálida brotou, dilatando-se, das profundezas da lama debaixo da torre. O céu se fechou, uma montanha de lama entrou em convulsão, terra e céu gritaram um contra o outro, tudo ficou terrivelmente rosa, subitamente verde, longamente alaranjado, manchando as nuvens, e então a luz se apagou e a noite mergulhou enfim numa escuridão profunda e horripilante. Não havia mais nenhum som além de um leve gotejar de água. Pela manhã, o sol nasceu com um brilho insólito em um dia que era, ou parecia ser, ou pelo menos teria parecido se houvesse alguém ali para quem ele pudesse parecer alguma coisa, mais quente, mais claro e mais reluzente – um dia, em todos os aspectos, mais vivo do que qualquer outro que tivesse existido antes. Um rio límpido corria pelos escombros do vale. E o tempo começou a passar de verdade. capítulo 2 No topo de um promontório rochoso, um Monge Eletrônico estava montado em uma égua entediada. Debaixo de seu capote grosseiro, olhava sem piscar para o vale abaixo, com o qual tinha umproblema. O dia estava quente, o sol pairava em um céu vazio e nebuloso e castigava as pedras cinzentas e a grama esparsa e crestada. Nada se movia, nem mesmo o Monge. O rabo da égua se mexia umpouco, balançando de leve para tentar deslocar um pouco de ar. Fora isso, nada se movia. O Monge Eletrônico era um utensílio feito para poupar trabalho, como um lava-louça ou umvideocassete. O primeiro se encarrega da tediosa tarefa de lavar pratos, poupando a pessoa de executá-la com as próprias mãos; o segundo tem a chata função de ver TV, poupando o indivíduo do trabalho de olhar para ela com os próprios olhos; Monges Eletrônicos acreditam nas coisas por você, livrando-o daquela que vinha se tornando uma tarefa cada vez mais árdua: acreditar em todas as coisas em que o mundo espera que você acredite. Infelizmente, esse Monge Eletrônico tinha dado defeito e começara a crer em todo tipo de coisas, de forma mais ou menos aleatória. Estava inclusive começando a acreditar em coisas em que até as pessoas de Salt Lake City têm dificuldade em acreditar. Ele nunca tinha ouvido falar em Salt Lake City, é claro. Tampouco ouvira falar de quinquiquilhões, que era aproximadamente o número de quilômetros entre aquele vale e a tal cidade. O Monge atualmente acreditava que o vale e tudo o que havia nele, incluindo o próprio Monge e sua égua, eram da mesma cor: um tom uniforme de rosa claro. Isso dificultava um tanto distinguir as coisas, o que, por sua vez, tornava impossível – ou pelo menos difícil e perigoso – fazer qualquer coisa ou ir para onde quer que fosse. Esse era o motivo da imobilidade do Monge e do tédio da égua, que já precisara aturar muitas tolices na vida, mas, secretamente, tinha a opinião de que aquela era uma das maiores de todas. Por quanto tempo o Monge acreditaria nessas coisas? Bem, se você perguntasse a ele, a resposta seria para sempre. A fé que move montanhas, ou que ao menos acredita, contra todas as evidências disponíveis, que elas são cor-de-rosa, era uma fé sólida e duradoura, uma grande rocha contra a qual o mundo poderia atirar tudo o que quisesse, mas não conseguiria abalá-la. Na prática, a égua bem sabia, 24 horas eram em geral o seu prazo de duração.

E que égua era essa, por sinal, que tinha opiniões formadas e ceticismo? Um comportamento incomum para uma égua, não? Seria ela uma égua diferente das outras? Não. Embora, sem dúvida, fosse um belo e vigoroso exemplar da sua espécie, não passava de uma égua perfeitamente normal, como todas as que a evolução produziu em vários dos lugares emque a vida pode ser encontrada. Os cavalos compreendem muito mais do que deixam transparecer. É difícil ser montado o dia inteiro, todos os dias, por outra criatura e não formar uma opinião a respeito dela. Por outro lado, é possível ficar sentado o dia inteiro, todos os dias, em cima de outra criatura e não lhe dedicar o menor pensamento que seja. Quando os primeiros modelos desses Monges foram construídos, era importante que eles pudessem ser reconhecidos como objetos artificiais. Não deveria haver o risco de serem remotamente parecidos com pessoas de verdade. Você não iria querer seu videocassete esparramado no sofá o dia inteiro enquanto assistia à TV. Não iria querer que ele ficasse cutucando o nariz, bebendo cerveja e pedindo pizzas. Portanto, os Monges foram construídos com especial atenção à originalidade de seu design, mas também de modo que pudessem andar a cavalo com praticidade. Isso era importante. As pessoas, e até as coisas na verdade, pareciam mais genuínas quando montadas a cavalo. Então, considerou-se que duas pernas eram mais adequadas e baratas do que números primos mais normais, como 17, 19 e 23; a pele era de aparência rosada, em vez de púrpura, além de macia e lisa em vez de irregular e sulcada. Eles também ficavam restritos a uma só boca e nariz, porém ganhavam um olho a mais para compensar, o que lhes dava um total de dois deles. Eram criaturas muito, muito estranhas. Mas com uma tendência verdadeiramente extraordinária para acreditar nas coisas mais absurdas. Aquele Monge em especial tinha dado defeito pela primeira vez quando recebeu muitas coisas nas quais acreditar em um só dia. Ele foi conectado acidentalmente a um videocassete que estava vendo onze canais de TV ao mesmo tempo, o que causou uma pane em seu conjunto de circuitos ilógicos. O videocassete precisava apenas assistir a esses canais – não precisava acreditar neles. É por isso que manuais de instruções são tão importantes. Depois de uma semana caótica acreditando que guerra era paz, que o bem era o mal, que a lua era feita de gorgonzola e que Deus precisava que um monte de dinheiro fosse depositado em uma determinada conta, o Monge começou a acreditar que 35 por cento de todas as mesas eramhermafroditas e, então, pifou. O homem da loja de Monges Eletrônicos informou que ele precisava de uma placa-mãe nova, mas comentou que os novos e aperfeiçoados modelos Monge Plus tinham o dobro de potência, um novo recurso de Capacidade de Negação multitarefas que lhes permitia sustentar dezesseis ideias totalmente diferentes e contraditórias na memória simultaneamente semgerar nenhum erro de sistema irritante, eram duas vezes mais rápidos e até três vezes mais falastrões. Além disso, dava para comprar um modelo novo por menos do que custaria substituir a placa-mãe do antigo. Pronto. Estava feito.

O Monge defeituoso foi despachado para o deserto, onde poderia acreditar no que quisesse, inclusive na sensação de que tinha sido altamente sacaneado. Permitiram que ele ficasse com seu cavalo, já que era muito barato fazê-los. Durante certo número de dias, que ele acreditou serem 3, 43, 500 e 98.703, o Monge vagou pelo deserto, depositando sua simples confiança Eletrônica em pedras, pássaros, nuvens e uma espécie inexistente de aspargo-elefante, até enfim chegar lá em cima, no topo daquele penhasco, contemplando um vale que não era, apesar da sua crença profundamente fervorosa, cor-de-rosa. Nemum pouco. O tempo passou. capítulo 3 Otempo passou. Susan esperou. Quanto mais Susan esperava, mais a campainha não tocava. Ou o telefone. Ela conferiu seu relógio. Sentia que já chegara a hora em que tinha o direito de ficar irritada. Já estava irritada, é claro, mas isso havia acontecido dentro do seu próprio tempo, por assim dizer. Agora, estavam sem sombra de dúvida no tempo dele, e mesmo dando o desconto do trânsito, de qualquer contratempo, imprevisto e/ou procrastinação, mais de meia hora se passara desde quando ele insistira ser o último minuto em que os dois poderiam sair, então era melhor ela estar pronta. Susan tentou pensar que algo terrível tivesse acontecido a ele, mas não acreditou nisso nem por um instante. Nada de terrível jamais lhe acontecia, embora começasse a achar que já estava mais do que na hora de acontecer. Se nada de terrível lhe ocorresse logo, talvez ela própria pudesse se encarregar disso. Isso, sim, era uma boa ideia. Emburrada, Susan se deixou cair na poltrona e acompanhou o noticiário, que a irritou ainda mais. Trocou de canal e assistiu a outra coisa por algum tempo. Não sabia o que era, mas também a irritava. Talvez devesse telefonar. Pensando bem, era melhor não. E se ele ligasse na mesma hora e não conseguisse completar a chamada? Susan se recusava a admitir que tinha sequer pensado nisso. Onde aquele desgraçado havia se metido? Mas quem se importava, afinal? Não ela, comcerteza.

Três vezes seguidas ele fizera aquilo. Três vezes seguidas era demais. Furiosa, zapeou pelos canais outra vez. Parou em um programa sobre computadores e alguns novos avanços interessantes na área de coisas que se podia fazer com computadores e música. Chega. Agora chega. Sabia que tinha dito exatamente isso para si mesma poucos segundos atrás, mas dessa vez era para valer: o último e derradeiro “chega”. Levantou-se com um salto e foi até o telefone, agarrando com raiva uma agenda de contatos. Folheou-a depressa e discou um número. – Alô, Michael? Sim, é a Susan. Susan Way. Você disse que eu podia ligar se estivesse livre esta noite e eu falei que preferiria ser encontrada morta em um valão, lembra? Bem, acontece que eu descobri que estou livre, absolutamente, totalmente e completamente livre, e não parece ter nenhumvalão decente aqui por perto. Meu conselho é que você aproveite esta chance enquanto pode. Eu estarei no Tangiers Club daqui a meia hora. Susan calçou os sapatos e vestiu o casaco, deteve-se ao lembrar que era quinta-feira e precisava colocar uma fita nova, extralonga, na secretária eletrônica, e dois minutos depois já havia saído pela porta da frente. Quando finalmente o telefone tocou, a máquina disse com doçura que Susan Way não podia atender no momento, mas que, se a pessoa quisesse deixar um recado, ela retornaria a chamada assim que possível. Ou não. capítulo 4 Era uma noite fria de novembro como as de antigamente. A lua estava pálida e opaca, como se não devesse estar no céu em uma noite daquelas. Erguiase a contragosto e pairava como uma alma penada. Recortadas contra ela, apagadas e nebulosas emmeio à umidade que brotava dos pântanos insalubres, destacavam-se as várias torres e torretas da faculdade de St. Cedd’s, em Cambridge, um conjunto fantasmagórico de prédios construídos ao longo de séculos, estilo medieval ao lado de estilo vitoriano, Odeon ao lado de Tudor. Só mesmo vistos através da neblina é que eles pareciam remotamente relacionados uns aos outros. Vultos se apressavam entre esses edifícios, correndo de uma luz fraca para outra, tremendo, deixando rastros espectrais de respiração que se misturavam ao ar frio da noite. Eram sete horas.

Muitas daquelas figuras seguiam para o refeitório da faculdade, que separava o Pátio Principal do Segundo Pátio, e de onde uma luz quente emanava com relutância. Dois vultos pareciam especialmente incompatíveis. Um, o rapaz, era alto, magro e anguloso; mesmo agasalhado com um casaco escuro pesado, andava um pouco como uma garça ofendida. O outro era pequeno, atarracado e se movia com uma agitação desajeitada, como um bando de esquilos velhos tentando fugir de um saco. Sua idade pendia de “velho” para “totalmente indeterminada”. Se você escolhesse um número ao acaso, ele talvez fosse mais velho do que isso, porém… bem, era impossível saber. Seu rosto era cheio de rugas e o pouco cabelo que escapava de baixo do seu chapéu de esqui de lã vermelha era ralo, branco e tinha suas próprias ideias sobre como queria se ajeitar. Também estava agasalhado com um casaco pesado, mas sobre ele vestia ainda uma bata ondulante com um galão roxo muito desbotado, a insígnia de seu peculiar cargo acadêmico. Enquanto andavam, o homem mais velho era o único a falar. Ele apontava coisas interessantes pelo caminho, embora estivesse escuro demais para enxergar qualquer uma delas. O mais jovemdizia “Ah, sim”, “Sério? Que interessante…”, “Ora, ora, ora” e “Puxa vida”. Ele balançava a cabeça, pensativo. Os dois entraram, não pela porta principal que dava no salão, mas por um portal pequeno ao leste do pátio, que conduzia à Sala Comum dos Veteranos e à antessala revestida de madeira escura onde os acadêmicos se reuniam para esfregar as mãos e fazer “brrrrrr” antes de seguirem por sua entrada particular até a Mesa reservada para eles. Eles estavam atrasados e tiraram os casacos às pressas. Essa era uma tarefa complicada para o homem mais velho, uma vez que precisava se despir de sua bata antes e, então, colocá-la de volta. Em seguida, tinha que enfiar o chapéu no bolso do casaco, depois se perguntar onde colocara o cachecol, perceber que havia se esquecido de trazê-lo, vasculhar o bolso do casaco em busca do lenço, tatear o outro bolso à procura dos óculos e, enfim, surpreender-se ao encontrá-lo embrulhado em seu cachecol, que ele tinha trazido no fim das contas, mas não usara, apesar do vento úmido e gelado que vinha dos pântanos como o sopro de uma bruxa. Ele empurrou o rapaz para o salão à sua frente e ambos ocuparam os assentos vagos na Mesa dos Veteranos, enfrentando uma saraivada de carrancas e sobrancelhas erguidas por interromperem a oração em latim. O salão estava cheio naquela noite. Ele era sempre mais popular entre os alunos da graduação durante os meses mais frios. Mais incomum era o fato de estar sob a luz de velas, o que só acontecia em ocasiões muito especiais. Duas mesas longas e totalmente ocupadas se estendiam pela penumbra tremeluzente. À luz de velas, os rostos das pessoas pareciam mais vivos; suas vozes sussurradas e o retinir de talheres e copos, mais empolgantes; e, nos recantos escuros, todos os séculos em que ele havia existido pareciam estar ali ao mesmo tempo. A própria Mesa dos Veteranos formava uma trave horizontal na ponta do conjunto e era cerca de 30 centímetros mais alta do que o resto. Por se tratar de uma noite para convidados, as mesas estavam postas de ambos os lados para receber as cabeças extras, portanto muitos dos convivas sentavam-se de costas para o resto do salão. – Então, MacDuff, meu rapaz – disse o professor assim que se sentou e desdobrou seu guardanapo com uma sacudida –, é um prazer revê-lo, caro colega.

Que bom que pôde vir. Nem imagino do que se trata isto. – Ele correu os olhos pelo salão, consternado. – Todas essas velas, pratarias, pompa e circunstância. Em geral, significa um jantar especial em homenagem a alguma figura de quem ninguém se lembra mais nada a respeito, exceto que significa comida melhor por uma noite. Ele parou para pensar um instante, então disse: – Não lhe parece estranho que a qualidade da comida seja inversamente proporcional à quantidade de iluminação? Faz você pensar até que nível os cozinheiros poderiam chegar se os confinássemos na escuridão para sempre. Quem sabe não vale a pena tentar? Algumas câmaras subterrâneas na faculdade bem que poderiam ser adaptadas para esse propósito. Acho que cheguei a mostrá-las para você uma vez, não foi? A alvenaria é excelente. Tudo isso acabou sendo uma espécie de alívio para o convidado. Era a primeira indicação que seu anfitrião lhe dava de ter alguma lembrança dele. O professor Urban Chronotis, Professor Régio de Cronologia, ou “Reg”, como ele insistia em ser chamado, recordava-se também de que ele próprio já fora comparado à borboleta Rainha Alexandra, no sentido de que eram ambos coloridos, esvoaçavam lindamente para lá e para cá e estavam agora, para sua tristeza, quase extintos. Ao fazer o convite por telefone, alguns dias antes, o professor parecera muito entusiasmado emrever seu antigo pupilo. Mas quando Richard chegou no fim da tarde daquele mesmo dia – um pouco atrasado, é preciso admitir –, o professor abrira a porta aparentemente irritadíssimo e olhara para ele com surpresa, exigindo saber se estava passando por algum problema emocional e mostrando-se contrariado ao ser lembrado com gentileza de que já haviam se passado dez anos desde que fora seu tutor na faculdade. Por fim, concordou que Richard tinha na verdade vindo para o jantar e começou a falar de forma acelerada e prolixa sobre a história da arquitetura da instituição, um sinal inconfundível de que sua mente estava em outro lugar. “Reg” nunca tinha sido professor de Richard, mas apenas seu tutor, o que significava, em poucas palavras, que ele fora o responsável pelo seu bem-estar geral, dizendo-lhe quando eram as provas, que ele não deveria usar drogas e coisas do tipo. Na verdade, não se sabia ao certo se Reg havia sido professor de alguém um dia, ou o que poderia ter ensinado, se é que seria capaz de ensinar. Sua carreira era nebulosa, para dizer o mínimo, e como ele se eximia da obrigação de dar aulas usando a técnica simples e consagrada de apresentar a todos os seus alunos em potencial uma enorme lista de livros que ele próprio sabia estarem fora de catálogo havia trinta anos, e então dando um ataque de nervos quando eles não conseguiam encontrá-los, ninguém nunca descobrira o verdadeiro objeto de sua disciplina acadêmica. Naturalmente, havia tempos que ele tivera a precaução de remover os únicos exemplares restantes dos livros de sua lista das bibliotecas de universidades; logo, tinha tempo de sobra para fazer, bem, para fazer sabe-se lá o quê. Uma vez que Richard sempre se dera razoavelmente bem com o velho maluco, um dia ele reuniu coragem para lhe perguntar em que consistia o cargo de Professor Régio de Cronologia. Era um daqueles dias luminosos de verão em que o mundo parece prestes a explodir de prazer por ser o que é, e Reg estava em um bom humor atípico enquanto eles atravessavam a ponte sobre o rio Cam, que dividia as partes mais antigas da faculdade das mais novas. – Uma mamata, meu caro colega, uma verdadeira mamata – respondeu ele, radiante. – Uma pequena quantia de dinheiro por uma quantia muito pequena, ou, melhor dizendo, inexistente de trabalho. Assim, tenho sempre o suficiente para me manter, o que é uma maneira confortável, embora frugal, de levar a vida. Eu recomendo. Ele se debruçou sobre a mureta da ponte e apontou para um tijolo em especial que considerava interessante.

– Mas qual é área de estudo? – perguntou Richard. – História? Física? Filosofia? O quê? – Bem – falou Reg, devagar –, já que você está interessado, a disciplina foi originalmente instituída pelo rei Jorge III, que, como você sabe, nutria uma série de ideias curiosas, como a crença de que uma das árvores no Grande Parque de Windsor era, na verdade, Frederico, o Grande. As indicações para o cargo eram feitas pelo próprio, daí o título “Regius”. Isso também foi ideia sua, o que, de certa forma, é ainda mais incomum. A luz do sol brincava ao longo do rio. A bordo de chalanas, as pessoas gritavam alegremente “sai da frente, porra” umas para as outras. Cientistas naturalistas magros que haviam passado meses trancados no quarto, ficando cada vez mais brancos e parecidos com peixes, saíam pestanejando para a claridade. Casais que passeavam pelas margens do rio ficavam tão excitados com o esplendor de tudo ao redor que precisavam voltar correndo para o quarto por uma hora. – Pobre sujeito – prosseguiu Reg. – Jorge III, quero dizer. Como você deve saber, ele era obcecado pelo tempo. Encheu o palácio de relógios. Dava corda neles o tempo todo. Às vezes, levantava no meio da noite e zanzava de camisola só para fazer isso. Tinha uma grande preocupação de que o tempo continuasse seguindo em frente. Sua vida foi marcada por tantos episódios terríveis que ele morria de medo de que algum deles pudesse tornar a acontecer se o tempo voltasse, mesmo que só por um instante. Um medo muito compreensível, em especial se você for louco de pedra, como infelizmente devo dizer, por mais que me compadeça do pobre coitado, que ele sem dúvida era. Foi ele quem me nomeou, ou melhor, quem criou o cargo, a cadeira, se é que você me entende, o título que tenho o privilégio de ter hoje… Onde eu estava mesmo? Ah, sim. Ele instituiu esta, ahn, Cadeira de Cronologia para descobrir se havia algum motivo em especial para uma coisa acontecer depois da outra e se havia alguma maneira de interromper o processo. Como percebi imediatamente que as respostas para as três perguntas eram sim, não e talvez, cheguei à conclusão de que poderia tirar o resto da minha carreira de folga. – E os seus antecessores? – Ahn, pensavam bem parecido comigo. – Mas quem foram eles? – Quem foram eles? Ora, figuras extraordinárias, naturalmente, extraordinárias. Lembre-me de lhe contar a respeito deles um dia. Está vendo aquele tijolo? Wordsworth passou mal em cima dele uma vez. Grande homem.

Tudo isso tinha acontecido dez anos atrás. Richard correu os olhos pelo grande refeitório para ver o que havia mudado nesse meio-tempo. A resposta era, é claro, absolutamente nada. No alto das paredes escurecidas, difíceis de ver à luz bruxuleante das velas, estavam os retratos fantasmagóricos de primeiros-ministros, arcebispos, reformistas políticos e poetas, e todos eles, em suas respectivas épocas, provavelmente tinhampassado mal em cima daquele mesmo tijolo. – Bem – disse Reg em um sussurro conspiratório, como se fosse discorrer sobre piercing nos mamilos em um convento de freiras –, fiquei sabendo que você enfim andou se dando muito bem nos últimos tempos, hum? – Ahn, bem, sim, é verdade – falou Richard, que estava tão surpreso com o fato quanto qualquer um –, tem razão. Ao redor da mesa, vários olhares sisudos se fixaram nele. – Computadores… – ele ouviu alguém murmurar com desprezo para um colega mais ao fundo da mesa. Os olhares sisudos tornaram a relaxar e se afastaram. – Que maravilha – comentou Reg. – Fico muito feliz por você, muito feliz. Diga-me uma coisa – prosseguiu, e só depois de um instante é que Richard percebeu que o professor já não estava falando com ele, mas havia se virado para a direita para se dirigir ao seu outro vizinho de mesa –, por que toda essa… – ele gesticulou vagamente em direção às velas e à prataria – parafernália? Seu colega, um velho encarquilhado, se virou devagar e o encarou como se estivesse muito contrariado por ter sido trazido de volta dos mortos dessa forma. – Coleridge – respondeu com um fiapo de voz –, é o jantar em homenagem a Coleridge, seu velho idiota. Ele tornou a se virar muito devagar. Chamava-se Cawley e era professor de Arqueologia e Antropologia; costumava-se dizer pelas suas costas que ele encarava o trabalho nem tanto como umestudo acadêmico sério, mas como uma chance de reviver a infância. – Ah, é mesmo? – balbuciou Reg e se voltou para Richard. – É o jantar em homenagem a Coleridge – informou ele com ar de sabichão. – Coleridge era membro da faculdade, sabia? – acrescentou após um instante. – Samuel Taylor Coleridge. Poeta. Imagino que tenha ouvido falar dele. Este é o jantar dele. Bem, não literalmente, é claro. Ou já estaria frio a esta altura. – Silêncio. – Aqui, tome o sal.

– Obrigado, mas acho que vou esperar – disse Richard, surpreso. Ainda não havia comida alguma sobre a mesa. – Ora, tome – insistiu o professor, oferecendo-lhe o saleiro de prata pesado. Richard pestanejou, confuso, mas, dando de ombros interiormente, estendeu a mão para pegá-lo. Quando piscou, no entanto, o saleiro tinha sumido. Ele saltou para trás, espantado. – Essa foi boa, hein? – falou Reg enquanto retirava o utensílio desaparecido de trás da orelha de seu vizinho cadavérico da direita, fazendo uma surpreendente risada de menininha vir de algum outro lugar da mesa. Reg abriu um sorriso travesso. – É um hábito muito irritante, eu sei. Está na minha lista de coisas a largar, junto com o cigarro e as sanguessugas. Bem, lá estava outra coisa que não havia mudado. Algumas pessoas cutucavam o nariz, outras tinham o hábito de espancar velhinhas na rua. O vício de Reg era inofensivo, embora peculiar: fazer truques de mágica infantis. Richard se lembrava da primeira vez que fora se consultar com Reg sobre um problema. Era apenas a angústia normal que toma conta de todos os alunos de graduação de tempos em tempos, especialmente se têm trabalhos para escrever, mas havia parecido um peso sombrio e insustentável na época. Reg ouvira o seu desabafo com as sobrancelhas franzidas, concentrado. Quando Richard enfim terminou de falar, ele refletiu com seriedade, coçou bastante o queixo e por fim se inclinou para a frente e o fitou nos olhos. – Me parece que o problema é que você tem clipes de papel demais no nariz. Richard ficou encarando-o. – Deixe eu demonstrar para você – disse Reg, esticando-se sobre a mesa e puxando do nariz de Richard uma corrente de onze clipes de papel e um pequeno cisne de borracha. Então, erguendo o cisne no ar, anunciou: – Ah, o verdadeiro culpado. Eles vêm em pacotes de cereais, como você sabe, e causam uma infinidade de transtornos. Bem, fico feliz por termos tido esta pequena conversa, meu caro colega. Sinta-se livre para me incomodar outra vez caso volte a ter esse tipo de problema. Desnecessário dizer que Richard não fez isso.

Richard correu os olhos pela mesa para ver se reconhecia mais alguém de sua época na faculdade. Dois lugares à sua direita, viu o professor que tinha sido chefe do Departamento de Estudos de Língua Inglesa quando ele estudava ali, que não deu nenhum sinal de reconhecê-lo. Isso não era de espantar, uma vez que Richard havia passado seus três anos de faculdade evitando-o ao máximo, chegando ao ponto de deixar a barba crescer e fingir ser outra pessoa. Ao lado dele estava um homem que Richard nunca conseguira identificar. Aliás, ninguém nunca havia conseguido. Era magro, com cara de rato, e tinha o nariz mais extraordinariamente longo e ossudo que se possa imaginar – era mesmo muito, muito longo e ossudo. Na verdade, ele se parecia bastante com a polêmica quilha que possibilitara à Austrália ganhar a Copa América de Iatismo em 1983, semelhança esta que fora muito comentada na época, embora não na sua frente, é claro. Ninguém nunca dizia nada na sua frente. Ninguém. Nunca. Qualquer pessoa que fosse apresentada a ele ficava espantada e constrangida demais com seu nariz para falar, e o segundo encontro era ainda pior por causa do primeiro, e assim por diante. Anos haviam se passado agora; dezessete no total. E, durante todo esse tempo, ele esteve fechado em umcasulo de silêncio. No refeitório, há tempos que os empregados da faculdade tinham o hábito de deixar dois jogos de sal, pimenta e mostarda à sua disposição, um de cada lado, já que ninguémpodia lhe pedir que passasse qualquer uma dessas coisas – e pedir à pessoa sentada do outro lado dele seria não só indelicado, mas totalmente impossível, porque seu nariz ficava no caminho. A outra coisa estranha a seu respeito era uma série de gestos que ele fazia e repetia regularmente ao longo de todas as noites. Consistiam em cutucar cada um dos dedos de sua mão esquerda em ordem e, depois, um dos dedos da mão direita. Em seguida, às vezes cutucava alguma outra parte do corpo, o nó de um dedo, um cotovelo ou um joelho. Sempre que era forçado a parar de fazer isso para comer, ele começava a piscar os olhos um por um e, de vez em quando, a menear a cabeça. É claro que ninguém nunca tinha ousado lhe perguntar por que ele fazia isso, embora todos se mordessem de curiosidade. Richard não conseguia enxergar quem estava sentado além dele. Na outra direção, depois do vizinho cadavérico de Reg, estava Watkin, o professor de Letras Clássicas, um homem de aterrorizante secura e estranheza. Seus óculos pesados, sem aros, eramquase como cubos sólidos de gelo, nos quais seus olhos pareciam levar existências independentes, como peixes-dourados. Seu nariz era reto o suficiente e comum, mas, debaixo dele, Watkin usava uma barba como a de Clint Eastwood em O cavaleiro solitário. Seu olhar nadava pela mesa enquanto ele escolhia com quem iria conversar naquela noite. Tinha achado que poderia conseguir encurralar um dos convidados, o recém-nomeado diretor da Rádio 3, da BBC, que estava sentado à sua frente, mas infelizmente ele já havia caído nas garras do diretor de Música da faculdade e de umprofessor de Filosofia.

Esses dois estavam ocupados explicando para o homem acossado que a expressão “Mozart demais” era, levando em conta qualquer definição razoável dessas duas palavras, uma contradição em termos e que qualquer frase que contivesse essa expressão se tornaria, portanto, desprovida de sentido – consequentemente, ela não poderia ser usada como parte de um argumento em favor de nenhum tipo de estratégia de programação musical. O pobre homem já começava a segurar seus talheres com mais força do que o normal. Olhava de um lado para outro em busca de salvação e cometeu o erro de cruzar olhares com Watkin. – Boa noite – cumprimentou Watkin com um sorriso charmoso, meneando a cabeça da forma mais amigável possível. Então voltou sua atenção para a tigela de sopa que acabara de chegar, a qual não permitiria ser movida. Por enquanto. Deixe o infeliz sofrer um pouco. Queria que aquele resgate lhe rendesse pelo menos meia dúzia de convites para falar na rádio. Depois de Watkin, Richard descobriu de repente a fonte da risada de menininha provocada pelo truque de mágica de Reg. Para sua surpresa, era mesmo uma menininha. Ela devia ter 8 anos, comcabelos loiros e uma expressão emburrada. Sentada, chutava com raiva a perna da mesa. – Quem é aquela? – perguntou Richard a Reg, surpreso. – Quem é quem? – perguntou Reg a Richard, surpreso. Discretamente, Richard apontou-a. – Aquela garota – sussurrou –, aquela garotinha bem pequena ali. Por acaso é alguma nova professora de Matemática? Reg se virou para olhá-la. – Sabe – falou ele, espantado –, não faço a menor ideia. Nunca vi coisa parecida. Que extraordinário. Nesse exato momento, o mistério foi solucionado pelo homem da BBC, que conseguiu se desvencilhar do mata-leão lógico que seus vizinhos de mesa tinham lhe aplicado e deu uma bronca na garotinha, mandando-a parar de chutar a mesa. Ela parou, mas então começou a chutar o ar com vigor redobrado. Ele disse para a menina tentar se divertir, e então ela lhe deu um chute. Isso ajudou a trazer um breve lampejo de prazer para a noite maçante de Richard, mas não durou muito. O pai compartilhou brevemente com toda a mesa sua opinião sobre babás que deixavam as pessoas na mão na hora H, mas ninguém se sentiu capacitado a continuar o assunto.

– Já não é de hoje – voltou a falar o diretor de Música – que a rádio nos deve uma programação especial com solos para órgão de Buxtehude. Estou certo de que o senhor aproveitará a primeira oportunidade para remediar essa situação. – Ah, ahn, sim – respondeu o pai da menina, derramando sua sopa –, ahn, quer dizer… Gluck e ele não são a mesma pessoa, são? A garotinha voltou a chutar o pé da mesa. Quando seu pai a fitou com um olhar severo, ela virou a cabeça para um lado e articulou uma pergunta. – Agora não – insistiu ele o mais discretamente possível. – Então quando? – Mais tarde. Talvez. Mais tarde nós vemos. Ela se afundou de volta na cadeira, emburrada. – Você sempre diz “mais tarde” – balbuciou ela. – Pobrezinha – sussurrou Reg. – Não há um só professor nesta mesa que não se comporte dessa forma por dentro. Ah, obrigado. A sopa deles chegou, desviando sua atenção e a de Richard. – Então me diga – falou Reg, depois de terem tomado duas colheradas da sopa e chegado separadamente à conclusão de que não era uma explosão de sabores –, o que você tem feito da vida, meu caro colega? Algo relacionado a computadores, até onde entendi, e também com música, não? Achei que tivesse estudado Língua Inglesa em sua passagem por aqui… mas apenas no seu tempo livre, percebo agora. – Ele lançou um olhar expressivo para Richard por sobre a borda da sua colher de sopa. – Mas espere – interrompeu ele antes que Richard tivesse a chance de responder –, acho que me lembro vagamente que você tinha uma espécie de computador quando estudava aqui, não? Quando foi isso? 1977? – Bem, o que chamávamos de computador em 1977 era na verdade uma espécie de ábaco eletrônico, mas… – Ora, ora, não subestime o ábaco. Em mãos habilidosas, ele é um artefato de calcular muito sofisticado. Além do mais, não precisa de energia, pode ser feito com qualquer material que você tiver à mão e nunca dá pane no meio de um trabalho importante. – Pensando assim, um ábaco eletrônico não faria o menor sentido.

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