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[Senhores do Submundo 06] – A mentira mais sombria – Gena Showalter

GIDEON OLHOU para a mulher adormecida na enorme cama de algodão da cor do céu. Esposa dele. Talvez. O comprido cabelo negro envolvendo o rosto pálido. Uma das mãos repousando na altura da têmpora, os dedos curvados para dentro, as unhas pintadas de azul-celeste reluzindo sob o brilho dourado do abajur. O nariz de formato e tamanho perfeitos, e os lábios mais cheios e vermelhos que ele já vira. E o corpo dela… Deus! Talvez aquelas curvas nascidas para o pecado fossem o motivo de o nome dela ser Scarlet. Os seios pecaminosamente arredondados… A curvatura esbelta da cintura… A protuberância sensual dos quadris… O comprimento das pernas esguias… Cada parte dela tinha a intenção de seduzir, de cativar. Sem dúvida, era a mulher mais assombrosamente encantadora que ele já vira. A própria bela adormecida. Só que aquela beldade se levantaria golpeando caso ele tentasse acordá-la com umbeijo. Ele sorriu ante o pensamento. Bastava um olhar para saber que ela era puro fogo e paixão sob aquela pele branca como a neve. Contudo, o que a maior parte dos homens não sabia era que, assimcomo Gideon, ela era possuída por um demônio. A diferença é que eu fiz por merecer o meu. Ela não. Milhares de anos atrás, ele ajudara os amigos a roubar e a abrir a caixa de Pandora, libertando o mal que ali dentro residia. Como punição, cada guerreiro foi condenado a hospedar um demônio no interior do próprio corpo. Demônios como Morte, Desastre, Violência, Doença e vários outros muito, muito piores. Contudo, houvera mais demônios do que guerreiros, e sendo assim, os espíritos malignos restantes tiveram de ser colocados no interior dos prisioneiros imortais de Tártaro. Onde Scarlet residira a vida inteira. Gideon fora presenteado com Mentiras, Scarlet recebera Pesadelos. Sem dúvida, ele levara a pior na transação. Ela apenas dormia como os mortos e invadia os sonhos das pessoas. Ele era incapaz de dizer uma única verdade.


Isto é, não sem sofrer. Dizer para uma mulher bonita que ela era bonita significava cair de joelhos, com uma agonia diferente de qualquer outra explodindo pelo corpo, cortando-lhe os órgãos, como ácido misturando-se ao sangue, exaurindo as forças dele, minando até mesmo a própria vontade de viver. – Você é feia. – Tinha de dizer. A maioria das mulheres começava a chorar e fugia dele. Não podia deixar de pensar no que Scarlet faria. Estendeu a mão e passou a ponta de um dos dedos pela curvatura do maxilar da mulher. Tão macia, tão quente. Será que ela riria com indiferença dele? Será que o esmurraria? Acreditaria nele? Ela o chamaria de mentiroso? Ou será que fugiria como as outras? A simples ideia de magoá-la, de enfurecê-la, e por fim, de perdê-la, não lhe agradava nem um pouco. Abaixou o braço, cerrando o punho. Talvez eu deva lhe contar a verdade. Talvez deva elogiá-la. Mas sabia que não faria isso. Recordava-se bem demais da última vez em que falara a verdade. Os maiores inimigos dele, os Caçadores, o haviam capturado e lhe dito que haviam matado Sabin, o guardião do demônio da Dúvida, e seu adorado líder. Ele estourara, esbravejando o quanto os odiava e como iria matar cada um deles, e fora a mais pura verdade, cada palavra. Não importava se pudesse levar anos ou séculos para cumprir a promessa. Falara sério e fora penalizado, a angústia quase instantânea. Após isso, encolhido no chão e contorcendo-se como ficara, ele se tornara um alvo fácil para a tortura. E como os Caçadores o torturaram. Após surrá-lo tão severamente, que os olhos chegaram a se fechar de tão inchados e vários dentes foram arrancados, depois de enfiar alfinetes pontiagudos sob as unhas dele, eletrocutá-lo e entalhar os nomes idiotas nas costas dele, os Caçadores lhe removeram as mãos. Ele sinceramente achara ter chegado ao fim, até um Sabin muito vivo o encontrar, o resgatar e o trazer para casa. Por sorte, ambas as mãos dele finalmente haviam crescido de volta. Algo que ele muito aguardara. Desesperada e impacientemente.

Por vingança, é claro. Ou melhor, fora esse o caso no início. Contudo, depois, os amigos dele haviam capturado esta mulher, que os informara de que eles eram marido e mulher. Gideon não se lembrava dela, muito menos de ter se casado com ela. Entretanto, ele, de fato, vislumbrara ocasionalmente o rosto dela durante esses últimos milhares de anos, em geral cada vez que desabava exausto e suado sobre uma mulher, sem estar realmente satisfeito devido à saudade de algo ou de alguém, que ainda não fora capaz de identificar, que se apossava dele. Sendo assim, não era capaz de lhe refutar com certeza absoluta a alegação. E, para provar que ela estava errada, tinha de refutá-la. Caso contrário, teria de conviver com a ciência de que abandonara uma mulher que jurara proteger. Teria de conviver com o fato de que dormira com outras mulheres enquanto a esposa sofria. Teria de conviver com o conhecimento de que alguém fodera com a memória dele. Exigira uma explicação de Scarlet, mas ela era uma mula de teimosia e se recusara a lhe contar mais. Coisas como onde e quando haviam se conhecido, se já estiveram apaixonados, se já foramfelizes. Para ser franco, não podia culpá-la por manter os detalhes em segredo. Como poderia? Ela era tão prisioneira dos Senhores do Mundo Subterrâneo como ele já fora dos Caçadores, e Gideon também se recusara a falar com os carcereiros dele, mesmo quando lhe extraíram as mãos. Sendo assim, pensara em um plano. Para Scarlet se abrir com ele, teria de levá-la a algum outro lugar. Só por pouco tempo. Só até obter respostas. E, esta manhã, ele o fizera. Enquanto a suposta esposa dormia, sem se dar conta do mundo ao redor, ele a sequestrara de casa e a carregara em estilo bombeiro até este hotel no centro de Budapeste. Finalmente, teria as respostas. Tudo o que ela tinha de fazer era acordar… Capítulo Um Algumas horas antes… VAMOS DAR início à festa, Gideon pensou, com inigualável determinação ao marchar por meio dos corredores renovados de sua fortaleza em Budapeste. O demônio das Mentiras vibrava no interior da cabeça dele, em sincera aprovação. Ambos gostavam de Scarlet, a suposta esposa, mas por motivos diferentes. Gideon gostava da aparência dela e dos comentários maliciosos que ela costumava fazer.

Mentiras gostava de… Gideon não sabia ao certo. Sabia apenas que a besta ronronava de aprovação cada vez que a mulher abria a linda boca. Era uma reação, em geral, reservada para mentirosos compulsivos. O único problema era que o demônio era capaz de discernir apenas verdades vindas da mulher, o que tornava impossível se ter certeza de que ela realmente estava falando sério quando dizia algo. E era extremamente frustrante. Será que ela era ou não uma maldita mentirosa? Ah, sim, ele estava bem a par da ironia. Gideon, um homem incapaz de dizer uma única verdade, estava reclamando de alguém que podia muito bem estar lhe servindo um banquete de lorotas. Mas será que eram ou não casados? Precisava descobrir. E as solicitações dele para que ela colocasse tudo em pratos limpos, preto no branco, sem enrolações, foram ignoradas pela última vez. Ele, por fim, faria algo a respeito. Com sorte, fingir resgatá-la da própria masmorra faria com que Scarlet confiasse nele. Comsorte, confiar nele a levaria a se abrir e a lhe responder as perguntas. – Você não pode fazer isso, Gideon – disse Strider, guardião do demônio da Derrota, subitamente marchando ao lado dele. Strider não podia perder um único desafio sem sofrer, assim como Gideon sofria ao falar a verdade, um fato que os unira há milhares de anos. Sempre, semhesitação, eles protegiam a retaguarda um do outro, de modo que Gideon não deveria ter se surpreendido ao ver o amigo ali, determinado a salvá-lo de si mesmo. – Ela é perigosa. É, era mesmo. Ela invadia sonhos, presenteava aqueles que dormiam com os piores temores e se alimentava do terror resultante. Diabos, há poucas semanas ela fizera o mesmo com ele. Comaranhas. Ele estremeceu por um instante, momentaneamente enojado ao imaginar as criaturinhas peludas passeando pelo corpo dele. Frouxo. Aguente firme. Já enfrentara incontáveis espadas golpeantes sem sequer hesitar, sem falar nos monstros que as empunhavam. O que eram algumas poucas aranhas? Estremeceu outra vez.

Revoltante é o que elas eram. Sabia o que elas pensavam cada vez que voltavam os olhinhos escuros para ele: saboroso. – Não me ignore – rosnou Strider, esmurrando um buraco na parede de pedra, segundos após terem passado pela porta fechada de um quarto de dormir. Poeira e detritos espalharam-se pelo ar. Em breve, os guerreiros acordariam e descobririam o que acabara de acontecer. Ou talvez não. Considerando que eram todos temperamentais, estavam acostumados a inesperados barulhos violentos. – Sabe que o meu demônio não gosta. – Não me arrependo. – Gideon lançou um olhar para o amigo, admirando-lhe o cabelo louro, os olhos azuis e as feições enganosamente inocentes que, de algum modo, eram perfeitas para aquele homenzarrão. Mais de uma mulher já se referira a ele como uma “beleza tipicamente americana”, fosse lá o que isso quisesse dizer. As mesmas mulheres costumavam evitar olhar para Gideon, como se até mesmo voltar os olhos para as tatuagens e os piercings dele pudesse lhes enegrecer as almas. Até onde ele sabia, podiam estar certas. – Mas você tem razão. Não posso fazer isto. O que significava que Strider estava errado, e, sim, Gideon podia muito bem fazer isso. Todo mundo que vivia nesta fortaleza, e, com todos os diabos, havia um bocado de gente, o número aparentemente crescendo a cada dia, à medida que os amigos dele iam encontrando suas “almas gêmeas” (ânsia de vômito), era fluente na língua de Gideon e sabia que deveria acreditar no oposto do que quer que ele dissesse. – Muito bem – retrucou Strider. – Você pode. Mas não vai. Porque sabe que, se tirar a mulher desta casa, vou ficar de cabelo branco de tanta preocupação. E você gosta do meu cabelo do jeitinho que ele é. – Stridey. Por acaso está dando em cima de mim? Tentando fazer com que eu passe os dedos por esses cachos rebeldes? – Cérebro de titica – murmurou Strider com raiva desarmada. Gideon riu.

– Docinho de coco. Os lábios de Strider até se repuxaram em um sorriso. – Sabe que eu odeio quando você fica sentimental assim. Eles dobraram a esquina, dando a volta ao redor de uma das várias salas de estar que a fortaleza possuía. Estava vazia. Cedo como era, a maioria dos guerreiros ainda estava na cama comas suas mulheres. Isto é, se não estivessem se armando naquele exato instante, é claro. Ele bocejou, o olhar percorrendo o local. Naquele aposento em particular, retratos de homens nus recobriam as paredes, cortesia da deusa da Anarquia, cujo senso de humor deturpado rivalizava com o do próprio Gideon. Havia cadeiras de couro vermelho (Reyes, o guardião da Dor, de vez em quando tinha de cortar a si mesmo para silenciar o demônio dele, de modo que o vermelho era útil), reluzentes estantes de livros (Paris, guardião da Promiscuidade, adorava livros de romance) e esquisitas lâmpadas prateadas que se retorciam e se curvavam sobre as cadeiras. Gideon não fazia ideia de para quem elas eram. Flores frescas enchiam os vasos, perfumando docemente o ar. Mais uma vez, ele não fazia ideia… Tudo bem. Ele as solicitara. O perfume delas era tão bom. Gideon inspirou profundamente aquele ar doce e delicioso, só que acabou inalando uma boa dose de culpa. Infelizmente, nos últimos tempos, isso vinha acontecendo o tempo todo. Enquanto ele se deleitava com tudo aquilo, a esposa apodrecia nas masmorras abaixo. Antes disso, ela passara milhares de anos no Tártaro, o que o tornava duplamente cruel por deixá-la lá embaixo. Sinceramente, que tipo de homem permitia algo assim? Um cretino, isso sim, e ele era o rei deles. Afinal de contas, planejava devolver Scarlet à masmorra assim que as perguntas fossem respondidas. Para, tipo, sempre. Mesmo que ela fosse, ou melhor, que tivesse sido esposa dele. É. Ele era um homem muito ruim.

Ela simplesmente era perigosa demais para ser libertada de modo permanente, e a habilidade dela de invadir os sonhos era por demais destrutiva. Visto que, quando uma pessoa morria em um dos pesadelos de Scarlet, ela morria de verdade. Fim de papo. Acabou a história. E se, algum dia, ela decidisse ajudar os Caçadores, o que poderia acontecer, considerando como mulheres rejeitadas costumavam reagir e tudo mais, os Senhores do Mundo Subterrâneo jamais seriam capazes de voltar a dormir com tranquilidade. E eles precisavam de descanso, caso contrário tornavam-se bestas furiosas. Vá devagar, o demônio dele instruiu de repente. Está indo rápido demais. Em geral, Mentiras era simplesmente uma presença no fundo da consciência dele. Presente, mas em silêncio. O demônio apenas se pronunciava quando a necessidade era grande. Contudo, mesmo então, ele tinha de dizer o oposto do que queria. E, agora, queria que Gideon se apressasse emalcançar Scarlet. Dê-me asas, e será feito, Gideon respondeu com secura, porém acelerando o passo. Ele podia pensar o que realmente queria dizer, e era o que fazia. Na verdade, jamais mentia para si mesmo nem para o demônio durante esses instantes em particular. Afinal de contas, tivera de lutar selvagemente por tais momentos. Ao ser possuído, perdera-se na escuridão e no caos, um escravo para o companheiro de alma e seus desejos malévolos. Ele atormentara humanos apenas para escutá-los gritar. Ele incendiara lares, assim como as famílias que ali residiam. Matara indiscriminadamente. Foram necessárias algumas centenas de anos, mas Gideon finalmente conseguira forçar a passagem até a luz. Ele estava no controle agora e chegara até a conseguir domar o demônio. Emgrande parte. Strider suspirou pesadamente, ganhando a atenção dele de novo.

– Gideon, escute-me, homem. Você não pode levar a mulher para além destes muros. Ela fugirá de você, sabe disso. Os Caçadores estão na cidade, também sabemos disso, e eles a pegariam. Eles a recrutariam, a usariam. Ou, caso ela recuse, poderão até machucá-la, assim como o machucaram. Um, Strider estava falando como se Gideon fosse incapaz de mantê-la consigo por alguns dias. E ele era capaz. Sabia como se virar e se defender tão bem quanto qualquer um deles. Dois, Strider estava falando como se Gideon fosse incapaz de encontrá-la, caso, de fato, viesse a perdê-la. E três, Strider talvez estivesse certo, mas isso em nada apaziguou a súbita fúria de Gideon. Podia não ser bom de lábia como Strider era, mas, maldição, tinha alguma habilidade com as mulheres. Mais do que apenas isso. A própria Scarlet era uma guerreira. Uma imortal. Era capaz de se envolver em escuridão. Uma escuridão tão densa que nenhuma luz humana nem olhos imortais eramcapazes de penetrar. Perdê-la não seria tão vergonhoso quanto perder uma humana destreinada. Não que fosse perdê-la, procurou se convencer mais uma vez, e não que ela fosse querer fugir. Gideon iria seduzi-la. Iria esgotá-la de tanto prazer e deixá-la desesperada para ficar com ele. O que não deveria ser muito difícil. Afinal de contas, ela gostara o suficiente dele para desposá-lo, não é? Talvez. Maldição. – Sei no que você está pensando – Strider afirmou, após outro suspiro.

– E daí se ela fugir de você? Você a encontrará. – Errado. Sim, ele pensara nisso, mas logo descartara a ideia. O que é você? Uma menininha? – Bem, o que acontecerá com ela enquanto você a estiver procurando? Durante o dia, ela precisa de proteção, e, se você não estiver com ela, quem vai protegê-la? Merda. Boa pergunta. Scarlet era incapaz de funcionar durante as horas do dia. Devido ao demônio dela, ela dormia por demais profundamente. Na verdade, tão profundamente que nada nemninguém era capaz de acordá-la até o sol se pôr, um fato que ele descobrira após quase lhe provocar um aneurisma ao tentar, sem sucesso, acordá-la com algumas sacudidelas. Presumira que ela havia entrado em um coma e ficara chocado quando, algumas horas mais tarde, os olhos da mulher se abriram e ela se levantou como se houvesse acabado de tirar um revigorante cochilo de dez minutos. – Foi sorte a termos encontrado quando a encontramos – prosseguiu Strider. – Se não tivéssemos contado com o anjo de Aeron ao nosso lado, teríamos morrido tentando capturá-la. Libertá-la, independentemente do motivo, é estupidez e é perigoso… – Olivia não está mais conosco. – O que significava que ela estava. – Se necessário, ela não poderá mais nos ajudar. – O que significava que ela poderia. – Agora, eu odeio você, mas, por favor, continue falando. Eu amo você, mas cale a boca, droga! Sinceramente. Strider rosnou de renovada frustração ao descerem as escadas que levavam ao calabouço, janelas de vitrais cedendo o lugar a paredes manchadas de sangue e em péssimo estado. O ar tornouse viciado, carregado de suor, urina e sangue. Nada que pertencesse a Scarlet, graças aos deuses. A culpa dele não teria aguentado. Felizmente, ou infelizmente, dependendo de para quem se perguntasse, ela não era a única a ser trancafiada. Havia vários Caçadores aguardando o que mereciam, ou seja, interrogatório, ou seja, tortura. – E se ela estiver mentindo para você? – perguntou o amigo. O homem não sabia quando desistir, e, sim, Gideon sabia que Strider não podia desistir.

Por esse motivo, ele simplesmente não esmurrava o amigo na cara e dava o fora dali. – E se ela não for de fato a sua esposa? Gideon fungou. – Não lhe disse. Separar as mentiras da verdade é difícil para mim. A não ser com ela, mas Gideon não estava disposto a lembrar o amigo disso. – É, mas você também me disse que, em se tratando dela, não sabe ao certo. Um dos dois tinha uma memória perfeita. Que ótimo. – Sem chance de ela ser a minha esposa. As chances eram poucas, mas ainda assim havia a possibilidade. Quando Scarlet lhe invadira os sonhos pela primeira vez e exigira que ele a visitasse nas masmorras, ele, tomado do desejo de vê-la, alguma parte de si reconhecendo-a de um modo que ainda não conseguia entender, fora incapaz de recusar. Quando ela afirmara que os dois haviam se beijado, feito sexo e até mesmo se casado, a mesma parte de si ronronara em sinal de concordância. Mesmo não se lembrando dela. Pela milésima vez, perguntou-se por que não conseguia se lembrar dela. Vinha engendrando várias teorias. A primeira: os deuses haviam lhe apagado a memória. Contudo, isso levantava a questão de por quê. Por que haveriam de querer que ele não se recordasse da própria esposa? E por que também não haviam apagado a memória de Scarlet? A segunda teoria: ele mesmo reprimira a lembrança. Contudo, mais uma vez, por que haveria de ter feito isso? Como poderia ter feito isso? A terceira: o demônio, de algum modo, havia lhe apagado a memória quando foram unidos. Porém, se isso era verdade, por que ele se lembrava da vida dele nos céus, quando servira a Zeus, incumbido de proteger o antigo rei dos deuses a cada instante de cada dia? Ele e Strider detiveram-se diante da primeira cela, na qual Scarlet residira nas últimas semanas. Ela estava dormindo no catre, como Gideon sabia que ela estaria, e, como fizera todas as vezes emque a vira, ele inspirou fundo. Linda. Minha? Será que queria que ela fosse? Não, claro que não. Isso só faria complicar as coisas. Não que fosse deixar que isso fizesse alguma diferença.

Não podia. Os amigos vinham em primeiro lugar. Era assim que as coisas eram e sempre seriam. Pelo menos, ela estava limpa. Certificara-se de que ela tivesse bastante água para beber e para banhar-se. E estava sendo muito bem alimentada. Certificara-se também de que a comida sempre fosse entregue no intervalo de poucas horas. Teria de ser o suficiente. Não toque, disse Mentiras, praticamente saltando de um canto da cabeça dele para o outro. Não toque. Cale a boca, meu chapa. Eu cuido disso. Porém, ainda não era capaz de se fazer mexer. Parecia que vinha esperando por este momento há séculos e queria se deliciar com ele. Deliciar? Ele estava mesmo se tornando uma mulherzinha. Desvie o olhar antes que tenha uma ereção, disse para si mesmo. Tudo bem, isso era muito mais másculo. Contudo, ainda assim, deliberadamente desviou o olhar. As paredes ao redor dela eram feitas de concreto. Sendo assim, ela jamais poderia ver os Caçadores aprisionados ao lado. Na verdade, não era isso que importava para Gideon. Não queria era que os Caçadores a vissem. Falando nos Caçadores, eles avistaram os guerreiros através das barras de suas celas e se esconderam nas sombras, com sussurros, aos poucos, se calando. Também podiam ter parado de respirar, considerando o medo que tinham de ser notados. Bom.

Gideon gostava quando os inimigos dele o temiam. E tinham todos os motivos para fazê-lo. Aqueles homens haviam aprisionado e estuprado inocentes mulheres imortais, na esperança de gerar crianças bastardas que eles poderiam criar para odiar e combater Gideon e os amigos. Crianças capazes de ajudar os Caçadores a encontrar a caixa de Pandora antes dos Senhores do Mundo Subterrâneo, tudo na esperança de utilizar o artefato para separar cada demônio de seu hospedeiro. Um ato ao qual os guerreiros não sobreviveriam, visto que o homem estava agora irrevogavelmente unido à besta. O que também fazia parte do castigo deles por terem aberto aquela caixa idiota. Pensei que fôssemos dar início à festa. O que está esperando? Gideon tirou do bolso a chave da cela de Scarlet, os dedos novos ainda duros e trêmulos devido ao desuso, e estendeu a mão. – Gideon. – Strider pousou a mão firme no ombro dele, tentando mantê-lo no lugar. Gideon poderia facilmente ter se libertado, mas ele permitiu ao amigo a ilusão de vencer esta pequena batalha de determinação. – Você pode falar com ela aqui. Obter as suas respostas aqui. Contudo, teriam uma plateia, o que significava que ela não conseguiria relaxar. E, caso ela não conseguisse relaxar, não permitiria que ele a tocasse. Degenerado como ele era, queria tocá-la. Além do mais, como é que iria seduzi-la para obter informações dela? Dizendo como ela era feia? Ou falando sobre o que ele não queria fazer com ela? – Não relaxe, homem. Não tenho a intenção de trazê-la de volta quando tiver descoberto o que eu quero. Está bem? – Se conseguir trazê-la de volta. Nós já discutimos esse pequeno porém, lembra-se? Infelizmente, algo difícil de esquecer. – Não terei cuidado. Não tem a minha palavra. Mas não preciso fazer isso. Não é importante para mim. Embora Strider ainda lhe segurasse o ombro, o amigo passou a mão livre pelo rosto.

– Agora não é a hora de nos abandonar. Temos três artefatos, e Galen está espumando de tão furioso. Ele vai querer vingança pelo que tiramos dele. Galen era o líder dos Caçadores, bem como um guerreiro possuído. Só que ele parecia um anjo e estava unido ao demônio da Esperança; sendo assim, todos os seguidores dele acreditavam que ele fosse, de fato, um anjo. Por causa dele, culpavam cada um dos Senhores do Mundo Subterrâneo pelos males do mundo. Por causa dele, esperavam um futuro livre de tais males e lutavam até a morte para conquistar isso. A nova mulher de Aeron, Olivia, que, na realidade, era uma autêntica emissária do Senhor, roubara o terceiro artefato de Galen. O Manto da Invisibilidade. Uma vez que havia quatro artefatos necessários para se chegar à caixa de Pandora (o Olho Que Tudo Vê, que já estava com eles; a Jaula da Coação, idem; o Manto da Invisibilidade, como já dito, de posse deles; e o Cetro Divisor, que ainda não haviam conseguido), Galen estava desesperado para reaver o manto, bem como para confiscar os outros artefatos. O que significava que a guerra entre eles estava, de fato, esquentando. Contudo, isso não tinha importância. Nada desviaria Gideon do atual rumo. O desfecho era importante demais para ele, e a mulher atraente ao extremo. – Gideon. Ele lançou um olhar sério para o amigo, revelando os dentes em um rosnado. – Você está implorando para levar um beijo. Uma surra daquelas. – Muito bem – murmurou Strider, por fim, erguendo os braços com as palmas voltadas para a frente. – Leve-a. Puxa. – Não estava planejando fazê-lo, mas obrigado pela aprovação. Contudo, por que Strider não estava desmaiado no chão, completamente apagado? Afinal de contas, ele não havia acabado de perder um desafio? – Quando é que você retornará? Gideon deu de ombros. – Eu não estava pensando em… uma semana? Sem dúvida, uma semana seria mais do que suficiente para fazer Scarlet amolecer com relação a ele e para fazer com que ela se abrisse quanto ao passado. Naquele exato instante, ela parecia odiálo.

Ele ainda não sabia por quê, mas iria descobrir. Era uma promessa. Ainda. Ela tinha clara preferência por homens perigosos. Caso contrário, por que haveria de supostamente tê-lo desposado? E ele se encaixava na descrição. – Três dias – disse Strider. Ah, era chegada a hora da negociação. Era por isso que Strider não caíra vítima do demônio dele. Não estava derrotado. Apenas tentava outra estratégia. Gideon podia entender. Sentia-se tão culpado por deixar os homens para trás quanto por deixar Scarlet na cela. Precisavam dele, e, caso fossem prejudicados pela ausência dele, ele jamais se perdoaria. – Não estou pensando em cinco agora – cedeu. – Quatro. – Nada feito. Sorrindo, Strider assentiu. – Ótimo. Quer dizer que teria quatro dias para amansar Scarlet. Já enfrentara batalhas mais difíceis emmenos tempo, estava certo disso. Contudo, naquele instante, não conseguia se recordar delas. Diabos, talvez estivesse sofrendo de perda de memória seletiva. Talvez lutas e Scarlet, com quem provavelmente já brigara um bocado, considerando que ela era teimosa, mandona e muito desbocada, houvessem sido as maiores vítimas de tal perda. Entretanto, gostaria de se lembrar do sexo. Deve ter sido de outro mundo.

– Vou avisar os outros – informou Strider. – Porém, enquanto isso, levarei você de carro até onde quer que queira levá-la. – Claro. – Gideon inseriu a chave e finalmente destrancou a porta da cela de Scarlet, que se abriu com um ranger das dobradiças. – Eu que não vou levá-la sozinho. Quero que todo mundo saiba onde estamos.

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